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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Sugestão da Semana #695

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Justa, de Teresa Villaverde. O filme foca-se em personagens que são sobreviventes dos incêndios florestais de 2017, em Portugal. No elenco, destaque para Betty Faria, Filomena Cautela e Madalena Cunha.

JUSTA


Ficha Técnica:
Título Original: Justa
Realizadora: Teresa Villaverde
Elenco: Betty Faria, Filomena Cautela, Madalena Cunha, Ricardo Vidal, Anabela Moreira, João Pedro Vaz, Alexandre Batista, Luísa CruzRobinson Stévenin
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 108 minutos

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Globos de Ouro - Sic: Vencedores

Os Globos de Ouro SIC 2024 foram anunciados na noite de Domingo, 29 de Setembro. Mal Viver/Viver Mal, Rabo de Peixe e Matilha foram alguns dos premiados nas categorias de cinema e ficção televisiva.

Eis a lista de nomeados e vencedores em cada uma das categorias:

Cinema

Melhor Filme

Baan, Leonor Teles

Mal Viver e Viver Mal, João Canijo

Nação Valente, Carlos Conceição

Nayola, José Miguel Ribeiro

Onde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes Nem Depois, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata


Melhor Actor

João Arrais, Nação Valente

Pedro Inês, Índia

Albano Jerónimo, The Nothingness Club - Não Sou Nada O Pior Homem de Londres

Rui Morrison, Sombras Brancas

Ruben Simões, Vadio


Melhor Actriz

Rita Blanco, Mal Viver e Viver Mal

Rita Cabaço, O Vento Assobiando nas Gruas

Carla Maciel, Légua

Anabela Moreira, Mal Viver, Viver Mal A Semente do Mal

Maria João Pinho, A Sibila


Televisão

Melhor Ficção

Codex 632

Lúcia, A Guardiã dos Segredos

Matilha

Rabo de Peixe

Senhora do Mar


Melhor Actor

José Condessa, Rabo de Peixe

Albano Jerónimo, Rabo de Peixe

Afonso PimentelMatilha Rabo de Peixe

Paulo Pires, Codex 632

Rodrigo Tomás, Rabo de Peixe


Melhor Actriz

Inês Aires Pereira, Erro 404

Márcia Breia, Lúcia, A Guardiã do Segredo

Helena Caldeira, Rabo de Peixe

Sofia Ribeiro, Senhora do Mar

Margarida Vila-Nova, Matilha

domingo, 26 de maio de 2024

IndieLisboa 2024: Estamos no Ar / We're on Air (2024)

"Estava um bocado farta de estar ali sentada a rir e a bater palmas"
Júlia


*6.5/10*

Diogo Costa Amarante estreia-se nas longas-metragens com Estamos no Ar, uma comédia dramática inspirada, inesperada e visualmente apelativa. 

"Fátima diz que não sente nada, mas sonha com o polícia que se mudou recentemente para o apartamento ao lado. Vítor, o filho, usa secretamente a farda do vizinho na expectativa de que o rapaz que conheceu online sinta alguma coisa por ele. Júlia, a avó, quer fugir do lar, mas sente-se cansada de andar às voltas para não ir a lado nenhum. Uma espiral de insónias e ilusões nocturnas leva a mal-entendidos e relações impossíveis, todos em busca de um pouco de ar."


As personagens vivem numa incessante busca de mudança, de ultrapassar o estado em que se encontram e alcançar algo mais, mas parecem andar aos círculos, sem grandes avanços ou recuos. Nessas tentativas, tantas vezes goradas, surgem os mais inesperados acontecimentos ou experiências, que não chegam a quebrar a rotina de mãe, filho ou avó, mas ajudam a acalentar a esperança em dias melhores.

Imaginação não falta a Diogo Costa Amarante, que usa de um humor subtil e assertivo - muitas vezes hilariante -, sempre a par com uma tranquilidade que paira na longa metragem, em contraste com as inquietações e vontade de mudança dos protagonistas.


Estamos No Ar tem uma estética muito diferenciada, que se denota, desde logo, nas opções de cores dos décors, mas o grande destaque visual do filme vai para um excelente trabalho da direcção de fotografia de Sabine Lancelin (que trabalhou em alguns filmes de Manoel de Oliveira) que joga com a iluminação e cores de forma quase fantasiosa, psicadélica, e criando, outras vezes, autênticos quadros vivos na tela do cinema.

A fazer as delícias da plateia estão, entre outros, Sandra Faleiro, Carloto Cotta, Anabela Moreira, Romeu Runa, Cucha Carvalheiro, João Pacola, e uma extraordinária Valerie Braddell.


Diogo Costa Amarante tem aqui uma estreia auspiciosa, depois de um percurso muito prometedor também nas curtas-metragens. 

domingo, 14 de maio de 2023

Sugestão da Semana #560

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca dois filmes: Mal Viver e Viver Mal, de João Canijo. Este díptico sobre maternidade já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme. Vem mesmo a calhar, para aproveitar a Festa do Cinema, que começa hoje, dia 14, e se prolonga até 17 de Maio, com bilhetes a 3,50€, em todas as sessões 2D, em quase todas as salas de cinema do país.



Ficha Técnica:
Título Original: Mal Viver
Realizador: João Canijo
Elenco: Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cleia Almeida, Vera Barreto, Nuno Lopes, Filipa Areosa, Leonor Silveira, Rafael Morais, Lia Carvalho, Beatriz Batarda, Carolina Amaral, Leonor Vasconcelos
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 127 minutos




Ficha Técnica:
Título Original: Viver Mal
Realizador: João Canijo
Elenco: Nuno Lopes, Filipa Areosa, Leonor Silveira, Rafael Morais, Lia Carvalho, Beatriz Batarda, Leonor Vasconcelos, Carolina Amaral, Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cleia Almeida, Vera Barreto
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 124 minutos

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Crítica: Mal Viver (2023) + Viver Mal (2023)

João Canijo regressa aos cinemas com um díptico sobre maternidade: Mal Viver e Viver Mal são dois filmes que partilham o espaço (um hotel), o tempo e o tema central, mas de pontos de vista distintos. Mal Viver valeu a Canijo o Urso de Prata para Melhor Realização no Festival de Berlim. Em Portugal, os filmes tiveram antestreia, como uma obra em duas partes, no Festival IndieLisboa (onde também arrecadaram prémios). 


No centro da filmografia de João Canijo, são sempre as mulheres que se destacam e eis, mais uma vez, um elenco quase exclusivamente feminino - excepção para Rafael Morais e Nuno Lopes -, do qual o realizador consegue extrair o que de mais profundo cada actriz tem para dar à personagem.

Segundo o cineasta, "os dois filmes são sobre a ansiedade de ser mãe" (Mal Viver é onde tal se sente mais), sobre a incapacidade de amar incondicionalmente e como isso tem consequências naquilo em que as filhas se poderão tornar no futuro. São duas longas-metragens diferentes, até mesmo no tom, mas que se complementam.

Há mulheres que não nasceram para ser mães: ou porque não tiveram o melhor exemplo, ou porque nunca encontraram o instinto maternal, ou porque são egoístas o suficiente para se amarem incansavelmente sem sobrar um pouco de amor para os filhos. Mal Viver e Viver Mal são o retrato destas mães e das suas filhas sem amor, e daqueles que as rodeiam e são, de uma forma ou de outra, contagiados pelo desamor e pela angústia.


Mal Viver
*9/10*

"Num hotel familiar junto à costa norte de Portugal, vivem várias mulheres da mesma família de gerações diferentes. Numa relação envenenada pela amargura tentam sobreviver no hotel em decadência. A chegada inesperada de uma neta a este espaço claustrofóbico provoca perturbação e o avivar de ódios latentes e rancores acumulados."

No centro da narrativa de Mal Viver, estão duas mães - Sara e Piedade - e duas filhas - Piedade e Salomé -que herdaram das progenitoras a incapacidade para amar. Após a morte do pai, Salomé chega para viver com a mãe e avó no hotel que ambas gerem, e onde vivem com a prima Raquel e a cozinheira Ângela.


A câmara de João Canijo segue as actrizes pelos vários pisos, piscina e jardim, onde se cruzam com os poucos hóspedes, vêem televisão, nadam, conversam, discutem e fazem a gestão diária do funcionamento do alojamento. O hotel decadente, que lhes serve de sustento e de lar, surge como uma espécie de prisão para as cinco mulheres. Não há fuga possível, as suas vidas estão ali. A recém-chegada Salomé, apesar de não totalmente integrada, já sente o local como a sua casa - também ela não tem mais para onde fugir.


E é esta chegada que faz emergir todas as mágoas da família. Piedade é a maior vítima de uma mãe que não a soube amar: dilacerada pela solidão, pela falta de consolo e compreensão, por não conseguir lidar com a filha. Uma mulher incapaz de demonstrar afectos com naturalidade - a menos que seja para a sua inseparável cadela Alma -, que se culpa por não saber amar a filha, vivendo numa depressão silenciosa.

Mal Viver carrega todo o realismo trágico dos filmes de João Canijo, superando-se pela forma de filmar, e pela dualidade inevitável com Viver Mal - ambos com uma direcção de fotografia fabulosa de Leonor Teles, tirando o melhor partido da luz, dos reflexos e sombras, estimulando a curiosidade para o que cada quarto esconde, entre portas fechadas ou entreabertas.


Anabela Moreira supera-se como Piedade, revelando dor, angústia e desespero num olhar que aparenta, simultaneamente, uma tranquilidade aterradora. A Sara de Rita Blanco emana um egocentrismo e uma confiança de quem é rainha e senhora do seu hotel e das vidas das que a rodeiam. Cleia Almeida e Vera Barreto, habituais colaboradoras do realizador, são aqui mais observadoras (a Raquel de Cleia é também mais provocadora) mas fundamentais para o realismo da narrativa, e acolhem da melhor forma a jovem Madalena Almeida, que se revela à altura do desafio na pele de Salomé, desamparada, mas obstinada por chegar ao coração da sua mãe e ver respondidas todas as questões que a assombram.


Viver Mal
*7.5/10*

"Um hotel junto à costa norte de Portugal, acolhe os seus clientes, num fim-de-semana. Um homem vive dividido entre a atenção a dar à sua mulher e o espaço que ocupa a sua mãe no meio deles. Uma mãe promove o casamento da filha para facilitar a sua relação amorosa com o genro. Outra mãe vive através da filha, impedindo-a de tomar as suas próprias decisões. Três núcleos familiares em final de ciclo de aceitação."

Viver Mal é o outro lado de Mal Viver, desta vez, sob a perspectiva dos hóspedes - de meros figurantes passam agora a protagonistas -, três famílias instáveis, de relações pouco saudáveis. Aqui, cada grupo é apresentado muito para lá dos breves fragmentos de discussões que se ouviam, ao longe, em Mal Viver. Por outro lado, as desavenças das donas do hotel surgem agora apenas como pano de fundo, que os hóspedes ignoram.


Vagamente inspirado pelo dramaturgo August Strindberg (em especial nas peças Brincar com o Fogo, O Pelicano e Amor de Mãe), João Canijo divide em três capítulos as histórias paralelas de cada cliente e, mais uma vez, há uma mãe dominante em cada acto, a complicar as relações amorosas e a vida dos filhos.

Viver Mal dá a conhecer cada uma das três histórias de forma individual - embora partilhando o mesmo espaço -, e constrói-se com um sentido de humor mais apurado, mas com a mesma frieza de sentimentos e relações à beira da ruptura. O egoísmo das mães contrasta com a passividade dos filhos que poucos limites impõem à interferência da matriarca nas suas vidas, muitas vezes decidindo (ou arruinando) o seu futuro.


Em Viver Mal, juntam-se às actrizes de Mal Viver, Beatriz Batarda e Leonor Silveira, no papel de duas mães egocêntricas e controladoras; e as jovens e prometedoras actrizes Filipa Areosa e Carolina Amaral, que vestem a pele de mulheres decididas que desafiam sogras e companheiros, bem como Lia CarvalhoLeonor Vasconcelos, que interpretam filhas com ambições anuladas pelas mães e que vivem, principalmente, ao sabor das suas vontades. Nuno Lopes e Rafael Morais, os nomes masculinos do elenco, são Jaime e Alex, homens manipuladores e de pouca confiança.


Eis o díptico Mal Viver / Viver Mal, um exercício de estilo de realismo feroz e opressivo, onde João Canijo se supera e reinventa ao lado da sua equipa.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Crítica: Nação Valente / Tommy Guns (2022)

"A pátria está orgulhosa de si, meu cabo"


*9/10*

Nação Valente, a segunda longa-metragem de Carlos Conceição, reaviva os fantasmas da guerra colonial em Angola, com o toque provocador e contemporâneo que caracteriza o realizador. As pistas vão sendo deixadas ao longo do filme, cuja narrativa esconde segredos acima e debaixo da terra. Os mortos estão prontos para lembrar os vivos das atrocidades que já esqueceram.

"A história começa em 1974, apenas um ano antes da independência do país, após séculos de domínio português. Portugueses e seus descendentes estão a fugir do país enquanto os revolucionários angolanos reclamam gradualmente a sua terra de volta. Uma rapariga mumuíla descobre o amor e o perigo quando o seu caminho se cruza com o de um militar português. Por outro lado, um grupo de soldados, completamente isolados do mundo exterior, cumpre cegamente as ordens brutais do seu comandante, em nome do serviço à Pátria."


Com a guerra colonial perto do fim, Nação Valente apresenta o clima de medo que se sentia entre os portugueses que ainda permaneciam em Angola - Leonor Silveira é a freira portuguesa que apoia as tribos locais -, mas igualmente dos nativos que receiam as tropas portuguesas ainda no terreno. Noutro local, mais isolado, jovens soldados portugueses treinam incessantemente preparando-se para lutar contra um inimigo, aparentemente, invisível. E, neste filme, não há descanso, nem para as vítimas nem para os agressores, todos em constante alerta, de arma em punho, olhar atento a cada movimento ou sombra.

Carlos Conceição lança dúvidas e provocações à plateia ao longo de todo o filme, dos momentos sensuais que se tornam instantaneamente violentos, às fotos a preto e branco e recortes de jornal bem guardados, um cordão de Nossa Senhora que passa de mão em mão - unindo personagens que nunca se conheceram, bem como as duas metades da longa-metragem -, uma musa Brigitte Bardot salva das águas pelos jovens soldados, um muro infindável que os intriga, memórias que escasseiam, visões fantasmagóricas e a chegada de uma prostituta que lhes traz a revelação e a salvação.


Entre o realista e o sobrenatural, de dia ou de noite, o fabuloso trabalho da direcção de fotografia de Vasco Viana, capta a magia incómoda que as analogias, os traumas e os fantasmas carregam.
 
Apesar de todo o lado fantasioso e irónico de Nação Valente, há uma clara mensagem para reavivar memórias nunca totalmente assimiladas pelo povo português, espelhadas agora no crescimento dos movimentos extremistas, racistas e saudosistas. Conceição criou uma longa-metragem simbólica e incompassiva, que não quer esquecer, para alertar e acordar os mortos, exorcizar os descrentes ou esquecidos. Traz a Memória colectiva ao cinema de uma forma diferente do que já se fez e com a coragem e personalidade necessária.


De forma inesperada, Nação Valente confronta o Presente com o Passado do qual tem fugido e que lhe é desconfortável lembrar, e fá-lo de uma forma visualmente perturbadora e com uma criatividade que lhe é muito particular.

domingo, 23 de abril de 2023

Sugestão da Semana #557

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme Nação Valente, de Carlos Conceição.

NAÇÃO VALENTE



Ficha Técnica:
Título Original: Nação Valente
Realizador: Carlos Conceição
Elenco: João Arrais, Anabela Moreira, Miguel Amorim, Ivo Arroja, André Cabral, João Cachola, Vicente Gil, Diogo Nobre, Gustavo Sumpta, Sílvio Vieira, Ulé Baldé, Meirinho Mendes, Leonor Silveira, Angelina Gonga
Género: Drama, Guerra
Classificação: M/14
Duração: 118 minutos

domingo, 2 de outubro de 2022

Sugestão da Semana #528

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o português Fogo-Fátuo, de João Pedro Rodrigues. Lê a nossa crítica.

FOGO-FÁTUO


Ficha Técnica:
Título Original: Fogo-Fátuo
Realizador: João Pedro Rodrigues
Elenco: Mauro Costa, André Cabral, Joel Branco, Margarida Vila-Nova, Miguel LoureiroAnabela Moreira, Raquel Rocha Vieira, Joana Barrios, João Villas-Boas, João Reis Moreira, João Mota, Paulo Bragança, João Caçador
Género: Comédia, Musical, Romance
Classificação: M/16
Duração: 67 minutos

terça-feira, 12 de julho de 2022

Curtas Vila do Conde 2022: Fogo-Fátuo (2022)

"Um príncipe... bombeiro?"

Comandante

*8/10*

Fogo-Fátuo estreou em Cannes e tem seguido o seu percurso por vários festivais de cinema, chegando agora a Vila do Conde. Na secção Da Curta à Longa, João Pedro Rodrigues marca presença com a sua primeira comédia. Um musical futurista, queer e vibrante, que filma a beleza e a conjugação dos corpos, na arte, na História e na Natureza.

"2069, ano talvez erótico - logo veremos - mas fatídico para um rei sem coroa. No seu leito de morte, uma canção antiga fá-lo rememorar árvores; um pinhal ardido e o tempo em que o desejo de ser bombeiro para libertar Portugal do flagelo dos incêndios, foi também o despontar de outro desejo. Então príncipe, Alfredo encontra Afonso. Com diferentes origens e diferentes cores de pele, encontram-se, socorrem-se e o léxico do abuso fica farrusco de desejo. Mas a exposição pública e as suas expectativas interpõem-se e Alfredo abraça um outro estado de prontidão para uma realidade improvável."

Provocador, sarcástico e eficaz, Fogo-Fátuo mantém e vai além dos temas que têm marcado a filmografia de João Pedro Rodrigues. O passado esclavagista português é indissociável da narrativa principal, mas igualmente a sexualidade, a política, os incêndios e o racismo.

O filme passa-se em três tempos distintos: 2011, entre 2017 e a actualidade, e 2069 e, partindo do futuro, viaja-se ao passado para contar a história deste príncipe que não o é.

A ironia de João Pedro Rodrigues não se sente apenas nas palavras dos actores, mas também nos planos de câmara instigantes; na recriação homoerótica de pinturas famosas, ou na forma como o olhar de algumas personagens se dirige à plateia - e com ela também interage.

O elenco chega repleto de surpresas, vindas de várias áreas artísticas - e não só. Destaque para a dupla protagonista Mauro Costa e André Cabral, e à química que transpiram no ecrã, essencial para Fogo-Fátuo funcionar tão bem: do ar angelical do primeiro à sensualidade do segundo, eis a combinação perfeita para encabeçar o filme.

O lado musical de Fogo-Fátuo fica no ouvido, acompanhado por coreografias que vagueiam entre a dança e a pintura. O erotismo e a sensualidade são uma constante, potenciados pela câmara de João Pedro Rodrigues. Enquanto algumas imagens simulam quadros, as restantes são telas em movimento do director de fotografia Rui Poças.

Assente essencialmente na estética, no culto dos corpos, Fogo-Fátuo irá sempre despoletar sentimentos - sejam eles quais forem - na plateia, e ficará na cabeça - temas, imagens e canções - durante muito tempo.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Crítica: O Último Banho / The Last Bath (2020)

*7/10*

Na sua primeira longa-metragem, David Bonneville submerge-nos numa história de relações familiares ambíguas e dilemas. O Último Banho é um filme contido e subtil, que filma com intimidade a solidão e o desamparo das suas personagens.

"Josefina está prestes a fazer os votos perpétuos, mas tem de regressar à aldeia onde cresceu para o funeral de seu pai. Aí reencontra o sobrinho, abandonado pela mãe, e é compelida a adoptá-lo. O regresso à casa de família transporta-a para um passado sombrio e para uma realidade de solidão e intimidade. A adolescência do sobrinho e a profunda religiosidade, o perigo de pecado e a ameaça de regresso da irmã, são desafios que terá de enfrentar."

Mudanças inesperadas são o mote para a narrativa de O Último Banho. Uma morte exige um regresso às origens para Josefina, atormentada por recordações do local onde cresceu, tomado pelo isolamento, ao mesmo tempo que se vê perante a possibilidade de deixar a religião, a que tanto se dedica, para criar o sobrinho, sem, contudo, ceder a tentações; por seu lado, Alexandre, em plena descoberta da adolescência e abandonado pela mãe, sente a perda do avô como mais um golpe, a que se junta a possibilidade de ir para um orfanato.

A interacção entre tia e sobrinho, difícil nos primeiros dias, vai crescendo em compreensão e partilha. É tudo novo para ambos: Josefina nunca foi mãe, nem experimentou o amor sensual e carnal; Alexandre pouca atenção maternal teve, e começa a descobrir a paixão. As inseguranças e os dilemas de cada um são uma constante.

Corpos mal tratados e feridos são espelho de dois corações magoados. E é no banho que a intimidade, inicialmente familiar, entre tia e sobrinho cresce, a par da ambiguidade que também a plateia sente, numa espécie de fascínio platónico, quase incestuoso.

E é nestes mesmos momentos que entra em cena a enorme sensibilidade estética de O Último Banho, onde os planos dão grande foco ao corpo das personagens: à pele e ao toque. O banho é o momento ideal para captar a intimidade, que poderia ser maternal, mas também poderá deixar dúvidas.

Anabela Moreira encarna as inseguranças de Josefina com o talento que a caracteriza, num papel com uma componente física muito forte. Ao seu lado, o jovem Martim Canavarro é capaz de transpor para a personagem tanto a inocência como a rebeldia e curiosidade que a adolescência faz despertar, numa prestação confiante e madura.

Eis a estreia auspiciosa e desafiadora de David Bonneville: um banho de relações complexas e de descobertas - não importa a idade que se tenha.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

IndieLisboa'20: Fojos (2020), de Anabela Moreira e João Canijo

*7/10*


Fojos, de Anabela Moreira e João Canijo, é exibido nas Sessões Especiais do IndieLisboa 2020, e leva-nos numa viagem a Castro Laboreiro, Melgaço. Os realizadores filmam o envelhecimento, a relação com Natureza e a ligação ténue entre a vida e a morte. 

"Nos últimos anos, Anabela Moreira e João Canijo têm documentado, em várias obras, as terras do Norte e do centro português (Portugal – Um Dia de Cada Vez, 2015; Diário das Beiras, 2017). Este seu mais recente filme é rodado em Castro Laboreiro, terra mais a norte de Portugal, onde se observa o quotidiano dos seus habitantes e a presença ensombrada dos lobos que saem dos covis para atacar as suas presas. À terra chamam-lhe o buraco do fim do mundo."

O tom do documentário balança entre os momentos animados, de convívio e celebração da vida, e outros, mais sombrios, em que a morte e a solidão pairam pesadamente sobre as paisagens verdes e rochosas. A montagem confronta-nos com a mudança brusca de ambiente e provoca emoções contraditórias, que tornam marcante a experiência de visualização de Fojos.


O quotidiano com os animais, a venda ambulante que leva as mercearias à pequena aldeia, as tarefas da cura do presunto, toda a tradição da matança do porco, os jogos de cartas no café, as deslocações ao hospital, os momentos de alegria do centro de dia, o rejuvenescimento e multiculturalidade que a comunidade cigana vem trazer à região... os realizadores estão um pouco por todos estes locais, filmando o quotidiano da população. Não interferem, apenas registam.

E em redor da rotina da aldeia estão os lobos, que há tantos anos aterrorizam a população da zona, quais fantasmas nocturnos que não vemos, mas deixam pistas: para além dos fojos que dão título ao filme (as armadilhas em pedra que os antigos usavam para caçar os lobos), também as carcaças de animais que se encontram pelas serras.

Fojos confronta-nos com o envelhecimento, com a morte, mas igualmente com uma forma de viver diferente da que assistimos nas cidades, onde a tradição perdura e a alegria de viver se faz das pequenas coisas.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sugestão da Semana #371

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Diamantino, de Gabriel AbrantesDaniel Schmidt, com Carlotto Cotta no papel principal. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida ou relida aqui.

DIAMANTINO


Ficha Técnica:
Título Original: Diamantino
Realizadores: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
Actores: Carloto Cotta, Cleo Tavares, Anabela MoreiraMargarida Moreira, Carla Maciel, Chico Chapas, Maria Leite, Joana Barrios, Filipe Vargas, Manuela Moura Guedes
Género: Comédia, Drama, Fantasia
Classificação: M/14
Duração: 96 minutos

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Crítica: Diamantino (2018)

"Vamos fazer Portugal grande outra vez!"


*8/10*

Será que Portugal está preparado para Diamantino? Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt arriscam, sem pudor, e dão asas à imaginação e extravagância, para nos oferecem uma comédia viciante e original sobre um jogador de futebol muito ingénuo e o mundo que o rodeia.

Não se sabe como o país irá reagir a esta paródia inesperada. Não há medo, nem vergonha. Há elementos extremamente "fofos" e outros quase diabólicos, há amor, enganos, não há complexos, há ciência, refugiados e nacionalismos. Entre a política e os relvados, certo é que a vida de Diamantino leva uma reviravolta.

Diamantino, a maior estrela de futebol do mundo, perde o talento e a sua carreira acaba em desgraça. À procura de um novo objectivo de vida, o ídolo internacional começa uma odisseia - qual Ulisses - que mistura neofascismo, adopção, a crise dos refugiados, modificação genética e a busca pela origem da genialidade.


É a primeira longa-metragem de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt e conquistou logo o Grande Prémio da Semana da Crítica do Festival de Cannes. Ao ver Diamantino, compreendemos os motivos. A singularidade do que é apresentado é tão surreal como clássica. A opção de filmar em película de 16 mm, que confere um grão muito visível à imagem, joga na mesma equipa que efeitos especiais competentes, numa fusão de opções tão diferentes, desde a componente técnica ao argumento. Basicamente, sentimo-nos introduzidos no sonho de alguém com muita imaginação.

As personagens estão propositadamente cheias de clichés, desde o jogador de futebol musculado e milionário, mas muito naïf e pouco perspicaz; às irmãs gémeas (bem interpretadas por Anabela e Margarida Moreira) malvadas que só pensam em dinheiro - todos com um afincado sotaque micaelense. Não faltam agentes secretos, cachorrinhos peludos, o gato piruças, um filho adoptivo (?), uma ministra kubrickiana, nem a vontade de construir uma muralha (onde é que já ouvi isto?).


Carloto Cotta transformou-se para encarnar este ídolo nacional, que de estrela dos relvados passa a cobaia de experiências científicas. Pelo meio de muitas farsas e enganos, Diamantino faz-nos lembrar alguém: Cristiano Ronaldo não pode ficar afastado da conversa quando falamos deste filme. No final de contas, é a ideia do melhor do mundo que está perante os nossos olhos, interpretado por um homem alto, moreno, com penteados da moda, carros milionários e muito musculado. Além disso, o protagonista é quase um D. Sebastião, qual símbolo de esperança de uma nação. Ele faz arte na catedral que é o estádio e quer ser "sublime", como as pinturas de Michelangelo na Capela Sistina, que o pai tanto admirava. Cotta pode exibir aqui todo o seu talento, sem tabus, e é exemplar ao representar um homem adulto cuja mente é semelhante à de uma criança. É impossível não acarinhar o protagonista.


A ideia de remeter para a actualidade política é executada com acutilância e Diamantino revela-se tão satírico como delirante. No filme, querem "fazer Portugal grande outra vez”. No meio cinematográfico, Abrantes e Schmidt já o conseguiram fazer.