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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

IndieLisboa 2021: Competição Nacional em análise (Parte III)

Seguimos para a análise de mais uma leva de curtas-metragens da Competição Nacional do IndieLisboa 2021. Neste artigo, focamo-nos em Boa Noite, de Catarina Ruivo; Silvestre, de Rúben Gonçalves; e Sopro, de Pocas Pascoal.

Boa Noite, de Catarina Ruivo

"Um filme delicado, qual casa de bonecas, que mostra uma comovente ligação entre avó e neto e como ambos funcionam como o porto seguro um do outro — especialmente quando uma personagem marota tenta incutir-lhes alguns medos."

Boa Noite é um encantador retrato da relação entre uma avó e o seu neto, e dos medos que, em criança ou em adulto, todos temos. Não são precisas muitas palavras para perceber a proximidade dos protagonistas e a fragilidade que ambos, juntos, tornam força. E ainda que a empregada da casa sinta alguma satisfação em assustar o pequeno André, a canção de embalar e o conforto da mão da avó tudo acalma e tudo resolve. 

Catarina Ruivo cria uma história de encantar, filmada como se cada plano fosse uma tela em que a realizadora é a artista. Ficar-nos-ão na memória os belíssimos planos, interiores ou exteriores, onde o trabalho de iluminação pinta no ecrã um cenário de conto de fadas.


Silvestre, de Rúben Gonçalves

"Um protagonista num limbo, com uma situação laboral precária, um poiso doméstico temporário. E uma faceta escondida da sua vida, que revela a poucos."

Rúben Gonçalves traz-nos um filme discreto, tal como o seu protagonista, reservado e misterioso. Silvestre traça o retrato da insegurança constante de uma geração, onde nada é certo, nem nosso, e tão pouco há tempo para sonhar.

A sobrevivência coloca-se, muitas vezes, acima dos sentimentos. A instabilidade da vida de Silvestre contrasta com a calma aparente, mesmo que os seus olhos transmitam muito mais inseguranças e receios do que os que quer deixar transparecer. Rúben Gonçalves cria uma curta-metragem agridoce, com planos que ficam connosco.


Sopro, de Pocas Pascoal

"Um documentário que passa tempo com Marion e Peter, um casal holandês que perdeu a sua quinta no fogo que arrasou Pedrógão Grande no Verão de 2017. No rescaldo da catástrofe, tentam reconstruir o que podem, com o pouco que têm."

Sopro leva-nos ao rescaldo da tragédia dos incêndios de 2017. Pocas Pascoal entra e partilha a intimidade com o casal protagonista, que lhe abre o coração e as portas da sua caravana. A desolação da paisagem queimada, contrasta com a perseverança e esperança do casal, que nunca desiste nem baixa os braços. 

No rosto, marcado pela idade, espelham-se a desilusão com os que governam ou com quem não cumpre o combinado, e a tristeza de assistir à demolição do que resta da sua casa. Mas tudo se suporta com a rotina do campo, junto dos animais e dos trabalhos diários. A música e a poesia de Peter, a calma e força de Marion juntam-se ao verde começa a ressurgir do meio das cinzas. E resta a esperança de um futuro melhor.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

IndieLisboa 2021: Vencedores

O IndieLisboa 2021 terminou este Domingo e já são conhecidos os filmes vencedores desta edição. O Grande Prémio de Longa-metragem Cidade de Lisboa foi atribuído a Les Prières de Delphine, de Rosine Mbakam

O Prémio para Melhor Longa-Metragem Portuguesa foi entregue a No Táxi de Jack, de Susana Nobre, e o Prémio Dolce Gusto para Melhor Curta-Metragem Portuguesa foi para O Que Resta, de Daniel Soares

Eis a lista completa de premiados do IndieLisboa 2021:

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL DE LONGAS-METRAGENS​

Grande Prémio de Longa-Metragem Cidade de Lisboa – 15.000 Euros

LES PRIÈRES DE DELPHINE, Rosine Mbakam, Bélgica / Camarões, doc., 2021, 91’


Prémio Especial do Júri Canais TVCine (Aquisição dos direitos do filme para Portugal)

THE INHERITANCE, Ephraim Asili, EUA, doc. / fic., 2020, 101’


COMPETIÇÃO INTERNACIONAL DE CURTAS-METRAGENS

Grande Prémio de Curta-Metragem Betclic – 4000 Euros 

KEEP SHIFTIN’, Verena Wagner, Alemanha, doc., 2020, 21’


Prémio Melhor Curta de Animação – 500 Euros

THANK YOU, Julian Gallese, Reino Unido, anim., 2020, 8’


Prémio Melhor Curta de Documentário – 500 Euros

À LA RECHERCHE D’ALINE, Rokhaya Marieme Balde, Suíça /Senegal, doc., 2020, 27’


Menção Honrosa

Y’A PAS D’HEURE POUR LES FEMMES, Sarra El Abed, Canadá, doc., 2020, 19’


Prémio Melhor Curta de Ficção – 500 Euros

COME HERE, Marieke Elzerman, Bélgica, fic., 2020, 26’


Menção Honrosa

LONELY BLUE NIGHT, Johnson Cheng, EUA, fic., 2020, 15’


COMPETIÇÃO NACIONAL

Prémio para Melhor Longa-Metragem Portuguesa – 5000 Euros

NO TÁXI DE JACK, Susana Nobre, Portugal, doc. / fic., 2021, 70’


Prémio de Melhor Realização para Longa-Metragem Portuguesa – 1000 Euros

SIMON CHAMA, Marta Sousa Ribeiro, Portugal, fic., 2020, 84’


Prémio Dolce Gusto para Melhor Curta-Metragem Portuguesa – 2000 Euros

O QUE RESTA, Daniel Soares, Portugal, fic., 2021, 20’


Prémio Novo Talento The Yellow Color – 1500 Euros

THE SHIFT, Laura Carreira, Reino Unido / Portugal, fic., 2020, 9’


COMPETIÇÃO NOVÍSSIMOS

Prémio Novíssimos Betclic – 1500 Euros + Promoção e Venda Portugal Film

HUNTING DAY, Alberto Seixas, Portugal, fic., 2020, 3’


COMPETIÇÃO SILVESTRE

Prémio Silvestre para Melhor Longa-Metragem - 1500 Euros

BY THE THROAT, Effi & Amir, Bélgica, doc., 2021, 75’


Menção Honrosa

FOREST – I SEE YOU EVERYWHERE, Bence Fliegauf, Hungria, fic., 2021, 112’


COMPETIÇÃO DE CURTAS-METRAGENS SILVESTRE

Prémio Silvestre para Melhor Curta-Metragem - 1000 Euros

ONE IMAGE, TWO ACTS, Sanaz Sohrabi, Canadá / Alemanha / EUA / Irão, doc. / exp., 2020, 45’


Menção Honrosa

PALMA, Alexe Poukine, França / Bélgica, fic., 2020, 40’


COMPETIÇÃO INDIEMUSIC

Prémio IndieMusic- 1000 Euros | EX-AEQUO

SISTERS WITH TRANSISTORS, Lisa Rovner, Reino Unido / França, doc., 2020, ‘84

NUEVE SEVILLAS, Pedro G.Romero e Gonzalo García Pelayo, Espanha / França, doc., 2020, 158’


JÚRI AMNISTIA INTERNACIONAL

Prémio Amnistia Internacional - 1500 Euros

RADIOGRAPH OF A FAMILY, Firouzeh Khosrovani, Irão / Noruega / Suíça, doc., 2020, 80’


JÚRI ÁRVORE DA VIDA

Prémio Árvore da Vida para Filme Português – 2000 Euros

SOPRO, Pocas Pascoal, Portugal, doc., 2021, 43’


PRÉMIOS DO PÚBLICO

Prémio do Público Longa-Metragem – 1500 Euros

AU COEUR DU BOIS, Claus Drexel, França, doc., 2021, 90’


Prémio do Público Curta-Metragem – 1000 Euros

T’ES MORTE HÉLÈNE, Michiel Blanchart, Bélgica, fic., 2020, 24’


Prémio do Público IndieJúnior – 500 Euros

TINTA, Erik Verkerk e Joost van den Bosch, Países Baixos, anim., 2020, 2’


Até 8 de Setembro há sessões adicionais do IndieLisboa no Cinema Ideal, onde serão exibidos os filmes premiados, e na Cinemateca Portuguesa, com projecções de filmes da retrospectiva de Sarah Maldoror.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

IndieLisboa 2021: Competição Nacional em análise (Parte II)

Continuamos a análise a algumas das curtas-metragens da Competição Nacional do IndieLisboa. Passamos agora para The Shift, de Laura Carreira, Beco do Imaginário, de Romano Cassellis, e O Que Resta, de Daniel Soares.

The Shift, de Laura Carreira


"A princípio nada parece carregar Anna com preocupações ou pesos enquanto faz uma viagem curta, na companhia do cão. Mas o ambiente começa a mudar ao entrar no supermercado. Enquanto vê as prateleiras, os expositores, faz cálculos mentais. Até ao telefonema."

O crescendo de emoções de The Shift cola-nos ao ecrã para captar cada gesto, cada hesitação ou cada expressão da protagonista. A tranquilidade inicial, onde só existia a Natureza, Anna e o seu cão, transforma-se em tensão, logo após entrar no supermercado. Anna toca nos produtos, escolhe, remexe, arrepende-se, sente as texturas dos tecidos expostos e, ao chegar à caixa, um telefonema vem mudar tudo. 

Laura Carreira sabe construir o suspense e com uma câmara inquieta, tal como a protagonista, e liga-nos à acção, criando uma empatia imediata, mesmo que pouco saibamos sobre a vida de Anna e do seu cão.

Beco do Imaginário, de Romano Cassellis


"Fábio percorre as ruas da Mouraria com a tensão de alguém que tem de resolver um problema que não tem solução. Ao tentar saldar uma dívida com um cliente, vêm ao de cima sentimentos proibidos e oprimidos. E os problemas adensam-se."

Beco do Imaginário leva-nos pelas ruas da Mouraria (e não só, já que o plano inicial conquista desde logo a nossa atenção, bem debaixo da Ponte 25 de Abril, em Alcântara), num sobe e desce de escadas, corridas por ruas estreitas e becos sombrios. Filma-se o tradicional deste bairro lisboeta, enquadrando-o como cenário ideal para "aprendizes" de gangsters se moverem.

O realizador Romano Cassellis leva-nos ao mundos dos pequenos ilícitos, dívidas por pagar e sentimentos por assumir. A pressão sobre Fábio leva-o a fazer o que não quer, mas as escolhas são de quem as toma e as emoções não são para reprimir.

O Que Resta, de Daniel Soares


"Emílio já só tem um carneiro. Depois de uma primeira tentativa gorada de o vender, vê-se obrigado a partir em viagem, pelo interior de Portugal, para concretizar a venda do seu animal."

O desencanto e a despedida pairam no ambiente de O Que Resta, de Daniel SoaresEmílio e o seu último carneiro embarcam numa viagem por montes e vales, guiados pela réstia de esperança do protagonista. 

O ritmo lento da curta-metragem faz-nos apreciar as paisagens da Guarda e admirar a companhia inusitada do simpático carneiro no banco de trás, de cabeça à janela, tal qual um cão. Uma dupla inesperada, em busca de um destino com algum alento.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Crítica: Má Sorte no Sexo Ou Porno Acidental / Bad Luck Banging or Loony Porn / Babardeala cu bucluc sau porno balamuc (2021)

*8/10*

A criatividade de Radu Jude é inesgotável e a crítica social que espelha em cada filme é certeira e provocadora. Má Sorte no Sexo Ou Porno Acidental segue esta linha, extrapolando-a, numa abordagem em capítulos que reflecte sobre a Roménia actual e a sua História, mas também acerca das sociedades na era pandémica, com todos os seus vícios, usando para tal o sexo e uma sex tape caseira.

"Uma sátira da pandemia global que ainda vivemos. Este filme começa com uma sex tape que dá para o torto. Em causa está a vida e a carreira de Emi, uma professora que se vê forçada pelos pais dos alunos a apresentar a sua demissão. Contudo, Emi recusa. Recomendado para quem aprecia experiências cinematográficas transgressivas – no melhor dos sentidos."


Emi e a câmara de Radu Jude levam-nos pelas ruas de Bucareste em tempos de pandemia, enquanto a professora faz visitas e telefonemas com vista a resolver a situação em que se viu envolvida: a sua intimidade foi parar à Internet para seu mal e para gáudio de pais e alunos - tão escandalizados como voyeurs. O humor mordaz - quase cruel - de Radu Jude é o motor desta longa-metragem que, por vezes, quase roça o nonsense mas que, qual paradoxo, faz todo o sentido neste filme.

O preconceito contra ciganos e judeus, a negação das atrocidades da História do país, a misoginia pouco escondida, tudo reflecte o atraso civilizacional e social da Roménia de Radu Jude. Curiosamente, Emi é mulher e professora de História: dupla afronta para conservadores, machistas e negacionistas.

Num âmbito mais global, a pandemia, os seus novos hábitos, clichés e erros comuns (quem não conhece alguém que baixa a máscara para falar) são outro inevitável foco de Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental

O realizador romeno dá-nos uma lição de História e de humor, enquanto confronta sem receios a hipocrisia dos seus conterrâneos - e do mundo em geral.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: Radiograph of a Family (2020), de Firouzeh Khosrovani

*8/10*


Radiograph of a Family, de Firouzeh Khosrovani, faz parte da Competição Internacional do IndieLisboa 2021. Para contar a história da sua família, a realizadora apresenta um profundo trabalho de pesquisa de arquivos familiares, mas igualmente de imagens que ilustram momentos históricos do Irão, num retrato íntimo e sincero.

"Um documentário extremamente pessoal onde Firouzeh Khosrovani dá a conhecer intimamente a vida e o casamento dos seus pais, pessoas que não poderiam estar em pólos mais opostos do secularismo e da ideologia islâmica religiosa. Uma história contada através de imagens de arquivo, cartas e conversas, numa radiografia que ultrapassa o particular para ilustrar também conflitos no âmago da sociedade iraniana."

Um casamento à distância e uma vida em comum que se construiu entre a Suíça e o Irão, com todas as suas diferenças culturais e religiosas. A mãe, Tayi, extremamente religiosa e tradicional, o pai, Hossein, um estudante de radiologia pouco religioso e progressista. Durante os primeiros anos de casamento, foi Tayi quem se sentia deslocada da sua realidade e costumes e em constante pecado, enquanto viveu na Suíça. Depois do nascimento de Firouzeh, os papeis inverteram-se e é Hossein quem não se sente livre e pleno, de regresso ao Irão. 

E nesta construção familiar de ideais e valores totalmente opostos, a realizadora crescia e observava os pais e a nação, que passava pela Revolução e pela Guerra. Firouzeh era uma observadora silenciosa, que recolhia memórias e as guardava cuidadosamente, sem julgamentos de parte a parte. 

Radiograph of a Family é o resultado de todas as lembranças, onde uma casa serve como espelho de todas as alterações no núcleo familiar ao longo dos anos; não faltam as fotografias dos pais solteiros, casados, fragmentos rasgados de Tayi de cabeça descoberta, vídeos da revolução nas ruas, de mulheres armadas em treinos para a guerra; a música clássica que o pai adorava serve de banda sonora; e, como não podia deixar de ser, as radiografias que o pai tirou à mãe de Firouzeh e servem de título à longa-metragem.

O documentário de Firouzeh Khosrovani é um registo profundo da sua família, mas igualmente uma prova de amor de uma filha aos seus pais, tão diferentes e tão amados.

domingo, 29 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: Competição Nacional em análise (Parte I)

Começamos a análise a algumas das curtas-metragens da Competição Nacional do IndieLisboa. Cabra Cega, de Tomás Paula Marques; Os Últimos Dias de Emanuel Raposo, de Diogo Lima; e Um Quarto na Cidade, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, são os três filmes em análise.


Cabra Cega, de Tomás Paula Marques

"Uma investigação sobre vulnerabilidade e segurança, desafio e resistência, e figuras que ainda assombram as ruas da cidade."

Tomás Paula Marques tem o dom de nos envolver intensamente nos seus filmes e com as suas personagens (Em Caso de Fogo, de 2019, já tinha sido exemplo disso). Em Cabra Cega, a noite volta a servir de ambiência para os receios, reflexões e confrontos de um grupo de jovens. 

O sonambulismo é a forma original que a realizadora encontra para explorar a temática do bullying e do preconceito. E aos mistérios destas "cabras cegas" não intencionais, junta-se a lenda de uma pastora, símbolo de luta e resistência contra a opressão - tal como este filme.


Os Últimos Dias de Emanuel Raposo, de Diogo Lima

"Quer o classifiquemos como mockumentary ou curta-metragem pseudocumental, este filme é uma divertida viagem pelos últimos dias em cena do apresentador do programa de variedades da televisão açoriana 'Meia Hora com Emanuel Raposo'.

Diogo Lima diverte-se e diverte-nos com a sua curta Os Últimos Dias de Emanuel Raposo. Recria com êxito o ambiente dos anos 90, joga com expressões do "imaginário" micaelense, e desconstrói a caixinha mágica com muito humor. Mário Roberto revela-se a escolha ideal para vestir a pele do carismático Emanuel Raposo, colocando toda a equipa em polvorosa. 

A curta-metragem ganharia pontos com uma duração menor, capaz de torná-la mais concisa, sem perder o tom espirituoso.


Um Quarto na Cidade, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

"Um Quarto na Cidade é um jogo de referências e uma homenagem ao realizador Jacques Demy. É também uma oportunidade para os dois realizadores recordarem (o homónimo) Une chambre en ville e Les Parapluies de Cherbourg, de Demy, e a importância que estes filmes tiveram para eles."

Em resposta ao programa Eu me Lembro, do XIII Janela Internacional de Cinema do Recife, surgiu Um Quarto na Cidade. Um filme de lembranças: memórias de uma amizade marcada por filmes de Jacques Demy e por uma cassete VHS, memórias de locais, de músicas e de um filme cantado. Passaram-se 30 anos sem Demy, mas continuamos com os seus filmes, as suas influências e recordações. Rodrigues e Guerra da Mata registam-no nesta curta de cinco minutos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: No Táxi do Jack (2021), de Susana Nobre

*7/10*

Na Competição da Nacional do IndieLisboa, encontramos No Táxi do Jack, de Susana Nobre, um híbrido entre documentário e ficção, que nos embala numa história de vida digna de filme. Ei-lo. 

"Jack é Joaquim Calçada, antigo mecânico de aviões. Antes do 25 de Abril, emigrou para Nova Iorque, onde foi motorista de táxis. Volta uma figura, como Carmen Miranda cantava, 'americanizada', depois de vinte anos. É em Alhandra, Vila Franca de Xira que, a um passo da reforma, conta histórias do seu tempo nos Estados Unidos e de um percurso guiado pelo seu instinto de sobrevivência."

Entre as obrigações do centro de emprego, numa recolha de carimbos de empregador em empregador, enquanto aguarda a reforma, Jack recorda as suas aventuras nos Estados Unidos, bem como os empregos como taxista e motorista de limousine. Entre desabafos, encontros com o grande amigo Armindo e conversas com a mulher, descobre-se um realismo mágico que nos leva em viagens no tempo e no espaço - filmado em 16mm tudo nos parece ainda mais encantador.

No Táxi de Jack é um misto de desconstruções, humor e realismo social, onde o resultado está repleto de encanto. Joaquim é um protagonista seguro em frente da câmara, com um estilo muito característico que o faz destacar onde quer que vá. A realizadora conheceu-o enquanto filmava Vida Activa - sobre o programa Novas Oportunidades - e a confiança foi-se construindo (Joaquim surge depois em Provas, Exorcismos). Batalhador e um amigo exemplar, os percursos de Jack apresentam-nos em pano de fundo a vila de Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, onde cresceu e para onde regressou. Este emigrante, de volta à sua terra, surge-nos como uma figura moldada pelos dois países, tão distintos.

Desde já, podemos confirmar que Joaquim sabe conduzir-nos tão bem pela estrada da sua vida, quanto Susana Nobre é capaz de filmar a sua história com uns toques de Hollywood. De Nova Iorque para Alhandra, No Táxi de Jack é a reflexão de uma vida vivida em pleno que se reinventa, com a jovialidade de sempre, a caminho de mais uma fase.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: An Ordinary Country (2020), de Tomasz Wolski

*7.5/10*

An Ordinary Country, de Tomasz Wolski, faz parte da secção Silvestre do IndieLisboa 2021

"Um filme feito com materiais anteriormente classificados que expõe como os serviços secretos da Polónia comunista espiavam e registavam as actividades dos seus cidadãos, da década de 60 até à de 80, de telefonemas aos detalhes mais mundanos."

Escutas, vigilância constante, interrogatórios, chantagens, detenções e até morte: eis os ingredientes de An Ordinary Country, uma Polónia sob domínio comunista. Os serviços secretos do regime eram omnipresentes, imiscuindo-se nas questões mais banais do quotidiano, mas igualmente nas relações extraconjugais, encontros, conversas telefónicas, tudo tendo em vista controlar os potenciais opositores ou quem desafiasse as suas regras. 

Tomasz Wolski leva-nos num mergulho profundo nos arquivos, de imagem e som, de uma Polónia ultravigiada. E são estes materiais que contam a história, sem necessidade de qualquer comentário. Os julgamentos e conclusões ficam do lado da plateia, que ocupa aqui o papel de uma espécie de voyeur do Passado.

Foram décadas de abusos, mais ou menos escondidos, que o realizador deixa para reflexão.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: Novíssimos (Encontro Tardio, Ser, A Tiad of Paper Horns, Miraflores, Se o que oiço é Silêncio)

Da competição Novíssimos do IndieLisboa 2021, assistimos a Encontro Tardio, de Pedro Ramalhete; Ser, de Daniel CostaA Triad of Paper Horns, de Patrícia Janeiro; Miraflores, de Rodrigo Braz Teixeira; e Se o que oiço é silêncio, de Rosa Vale Cardoso (os dois últimos vistos no contexto do Curtas Vila do Conde 2021). 

Encontro Tardio, de Pedro Ramalhete

"Ele chega a casa de olhos em lágrimas. Ela faz o jantar sem fazer caso da distância que se criou. Mas não estão realmente prontos para desistir de a tentar colmatar. Talvez se encontrem a meio caminho."

Pedro Ramalhete faz um retrato de um casal em crise, uma relação em que faltam conversas mas há uma esperança no reencontro, mesmo que tardio, como anuncia o título da curta-metragem. Há uma poética a envolver as personagens de João Vicente e Bruna Quintas e os olhares dizem mais do que as palavras que o protagonista tem receio de dizer. A saudades, o amor e a esperança andam de mãos dadas.


Ser, de Daniel Costa

"Uma animação que mostra como um Ser, indistinto mas colorido, saiu de um poço para iniciar uma viagem sem um destino perceptível. Os cenários transformam-se e a trama adensa-se."

Uma garrafa "mágica", criatividade sem fim e uma apetência especial para a música são os principais elementos que constituem a existência deste Ser colorido que se vai construindo, passando por diversos locais e sendo confrontado por seres intimidantes. Daniel Costa cria uma curta-metragem cheia de tonalidades, texturas, cor e muito experimentalismo.


A Triad of Paper Horns, de Patrícia Janeiro

"Um filme que junta imagens de arquivo, digitais e de 16mm para construir uma viagem em torno de rituais, de sonhos eróticos e do som do papel a ser moldado."

Entre sonhos, recordações e relações, Patrícia Janeiro desenvolve A Triad of Paper Horns, uma curta-metragem experimental, extremamente sensorial, onde as texturas e os sons têm um lugar de destaque.


Miraflores, de Rodrigo Braz Teixeira *


"A partir de um dos subúrbios mais populosos da área metropolitana de Lisboa, Miraflores encena uma divertida comédia de adolescentes, absorvendo os pequenos tumultos destes jovens e das suas poéticas da vida. "

Parcialmente em jeito de falso documentário - que conta sua "história" e apresenta quem por lá vive e trabalha -, Miraflores é um filme sobre um bairro e os seus jovens. Eles que passam os dias entre os locais mais icónicos da freguesia - as rotundas, os prédios altos, a piscina abandonada, a igreja desconcertante -, divertem-se e vivem as primeiras paixões. A cena final da curta-metragem de Rodrigo Braz Teixeira, sem dúvida o momento mais poético do filme, pode ser uma espécie de declaração de amor a uma pessoa, mas igualmente ao cenário dessa paixão.

* Excerto originalmente publicado em Curtas Vila do Conde 2021: Competição Nacional em análise (Parte III).


Se o que oiço é silêncio, de Rosa Vale Cardoso *

"Numa ilha grega, Nina viaja de carro com a mãe e o seu amigo Spiro até à casa dos avós, para uma reunião familiar. Ao longo da viagem, o silêncio entre filha e mãe denuncia um mal-estar e um distanciamento emocional que Spiro tenta atenuar com algumas brincadeiras e momentos de descompressão. Aos poucos, à medida que visitam lugares onde já tinham sido felizes antes, mãe e filha vão-se aproximando gradualmente. "

Se O Que Oiço é Silêncio, de Rosa Vale Cardoso, é uma conversa de olhares e sorrisos tímidos, entre encantadoras paisagens gregas. O ressentimento e ambiente pesado inicial dissipa-se no passar das horas, com a partilha dos mesmos espaços ou com o simples acto de observar e ser-se observado. O amigo Spiro é quem mais fala e o único capaz de desconstruir a tensão entre mãe e filha, mesmo sem se aperceber. Por muita que seja a importância das palavras, por vezes, devemos estar atentos ao tanto que nos dizem os silêncios.

*Excerto originalmente publicado em Curtas Vila do Conde 2021: Competição Nacional em análise (Parte I).

terça-feira, 24 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: Fitas Cirurgykas (2021), de Edgar Pêra

*6.5/10*

Na secção Director's Cut do IndieLisboa 2021, Fitas Cirurgykas constrói-se a partir de "imagens de Domingos de Oliveira Santos, um cirurgião tornado cineasta". Edgar Pêra "compõe um mosaico que vai além dos vídeos caseiros, transbordando-os".

Das imagens de uma sala de operações, passamos para as brincadeiras de crianças na rua, para a interacção de homens e mulheres com animais, seja o cão da família, um macaco ou o boi e a vaca que ajudam nos trabalhos pesados. O trabalho junto ao mar, o vendedor de castanhas na cidade ou o parque de diversões, tudo se conjuga nestas Fitas Cirugykas que guardam memórias de rostos mas também de locais e de uma época. A curta-metragem faz parte do projecto Campanhã é a Minha Casa, no âmbito do programa Cultura em Expansão da Câmara Municipal do Porto.

E numa viagem entre a imaginação infantil e o quotidiano dos adultos - também eles animados -, Edgar Pêra aplica os seus jogos entre som e imagem, que tão bem caracterizam os seus filmes.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Crítica: Summer Of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised) / Summer of Soul (...ou, quando a revolução não pôde ser televisionada) (2021)

*6.5/10*

Summer Of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised) abriu o IndieLisboa 2021 e está disponível na plataforma de streaming Disney +O documentário, realizado pelo músico Ahmir “Questlove” Thompson, recupera imagens com mais de 50 anos, que resgatam a força e importância do Festival Cultural de Harlem de 1969, para todos os que estiveram presentes

"No mesmo verão em que teve lugar Woodstock, mais de 300 mil pessoas compareceram no Harlem Cultural Festival, celebrando a música e a cultura afro-americana e promovendo o orgulho e a unidade negra. As filmagens do festival ficaram esquecidas numa cave. Durante mais de 50 anos não foram vistas, tornando este evento incrível na história da América desconhecido de muitos - até agora."

Um reflexo dos tempos e uma constatação da necessidade de mudança social para a comunidade afro-americana, ainda no rescaldo do assassinato de Martin Luther King, várias vezes referido ao longo do documentário.

O festival durou seis semanas e contou com actuações de Stevie Wonder, Nina Simone, Sly and the Family Stone, Mahalia Jackson, Mavis Staples, The 5th Dimension, entre tantos outros artistas. 

Ao ser uma polifonia de estilos musicais, pontos de vista e até motivações políticas, Summer of Soul extrapola o festival, apresentando o panorama político e social da época. Contudo, ao querer abarcar tantas temáticas - por vezes, até mesmo a vida dos participantes no evento -, o documentário perde o foco e torna-se menos melodioso e conciso.

No fundo, Questlove dá-nos a oportunidade de redescobrir um momento histórico e com tantos paralelismos com a actualidade.

sábado, 21 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: 14 Filmes a não perder

O IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema começa este Sábado, 21 de Agosto, e prolonga-se até 6 de Setembro, no Cinema São Jorge, Culturgest, Cinema Ideal, Cinemateca Portuguesa e Jardim da Biblioteca Palácio Galveias. O Hoje Vi(vi) um Filme deixa-te algumas sugestões de filmes a não perder no festival lisboeta.

Bad Luck Banging or Loony Porn, de Radu Jude
Silvestre
Roménia, Luxemburgo, República Checa, Croácia, Ficção, 2021, 106′
"Uma sátira da pandemia global que ainda vivemos. Este filme começa com uma sex tape que dá para o torto. Em causa está a vida e a carreira de Emi, uma professora que se vê forçada pelos pais dos alunos a apresentar a sua demissão. Contudo, Emi recusa. Recomendado para quem aprecia experiências cinematográficas transgressivas – no melhor dos sentidos."

An Ordinary Country, de Tomasz Wolski
Silvestre
Polónia, Documentário, 2020, 51′
"Um filme feito com materiais anteriormente classificados que expõe como os serviços secretos da Polónia comunista espiavam e registavam as actividades dos seus cidadãos, da década de 60 até à de 80, de telefonemas aos detalhes mais mundanos."

Radiograph of a Family, de Firouzeh Khosrovani
Competição Internacional
Irão, Noruega, Suíça, Documentário, 2020, 80′
"Um documentário extremamente pessoal onde Firouzeh Khosrovani dá a conhecer intimamente a vida e o casamento dos seus pais, pessoas que não poderiam estar em pólos mais opostos do secularismo e da ideologia islâmica religiosa. Uma história contada através de imagens de arquivo, cartas e conversas, numa radiografia que ultrapassa o particular para ilustrar também conflitos no âmago da sociedade iraniana."

The Shift, de Laura Carreira
Competição Internacional, Competição Nacional
Reino Unido, Portugal, Ficção, 2020, 9′
"A princípio nada parece carregar Anna com preocupações ou pesos enquanto faz uma viagem curta, na companhia do cão. Mas o ambiente começa a mudar ao entrar no supermercado. Enquanto vê as prateleiras, os expositores, faz cálculos mentais. Até ao telefonema."

No Táxi do Jack, de Susana Nobre
Competição Nacional
Portugal, Documentário, Ficção, 2021, 70′
"Jack é Joaquim Calçada, antigo mecânico de aviões. Antes do 25 de Abril, emigrou para Nova Iorque, onde foi motorista de táxis. Volta uma figura, como Carmen Miranda cantava, “americanizada”, depois de vinte anos. É em Alhandra, Vila Franca de Xira que, a um passo da reforma, conta histórias do seu tempo nos Estados Unidos e de um percurso guiado pelo seu instinto de sobrevivência."

Os Últimos Dias de Emanuel Raposo, de Diogo Lima
Competição Nacional
Portugal, Ficção, 2021, 47′
"Quer o classifiquemos como mockumentary ou curta-metragem pseudocumental, este filme é uma divertida viagem pelos últimos dias em cena do apresentador do programa de variedades da televisão açoriana 'Meia Hora com Emanuel Raposo'."

Sopro, de Pocas Pascoal
Competição Nacional
Portugal, Documentário, 2021, 43′
"Um documentário que passa tempo com Marion e Peter, um casal holandês que perdeu a sua quinta no fogo que arrasou Pedrógão Grande no verão de 2017. No rescaldo da catástrofe, tentam reconstruir o que podem, com o pouco que têm."

Sambizanga, de Sarah Maldoror
Retrospectiva
França, Angola, Ficção, 1973, 102′
"Estamos em 1961, no início da guerra pela independência angolana. Domingos Xavier é um revolucionário preso por militares portugueses e levado para uma prisão em Sambizanga. A esposa, Maria, procura-o, temendo a tortura ou a morte a que ele possa ter sido sujeito. Um filme que mostra a libertação de Angola pelos olhos de uma mulher."

The Sparks Brothers, de Edgar Wright
IndieMusic
Reino Unido, Estados Unidos, Documentário, 2021, 135′
"Edgar Wright é conhecido por filmes como Shaun of the Dead ou Hot Fuzz, Scott Pilgrim vs the World e Baby Driver. Agora, apresenta um documentário sobre os The Sparks, um duo musical eclético e excêntrico que é apresentado como 'a banda preferida da tua banda preferida'. Para falar do mito e dar a conhecer estes irmãos, Wright junta entrevistas de músicos e comediantes, onde há espaço para Beck, Neil Gaiman, Björk, Patton Oswalt, 'Weird Al' Yankovic, Jack Antonoff ou até Amy Sherman-Palladino (Gilmore Girls). "

Diálogo de Sombras, de Júlio Alves
Director's Cut
Portugal, Documentário, Experimental, 2021, 60′
"Filme que parte da exposição Pedro Costa: Companhia — exposição dedicada ao cineasta português que poderia ser vista como uma colectiva, dado que estava ladeado por artistas como Picasso, Bresson, António Reis, John Ford, Jeff Wall, Godard, Rui Chafes ou Charlie Chaplin — para continuar a criar um diálogo entre o realizador português e as figuras que povoam o seu imaginário."

Hopper/Welles, de Orson Welles
Director's Cut
Estados Unidos, Polónia, Documentário, 2020, 130′
"Filip Jan Rymsza, que já tinha produzido The Other Side of the Wind – um filme de Welles que esteve 40 anos na estante e foi estreado em 2018 –, regressa com esta conversa entre duas figuras magistrais do cinema americano, filmada em 1970. Nas duas horas deste documento visual até há pouco desconhecido, os dois realizadores digladiam verbalmente, questionando a natureza do seu trabalho ou a da violência nos Estados Unidos, entre outros temas. Um registo histórico."

A Távola de Rocha, de Samuel Barbosa
Director's Cut
Portugal, Japão, Documentário, 2021, 94′
"Samuel Barbosa, na sua primeira longa-metragem, explora o processo criativo de Paulo Rocha (Os Verdes Anos) e os seus filmes, através das suas personagens, dos artistas que trabalhou e outros testemunhos da sua arte."

Summer Of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised), de Ahmir “Questlove” Thompson
Sessões Especiais
Estados Unidos, Documentário, 2021, 117′
"O músico e DJ (e compositor e jornalista, entre outros) Questlove assina — em nome próprio, como Ahmir Khalib Thompson — este documentário sobre o Festival Cultural de Harlem de 1969. O festival durou seis semanas e teve performances de Stevie Wonder e Sly and the Family Stone. Mas perdeu-se na memória colectiva."

Flee, de Jonas Poher Rasmussen
Sessões Especiais
Dinamarca, França, Suécia, Noruega, Animação, Documentário, 2021, 89′
"Um documentário animado que conta a história de Amin, que antes de se casar com o namorado, decide revelar um segredo que esconde há vinte anos. Amin chegou à Dinamarca como refugiado vindo do Afeganistão. Neste filme, lida com o seu passado traumático."

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: Programação fechada

O 18.º IndieLisboa já tem programação fechada: serão 276 filmes, divididos por nove secções e sessões especiais, de 21 de Agosto a 6 de Setembro. 

Competição Nacional, Internacional e Novíssimos

Na Competição Nacional, contam-se quatro longas e 19 curtas-metragens. Entre as longas, encontram-se Granary Squares, de Gonçalo Lamas, "um documentário que quer testar estratégias do cinema estruturalista no digital, traçando o seu ponto de vista como se se tratasse de uma câmara de vigilância  ancorada ao centro do recém-renovado distrito de King’s Cross, Londres"; Rock Bottom Riser, de Fern Silva, um filme-ensaio "criado a partir de imagens de um vulcão no Havai e que atravessa o mundo da geologia, etnografia e astronomia"; Simon Chama, de Marta Sousa Ribeiro, "explora o labirinto que  é a adolescência, e a frustração emocional que a acompanha através da gestão temporal do filme"; e ainda, No Táxi do Jack, de Susana Nobre, "uma  espécie de roadmovie", que nos apresenta o sexagenário Joaquim Calçada, um ex-emigrante perto da reforma que se vê envolto nas "burocracias exigidas pelo centro de emprego, para usufruir do subsídio. Atrás do volante de um táxi, e depois de voltar dos EUA, depara-se com um Portugal democrata, pós-revolução".

No Táxi do Jack

Nas curtas-metragens, destaque para Um Quarto na Cidade, de João Pedro  Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, uma homenagem ao realizador Jacques Demy; Boa Noite, de Catarina Ruivo, sobre a ligação entre avó e neto; Transportation Procedures for Lovers, de Helena Estrela, "uma experiência sinestésica que contempla como se chega perto daqueles que se ama"; 13 Ways of Looking at a Blackbird, de Ana Vaz, "um filme caleidoscópico sobre o que é olhar"; The Shift, de Laura Carreira; Tracing Utopia, de Catarina de Sousa e Nick Tyson, "uma viagem virtual pelos sonhos e desejos de um grupo de  adolescentes queer de Nova Iorque"; Os  Últimos Dias de Emanuel Raposo, de Diogo Lima, um mockumentary sobre um apresentador fictício da TV açoriana; Garças, de Gabriela  Nemésio Nobre, sobre uma rapariga que fez uma operação ao nariz, ou O Que Resta, de Daniel Soares, sobre o interior de Portugal; entre outros.

Na secção Novíssimos, há 13 filmes para ver, entre eles: Miraflores, de Rodrigo Braz Teixeira, análise entre a inocência e o que virá no futuro; Party Tattoos, de Teresa Sandman, um documentário na primeira pessoa que se concentra na celebração de aniversários passados; Azul e Prata, de João Coroa Justino, o culminar de sete  anos de filmagens, que captam o detalhe e o grande plano, e criam uma sinfonia de imagens; e Noctur, de Ana Vala, onde uma câmara vagueia pelas ruas urbanas durante a noite, dando uma qualidade alienígena ao o território mostrado.

Na Competição Internacional, há 32 curtas-metragens e 12 longas, com obras de realizadores como Alice Diop, Rosine Mbakam, Julian Faraut, Ephraim Asili, Norika Sefa, Manque la Banca, Emma Seligman ou Alexandre Koberidze

Director's Cut e Boca do Inferno

Na secção Director’s Cut, destaque para Hopper/Welles, de Orson Welles, estreado na edição do ano passado do Festival de Veneza, a sua primeira exibição pública depois de 40 anos guardado. "Filmada em 1970, esta conversa apanha os realizadores em momentos cruciais das suas carreiras; Welles não trabalhava em Hollywood há mais de uma década, e tinha começado a confirmar-se como um artista ferozmente independente e idiossincrático, já Hopper, acabava de alcançar sucesso inesperado com o hit de contracultura Easy Rider, financiado por um estúdio".

Hopper/Welles

Três Dias Sem Deus, de Bárbara Virgínia, foi a primeira longa-metragem de ficção realizada por uma mulher em Portugal. "Aquando da sua primeira projeção, o filme teria cerca de 102 minutos (aproximadamente 2800 metros de película). Desses, foram preservados, apenas, 26 minutos (868 metros) de filme, dos quais se perdeu a banda-sonora. O resultado de uma digitalização e restauro digital desse fragmento é agora apresentado no IndieLisboa." A anteceder a projecção, será exibido o filme Lost and Found, de Clara Cúllen, um documentário sobre a avó da realizadora, a primeira mulher argentina cineasta.

Também em português, A Távola de Rocha, de Samuel Barbosa, explora o processo criativo de Paulo Rocha; e Diálogo de Sombras, de Júlio Alves, regressa ao universo de Pedro Costa a partir da sua exposição em Serralves, Pedro Costa: Companhia.

The Last Stage, de Wanda Jakubowska, uma das primeiras representações da vida em campos de concentração, filmado logo após a Segunda Guerra Mundial, será apresentado num restauro digital.

Na secção Boca do Inferno, destaque para Ecologia del delitto, de Mario Bava, um clássico do terror italiano que celebra 50 anos; She Dies Tomorrow, de Amy Seimetz, junta o terror psicológico ao humor absurdo; e Spree, de Eugene Kotlyarenko, onde Kurt Kunkle é um condutor obcecado com a ideia de que se não te estás a documentar não existes, com uma mensagem de cautela em relação às redes sociais.

Sessões Especiais

Summer of Soul (...Or, When the Revolution Could Not Be Televised), de Ahmir “Questlove”  Thompson, sobre o festival esquecido de 1969, é o filme de abertura do IndieLisboa 2021, no dia 21 de Agosto, na sala Manoel de Oliveira  do Cinema São Jorge. A encerrar, estarão duas sessões quase simultâneas de Paraíso, de Sérgio Tréfaut, no dia  6 de Setembro na Culturgest. O filme presta tributo a um grupo de idosos que se reunia  todos os dias nos jardins do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, actividade subitamente  interrompida pela pandemia. 

Summer of Soul (...Or, When the Revolution Could Not Be Televised)

O urbanista Nuno  Portas é o foco do documentário A Cidade de Portas, de Teresa PrataHumberto Kzure; Vieirapad, de João Mário Grilo, traça um olhar sobre a escrita íntima do casal de artistas plásticos Maria Helena Vieira da Silva e Árpád Szenes; um encontro entre o artista Welket Bungué e a deputada Joacine Katar Moreira resulta em Mudança, de Welket Bungué; e ainda O Princípio, o Meio, o Fim e o Infinito, de Pedro Coquenão, coloca dois seres, de cara  embrulhada e fora do seu Tempo e Espaço, a reflectir sobre o colonialismo, desigualdade social  e outros tópicos-chave.

Destaque ainda para o programa Cinema e 5L, em parceria com o novo festival literário da cidade de Lisboa, Lisboa 5L, que junta cinco filmes, onde se encontra uma adaptação, interpretação, transformação ou documentação das cinco dimensões literárias apresentadas no reino cinemático. 2001: A  Space Odyssey, de Stanley Kubrick, é um conto. The Color of Pomegranates, de Sergei  Parajanov, poesia. Enrico IV, de Marco Bellocchio, teatro. Fahrenheit 451, de François Truffaut,  um romance. Morte a Venezia, de Luchino Visconti, uma novela.

Nas actividades exclusivamente para profissionais, as Lisbon Screenings (sessões onde são apresentados novos filmes portugueses terminados ou  ainda por terminar, à procura de uma estreia mundial ou internacional) apresentam filmes de Inês Oliveira, Ana Sofia Fonseca, José Filipe Costa, Diogo Baldaia, Ágata de Pinho, Falcão Nhaga, José Manuel Fernandes, Pedro Neves  Marques, entre outros.

Silvestre e IndieMusic

Nas curtas-metragens, destaque para Which is Witch?, de Marie Losier, presença assídua no IndieLisboa; a animação Affairs of the Art, de Joanna Quinn; Black Square, de Peter Burr; The Canyon, de Zachary Epcar; e In The Air Tonight, de Andrew Norman Wilson, que transforma a experiência da canção de Phil Collins, reimaginando-a com uma narração onírica. Nas longas-metragens, a secção Silvestre conta com filmes de Radu Jude, Eugène Green ou John Gianvito, e terá em foco o trabalho do cineasta colombiano Camilo Restrepo.

Na secção IndieMusic, este ano com grande foco em histórias individuais, encontramos filmes sobre Ney Matogrosso, St. Vincent, Matthew Herbert, Poly Styrene e Shane MacGowan, entre outros. Destaque ainda para Chunky Shrapnel, um filme-concerto imersivo da banda psicadélica australiana King Gizzard & the Lizard Wizard na sua tour de 2019 pela Europa, com o álbum Infest the Rats’ Nest.

A música portuguesa também marca presença nesta secção com Já Estou Farto!, de Paulo Antunes, que se foca em João Pedro Almendra, que formou os Ku de Judas e foi a voz dos Peste & Sida, dos PunkSinatra e do projecto rock Os Filhos de Hannibal Lecter, estando também na génese dos Censurados; Eram 27 Dias e Paraste é um documentário de bastidores sobre a apresentação do mais recente álbum de Noiserv, Uma palavra começada por N, no Teatro Tivoli BBVA; Caudal é um filme sobre um concerto dos Solar Corona que nunca mais se vai repetir; e We Were Floating High segue os First Breath After Coma ao longo de 2019, quando lançaram o álbum NU.

O cinema ao ar livre estará de regresso no Jardim Biblioteca Palácio Galveias, que se junta às habituais salas do festival: Cinema São Jorge,  Culturgest, Cinema Ideal e Cinemateca Portuguesa (onde também a Esplanada estará a receber sessões). 

Mais informações sobre o IndieLisboa 2021 em https://indielisboa.com/.