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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Crítica: Tron: Ares (2025)

"I like Mozart. I say, if I'm being honest, I prefer Depeche Mode."

Ares

*4.5/10*

O regresso ao universo Tron faz-se 15 anos depois do último filme, Tron: O Legado; e 43 anos após a estreia da saga, realizada por Steven Lisberger e protagonizada por Jeff Bridges, que foi um marco na ficção científica, quer pelo argumento como pelos efeitos visuais, muito inovadores para a época.

"Tron: Ares segue um programa altamente sofisticado, Ares, que é enviado do mundo digital para o mundo real numa missão perigosa, marcando o primeiro encontro da humanidade com seres de I.A."

Realizado por Joachim Rønning, Tron: Ares deixa os videojogos para trás. Agora ganham cena a Inteligência Artificial (des)generativa e as grandes tecnológicas - no caso, trata-se de duas grandes rivais: do lado do "bem" está a antiga empresa dos Flynn, agora administrada por Eve Kim (Greta Lee); do outro, estão Julian (Evan Peters) e Elisabeth (Gillian Anderson) Dillinger (em 1982, o patriarca Ed foi o principal rival de Kevin Flynn).

Enquanto nos primeiros filmes, a realidade entrava para dentro dos computadores, em 2025, o caminho é o inverso: são os programas de IA que saltam para o mundo real, quais soldados automatizados, prontos para serem capitalizados, a todo o custo (por Julian Dillinger).

Ares (um Jared Leto calmo e quase maquinal, numa personagem que não exige muito do seu talento) é o protagonista deste terceiro filme Tron, um programa de IA criado para ser um super soldado - mas que ainda precisa de bastante afinação. Equipado a preto e vermelho, eis o trunfo de Dillinger, mas, para ser perfeito, Julian precisa de algo que está na posse de Eve. E eis que o confronto começa, num argumento que se revela fraco e previsível.

Quando Ares parece começar a ganhar algumas características humanas (como dúvidas e sentimentos), o filme ganha algum fôlego. O mesmo acontece quando Jeff Bridges regressa à sua Grid, num bom momento de regresso ao passado. Tecnicamente, destaque para as excelentes sequências de perseguição de motos, no meio de um trânsito caótico; e para os efeitos especiais muito competentes (todavia, sem qualquer necessidade de sessões em IMAX 3D). Mas o maior trunfo de Tron: Ares é, sem sombra de dúvida, a banda sonora de Nine Inch Nails. É nela que está a aura que o argumento não foi capaz de captar, o fascínio da saga que esta longa-metragem não consegue transmitir.

Ainda assim, e apesar de algumas referências que agradarão aos fãs mais acérrimos, a nostalgia do filme de 1982 fica quase perdida, num mundo que não está longe dos tempos actuais, dominado pelas grandes empresas tecnológicas. A lógica da empresa boa e da empresa má não é nada credível nos dias que correm, e é muito difícil encarar tal coisa como possibilidade, mesmo que ficcional. 

Que voltem os videojogos de Flynn, pois, para desapontante, já basta o mundo real.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Crítica: Casa Gucci / House of Gucci (2021)

"Father, son and House of Gucci."

Patrizia

*6.5/10*

Ridley Scott trouxe para o grande ecrã o relato de três décadas de uma das mais famosas famílias da moda italiana. Casa Gucci comprova o talento do realizador para contar histórias e dirigir actores, desta vez, numa comédia dramática de enganos e traições.

"Quando Patrizia Reggiani (Lady Gaga), uma desconhecida de origem humilde, se casa com Maurizio Gucci (Adam Driver), a sua ambição desmedida começa a desencadear no legado da família uma imparável espiral de traição, destruição e vingança que culmina... num assassínio."

Personagens cliché, cheias de exageros, maneirismos e comicidade, de sotaque carregado e visual exuberante, eis a fórmula de Ridley Scott para conquistar a plateia. Em antítese com o drama real que retrata, o realizador coloca o foco no conflito de personalidades fortes e na sede de ganância, qual novela italiana.

É, portanto, no trabalho do elenco que residem as maiores forças de Casa de Gucci. Lady Gaga, como Patrízia, conquista o seu espaço e marca presença, catalisando para si todas as atenções enquanto está em cena. De sotaque carregado e voz de comando, Patrízia é decidida, ambiciosa e manipuladora. Al Pacino é extraordinário como Aldo Gucci, qual raposa matreira, transborda charme e exuberância, e a aparente familiaridade com que trata os sobrinhos esconde (como todos desta Casa de Gucci) interesses e segundas intenções.

Irreconhecível, Jared Leto surge com quase oito quilos de caracterização para encarnar Paolo Gucci, filho de Aldo, que todos têm como idiota. O actor transpôs todo o exagero da figura para a personalidade da personagem: infantil, mimado, ganancioso. E com um overacting propositado, Leto consegue ser um dos elementos mais cómicos do filme: mudou o tom de voz, muito mais agudo- para além, claro, do sotaque -, adoptou uma forma de rir hilariante e até os seus gestos ou forma de andar são caricaturais - tal como Ridley Scott construiu toda a longa-metragem.

Mais discretos, mas com a mesma energia, estão Jeremy Irons e Adam Driver, que interpretam pai e filho. Irons é o solitário e intransigente Rudolfo Gucci; Driver é Maurizio, a personagem que sofre uma maior alteração de personalidade ao longo do filme. Inicialmente manipulável e sem jeito para o negócio da família, vai-se formatando à medida da mulher e do tio, e deixando que o poder e o dinheiro o transformem. 

Também a caracterização, guarda-roupa - não fosse este um filme sobre moda - e direcção artística em muito contribuem para a reconstituição da disfuncional família Gucci.

E é em jeito de tragicomédia que Ridley Scott nos leva numa visita guiada, qual viagem no tempo, às figuras que marcaram (e arruinaram) a História da família Gucci. Porque amor, dinheiro, poder e família, juntos, podem não dar bom resultado.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Crítica: As Pequenas Coisas / The Little Things (2021)

 "It's the little things that are important, Jimmy. It's the little things that get you caught."

Deacon

*6/10*

Um thriller policial morno é a proposta de John Lee Hancock com As Pequenas Coisas. A obsessão de dois polícias com casos de assassinatos de mulheres por resolver, em 1990, dá o mote para a longa-metragem protagonizada por Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto.

"O xerife adjunto do condado de Kern, Joe 'Deke' Deacon (Washington) é enviado a Los Angeles para o que deveria ter sido uma simples recolha de provas. Em vez disso, envolve-se na perseguição a um assassino em série que aterroriza a cidade. O líder da busca, o sargento Jim Baxter (Malek) do Departamento do Xerife de L.A., fica impressionado com os instintos de Deke e pede-lhe para o ajudar de forma oficiosa. Mas enquanto tentam descobrir o rasto do homicida, Baxter desconhece que a investigação está a desenterrar ecos do passado de Deke e a revelar segredos perturbadores."

Desde o início, percebemos que há muito segredos escondidos ao longo de As Pequenas Coisas. As personagens Deacon e Baxter partilham muitas características, começando pela obsessão de encontrar o assassino, e o presente de um relembra o passado do outro - o trabalho de montagem usa de vários flashbacks para fazer o paralelismo entre os dois homens.

Originalidade não é algo que se possa apontar ao filme de John Lee Hancock, sendo que há momentos em que sentimos um dejà vu. Há semelhanças óbvias - mas muito menos inspiradas - com Sete Pecados Mortais, de David Fincher, mas o impacto no espectador é quase nulo.

O grande destaque de As Pequenas Coisas vai para Jared Leto, na pele de um suspeito que deixa os dois detectives com a cabeça a mil. Esta personagem secundária distingue-se pela singularidade dos gestos, voz e olhar vazio e alucinado, contrastando com a tranquilidade e frieza com que ganha todas as cenas em que surge no ecrã. O actor emana um magnetismo perturbador, intimidante e doentio, confirmando o talento que tem revelado em cada papel.

Sem grandes emoções ou reviravoltas, As Pequenas Coisas foca-se nos detalhes de uma investigação difícil de resolver e nos efeitos secundários na vida de quem se envolve em demasia. Vale pelas interpretações.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Crítica: Blade Runner 2049 (2017)

"Sometimes to love someone, you got to be a stranger." 
Rick Deckard
*7/10*

Blade Runner 2049, a tão aguardada sequela do filme de 1982, chegou este ano. De Ridley Scott, a sequela sobre os replicantes passou para as mãos de Denis Villeneuve e ele tratou-a com dignidade, talento e ambição qb.

A grande força do novo Blade Runner reside no visual fabuloso, muito fiel ao original, e repleto das marcas de autor a que Villeneuve nos tem habituado nos seus filmes. O argumento, por sua vez, começa no bom caminho, e aumenta as expectativas ao longo da primeira metade da longa-metragem, mas perde-se num sem fim de enredos entrelaçados até aos créditos finais.


30 anos após os eventos do primeiro filme, K (Ryan Gosling), um novo blade runner, oficial da LAPD, desvenda um segredo há muito enterrado que pode potencialmente mergulhar no caos o que resta da sociedade.A descoberta de K leva-o numa missão para localizar Rick Deckard (Harrison Ford), um antigo blade runner da LAPD, desaparecido há 30 anos.

Evitando spoilers a todo o custo, certo é que Denis Villeneuve se mostrou à altura do desafio de realizar este Blade Runner dos tempos modernos. O argumento, sendo o principal ponto fraco do filme, não deixa de ter um ponto de partida forte e um desenrolar da história onde o poder assenta nas memórias - serão elas que fazem de nós o que somos? Ao mesmo tempo, a revolta inerente ou a eterna insatisfação, que está longe de se restringir aos humanos, tomam conta das personagens daquele mundo distópico. Ainda a seu favor, estão pequenos pormenores de ficção científica muito realistas que moldam a história dos 30  anos que passaram entre a narrativa dos dois filmes.


A direcção de fotografia é magistral e não lhe devemos tirar mérito. Sem o fabuloso trabalho de Roger Deakins, Blade Runner 2049 não chegaria nem a metade do que é. É fácil deixarmo-nos perder nas cidades engolidas por ecrãs publicitários e pela névoa omnipresente ou pelos desertos intermináveis neste planeta devastado. Os edifícios futuristas, os veículos, tudo isso está tão fiel ao filme de 1982 que podemos ficar arrepiados.

Nas personagens, Harrison Ford regressa como Deckard sem muito mais a acrescentar, sendo ele próprio o segredo que une os dois filmes. O novo protagonista, o blade runner K, interpretado por Ryan Gosling, mostra-se isento de emoções e faz o que se espera dele. O replicante que parece, aos poucos, ir conquistando vontade própria, autonomia e sentimentos, vê crescer uma esperança - em si e na plateia - que tem muito de humano. Nos vilões, Jared Leto é totalmente ofuscado por Sylvia Hoeks, a vilã assistente, que nos faz esquecer a (mínima) presença do actor.


Não é possível destronar Blade Runner - tão único e vanguardista no seu tempo -, mas Denis Villeneuve, fiel ao visual original, consegue despertar no público grandes sentimentos de nostalgia e melancolia. O resultado, não sendo obrigatório, é positivo e satisfatório, em jeito de homenagem ao filme de Ridley Scott.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crítica: Esquadrão Suicida / Suicide Squad (2016)

"Uh-Oh"
Harley Quinn

*6/10*

Um dos filmes mais esperados de 2016 - em especial pelos fãs de comic books - toma de assalto os cinemas em forma de Esquadrão Suicida. Os vilões mais implacáveis são obrigados a juntarem-se para... salvar o mundo.

O realizador David Ayer parece ter-se sentido intimidado pelos actores e personagens que tinha em mãos e, afinal, são só mesmo eles que brilham no meio do argumento pouco elaborado e muito atribulado. As atenções são sugadas especialmente pela fabulosa Harley Quinn de Margot Robbie, encantadora e mortífera. É a namorada de Joker o elo entre os vários conflitos do filme, e é ela também quem mais se destaca.


A agente Amanda Waller (Viola Davis) quer reunir um grupo secreto de indivíduos com pouco ou nada a perder, e construir uma equipa – o Esquadrão Suicida - com os mais perigosos, até agora encarcerados, super vilões. Será preciso armá-los com um poderoso arsenal à disposição do Governo e enviá-los numa missão para derrotar uma enigmática e, aparentemente, invencível entidade que ameaça o mundo. No entanto, quando os seus membros percebem que não foram escolhidos pela possibilidade de sucesso mas antes pela sua fácil culpabilidade se falharem a missão, irão tentar chegar ao fim ou será cada um por si? 

É com a companhia de Harley Quinn (Margot Robbie), Deadshot (Will Smith), Boomerang (Jai Courtney), Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Diablo (Jay Hernandez), Katana (Karen Fukuhara), do soldado Rick Flag (Joel Kinnaman) e da arqueóloga June Moone - ou Enchantress - (Cara Delevingne), para além da mentora do Esquadrão, Amanda Waller, e de Joker (Jared Leto), que não larga a sua amada, que partimos nesta jornada perigosa e um tanto imprevisível, onde os vilões surgem de onde menos se espera. Vilões contra vilões, numa luta entre o bem e os vários males.


Bruxas, espíritos e criminosos a abater no mesmo filme não será tarefa fácil para o Esquadrão Suicida de Ayer. A longa-metragem tem medo de arriscar, receia os seus vilões que tão bem a dominam, com humor e personalidade e com uma ou outra batalha entusiasmante. Contudo, nada de novo no que toca a super-heróis (ou super-vilões).

Eis as forças do filme: Will Smith, Jared Leto, Viola Davis, Joel Kinnaman, Cara Delevingne, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Karen Fukuhara, Jay Hernandez, Jai Courtney e, principalmente, Margot Robbie. Como Quinn, Robbie é maquiavélica, apaixonada, louca, mas doce e perspicaz em igual medida, a actriz é magnética e revela-se a grande surpresa do filme. Jared Leto segue-a de perto, com o seu Joker brutal, impiedoso, de gargalhada arrepiante e sorriso mordaz - mesmo com pouco tempo de antena, ele intimida-nos. Jay Hernandez é o reservado Diablo, num desempenho tímido, mas sofredor e com quem facilmente se cria empatia. Ainda de destacar são as interpretações de Will Smith, competente como Deadshot, certeiro, líder e cheio de esperança, e Viola Davis, na pele da fria e intransigível agente Waller, que lidera as operações e as vidas dos vilões.


Com uma uma excelente e ritmada banda sonora, que combina faixas que marcaram gerações com o trabalho do compositor Steven Price, o filme de David Ayer é apenas mediano. Este Esquadrão Suicida não vai além de um desfile de personagens icónicas com que, é verdade, iremos sentir afinidade, por muito maus que sejam. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Oscars 2016: Red Carpet

E depois de entregues os prémios da grande noite do cinema é tempo de eleger os meus modelos favoritos que desfilaram pela passadeira vermelha dos Oscars. Aqui ficam os meus eleitos e, já sabem, eu não percebo nada de moda.


Jared Leto destacou-se entre os homens pela originalidade. Um cravo vermelho ao pescoço, em vez da gravata, lembrou-nos que o 25 de Abril está perto e conjugou-o muito bem com o seu blazer preto da Gucci.

Flores nasceram no vestido verde claro da nomeada Cate Blanchett. O modelo da Armani com decote em V assenta de forma fabulosa na actriz que transpira elegância e jovialidade.


Houve quem dissesse que ela era o Oscar deste ano, dada a opção pelo dourado. Para mim, Margot Robbie fez a aposta certa, mais jovial que as suas opções em anos anteriores e não menos sensual, mas, acima de tudo, elegante. O vestido Tom Ford consegue ser tão simples como vistoso e realça o visual leve e fresco da actriz.


Sofia Vergara não deixa ninguém indiferente onde quer que esteja. Os Oscars não foram excepção. A actriz surgiu com um vestido Marchesa, longo, cai-cai, azul escuro. Conferiu-lhe elegância, sofisticação e potenciou ainda mais a sua beleza latina.


Já provou que é muito mais do que uma popstar excêntrica. Tem uma voz extraordinária, proporcionou, provavelmente, o melhor momento da noite dos Oscars com a sua actuação e mostrou elegância no modelo branco de Brandon Maxwell. Lady Gaga não conquistou o Oscar para Melhor Canção Original mas deslumbrou na red carpet.

Jovial e descontraída, mas com muita classe, a estrela de Star Wars, Daisy Ridley, não passou despercebida no tapete vermelho. Desfilou num vestido prateado da Chanel, aliando a simplicidade à sofisticação.


Se há mulher que é raro desiludir na red carpet, ela é Jennifer Garner. A actriz escolheu um vestido preto do Atelier Versace que é tudo menos banal. Fabulosa, Garner está certamente entre as mais bem vestidas da noite.


Com o verde esmeralda a realçar a sua pele muito clara e os seus hipnotizantes olhos azuis, Saoirse Ronan não conquistou nenhum Oscar mas todos demos pela sua presença. A talentosa actriz, de 21 anos, desfilou num vestido Calvin Klein, de decote profundo. O cabelo solto fez a combinação perfeita.


Num ano onde o preto e branco predominaram (não tanto na minha lista), Charlize Theron não foi de modas e surgiu fabulosa num vestido vermelho Dior. O profundo decote em V e a saia tipo sereia acentuaram a silhueta da actriz que, aos 40 anos, continua a não dar hipótese na passadeira vermelha. É mesmo um "mulherão" de uma elegância invejável.

sábado, 1 de março de 2014

Oscars 2014: Os Actores Secundários

O dia 2 de Março aproxima-se a passos largos e chovem opiniões e previsões sobre nomeados e possíveis vencedores dos Oscars 2014. Como de costume, farei uma breve análise dos nomeados das principais categorias, ordenando-os por ordem de preferência. Comecemos pelos actores secundários.

1. Jared Leto em O Clube de Dallas (Dallas Buyers Club)
Jared Leto passa anos sem fazer cinema, mas quando o faz prova que devia apenas e só dedicar-se à Sétima Arte. Pode ser que o Oscar o faça reconsiderar. Para esta personagem, o actor perdeu cerca de 14 kg. Sem preconceitos, o actor entregou-se a uma personagem polémica, um transexual com SIDA e toxicodependente. Ele é Rayon, o maior aliado do protagonista de O Clube de Dallas na luta pela vida. Leto oferece-nos uma interpretação delicada, mas fenomenal, numa batalha contra a sociedade, a doença, o vicio e a rejeição da família.

2. Michael Fassbender em 12 Anos Escravo (12 Years a Slave)
Ainda não deve ser desta que Fassbender leva o Oscar para casa. Colocando-o ao lado de Leto, quase não consigo dizer qual o mais fabuloso na sua personagem. Como Epps, Fassbender é louco, implacável, completamente desequilibrado, mas ao mesmo tempo frágil na sua demência. Odiamos a sua personagem pela crueldade que comporta, mas aplaudimos de pé o grande actor capaz de incorporá-la de corpo e alma.

3. Barkhad Abdi em Capitão Phillips (Captain Phillips)
Estreante no cinema, Abdi presenteia-nos com uma personagem curiosa, que alia pobreza, brutalidade e fragilidade como poucas. Apesar de tudo, estaremos sempre a torcer também por ele ao longo de Capitão Phillips. Faltou-lhe, todavia, um pouco mais de entrega para ser um dos melhores desta lista de nomeados. Provavelmente fará melhor em futuros projectos.

4. Jonah Hill em O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)
Jonah Hill provou que, com DiCaprio, forma uma das mais hilariantes duplas do cinema. Nomeação muito merecida pelo grande trabalho que faz em O Lobo de Wall Street, não consegue contudo superar os desempenhos de Leto, Fassbender e Abdi.

5. Bradley Cooper em Golpada Americana (American Hustle)
Cooper oferece-nos uma interpretação divertida - especialmente pelo visual original que não dispensa a permanente - em Golpada Americana, mas que não passa muito disso mesmo. Continua por provar se o actor é realmente capaz de nos surpreender.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Crítica: O Clube de Dallas / Dallas Buyers Club (2013)

 "I swear it, Ray, God sure was dressin' the wrong doll when he blessed you with a set of balls."
Ron Woodroof
*6.5/10*

Matthew McConaughey e Jared Leto comandam O Clube de Dallas, com interpretações que fazem valer toda a longa-metragem de Jean-Marc Vallée. Nem as falhas no argumento ofuscam o brilho dos dois actores naqueles que serão, certamente, papéis de uma vida para cada um.

McConaughey é Ron Woodroof, um cowboy do Texas cuja vida sofre uma reviravolta quando, em 1985, lhe é diagnosticado o vírus da SIDA e apenas um mês de vida. Vivem-se os primeiros momentos desta epidemia e os EUA estão divididos sobre como a combater. Ostracizado por muitos dos seus antigos amigos e sem acesso a medicamentos eficazes comparticipados pelo governo, Ron decide tomar conta do assunto e procurar tratamentos alternativos em qualquer parte do mundo por meios legais ou ilegais. Ignorando as regras estabelecidas, Woodroof une forças com um grupo de renegados e marginalizados - que ele próprio teria evitado no passado - e estabelece um “clube de compradores” de enorme sucesso.


O argumento tem por base factos verídicos e uma história com tudo para arrasar no grande ecrã. A concretização, todavia, não é a mais feliz, com um ritmo cansativo e momentos desinteressantes. Entre a homofobia, o travestismo, o desconhecimento da SIDA em meados dos anos 80, até aos interesses económicos que desprivilegiam os doentes, a narrativa passa por todos estes temas, mas sem abordar especialmente nenhum deles. Sente-se a falta de uma crítica mais feroz, de um ritmo mais empolgante.

Apesar disso, as personagens de e McConaughey e Leto são bem construídas e comportam em si o grande valor de O Clube de Dallas. Duas interpretações fabulosas e extremamente físicas (McConaughey emagreceu 20kg e Jared Leto cerca de 14kg) deixam-nos mais próximos da sua causa, dor e doença. O protagonista surge quase irreconhecível, muito magro, sem o charme que marcou parte da sua carreira, na pele de Ron Woodroof e incorpora, de corpo e alma, o choque de um homem bruto, homofóbico e de maus modos, ao descobrir que é seropositivo. Da surpresa e incredulidade, à vontade de lutar e de contrariar o diagnóstico de uma morte demasiado precoce, McConaughey conduz brilhantemente o percurso do electricista - agora solitário, que encontra o mais próximo de um amigo no transexual interpretado por Leto - que desafia a lei, em nome da sobrevivência de muitos. Ao mesmo tempo, é o protagonista quem sofre mais mudanças, quer em termos de relações de amizade, formas de ver o mundo e de encarar o futuro.


Responsável por muitas dessas mudanças é a personagem de Jared Leto que vem provar novamente como é feito para o cinema. Sem preconceitos, o actor entregou-se a uma personagem polémica, um transexual com SIDA e toxicodependente. Ele é Rayon, o maior aliado de Ron na luta pela vida. Leto oferece-nos uma interpretação delicada, mas fenomenal, numa batalha contra a sociedade, a doença, o vicio e a rejeição da família.

Jennifer Garner vem manchar o talento do elenco ao interpretar Eve, a médica que acompanha os casos de Rayon (de quem é amiga de escola) e de Ron, mas se vê dividida entre a ética médica e os interesses das farmacêuticas. A actriz revela-se um erro de casting, sem pulso, sem emoção, sem nada que faça com que a sintamos como necessária. Hilary Swank seria, certamente, uma escolha mais acertada para o papel.

O pouco fôlego que Jean-Marc Vallée e os argumentistas Craig Borten e Melisa Wallack injectaram em O Clube de Dallas é contrabalançado pela presença de McConaughey Leto, que seguram com alma as suas personagens e apaixonam a plateia. A história de luta pela vida, contra a lei e corrupção, não encanta como devia, mas, felizmente, deixou os dois actores conquistar o mundo e os prémios (os Oscars são a próxima paragem).

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sugestão da Semana #99

Dos filmes estreados na passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recai sobre um dos nomeados para os Oscars. O Clube de Dallas não é um filme ímpar, mas vale, principalmente, pelas magistrais interpretações de Matthew McConaughey e Jared Leto.

O CLUBE DE DALLAS


Ficha Técnica:
Título Original: Dallas Buyers Club
Realizador: Jean-Marc Vallée
Actores: Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto
Género: Biografia, Drama, História
Classificação: M/16
Duração: 117 minutos

sábado, 13 de abril de 2013

Dia Internacional do Beijo: Os melhores beijos de 2012

Hoje é o Dia Internacional do Beijo, e à semelhança do que fiz o ano passado aqui no Hoje Vi(vi) um Filme, é um óptimo dia para recordar alguns dos melhores beijos do cinema do ano passado. Aqui vos deixo a minha selecção dos cinco melhores, de entre os filmes estreados em Portugal em 2012.

5. Millennium 1: Os Homens que Odeiam as MulheresRooney Mara e Daniel Craig:




4. As Vantagens de Ser Invisível: Logan Lerman e Ezra Miller



3. Anna Karenina:  Keira Knightley e Aaron Taylor-Johnson




2. Sr. NinguémJared LetoDiane Kruger


(dos 0:00 aos 0:37 e dos 3:19 aos 4:55 - para evitar spoilers)


1. AttenbergAriane LabedEvangelia Randou


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Crítica: Sr. Ninguém / Mr. Nobody (2009)


"I've got nothing to say to you. I'm Mr. Nobody, a man who doesn't exist."
Nemo Nobody  - 118 anos
*8.5/10*

São as escolhas que moldam a vida, que a fazem avançar, menos para Nemo Nobody, ao que parece. Jared Leto é o protagonista de Sr. Ninguém, filme de Jaco Van Dormael, de 2009, que chegou finalmente aos cinemas portugueses.

Tudo acontece num futuro não muito distante, onde Nemo é o homem mais velho do mundo e é o último mortal a conviver com as pessoas imortais. Ao longo de cerca de duas horas e meia de filme, Nemo irá relembrar os seus anos reais e imaginários, de infância, adolescência e casamento.

Nos últimos anos, poucos são os filmes com um imaginário tão forte e, ao mesmo tempo, que tocam tão fundo. Sr. Ninguém é, para já, um exemplo de originalidade e, ao mesmo tempo, de coerência no meio de muitos paradoxos. Deixando de parte a componente futurista da longa-metragem, que aqui se encontra muito presente, onde a imortalidade é algo tão comum que o único homem ainda mortal se torna o centro das atenções e as suas palavras são acompanhadas em directo, para satisfação da curiosidade mórbida de um povo, Sr. Ninguém vai muito mais além.

Aqui, o tempo não é constante e a realidade também não. Está-se perante várias dimensões, histórias paralelas e não sabemos qual delas é real. Sonho, ilusão, alucinação, delírio, imaginação... tudo se mistura também na nossa cabeça, tal como na de Nemo Nobody. A infância de Nemo, a relação dos pais, a primeira decisão importante a ser tomada que parece desencadear muitas indecisões, muitas possibilidades; a adolescência, amores e desamores; casamento(s)... vamos conhecer as vidas do protagonista, que as conta a um jovem jornalista, mas teremos as mesmas dúvidas: afinal, como é que tudo isto pode ter acontecido? Onde está a verdade, a realidade?


As coincidências sucedem-se em todas as possibilidades de vida a que assistimos, e as escolhas parecem ter sido sempre impossíveis para este homem de 118 anos. Para quê e por quê escolher? Nemo Nobody faz-nos crer que podemos ter tudo, sem precisar de optar. Contudo, e no meio de muita estranheza, a lógica nunca se perde.

Em Sr. Ninguém há uma grande atenção ao detalhe, que nos aguça os sentidos. São inúmeras as sensações que as imagens despertam em quem assiste. Jaco Van Dormael oferece-nos um filme com uma sensibilidade e delicadeza quase raras. A simples lavagem automática de um carro pode tornar-se claustrofóbica, e ao mesmo tempo artística.

Visualmente, o filme é um prodígio, de uma beleza pouco comum. A câmara liga-nos ainda mais à imagem através de planos, por vezes, hipnotizantes e envolventes. As cenas entre Nemo e Anna são onde mais isso se sente. Os efeitos especiais são igualmente de destacar e o trabalho de montagem é fascinante.


Nas interpretações, Jared Leto volta aqui a provar o seu talento na representação como Nemo Nobody, juntando-se-lhe os nomes de Toby Regbo (Nemo adolescente) e Thomas Byrne (Nemo com nove anos), que nos proporcionam grandes momentos. O casting foi certeiro também na escolha das actrizes que interpretam Anna adulta e adolescente, respectivamente, Diane Kruger e Juno Temple.

"Na vida só temos um take, se estiver mau temos de o aceitar" diz alguém a Nemo Nobody a certo momento. Uma frase que parece servir de lição para o próprio espectador, num filme que não quer conhecer limites para o possível. Até ao fim, faz-nos reflectir, e deixar-nos-á com muitas questões: Afinal, o que é real, o que faz parte do imaginário? Sr. Ninguém tem esse poder, alimenta a nossa mente, pela profundidade argumentativa, beleza visual e pela união perfeita de ambas.