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domingo, 2 de julho de 2023

Sugestão da Semana #567

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Légua, de Filipa Reis e João Miller Guerra. O filme já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.



Ficha Técnica:
Título Original: Légua
Realizadores: Filipa Reis e João Miller Guerra
Elenco: Carla Maciel, Fátima Soares, Vitória Nogueira da Silva, Paulo Calatré, Manuel Mozos, Sara Machado
Género: Drama
Classificação: M/12
Duração: 119 minutos

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Crítica: Légua (2023)

"- Todas ferem, a última mata...
- O quê?
- As horas. São as horas a passar."
Padre e Ana


*7/10*

Légua, de Filipa Reis e João Miller Guerra, é uma obra sobre a passagem do tempo, no corpo e no espaço. É a Natureza (também a Humana) no seu estado cinematográfico mais puro.

"Emília é uma velha governanta numa casa senhorial no Norte de Portugal. Ana ajuda-a, num ritual diário de cuidar do espaço para os donos que raramente aparecem. Quando Emília adoece, Ana abdica da sua vida familiar para a cuidar. Essa escolha leva a novos desafios que interrompem os gestos quotidianos e inventam outros — a filha que confronta a decisão de Ana, e a casa que lentamente vai sendo transformada num lugar vivido, habitado. Três gerações de mulheres procuram compreender o seu mundo em transformação, em que o ciclo da vida se renova a partir de finais inevitáveis."


A segunda longa-metragem de ficção dos realizadores inspira-se na casa de família onde Miller Guerra passava férias quando era mais jovem, em Légua, concelho de Marco de Canavezes, e na governanta da casa, que adoeceu e foi cuidada pela jovem ajudante da casa. 

Na ficção, Légua é construída em volta de três gerações de mulheres emancipadas, cada uma à sua maneira. A mais velha, Emília, é uma mulher conservadora, exigente e solitária, que sabe bem o que quer, mesmo no que respeita à dedicação desmedida à casa vazia que cuida com apreço. Ana mais jovem, vive na indecisão entre emigrar com o marido para França, ou ficar na sua terra e continuar o seu trabalho junto de Emília. O dilema desaparece quando esta adoece e Ana sente que é seu dever ficar e cuidar dela. Por sua vez, mais rebelde é Mónica, filha de Ana, que vai para a cidade em busca da sua independência e confronta a mãe com a decisão de ficar naquela casa solitária e não partir para junto do marido.


Perante dúvidas e certezas, um ano passa e é retratado através da Natureza e do seu ciclo agrícola, tão semelhante ao da vida - e da inevitável morte. 

Ana gosta do toque, de sentir tudo, seja o corpo do marido, os beijos e abraços daqueles que ama ou a música que a acompanha, mas também, e apesar das circunstâncias de cuidadora, a natureza, o sol, a água, a terra, as plantas, os animais (tão presentes neste filme), os frutos, as toalhas, os lençóis. 


A casa senhorial, onde tudo - e nada - acontece, vive adormecida no passado que guarda em si, até ao momento que é Ana que toma as rédeas. Ela dá-lhe um novo papel, uma nova vida: dá uso às divisões e aos objectos, e tenta proporcionar o melhor conforto possível a Emília, que dedicou a vida a manter o local pronto para os proprietários que teimavam em nunca chegar. Na pele de Ana, Carla Maciel é extraordinária, num papel com uma carga física muito forte. Ao seu lado, como Emília, Fátima Soares, actriz não profissional, esteve à altura do desafio de representar a sua própria decadência rumo ao desfecho inevitável.


Há uma luz que paira sobre cada passo de Ana. Em comunhão com a Natureza e com os animais, ela transmite paz e tranquilidade, apesar das circunstâncias. Ao filmarem em película, Filipa Reis e João Miller Guerra captam esta dimensão quase metafísica de plenitude e nostalgia, uma dualidade aparentemente impossível que rodeia Légua em cada plano. Eis a magia e a elegia da passagem do tempo.

domingo, 6 de março de 2022

Sugestão da Semana #497

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Casa Flutuante, o novo filme de José Nascimento, filmado entre Mértola e a Amazónia. Lê a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme.

CASA FLUTUANTE


Ficha Técnica:
Título Original: Casa Flutuante
Realizador: José Nascimento
Elenco: Carolina Virgüez, Inês Pires Tavares, Bernardo Mayer, Carla Maciel, Vítor Norte
Género: Drama, Fantasia
Classificação: M/12
Duração: 114 minutos

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sugestão da Semana #371

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Diamantino, de Gabriel AbrantesDaniel Schmidt, com Carlotto Cotta no papel principal. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida ou relida aqui.

DIAMANTINO


Ficha Técnica:
Título Original: Diamantino
Realizadores: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
Actores: Carloto Cotta, Cleo Tavares, Anabela MoreiraMargarida Moreira, Carla Maciel, Chico Chapas, Maria Leite, Joana Barrios, Filipe Vargas, Manuela Moura Guedes
Género: Comédia, Drama, Fantasia
Classificação: M/14
Duração: 96 minutos

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Crítica: Diamantino (2018)

"Vamos fazer Portugal grande outra vez!"


*8/10*

Será que Portugal está preparado para Diamantino? Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt arriscam, sem pudor, e dão asas à imaginação e extravagância, para nos oferecem uma comédia viciante e original sobre um jogador de futebol muito ingénuo e o mundo que o rodeia.

Não se sabe como o país irá reagir a esta paródia inesperada. Não há medo, nem vergonha. Há elementos extremamente "fofos" e outros quase diabólicos, há amor, enganos, não há complexos, há ciência, refugiados e nacionalismos. Entre a política e os relvados, certo é que a vida de Diamantino leva uma reviravolta.

Diamantino, a maior estrela de futebol do mundo, perde o talento e a sua carreira acaba em desgraça. À procura de um novo objectivo de vida, o ídolo internacional começa uma odisseia - qual Ulisses - que mistura neofascismo, adopção, a crise dos refugiados, modificação genética e a busca pela origem da genialidade.


É a primeira longa-metragem de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt e conquistou logo o Grande Prémio da Semana da Crítica do Festival de Cannes. Ao ver Diamantino, compreendemos os motivos. A singularidade do que é apresentado é tão surreal como clássica. A opção de filmar em película de 16 mm, que confere um grão muito visível à imagem, joga na mesma equipa que efeitos especiais competentes, numa fusão de opções tão diferentes, desde a componente técnica ao argumento. Basicamente, sentimo-nos introduzidos no sonho de alguém com muita imaginação.

As personagens estão propositadamente cheias de clichés, desde o jogador de futebol musculado e milionário, mas muito naïf e pouco perspicaz; às irmãs gémeas (bem interpretadas por Anabela e Margarida Moreira) malvadas que só pensam em dinheiro - todos com um afincado sotaque micaelense. Não faltam agentes secretos, cachorrinhos peludos, o gato piruças, um filho adoptivo (?), uma ministra kubrickiana, nem a vontade de construir uma muralha (onde é que já ouvi isto?).


Carloto Cotta transformou-se para encarnar este ídolo nacional, que de estrela dos relvados passa a cobaia de experiências científicas. Pelo meio de muitas farsas e enganos, Diamantino faz-nos lembrar alguém: Cristiano Ronaldo não pode ficar afastado da conversa quando falamos deste filme. No final de contas, é a ideia do melhor do mundo que está perante os nossos olhos, interpretado por um homem alto, moreno, com penteados da moda, carros milionários e muito musculado. Além disso, o protagonista é quase um D. Sebastião, qual símbolo de esperança de uma nação. Ele faz arte na catedral que é o estádio e quer ser "sublime", como as pinturas de Michelangelo na Capela Sistina, que o pai tanto admirava. Cotta pode exibir aqui todo o seu talento, sem tabus, e é exemplar ao representar um homem adulto cuja mente é semelhante à de uma criança. É impossível não acarinhar o protagonista.


A ideia de remeter para a actualidade política é executada com acutilância e Diamantino revela-se tão satírico como delirante. No filme, querem "fazer Portugal grande outra vez”. No meio cinematográfico, Abrantes e Schmidt já o conseguiram fazer.