Hoje vi(vi) um filme: DocLisboa'13: Redemption (2013)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Redemption (2013)

*8.5/10*

Miguel Gomes não tem medo de arriscar, Redemption é mais uma prova disso mesmo. E que melhor secção para esta curta-metragem que não exactamente Riscos, no DocLisboa?

A balançar entre o documental e o imaginário - os textos são fruto da imaginação de Miguel Gomes e Mariana Ricardo -, a curta-metragem apresentada no festival - que em breve estará nas salas de cinema comercial, a acompanhar o filme de Salomé Lamas, Terra de Ninguém - é original, provocadora e surpreendente, mostrando uma vez mais a genialidade do realizador português. A sua estreia aconteceu no último Festival de Cinema de Veneza.

Redemption apresenta-nos quatro histórias passadas em anos e países diferentes. A 21 de Janeiro de 1975, numa aldeia do norte de Portugal, uma criança escreve aos pais que se encontram em Angola, para falar-lhes do estado de Portugal. "Portugal é triste e vai ser sempre assim", conta ela, desiludida. No dia 13 de Julho de 2011, em Milão, um velho homem recorda o seu primeiro amor: Alessandra. Foram muitas as mulheres que teve, mas é dela que sente saudades, interrogando-se sobre o seu paradeiro: "Alessandra, onde estás?".


A 6 de Maio de 2012, em Paris, um homem diz à filha bebé que, seja o que for que ela venha a ser no futuro, ele teme que nunca vá ser um pai de verdade para ela. No dia 3 de Setembro de 1977, em Leipzig, uma noiva luta contra uma ópera de Wagner que não lhe sai da cabeça, temendo que aquele "fascista" lhe arruíne o casamento.

Em Redemption, uma dimensão privada (como refere o próprio realizador) entra em cena com as imagens de arquivo que vão ilustrando cada história, consoante o que cada narrador nos conta - e que assim, entram na esfera pública. Os quatro personagens unem-se pela tristeza e inquietação - e redenção -, pelas questões políticas que lhes estão adjacentes, tão longe, espacial e temporalmente, mas, no fundo, tão perto uns dos outros. Sentimental e mordaz, Miguel Gomes consegue tocar-nos fundo - quer estejamos em Portugal, Itália, França ou Alemanha -, e despertar no público as mais paradoxais emoções.

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