domingo, 28 de junho de 2026
Crítica: 18 Buracos para o Paraíso (2025)
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Crítica: Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar (2025)
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Crítica: Soco a Soco (2025)
segunda-feira, 11 de maio de 2026
IndieLisboa 2026: Cochena (2026)
*6/10*
Cochena, a estreia de Diogo Allen na realização apresentou-se ao mundo (e venceu a Competição Nacional de Longas) no IndieLisboa 2026. A comunidade cigana está no centro do documentário que cruza tradição e modernidade na vida do casal protagonista e de quem o rodeia.
Maria e Arménio Romão conduzem Cochena através do seu quotidiano, seja em Lisboa e arredores, ou numa breve visita à família residente no Algarve. O realizador segue-os de perto, filmando cada momento-chave dos seus dias.
Seja junto da família mais próxima ou da mais afastada, recordam-se os que já partiram através de fotografias antigas e de lembranças saudosas, contam-se histórias. E no meio das recordações e do trabalho diário, ao documentário não falta música, nem um casamento tradicional, com vários dias de celebração.
Apesar da tradição ainda se manter em diversos costumes, Maria usa da sua experiência de vida para alertar as mais jovens que devem vestir o que gostarem e não o que os maridos mandam. Efectivamente, os tempos são outros. E mesmo mantendo algo de recolector, de trabalhar a terra e manter com ela uma forte ligação, Maria e Arménio já não são nómadas como os seus ancestrais. A sua caravana fica junto aos prédios do bairro onde vivem e segue com eles quando visitam a família.
A língua Caló que o casal fala, a certo momento, perante a câmara do realizador, sem legendas, deixa no ar curiosidade e surpresa. Entre Maria e Arménio há uma cumplicidade que tanto desafia o espectador como consegue escapar, por alguns momentos, aos netos irrequietos, que tanto chamam por eles.
Cochena peca pela forma como trabalha o tempo do filme. Sente-se que falta vitalidade à montagem, e que a longa não se funde na alegria e na música do povo cigano. Observa de perto, sem se deixar absorver ou contagiar.
Diogo Allen tem assim uma estreia discreta, onde oferece uma visão próxima de uma comunidade que ainda tem pouco destaque no cinema. Ficam na memória alguns planos marcantes, a música contagiante e um casal protagonista com muita personalidade.
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Crítica: Projecto Global (2026)
"Olha que isto não vai lá com bombas. Querem poder, candidatem-se, como os outros sacanas todos."
Inspector-Chefe
*7/10*
Na semana de comemoração da Revolução do 25 de Abril de 1974, Ivo M. Ferreira trouxe para os cinemas portugueses Projecto Global, filme em que trabalhou nos últimos anos, resultado de muita pesquisa histórica, com o historiador Francisco Bairrão Ruivo - e do qual nasceu também o livro As FP-25 e o Pós-Revolução, editado pela Tinta da China -, entrevistas aos ex-operacionais e aos inspetores e agentes da PJ que estiveram no seu encalço.
Projecto Global está longe de ser panfletário ou de tomar partidos. O filme é isento de moralidades ou posicionamentos e retrata uma época de violência reaccionária em Portugal, no caso, do lado do grupo armado de extrema-esquerda FP-25, do ponto de vista de alguns dos seus membros, assombrados pelo medo do regresso de uma nova ditadura. Mas a Revolução já tinha sido feita.
Ivo M. Ferreira está longe de querer dar uma lição de História à plateia. Se por um lado, o seu filme representa uma época pouco abordada da História de Portugal recente - e convida a uma descoberta posterior mais aprofundada -, por outro, está construído para passar facilmente por um policial de época. Projecto Global é essencialmente um thriller cheio de acção e personagens magnéticas - em especial Rosa (Jani Zhao) e Queiroz (Isac Graça). Não faltam explosões, tiroteios e perseguições, com a qualidade técnica que pouco se vê no cinema português. Grande trabalho de montagem e som, especialmente nas sequências de acção, da direcção de fotografia capaz de captar a aura clandestina e obscura que paira sobre as personagens, e das equipas de direcção artística, caracterização e guarda-roupa pela muito certeira recriação da época.
Sem heróis, o realizador mostra as dúvidas e inquietações dos "potenciais" vilões, estes rebeldes que não percebem que a causa que defendem já não existe. A ligação da plateia às personagens nunca é de admiração, pelo contrário, há uma ambiguidade latente e personalidades tão díspares, mas as razões que levaram cada uma à situação em que está vão sendo reveladas ao longo da acção. A ideia de um fascismo que espreita a cada esquina ou os traumas que ficaram da guerra estão entre as razões para cada um daqueles homens e mulheres se mobilizarem e acreditarem que só pegando em armas é que conseguirão chegar à revolução.
No elenco, Jani Zhao destaca-se quase como uma femme fatale - sem intenção de o ser. Rosa é magnética, decidida, independente. Acredita ser capaz de tudo pela Liberdade, pela causa em que acredita e pelo filho pequeno. O seu magnetismo conquista os dois lados da barricada, mas, por muito que se queira entregar à paixão, viver na clandestinidade não lhe permite confiar ou entregar-se ao amor. Ao seu lado, logo ao início surge Queiroz, numa magnífica interpretação de Isac Graça, um homem sensível, cheio de revolta e dor, que encontra consolo nas acções das FP-25; um amigo fiel e companheiro de aventuras de Rosa - os dois actores resultam muito bem em cena. São muitos mais os nomes que também contribuem para o sucesso de Projecto Global, seja o PJ apaixonado, José Pimentão (Marlow), o inspector Ivo Canelas, o revolucionário convicto Rodrigo Tomás (Jaime), entre tantos outros.
Projecto Global funciona de forma intensa e muito cativante durante bastante tempo, mas perde-se um pouco em romances impossíveis e no impasse e desencanto que acaba por levar também ao fim das FP-25. Talvez a longa-metragem seja o reflexo daqueles que retrata, da excitação inicial cheia de ideais e esperança, ao desalento ao constatar a frieza com que alguns matam só porque "alguém" manda.
Ivo M. Ferreira merece todo o reconhecimento pela coragem em trazer para o cinema uma parte quase apagada da História de Portugal pós-revolução, mais ainda num momento de tanta divisão na sociedade e na política. O realizador gosta de aprofundar os traumas portugueses e já não é a primeira vez que o faz, veja-se, por exemplo, Cartas da Guerra, onde espelha alguns dos horrores da Guerra Colonial. Que continue com esta ousadia tão necessária na Sétima Arte.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Crítica: Entroncamento (2025)
"Também andas à procura de trabalho a sério?"
Nádia
*9/10*
Pedro Cabeleira voltou às longas-metragens depois de oito anos de interregno (com duas curtas pelo meio). Entroncamento foca-se na sua cidade natal e nos jovens que a habitam, os que chegam ou partem, todos eles perdidos e sem futuro à vista.
"Em fuga de um passado turbulento, Laura refugia-se no Entroncamento para reconstruir a sua vida. Dividida entre um emprego honesto e os esquemas do pequeno crime, cruza-se com uma juventude desencantada não muito diferente de si. Nas ruas da cidade ferroviária sobressaem as lealdades, a ganância, a violência e a má sorte, mas toda a gente só quer uma vida melhor."
Os jovens voltam a estar no centro da acção na nova longa de Cabeleira. Verão Danado (2017) retratava uma geração sem rumo, estagnada, alienada por drogas e música. Agora o realismo social entra em cena: como se Verão Danado fosse uma adolescência tardia e Entroncamento a vida adulta desesperançada. Desta vez, o foco são aqueles que a cidade e o Estado deixaram à sua sorte, sem oportunidades e à beira da pobreza.
São os homens que mandam no bairro e vivem entre ameaças, conflitos e violência (e, pelo meio, uns charros para desanuviar). Não há saídas, nem esperança, mas um círculo vicioso onde o tráfico de droga é a mais rápida forma de sustento. O Entroncamento, sempre com a estação de comboios como pano de fundo, é o cenário onde estas personagens, esquecidas pela sociedade, se movem, naquele pequeno mundo só seu. O preconceito, a discriminação e o racismo imperam dentro e fora da comunidade e condicionam, ainda mais, as poucas oportunidades.
Entre a denúncia de muito do que falha na lógica dos bairros sociais, território de exclusão e de "desempoderamento", Entroncamento tem um lado feminista bem vincado. As duas mulheres do filme, Laura (Ana Vilaça) e Nádia (Cleo Diára), assumem um papel preponderante: contra abusos, violência ou racismo, são elas quem luta para fugir das alternativas que têm pela frente: uma vida de pobreza, de vício ou de crime. O realizador coloca estas duas mulheres em situações mais associadas a personagens masculinas e mostra como a fórmula de Jean-Luc Godard "uma Mulher e uma Arma" continua a funcionar perfeitamente no Cinema.
As personagens são realistas, muito devido à grande dedicação de actores amadores e profissionais e à ligação que Pedro Cabeleira estabelece com e entre ambos. Há naturalidade nos diálogos, nos conflitos e nos olhares, sem qualquer tipo de esforço ou formalidade.
No elenco, há uma transfiguração dos actores profissionais e várias descobertas entre os, até então, amadores. Enorme destaque para a protagonista, a magnética Ana Vilaça. A actriz incorpora Laura carregando o peso de um passado deixado no Porto, com marcas visíveis de violência e a revolta escondida numa postura observadora e desafiante. A grande descoberta de Pedro Cabeleira é Henrique Barbosa, o ex-presidiário Gilinho, em busca de redenção e de estabilidade para a família que construiu com Nádia (Cleo Diára) e a sua filha. Gilinho é um solitário jovem cigano em cisão com a família de sangue, que o despreza por ter escolhido uma mulher negra como companheira de vida. Um novo actor a ter em grande conta.
No seu todo, o elenco merece elogios: Rafael Morais, Tiago Costa, Cleo Diára, Sérgio Coragem, André Simões, Maria Gil ou Ivo Arroja, entre outros, transformam Entroncamento num grande filme.
Tecnicamente irrepreensível, a câmara, irrequieta como as personagens, introduz a plateia no meio da acção, entre conversas, rivalidades, lágrimas e violência. A direcção de fotografia, mais uma vez a cargo de Leonor Teles, capta as cores incertas mas vívidas do dia e as sombras e luzes da noite, os reflexos de um passado que paira e assombra e o desalento de um futuro que não se vislumbra.
Entroncamento é uma obra pouco comum no cinema português, um filme desafiante, de denúncia da pobreza dos que são deixados à margem da sociedade, e que, ao mesmo tempo, consegue espelhar alguma esperança no meio do desalento. Os anos de amadurecimento do argumento fizeram bem à longa-metragem e revelam uma evolução e nova abordagem do realizador.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Crítica: Hamnet (2025)
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Crítica: Valor Sentimental / Sentimental Value (2025)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Crítica: Kontinental '25 (2025)
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Crítica: Foi Só Um Acidente / It Was Just an Accident / Yek tasadef sadeh (2025)
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Crítica: Complô (2025)
*8.5/10*
A voz forte e rouca de muitas lutas faz-se ouvir em Complô, onde João Miller Guerra segue Bruno Furtado, o rapper Ghoya, no plano criativo e pessoal, criando um retrato do músico e do homem.
"Órfão de um país onde nasceu, órfão do Estado. Encarcerado metade da sua vida, sempre livre. Bruno é 'Ghoya', rapper crioulo e activista político. Este filme, um espaço de encontro num momento da luta e da vida."
Complô começa por apresentar o Bruno Furtado activista, um homem seguro, de discurso articulado e fluido e palavras fortes, numa manifestação, em 2020, contra o assassinato do actor Bruno Candé e pelas vítimas do racismo. É a partir daqui que o protagonista se desconstrói perante a câmara.
Dentro e fora do estúdio, entre o processo criativo e o pesadelo burocrático nacional, o realizador acompanha Ghoya, ao longo de vários anos, no seu quotidiano, tornando-se, ele mesmo, parte da família que acompanha o rapper.
Nascido em Lisboa, Bruno cresceu e estudou em Portugal, passou parte da infância no desaparecido bairro das Fontaínhas (dos filmes de Pedro Costa), e cedo ficou sob a tutela do Estado, primeiro em colégios, mais tarde na prisão. O rapper reflecte sobre este passado, ainda recente, e a falta de apoio na reinserção, para além de todas as dificuldades que o deixam num limbo de identidade.
Nos momentos de maior desalento, criar música é a terapia. E, entre amigos, comenta-se com ironia, que falar crioulo parece ter virado moda entre os jovens portugueses brancos, mas sempre tão mal visto quando quem o fala são os seus herdeiros negros. Um pequeno reflexo das contradições de um país que continua a não assumir o seu racismo intrínseco e estrutural.
Complô é o retrato de um artista, mas é, principalmente, uma forma de revelar os órfãos que o Estado invisibiliza há décadas; um tocante manifesto de Ghoya através da sua música e de Miller Guerra através do seu cinema.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Doclisboa 2025: Tales of the Wounded Land (2025)
*7/10*
Também o Líbano não tem saído incólume das investidas de Israel, e Tales of the Wounded Land (Hikayat elbeit elorjowani), de Abbas Fahdel, é espelho da destruição (resultado dos ataques de Israel, que duraram cerca de ano e meio e cessaram, aparentemente, em Novembro de 2024) que marcou a paisagem e cada um dos habitantes da região.
Neste caso, a câmara está do lado do realizador - franco-iraquiano, radicado no Líbano - e da sua família, onde a filha pequena parece não estranhar ouvir os bombardeamentos enquanto brinca (e até os repete), como algo que se começa a tornar normal no seu quotidiano.

Da janela vê-se a guerra a aproximar-se, de dia para dia, da casa da família, em Nabatieh, no sul do país. Até que, para eles, só a fuga temporária pode ser a solução, deixando para trás a casa, os animais e os vizinhos que resistem. Tempos depois, dá-se o regresso e a constatação do que mudou e do que permaneceu. Mas, agora, a criança tem medo de voltar à casa dos pais. Entre o choque da destruição e o reencontro com quem ficou, o desgosto e a alegria misturam-se e a comoção é inevitável.
As várias imagens captadas por drone dão a ideia real da destruição sem fim à vista, ao longo de muito quilómetros, e da morte ao filmar uma interminável procissão de caixões.
Filmado na primeira pessoa, Tales of the Wounded Land cria uma proximidade e envolvência muito fortes com a plateia e só peca pela duração excessiva de alguns planos repetitivos na ideia a transmitir.
Segundo palavras de Abbas Fahdel: “O meu filme nasceu da necessidade de testemunhar uma guerra que destruiu as nossas vidas e os nossos lares e mostrar que, apesar de tudo, a resiliência e a humanidade continuam a florescer no meio das ruínas”. Mais uma guerra sem razão, que apaga a memória das terras e das gentes. Todavia, no meio dos escombros, há vidas que resistem e só procuram normalidade e paz.
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Crítica: Depois da Caçada / After the Hunt (2025)
-
"Eu trago a Guerra no pensamento e a Pátria no coração" Zacarias *9/10* Mosquito é o épico de guerra português, que...
-
O IndieLisboa 2026 já anunciou os vencedores desta edição. Barrio Triste , de Stillz , How to Catch a Butterfly , de Kiriko Mechanicus , e ...


















































