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domingo, 28 de junho de 2026

Crítica: 18 Buracos para o Paraíso (2025)

"Isto é o prenúncio do fim..."


*8/10*

João Nuno Pinto distingue-se no cinema português pela forma diferenciadora de filmar e pela criatividade com que tem construído a sua, ainda curta, filmografia. À terceira longa-metragem, o realizador continua a não desiludir. 18 Buracos para o Paraíso é um espelho do seu estilo provocador e muito actual.

"Numa herdade portuguesa assolada pela seca, proprietários e empregados relatam a mesma história a partir de visões opostas, expondo as feridas, contradições e fragilidades de um mundo à beira do colapso."


18 Buracos para o Paraíso acontece em pleno Verão, no Alentejo, onde uma reunião familiar, com vista à venda da propriedade que três irmãos herdaram do pai, se transforma numa história de sobrevivência, quer pelo grande incêndio que deflagra muito perto, quer pela luta de classes que, de repente, toma lugar.

Retrato hiperbolizado do mundo actual (ou talvez a realidade ainda seja pior), o filme lança temas "sensíveis", como a pressão imobiliária, a seca, a desertificação do interior e as culturas intensivas no Alentejo. Descobrem-se segredos, desafiam-se as personagens, que se revelam, pouco a pouco, quanto mais quente e seco o ambiente se torna. A tensão é crescente, e tudo fica cada vez mais incómodo e sujo (no sentido mais físico da palavra), com o calor, o fumo e falta de água a contribuírem para esse resultado. Prende-se ao ecrã a plateia, curiosa, que, inesperadamente, é conduzida por um caminho incómodo e para um desenlace desafiador.


Há um lado de alerta ambiental muito forte em 18 Buracos para o Paraíso - primeiro filme português com a certificação internacional Green Film, que reconhece práticas ambientalmente responsáveis na área audiovisual -, e mesmo que esse não seja o principal foco da longa-metragem, é o grande influenciador das cisões da trama.

Muito influenciado pelo seu percurso da publicidade, a obra de João Nuno Pinto apresenta um dinamismo pouco comum no panorama cinematográfico nacional. Ao mesmo tempo, as influências de outros cineastas denotam-se em muitos planos ou movimentos de câmara mais arrojados.

E mesmo que haja alguns clichés aparentemente evitáveis - quase todos na personagem do irmão da família, interpretado por Jorge Andrade -, estes também servem para agudizar o fosso entre ricos e pobres em redor da herdade. Os que servem e os que são servidos, os que têm tudo e querem mais e os que pouco têm e ainda continuam a dar aos outros.


A forma tripartida de contar a mesma história funciona especialmente bem na primeira e terceira partes - os pontos de vista de Francisca e de Susana -, com a conclusão épica na cena final, uma espécie de pintura em movimento. Tecnicamente, 18 Buracos para o Paraíso é irrepreensível, com uma fabulosa direcção de fotografia, efeitos especiais de invejar e um trabalho de som muito bem conseguido. Também a certeira banda sonora da compositora Ginevra Nervi acompanha a acção e a tensão crescente como poucas.

O filme de João Nuno Pinto distingue-se ainda por ter três protagonistas femininas, algo que rareia no cinema. Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço são as três mulheres fortes da história (onde também Luísa Ortigoso e Joana Bernardo se destacam), todas elas com interpretações marcantes.


Como Francisca, Margarida Marinho surge livre para se entregar a uma personagem que deambula entre a extravagância e a loucura, com o álcool a comandar grande parte dos seus dias, demonstrando um humanismo que os irmãos não partilham consigo; já a enfermeira Susana, de Rita Cabaço, a filha da empregada da casa, mostra uma extraordinária capacidade de tomar as rédeas da acção quando tudo parece perdido, num desespero e raiva latentes e um amor que chega a magoar. As duas actrizes são magnéticas e entregam-se totalmente a 18 Buracos para o Paraíso.


E, depois de América (2010) e Mosquito (2020), João Nuno Pinto não desilude. 18 Buracos para o Paraíso é o espelho da criatividade do seu autor e da sua forma diferenciadora de filmar. Um filme provocador, que mantém o suspense, segue rumos inesperados e nunca deixa a plateia num lugar seguro.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Crítica: Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar (2025)

"Porque é que não pensar deixar o seu cargo?"
Maria de Jesus


*5/10*

O primeiro de dois filmes sobre o ditador português com estreia prevista para 2026 já chegou às salas: Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar é a proposta do realizador José Filipe Costa de um retrato irónico dos últimos meses de vida do protagonista. 

A farsa real é transportada para o grande ecrã com a governanta Maria de Jesus (Catarina Avelar) ao comando das operações, seja na coordenação das visitas ao presidente deposto, seja a tomar as rédeas da casa, junto das empregadas, ou simplesmente a cuidar e fazer companhia ao ditador doente.

"Portugal, 1968. Salazar, o ditador fascista que no mundo mais tempo esteve no poder, cai de uma cadeira e sofre um AVC. Quando volta ao palacete de São Bento para convalescer, já não é Presidente do Conselho. Mas ninguém lhe conta a verdade: nem a fiel governanta Maria de Jesus, nem as criadas Aparecida, Socorro e Teresinha, nem o seu médico pessoal. Durante dois anos ele vive uma ilusão minuciosamente construída para acreditar que ainda é Presidente, até morrer em 1970. Uma das farsas mais absurdas da História, que muita gente ainda hoje ignora."


José Filipe Costa volta a mostrar a sua ousadia na escolha e na forma de trabalhar os temas dos seus filmes. O realizador "estava interessado nos dilemas, nas contradições e nos paradoxos vividos pelas personagens dentro de São Bento". Apenas dentro do palácio, Salazar continuava a ser o presidente.

No entanto, a acutilância que caracteriza o cinema de José Filipe Costa não foi usada da forma que este filme mereceria. Infelizmente, há uma ligeira humanização de Salazar nestes seus últimos dias, que, tendo em conta os controversos tempos que se vivem, pode ter uma leitura totalmente errada pela plateia. Os melhores momentos acontecem na segunda metade do filme, quando pesadelos e alucinações atormentam o antigo ditador, com o delírio a despoletar momentos de humor sarcástico e, por vezes, outros até ligeiramente perturbadores. É aí que surge a mordacidade característica do realizador, que peca por ser tão pouca nesta longa-metragem. 


Nas interpretações, Catarina Avelar está imperturbável na pele da sempre fiel Maria de Jesus, ela própria uma espécie de ditadora das regras daquela casa, onde a mentira passava a verdade inabalável. No papel de SalazarJorge Mota revela a fragilidade e a confusão mental da decadência do ditador.

Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar perde assim a grande oportunidade para "enterrar" de vez os resquícios do Estado Novo. José Filipe Costa mostra a sua marca provocatória, mas é demasiado brando no retrato satírico do ditador.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Crítica: Soco a Soco (2025)

*6/10*


O trabalho do realizador Diogo Varela Silva tem espelhado o que de mais pitoresco há na cultura portuguesa, seja na música, na pintura, nas tradições ancestrais e nas ruas e figuras de Lisboa. Soco a Soco junta-se a este último grupo, retratando um pugilista lisboeta, muito famoso nos anos 70: Orlando Jesus.

"Na década de 1970, Orlando Jesus foi mais do que um pugilista: foi o retrato de uma Lisboa dura, feita de ginásios de bairro, noites intensas e figuras marginais que moldaram uma geração. Um retrato íntimo e imperfeito, onde a câmara regista os gestos e as vozes que ainda resistem, preservando um tempo em vias de desaparecimento, a presença de Orlando Jesus e a Lisboa que o moldou."

O homem e a cidade de Lisboa são o foco do documentário. O realizador dá a conhecer "o pugilista das mãos de ferro", campeão nacional na época de ouro do boxe português, com carreira em Portugal e Espanha, e que, actualmente, é treinador da modalidade, tendo já formado vários campeões, sendo também o único português a actuar como árbitro profissional internacional da International Boxing Association (IBA).

Enquanto se apresenta Orlando, Lisboa, principal palco dos seus feitos e do seu crescimento, é presença contínua na longa-metragem. Recorda-se e filma-se uma cidade que ainda resiste em pequenos locais, onde o fado e as suas figuras continuam a vingar. Lisboa vive também nas memórias da juventude de Orlando. O relato na primeira pessoa é, aliás, o principal guia narrativo de Soco a Soco, com alguns artigos de jornal e fotografias dos combates a acompanhar. Mas falta muito mais material de arquivo para preencher a memória e dar um motor mais potente ao documentário.


A violência estava fora e dentro do ringue, mas, no desporto, vingou sempre o respeito pelo adversário. A humilde infância e juventude de Orlando foi repleta de rebeldia e curiosidade, e o boxe surgiu cedo. O protagonista conta para a câmara e recorda, junto de amigos, o crescimento da estrela em que se tornou e o seu declínio. Uma vida feita de fugas, tiros e de inúmeras histórias (quase) inacreditáveis, representadas em Soco a Soco por coloridas ilustrações.

Diogo Varela Silva traz para o ecrã o boxe, a família, os amigos e o fado - e muita guitarra portuguesa, numa banda sonora belíssima -, interesses e amigos comuns ao realizador, neto da fadista Celeste Rodrigues, e ao protagonista. 

Soco a Soco é o retrato do jovem marialva e aventureiro Orlando, e da sua transformação ao longo das décadas. Um homem que veio do nada e cujos punhos o levaram à ribalta, que se perdeu em vícios e pequenos delitos mas, com foco e fé, se reergueu ensinando agora a outros como vingar no ringue. Contudo, a saudosa Lisboa que resta fica apenas como pano de fundo.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

IndieLisboa 2026: Cochena (2026)

*6/10*

Cochena, a estreia de Diogo Allen na realização apresentou-se ao mundo (e venceu a Competição Nacional de Longas) no IndieLisboa 2026. A comunidade cigana está no centro do documentário que cruza tradição e modernidade na vida do casal protagonista e de quem o rodeia.

Maria e Arménio Romão conduzem Cochena através do seu quotidiano, seja em Lisboa e arredores, ou numa breve visita à família residente no Algarve. O realizador segue-os de perto, filmando cada momento-chave dos seus dias.

Seja junto da família mais próxima ou da mais afastada, recordam-se os que já partiram através de fotografias antigas e de lembranças saudosas, contam-se histórias. E no meio das recordações e do trabalho diário, ao documentário não falta música, nem um casamento tradicional, com vários dias de celebração.

Apesar da tradição ainda se manter em diversos costumes, Maria usa da sua experiência de vida para alertar as mais jovens que devem vestir o que gostarem e não o que os maridos mandam. Efectivamente, os tempos são outros. E mesmo mantendo algo de recolector, de trabalhar a terra e manter com ela uma forte ligação, Maria e Arménio já não são nómadas como os seus ancestrais. A sua caravana fica junto aos prédios do bairro onde vivem e segue com eles quando visitam a família.

A língua Caló que o casal fala, a certo momento, perante a câmara do realizador, sem legendas, deixa no ar curiosidade e surpresa. Entre Maria e Arménio há uma cumplicidade que tanto desafia o espectador como consegue escapar, por alguns momentos, aos netos irrequietos, que tanto chamam por eles.

Cochena peca pela forma como trabalha o tempo do filme. Sente-se que falta vitalidade à montagem, e que a longa não se funde na alegria e na música do povo cigano. Observa de perto, sem se deixar absorver ou contagiar.

Diogo Allen tem assim uma estreia discreta, onde oferece uma visão próxima de uma comunidade que ainda tem pouco destaque no cinema. Ficam na memória alguns planos marcantes, a música contagiante e um casal protagonista com muita personalidade.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Crítica: Projecto Global (2026)

"Olha que isto não vai lá com bombas. Querem poder, candidatem-se, como os outros sacanas todos."

Inspector-Chefe

*7/10*

Na semana de comemoração da Revolução do 25 de Abril de 1974, Ivo M. Ferreira trouxe para os cinemas portugueses Projecto Global, filme em que trabalhou nos últimos anos, resultado de muita pesquisa histórica, com o historiador Francisco Bairrão Ruivo - e do qual nasceu também o livro As FP-25 e o Pós-Revolução, editado pela Tinta da China -, entrevistas aos ex-operacionais e aos inspetores e agentes da PJ que estiveram no seu encalço.

Projecto Global está longe de ser panfletário ou de tomar partidos. O filme é isento de moralidades ou posicionamentos e retrata uma época de violência reaccionária em Portugal, no caso, do lado do grupo armado de extrema-esquerda FP-25, do ponto de vista de alguns dos seus membros, assombrados pelo medo do regresso de uma nova ditadura. Mas a Revolução já tinha sido feita.


"Lisboa, anos 80. Rosa junta-se a um grupo de jovens desiludidos com o Portugal pós-Revolução. Integrados numa organização armada clandestina de extrema-esquerda, partilham ideais políticos e um quotidiano que os aproxima cada vez mais. Mas o seu idealismo colide de frente com o país em mudança e com uma vasta operação policial que os tem como alvo. Em fuga por uma estrada sem regresso nem saída, as suas vidas são feitas de assaltos a bancos, bombas, amizades, prisão, amor e morte. Encurralados, a única escolha que lhes resta é continuar a fugir até serem presos, ou mortos."

Ivo M. Ferreira está longe de querer dar uma lição de História à plateia. Se por um lado, o seu filme representa uma época pouco abordada da História de Portugal recente - e convida a uma descoberta posterior mais aprofundada -, por outro, está construído para passar facilmente por um policial de época. Projecto Global é essencialmente um thriller cheio de acção e personagens magnéticas - em especial Rosa (Jani Zhao) e Queiroz (Isac Graça). Não faltam explosões, tiroteios e perseguições, com a qualidade técnica que pouco se vê no cinema português. Grande trabalho de montagem e som, especialmente nas sequências de acção, da direcção de fotografia capaz de captar a aura clandestina e obscura que paira sobre as personagens, e das equipas de direcção artística, caracterização e guarda-roupa pela muito certeira recriação da época.

Sem heróis, o realizador mostra as dúvidas e inquietações dos "potenciais" vilões, estes rebeldes que não percebem que a causa que defendem já não existe. A ligação da plateia às personagens nunca é de admiração, pelo contrário, há uma ambiguidade latente e personalidades tão díspares, mas as razões que levaram cada uma à situação em que está vão sendo reveladas ao longo da acção. A ideia de um fascismo que espreita a cada esquina ou os traumas que ficaram da guerra estão entre as razões para cada um daqueles homens e mulheres se mobilizarem e acreditarem que só pegando em armas é que conseguirão chegar à revolução.

No elenco, Jani Zhao destaca-se quase como uma femme fatale - sem intenção de o ser. Rosa é magnética, decidida, independente. Acredita ser capaz de tudo pela Liberdade, pela causa em que acredita e pelo filho pequeno. O seu magnetismo conquista os dois lados da barricada, mas, por muito que se queira entregar à paixão, viver na clandestinidade não lhe permite confiar ou entregar-se ao amor. Ao seu lado, logo ao início surge Queiroz, numa magnífica interpretação de Isac Graça, um homem sensível, cheio de revolta e dor, que encontra consolo nas acções das FP-25; um amigo fiel e companheiro de aventuras de Rosa - os dois actores resultam muito bem em cena. São muitos mais os nomes que também contribuem para o sucesso de Projecto Global, seja o PJ apaixonado, José Pimentão (Marlow), o inspector Ivo Canelas, o revolucionário convicto Rodrigo Tomás (Jaime), entre tantos outros.

Projecto Global funciona de forma intensa e muito cativante durante bastante tempo, mas perde-se um pouco em romances impossíveis e no impasse e desencanto que acaba por levar também ao fim das FP-25. Talvez a longa-metragem seja o reflexo daqueles que retrata, da excitação inicial cheia de ideais e esperança, ao desalento ao constatar a frieza com que alguns matam só porque "alguém" manda.

Ivo M. Ferreira merece todo o reconhecimento pela coragem em trazer para o cinema uma parte quase apagada da História de Portugal pós-revolução, mais ainda num momento de tanta divisão na sociedade e na política. O realizador gosta de aprofundar os traumas portugueses e já não é a primeira vez que o faz, veja-se, por exemplo, Cartas da Guerra, onde espelha alguns dos horrores da Guerra Colonial. Que continue com esta ousadia tão necessária na Sétima Arte.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Crítica: Entroncamento (2025)

"Também andas à procura de trabalho a sério?"

Nádia

*9/10*

Pedro Cabeleira voltou às longas-metragens depois de oito anos de interregno (com duas curtas pelo meio). Entroncamento foca-se na sua cidade natal e nos jovens que a habitam, os que chegam ou partem, todos eles perdidos e sem futuro à vista.

"Em fuga de um passado turbulento, Laura refugia-se no Entroncamento para reconstruir a sua vida. Dividida entre um emprego honesto e os esquemas do pequeno crime, cruza-se com uma juventude desencantada não muito diferente de si. Nas ruas da cidade ferroviária sobressaem as lealdades, a ganância, a violência e a má sorte, mas toda a gente só quer uma vida melhor."

Os jovens voltam a estar no centro da acção na nova longa de Cabeleira. Verão Danado (2017) retratava uma geração sem rumo, estagnada, alienada por drogas e música. Agora o realismo social entra em cena: como se Verão Danado fosse uma adolescência tardia e Entroncamento a vida adulta desesperançada. Desta vez, o foco são aqueles que a cidade e o Estado deixaram à sua sorte, sem oportunidades e à beira da pobreza.

São os homens que mandam no bairro e vivem entre ameaças, conflitos e violência (e, pelo meio, uns charros para desanuviar). Não há saídas, nem esperança, mas um círculo vicioso onde o tráfico de droga é a mais rápida forma de sustento. O Entroncamento, sempre com a estação de comboios como pano de fundo, é o cenário onde estas personagens, esquecidas pela sociedade, se movem, naquele pequeno mundo só seu. O preconceito, a discriminação e o racismo imperam dentro e fora da comunidade e condicionam, ainda mais, as poucas oportunidades.

Entre a denúncia de muito do que falha na lógica dos bairros sociais, território de exclusão e de "desempoderamento", Entroncamento tem um lado feminista bem vincado. As duas mulheres do filme, Laura (Ana Vilaça) e Nádia (Cleo Diára), assumem um papel preponderante: contra abusos, violência ou racismo, são elas quem luta para fugir das alternativas que têm pela frente: uma vida de pobreza, de vício ou de crime. O realizador coloca estas duas mulheres em situações mais associadas a personagens masculinas e mostra como a fórmula de Jean-Luc Godard "uma Mulher e uma Arma" continua a funcionar perfeitamente no Cinema.

As personagens são realistas, muito devido à grande dedicação de actores amadores e profissionais e à ligação que Pedro Cabeleira estabelece com e entre ambos. Há naturalidade nos diálogos, nos conflitos e nos olhares, sem qualquer tipo de esforço ou formalidade.

No elenco, há uma transfiguração dos actores profissionais e várias descobertas entre os, até então, amadores. Enorme destaque para a protagonista, a magnética Ana Vilaça. A actriz incorpora Laura carregando o peso de um passado deixado no Porto, com marcas visíveis de violência e a revolta escondida numa postura observadora e desafiante. A grande descoberta de Pedro Cabeleira é Henrique Barbosa, o ex-presidiário Gilinho, em busca de redenção e de estabilidade para a família que construiu com Nádia (Cleo Diára) e a sua filha. Gilinho é um solitário jovem cigano em cisão com a família de sangue, que o despreza por ter escolhido uma mulher negra como companheira de vida. Um novo actor a ter em grande conta.

No seu todo, o elenco merece elogios: Rafael Morais, Tiago Costa, Cleo Diára, Sérgio Coragem, André Simões, Maria Gil ou Ivo Arroja, entre outros, transformam Entroncamento num grande filme.

Tecnicamente irrepreensível, a câmara, irrequieta como as personagens, introduz a plateia no meio da acção, entre conversas, rivalidades, lágrimas e violência. A direcção de fotografia, mais uma vez a cargo de Leonor Teles, capta as cores incertas mas vívidas do dia e as sombras e luzes da noite, os reflexos de um passado que paira e assombra e o desalento de um futuro que não se vislumbra.

Entroncamento é uma obra pouco comum no cinema português, um filme desafiante, de denúncia da pobreza dos que são deixados à margem da sociedade, e que, ao mesmo tempo, consegue espelhar alguma esperança no meio do desalento. Os anos de amadurecimento do argumento fizeram bem à longa-metragem e revelam uma evolução e nova abordagem do realizador.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Crítica: Hamnet (2025)

"What is given may be taken away at any time."
Mary


*6.5/10*

Em Hamnet, a realizadora Chloé Zhao adapta ao grande ecrã o romance homónimo de Maggie O’Farrell, sobre a tese que defende que foi o filho de Shakespeare a inspirar a criação da obra Hamlet.

Com uma primeira parte forte e de cores vibrantes, onde Jessie Buckley resplandece em cada plano, o decorrer da longa-metragem põe a nu as fragilidades da cineasta, ainda sem um estilo que a distinga, ou elementos autorais que a façam destacar-se no meio cinematográfico.

"1580, Inglaterra. William Shakespeare (Paul Mescal), um professor de latim empobrecido, conhece Agnes (Jessie Buckley), uma mulher de espírito aberto. Iniciam um romance intenso que leva ao casamento e a três filhos. Will prossegue a sua carreira teatral em Londres e Agnes assume sozinha as responsabilidades domésticas. Quando uma tragédia ocorre, o vínculo inabalável do casal é posto à prova. Essa experiência partilhada prepara o terreno para a criação da obra-prima intemporal de Shakespeare, Hamlet."


A importância do amor e da família, a relação com a Natureza e, principalmente, a superação no luto são os temas mais presentes em Hamnet.

O filme de Chloé Zhao conta, inicialmente, a história de amor de Will e Agnes: como se conheceram e conquistaram mutuamente e as dificuldades que enfrentaram para se casarem, perante a oposição das famílias. A vida de casados fragiliza a relação - e a própria longa-metragem -, aumentando a insatisfação de Will por trabalhar com o pai e frustrado por não conseguir viver da escrita. Decidido a procurar uma vida melhor, parte para Londres, deixando Agnes a cuidar da casa e dos filhos, num esforço imenso para suportar as ausências do marido.


O talento de Jessie Buckley como Agnes é a grande força de Hamnet. Buckley encarna uma mulher incomum no seu tempo. Órfã, a viver com o irmão, os meios-irmãos e a madrasta, o seu refúgio é a floresta e o seu falcão de estimação. Ela é uma espécie de mestre de falcoaria, e a esse dom acrescenta outro, que herdou da mãe: tem premonições, que parecem advir da sua fusão com o misticismo da Natureza. Enquanto o seu falcão voa livremente, ela também é livre e plena na floresta (quase encantada) que domina como se dela fizesse parte. Os dois são livres naquele espaço, entre o céu, as grandes árvores, as plantas e a terra. É também ali que dá à luz a primeira filha, junto às raízes da árvore onde também ela nasceu. Quando se afasta da floresta, a tristeza e o desnorte começam a tomar conta da personagem, e a actriz representa-o como poucos. 


Paul Mescal incorpora um jovem Will idealista e apaixonado, cujo talento parece só poder singrar em Londres, para onde se muda após a frustração de trabalhar sobre o jugo do pai, e em busca de um futuro mais seguro para a mulher e filhos. A certo momento, é a tragédia da sua vida que inspira Will a transformá-la em ficção teatral, como se esta peça fosse uma forma de redenção pela ausência na vida dos filhos e da esposa. E não é retratando a tristeza, mas sim dando uma nova vida à personagem principal.

As cores do filme são um dos seus pontos fortes: cores vívidas sem encadear, no meio da Natureza, numa quase fusão entre Agnes e a sua floresta, quando tudo era mais leve e feliz; cores mais escuras e tristes, com muitas sombras, onde as velas e as janelas têm um papel fundamental, quando a vida adulta chega, a família cresce, e as dificuldades surgem de forma mais bárbara e cruel. Aqui há que destacar o bom trabalho da direcção de fotografia, guarda-roupa e direcção artística conjuntamente.


Chloé Zhao não se afirma particularmente como realizadora com Hamnet, mas dá aos actores - adultos e crianças - um profundo desafio interpretativo, onde enfrentam a dor da perda, o amor incondicional e a capacidade de superação, individual e colectiva.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Crítica: Valor Sentimental / Sentimental Value (2025)

"You two are the best thing that's ever happened to me."
Gustav Borg


*9/10*

Valor Sentimental é, até ver, a obra maior de Joachim Trier. Segue a linha melancólica dos seus filmes, que encaram o drama com um toque de humor, e, depois de A Pior Pessoa do Mundo (uma espécie de jovem adulto com medo de crescer), a sua última longa-metragem atingiu a maturidade da filmografia do cineasta norueguês.

Após anos de ausência, as irmãs Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) e Nora (Renate Reinsve) reencontram o pai, Gustav (Stellan Skarsgård), um conhecido realizador. Gustav oferece a Nora, actriz de teatro, o papel principal no seu novo filme, mas ela recusa. Magoado, Gustav entrega o papel a uma jovem estrela de Hollywood, Rachel (Elle Fanning), despertando antigas feridas e tensões familiares.

É a partir da Casa da família, testemunha de gerações, que a história de pai e filhas é apresentada. Ela, que acompanhou mortes e nascimentos, ressurge e ganha uma nova vida com o regresso de Gustav e da ideia que tem para o seu novo filme.


Valor Sentimental é um mergulho profundo na complexidade das relações familiares, um drama terno, apesar de carregado de ressentimentos. Joachim Trier filma a redenção e a consciência do envelhecimento. Capta os esforços de reconciliação, mesmo que não se saiba bem como agir; as explosões de raiva, a mágoa que se construiu por cima do que ficou por dizer.

A psicologia das relações humanas não é fácil de entender e, aos poucos, as personagens vão abrindo o coração à plateia, entre traumas e desilusões. Entre as irmãs, magoadas pela ausência do pai no seu crescimento, guardam-se segredos. Há um passado pesado que moldou a personalidade de cada uma e que faz com que haja uma extrema necessidade de protecção entre elas. Renate Reinsve (colaboradora habitual do realizador) e Inga Ibsdotter Lilleaas são extraordinárias, tão diferentes e tão reais.


E eis que Gustav deverá ser o papel da vida de Stellan Skarsgård, a consagração do seu talento. A fragilidade da idade contrasta com o orgulho e teimosia que definem a sua personalidade. Este homem seguro e sedutor depara-se finalmente com quem lhe faz frente - as filhas. É aí que começa a consciência de que o tempo passou e que a idade limita o corpo e os instantes que restam para corrigir os erros. A necessidade de redenção é urgente.

A melancolia de Trier percorre Valor Sentimental nas cores (com uma direcção de fotografia que tira o melhor partido da película de 35mm), no argumento (mesmo que alguns momentos sejam ligeiramente previsíveis), nos planos, nas personagens... Há silêncios, tempo para respirar, num convite à introspecção, à mesma autodescoberta que se vê nas personagens.


Visualmente belíssimo, Valor Sentimental é tão emocionalmente intenso, que é com ele que Joachim Trier mostra como o seu cinema se está a tornar adulto e cheio de personalidade. E cada vez mais próximo do público.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Crítica: Kontinental '25 (2025)

*7.5/10*


Em Kontinental '25Radu Jude regressa com a rebeldia que o caracteriza, enquanto homenageia Europa '51 (1952), de Roberto Rossellini. Quase 70 anos depois, o realizador romeno mostra com os temas de 1952 se mantêm presentes, adaptados à cruel realidade actual.

"Orsolya é uma oficial de justiça em Cluj, a principal cidade da Transilvânia. Um dia, ela é obrigada a despejar um sem-abrigo que vive na cave de um prédio. Um acontecimento inesperado cria uma crise moral que ela tenta resolver da melhor maneira possível."


O poder das grandes imobiliárias e a crescente especulação nas cidades europeias - e com eles, a crise na habitação, tão familiar a Portugal - são o ponto de partida para o infinito sentimento de culpa que se apodera de uma pacata oficial de justiça, Orsolya (ela que recusa fazer despejos no Outono e Inverno, pois não aguenta a violência de colocar pessoas na rua durante os meses mais frios). 

O trágico destino do sem-abrigo despejado é culpa de um Estado Social que não funciona, mas  Orsolya, apesar de saber que não tem qualquer responsabilidade ao abrigo da lei, fica obcecada com a ideia de que poderia ter feito mais e culpabiliza-se. 


Ela precisa desabafar. Amigos, colegas de trabalho e família são (quase todos) bons ouvintes, mesmo que nem sempre compreendam ou tomem partido da oradora. Também eles testemunham injustiças e partilham-nas, mostrando o que fazem para que não sintam sobre si a responsabilidade pelo próximo.

No meio do drama, lá está o tom sarcástico de Radu Jude, que despoleta risos envergonhados - mas sentidos - da plateia, que partilha um pedaço da culpa de Orsolya e a que cada um carrega nas suas vidas, perante tantas injustiças a que se assiste passivamente.

Entre a consciência pesada que não a deixa e os insultos que recebe nas redes sociais, torna-se aceitável que Orsolya se refugie no álcool, num quase desconhecido que também tem muito para dizer, ou mesmo na fé, para encontrar a consolação para a tristeza que teima em não deixá-la.


Para além da empatia cobarde que rodeia a história da protagonista e do sem-abrigo, Radu Jude abarca um conjunto de temas que tem insistido em acompanhar nos seus mais recentes filmes. Volta a abordar a corrupção na Roménia, da qual tem sido um crítico feroz, e não deixa de tocar nos temas da guerra e da fome, que são também problemas mundiais. Em Kontinental '25, juntam-se ainda as tensões étnicas locais, entre romenos e húngaros, que dirão mais aos cidadãos da Transilvânia (região onde a acção decorre e onde a protagonista vive), mas que roçam a xenofobia e resultam de conflitos históricos mal resolvidos.

A gentrificação das cidades é outro tema espelhado na longa-metragem. O realizador filma a cidade de Cluj e a zona de Florești, a primeira com a sua arquitectura confusa, em que os estilos se misturam e lhes conferem alguma entropia visual, com a bonita identidade histórica a perder-se entre as construções modernas que a descaracterizam. Já em Florești, a urbanização em massa não pára de crescer e começa a tomar conta do sossego habitual. Locais que reflectem aos problemas da sociedade.


Kontinental '25 é dos filmes mais certeiros do sempre insubmisso Radu Jude. Com poucos meios, o cineasta romeno capta a realidade mais crua, ao mesmo tempo que o humor se apodera da tragédia, com os planos e as situações mais inesperados a "intrometerem-se" na acção.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Crítica: Foi Só Um Acidente / It Was Just an Accident / Yek tasadef sadeh (2025)

*9/10*


Desde que foi condenado, em 2010, a seis anos de prisão e a uma proibição de 20 anos de exercer actividades cinematográficas, que a filmografia de Jafar Panahi espelha o seu estado de espírito - e cresce a olhos vistos. Em 2011, Isto Não É um Filme foi uma leve provocação à sentença que lhe calhou, e retratava o cineasta em prisão domiciliária, na companhia da sua iguana de estimação, e do realizador Mojtaba Mirtahmasb. Juntos, pretendiam mostrar o poder do cinema contra a repressão e liberdade de expressão. Em 2013, Closed Curtain foi uma espécie de grito de desespero de Panahi, um murro no estômago também para o público. Em Taxi (2015), começaram as suas "aventuras" pelas ruas de Teerão numa docuficção onde Panahi interpreta um taxista. Já Três Rostos e Ursos Não Há são duas incursões noutros territórios, com o realizador a interpretar-se a si mesmo na acção. 


Foi Só Um Acidente é filmado depois de, em 2022, as autoridades iranianas terem voltado a prender Jafar Panahi durante sete meses, até este ter feito uma greve de fome e pago uma caução. A revolta está espelhada na longa-metragem, criada a partir de várias conversas com outros reclusos do regime iraniano, e que se revela bastante diferente das suas antecessoras. 

"Eghbal viaja de carro com a mulher grávida quando atropela e mata um cão. Encalhado na estrada, procura ajuda na garagem de Vahid, sem saber que o seu salvador acredita que é ele o agente prisional que o torturou."

O pânico que toma conta de Vahid ao reconhecer a voz e os passos de Eghbal rapidamente se transforma num insaciável desejo de vingança: mas sem nunca lhe ter visto a cara durante o tempo em que esteve preso, as dúvidas começam a assolá-lo. E é a partir daí que se entra numa espécie de road movie rumo à mais justa vingança possível. E eis que entram em cena outros antigos presos políticos, submetidos a torturas arrepiantes pela mão do mesmo homem. Pagar na mesma moeda a quem lhes arruinou a vida pode não ser a decisão mais ética, mas aqui o que importa é não se vingarem do homem errado.


O conflito moral é o motor de Foi Só Um Acidente e Jafar Panahi sabe como adensá-lo até ao extremo, desde logo ao começar por humanizar o possível torturador na primeira cena, mostrando a sua família: uma filha pequena e a mulher grávida.

Este é, sem dúvida, o filme mais violento do realizador iraniano. Pouco gráfico, mas muito agressivo nas palavras e ideias. Os horrores relembrados pelos antigos presos políticos, representados pelos vários actores, e todas as formas de exteriorizar a raiva e o ódio que sentem são uma arma para desafiar o sistema doentio onde sobrevivem.


Filmado em segredo, a grande maioria das cenas de Foi Só Um Acidente são rodadas em zonas isoladas ou de dentro da carrinha - ela própria testemunha de todos os pecados ou arrependimentos das personagens. Este secretismo estende-se da realidade à ficção, e a tensão passa para o outro lado do ecrã, que assiste também impassível a todas as injustiças cometidas pelo regime iraniano.


E no meio deste drama violento, há momentos de humor que não fazem desaparecer a aura pesada de Foi Só Um Acidente, mas recordam que continua a ser Panahi atrás da câmara. Sente-se brutalmente a sua revolta e desilusão com o país que ama, mas é sempre o seu coração pacificador a tomar as rédeas. Uma lição de vida para todos que o assistam.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Crítica: Complô (2025)

*8.5/10*

A voz forte e rouca de muitas lutas faz-se ouvir em Complô, onde João Miller Guerra segue Bruno Furtado, o rapper Ghoya, no plano criativo e pessoal, criando um retrato do músico e do homem.

"Órfão de um país onde nasceu, órfão do Estado. Encarcerado metade da sua vida, sempre livre. Bruno é 'Ghoya', rapper crioulo e activista político. Este filme, um espaço de encontro num momento da luta e da vida."

Complô começa por apresentar o Bruno Furtado activista, um homem seguro, de discurso articulado e fluido e palavras fortes, numa manifestação, em 2020, contra o assassinato do actor Bruno Candé e pelas vítimas do racismo. É a partir daqui que o protagonista se desconstrói perante a câmara.

Dentro e fora do estúdio, entre o processo criativo e o pesadelo burocrático nacional, o realizador acompanha Ghoya, ao longo de vários anos, no seu quotidiano, tornando-se, ele mesmo, parte da família que acompanha o rapper.

Nascido em Lisboa, Bruno cresceu e estudou em Portugal, passou parte da infância no desaparecido bairro das Fontaínhas (dos filmes de Pedro Costa), e cedo ficou sob a tutela do Estado, primeiro em colégios, mais tarde na prisão. O rapper reflecte sobre este passado, ainda recente, e a falta de apoio na reinserção, para além de todas as dificuldades que o deixam num limbo de identidade.

Nos momentos de maior desalento, criar música é a terapia. E, entre amigos, comenta-se com ironia, que falar crioulo parece ter virado moda entre os jovens portugueses brancos, mas sempre tão mal visto quando quem o fala são os seus herdeiros negros. Um pequeno reflexo das contradições de um país que continua a não assumir o seu racismo intrínseco e estrutural.

Complô é o retrato de um artista, mas é, principalmente, uma forma de revelar os órfãos que o Estado invisibiliza há décadas; um tocante manifesto de Ghoya através da sua música e de Miller Guerra através do seu cinema. 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Doclisboa 2025: Tales of the Wounded Land (2025)

*7/10*

Também o Líbano não tem saído incólume das investidas de Israel, e Tales of the Wounded Land (Hikayat elbeit elorjowani), de Abbas Fahdel, é espelho da destruição (resultado dos ataques de Israel, que duraram cerca de ano e meio e cessaram, aparentemente, em Novembro de 2024) que marcou a paisagem e cada um dos habitantes da região.

Neste caso, a câmara está do lado do realizador - franco-iraquiano, radicado no Líbano -  e da sua família, onde a filha pequena parece não estranhar ouvir os bombardeamentos enquanto brinca (e até os repete), como algo que se começa a tornar normal no seu quotidiano.

Da janela vê-se a guerra a aproximar-se, de dia para dia, da casa da família, em Nabatieh, no sul do país. Até que, para eles, só a fuga temporária pode ser a solução, deixando para trás a casa, os animais e os vizinhos que resistem. Tempos depois, dá-se o regresso e a constatação do que mudou e do que permaneceu. Mas, agora, a criança tem medo de voltar à casa dos pais. Entre o choque da destruição e o reencontro com quem ficou, o desgosto e a alegria misturam-se e a comoção é inevitável. 

As várias imagens captadas por drone dão a ideia real da destruição sem fim à vista, ao longo de muito quilómetros, e da morte ao filmar uma interminável procissão de caixões.

Filmado na primeira pessoa, Tales of the Wounded Land cria uma proximidade e envolvência muito fortes com a plateia e só peca pela duração excessiva de alguns planos repetitivos na ideia a transmitir. 

Segundo palavras de Abbas Fahdel: “O meu filme nasceu da necessidade de testemunhar uma guerra que destruiu as nossas vidas e os nossos lares e mostrar que, apesar de tudo, a resiliência e a humanidade continuam a florescer no meio das ruínas”. Mais uma guerra sem razão, que apaga a memória das terras e das gentes. Todavia, no meio dos escombros, há vidas que resistem e só procuram normalidade e paz.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Crítica: Depois da Caçada / After the Hunt (2025)

"I feel like deep inside I always expected this. I expected the rottenness in me to be seen by other people right before I managed to expunge it."
Alma Imhoff


*5.5/10*

Luca Guadagnino tem trabalhado a bom ritmo, com três filmes em dois anos. Depois de Challengers (2024) e Queer (2024), é a vez de Depois da Caçada (2025), um filme mais sóbrio e com muito menos da alma provocadora e ambiciosa do realizador.

A longa-metragem acompanha uma "professora universitária (Julia Roberts) que se encontra numa encruzilhada pessoal e profissional quando uma aluna excepcional (Ayo Edebiri) faz uma acusação contra um professor (Andrew Garfield), e um segredo obscuro ameaça vir à tona".


Luca Guadagnino escolheu um caminho menos colorido e vibrante, menos sensual e demasiado teórico, revelando uma faceta pouco habitual na sua filmografia. Sente-se uma preguiça narrativa e técnica pouco comum no realizador. Numa história que toca no movimento #metoo, neste caso a acusação de assédio de uma aluna a um professor, o realizador coloca a plateia perante grandes dissertações filosóficas e um leque de personagens dúbias e nada empáticas.

E esta característica comum às três personagens centrais - de Maggie, a alegada vítima, a Hank, o alegado agressor, passando pela professora e amiga comum, Alma -, é um dos poucos encantos do filme. Não é habitual o espectador sentir repulsa pelos protagonistas e não encontrar ninguém em quem confiar. Esse lugar desconfortável em que o realizador coloca quem assiste é um dos pontos fortes de Depois da Caçada. Tanto Alma como Maggie e Hank são intragáveis, misteriosos e carregados de uma perversão que repele o espectador, ao mesmo tempo que cria nele uma curiosidade mórbida, qual voyeur


Para esta espécie de magnetismo implacável, muito contribuem Júlia Roberts como Alma, segura e aparentemente inabalável, e Andrew Garfield na pele de Hank, um homem sensual, inteligente, mas inseguro e pouco confiável. O ponto fraco das interpretações está em Ayo Edebiri como Maggie, uma vítima pouco credível e sempre em overacting, tornando tudo demasiado forçado.

Depois da Caçada é um filme de muitas palavras e pouca acção, suspense q.b., que resulta numa prometedora mão cheia de quase nada. Salvo Julia Roberts e Andrew Garfield.