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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Os Melhores do Ano: Top 20 [10.º - 1.º] #2023

Em dia de aniversário do  blog, e depois da primeira parte do Top 20 de 2023 do Hoje Vi(vi) um Filme, revelo agora os dez lugares cimeiros. Ficção, documentário e fantasmas do Passado são os principais ingredientes deste Top 10.

Eis os meus 10 favoritos de 2023 (estreados no circuito comercial de cinema e streaming, em Portugal). 


10.º Os Espíritos de Inisherin / The Banshees of Inisherin (2022), Martin McDonagh

Partindo de uma zanga entre dois amigos, Martin McDonagh faz uma reflexão sobre a existência em Os Espíritos de Inisherin. Uma comédia dramática, com um leve toque de nonsense, muito mais profunda do que possa parecer. 


9.º Viagem ao Sol / Journey to the Sun (2021), Ansgar Schaefer e Susana de Sousa Dias

Viagem ao Sol, de Ansgar Schaefer e Susana de Sousa Dias, é o resultado de muitos anos de pesquisa e entrevistas, cuja montagem ditou o rumo a seguir: o olhar das crianças austríacas sobre a guerra e a experiência que milhares delas tiveram no Portugal solarengo dos anos 40. O documentário confronta a plateia com o impacto deste olhar, na formação da memória individual e colectiva. E mostra como a guerra impacta para sempre a vida das crianças que têm a infelicidade de a viver, algo válido na Segunda Guerra Mundial e em todas as guerras actuais, onde são elas as maiores vítimas. 


8.º Retratos Fantasmas (2023), Kleber Mendonça Filho

Imaginação e realidade fundem-se como provocação de Kleber Mendonça Filho no seu mais recente documentário Retratos Fantasmas, uma viagem espácio-temporal ao centro da cidade do Recife, no Brasil, entre a vivacidade dos tempos áureos e a decadência a que as décadas a têm vetado. Em cada recanto, um espírito do passado, uma memória e, principalmente, a resistência. Tudo isto, contado através do(s) cinema(s).


7.º A Baleia / The Whale (2022), Darren Aronofsky

Darren Aronofsky está de regresso ao cinema opressivo e naturalista com que começou a construir a sua filmografia e personalidade enquanto cineasta. A Baleia mostra um homem a desistir de viver: uma interpretação de total entrega por um Brendan Fraser renascido, exímio ao mostrar a degradação física e psicológica da personagem, e que carrega o sofrimento e o peso das próteses e maquilhagem que usa ao longo do filme. A Baleia é uma obra de redenção do protagonista, mas igualmente do realizador que voltou às origens e aos grandes filmes. 


6.º La Llorona (2019), Jayro Bustamante

Quando o cinema recorre à História de um país para aterrorizar a plateia, ressuscita fantasmas mal enterrados e estabelece a necessidade de confronto entre passado e presente, o resultado pode ser realmente especial. Em La Llorona, o realizador guatemalteco Jayro Bustamante reinventa a lenda  do folclore hispânico com o mesmo nome, fazendo-a tomar o corpo dos indígenas que choram pelos seus mortos e desaparecidos durante a guerra civil na Guatemala.


5.º Pearl (2022), Ti West

Perturbador e genial como o seu antecessor (X, que fez parte desta mesma lista relativa às estreias de 2022 em Portugal), Pearl consegue ir ainda mais além, ao apresentar o retrato da perversa e insana protagonista que sonha ser actriz de cinema. Mais um slasher moderno, com o génio e eficácia da união de esforços de Ti West com a protagonista Mia Goth, aqui também co-responsável pelo argumento.


4.º May December: Segredos de Um Escândalo (2023), Todd Haynes

Todd Haynes tem uma sensibilidade pouco comum para filmar personagens femininas misteriosas, e May December: Segredos de Um Escândalo vem reforçar esta sua qualidade. Duas mulheres fortes e de personalidades dúbias encabeçam este thriller psicológico, num mergulho profundo em traumas nunca superados, e uma descoberta constante do âmago de cada um.


3.º Assassinos da Lua das Flores / Killers of the Flower Moon (2023), Martin Scorsese

Eis Scorsese puro e duro, a pisar território índio - com respeito e humildade -, mas sempre com uma máfia de homens brancos a explorar terrenos e narrativa. Assassinos da Lua das Flores é uma obra opressiva, que clama por justiça, fazendo ressurgir o realizador fiel às suas temáticas, mas aberto a novos horizontes narrativos. 


2.º Nação Valente / Tommy Guns (2022), Carlos Conceição

Nação Valente, a segunda longa-metragem de Carlos Conceição, reaviva os fantasmas da guerra colonial em Angola, com o toque provocador e contemporâneo que caracteriza o realizador. As pistas vão sendo deixadas ao longo do filme, cuja narrativa esconde segredos acima e debaixo da terra. Os mortos estão prontos para lembrar os vivos das atrocidades que já esqueceram.


1.º Maestro (2023), Bradley Cooper

Maestro é um filme grandioso, a todos os níveis, revelando um Bradley Cooper maduro, que respira verdadeiramente cinema, dos dois lados da câmara. Um retrato comovente, empolgante e sem preconceitos de Leonard Bernstein e da sua companheira de vida, a actriz Felicia Montealegre Cohn Bernstein. Mais do que uma marcante experiência cinematográfica, Maestro é um retrato realista e comovente da relação entre dois artistas - tão diferentes, mas que se complementaram de forma tão humana. 

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Os Melhores do Ano: Top 20 [20.º-11.º] #2023

2024 já vai bem lançado, e é mais que hora de fazer o balanço do ano cinematográfico que terminou. Gostava de ter visto mais filmes e, principalmente, que mais títulos me enchessem as medidas. Ainda assim, aqui está o Top 20 de 2023, com filmes bastante equilibrados, de diversos géneros cinematográficos, digitais e analógicos (e com um Top 10 muito renhido).

Eis o Top 20 de 2023 do Hoje Vi(vi) um Filme, sempre tendo em conta as estreias no circuito comercial de cinema em Portugal ao longo do ano e nas plataformas de streaming. Aqui ficam os meus eleitos, do 20.º ao 11.º lugares.

20.º Oppenheimer (2023), Christopher Nolan

Não há dúvida que Christopher Nolan ama a Sétima Arte e tudo tem feito para proporcionar a melhor experiência possível em sala de cinema, desta vez, ao filmar com câmaras IMAX 65mm e grande formato 65mm e inclui, pela primeira vez, secções rodadas em película de 65mm IMAX a preto e branco, criada propositadamente para este filme. Ao mesmo tempo, os efeitos visuais - incluindo as explosões - são criados recorrendo apenas a efeitos práticos. Oppenheimer começa bem, perde-se ligeiramente pelo meio, até que resplandece quando surge a criação do cientista, e tudo o que daí advém. 


19.º Légua (2023), Filipa Reis e João Miller Guerra

Légua, de Filipa Reis e João Miller Guerra, é uma obra sobre a passagem do tempo, no corpo e no espaço. É a Natureza (também a Humana) no seu estado cinematográfico mais puro. Há uma luz que paira sobre cada passo de Ana. Em comunhão com a Natureza e com os animais, ela transmite paz e tranquilidade, apesar das circunstâncias. Ao filmarem em película, Filipa Reis e João Miller Guerra captam esta dimensão quase metafísica de plenitude e nostalgia, uma dualidade aparentemente impossível que rodeia Légua em cada plano. Eis a magia e a elegia da passagem do tempo.


18.º Missão: Impossível – Ajuste de Contas Parte Um / Mission: Impossible - Dead Reckoning Part One (2023), Christopher McQuarrie

O incansável Tom Cruise - verdadeiro defensor do projecto e do Cinema enquanto experiência em sala - dá, como sempre, tudo de si, quer em frente da câmara, quer no trabalho de bastidores. A trabalhar com Christopher McQuarrie desde Nação Secreta (2015), a dupla tem dotado os filmes de uma forte personalidade e unidade, tornando a saga mais sólida e coerente. Numa verdadeira roda viva de emoções, sequências de acção de tirar o fôlego e as já habituais cenas que desafiam a física ou a lógica, eis que surge a primeira parte de Missão: Impossível – Ajuste de Contas.


17.º Nayola (2022), José Miguel Ribeiro

Nayola percorre três gerações de uma família marcada pelas guerras em Angola. A primeira incursão de José Miguel Ribeiro nas longas-metragens equivale à estreia comercial da primeira longa portuguesa de animação. Com argumento de Virgilio Almeida, a partir da obra de José Eduardo Agualusa e Mia Couto, Nayola é uma história de amor e liberdade, que mostra a crueldade da guerra, e a luta feminina pela sobrevivência, cada uma à sua maneira, na sua época, através de memórias e da sensibilidade mágica do realizador.


16.º Saint Omer (2022), Alice Diop

Em Saint Omer, Alice Diop recria um julgamento e filma os contraditórios sentimentos de compaixão, dúvida e humanidade, perante alguém que cometeu um crime hediondo. A realizadora cria um filme sobre relações, com grande foco na maternidade - Rama está grávida, Coly não soube lidar com o nascimento de uma criança - e na relação entre mães e filhas. Ao mesmo tempo, toca nos problemas da imigração para quem chega a França - as duas mulheres em foco são imigrantes senegalesas -, a integração, o sentimento de pertença e as relações que se estabelecem (ou não) no novo país ou que se mantêm com a cultura do país de origem. 


15.º Aftersun (2022), Charlotte Wells

Aftersun, longa-metragem de estreia de Charlotte Wells, é o diário, melancólico e sensível, da relação entre pai e filha durante umas férias. O filme consegue vaguear entre a visão ingénua da criança e a profunda maturidade do que fica por dizer.


14.º A Voz das Mulheres / Women Talking (2022), Sarah Polley

Em A Voz das Mulheres, Sarah Polley criou um filme sobre o empoderamento feminino contra uma comunidade violenta e patriarcal. É inevitável vê-lo sem lembrar 12 Homens em Fúria, de Sidney Lumet. Só que, neste caso, a decisão de uma vida está nas mãos das Mulheres, as vítimas, reunidas num palheiro. De tranças entrelaçadas ou de mãos dadas, partilham-se dilemas e o medo do desconhecido, mas todas sabem que urge tomar uma decisão. A Voz das Mulheres é todo sobre o futuro e uma intensa lição de união.


13.º Saltburn (2023), Emerald Fennell

Saltburn é um labirinto de perversidade e ambição que resulta numa experiência cinematográfica essencialmente sensorial. O filme é um prodígio visual, seja pelos planos impactantes, como pelo trabalho da direcção de fotografia, potenciado pelo uso da película, captando cores quase irreais e um trabalho de luz e sombras que torna a acção ainda mais tenebrosa e inebriante. Emerald Fennell continua o seu percurso como realizadora com garra, sem medos nem tabus: o futuro só pode ser radioso - e agitado.


12.º Mal Viver (2023) / Viver Mal (2023), João Canijo

Há mulheres que não nasceram para ser mães: ou porque não tiveram o melhor exemplo, ou porque nunca encontraram o instinto maternal, ou porque são egoístas o suficiente para se amarem incansavelmente sem sobrar um pouco de amor para os filhos. Mal Viver e Viver Mal são o retrato destas mães e das suas filhas sem amor, e daqueles que as rodeiam e são, de uma forma ou de outra, contagiados pelo desamor e pela angústia.


11.º Tár (2022), Todd Field

Todd Field constrói um filme opressivo, com uma forte tensão a pairar, seja pelo ritmo frenético da vida de Lydia Tár, pelos boatos que a assombram, pelos fantasmas mais ou menos reais que lhe passeiam pela casa, ou pelas pontas soltas que a maestrina tem deixado ficar no seu passado.


*Mesmo às portas mas sem entrar neste Top 20 de 2023, destaque para os portugueses O Misterioso Caso de Lázaro Lafourcade, de Tiago DurãoCidade Rabat, de Susana NobreÍndia, de Telmo Churro.

sábado, 28 de janeiro de 2023

Os Melhores do Ano: Top 20 [10.º - 1.º] #2022

Depois da primeira parte do Top 20 de 2022 do Hoje Vi(vi) um Filme, revelamos agora os dez lugares cimeiros. Rebeldia, feminismo ou nostalgia são os principais ingredientes deste Top 10.

Eis os meus 10 favoritos de 2022 (estreados no circuito comercial de cinema e streaming, em Portugal). 

10.º X (2022), de Ti West

X é nostalgia pura, um slasher moderno que é todo ele uma homenagem ao cinema de terror (e não só). 


9.º Revolta (2022), de Tiago R. Santos

São apenas quatro actores dentro de uma casa, durante um jantar que não o chega bem a ser, assombrado pela pandemia, pelos filmes de John Carpenter, pelas redes sociais e por uma revolução nas ruas de Lisboa. Um filme minimalista e claustrofóbico, tal qual a época em que foi filmado.


8.º O Menu / The Menu (2022), de Mark Mylod

A experiência cinematográfico-gastronómica que O Menu, de Mark Mylod, proporciona não é para palatos sensíveis. Ralph Fiennes é o chef anfitrião, que dita as ordens neste pesadelo de emoções culinárias. E que delícia de comédia negra!


7.º Fogo-Fátuo (2022), de João Pedro Rodrigues

Provocador, sarcástico e eficaz, Fogo-Fátuo mantém e vai além dos temas que têm marcado a filmografia de João Pedro Rodrigues. O passado esclavagista português é indissociável da narrativa principal, mas igualmente a sexualidade, a política, os incêndios e o racismo. Assente essencialmente na estética, no culto dos corpos, o filme irá sempre despoletar sentimentos - sejam eles quais forem - na plateia, e ficará na cabeça - temas, imagens e canções - durante muito tempo.


6.º A Pior Pessoa do Mundo / Verdens verste menneske / The Worst Person in the World (2021), de Joachim Trier

Joachim Trier nunca traz temas fáceis para o seu cinema. Na aparente simplicidade dos seus filmes, há uma complexidade de emoções e sentimentos. A Pior Pessoa do Mundo é mais um exemplo - talvez o melhor da sua carreira - de como uma longa-metragem é capaz de criar um conflito de sentimentos na plateia, ao mesmo tempo que retrata as personagens com um realismo tão doce como cruel - tal qual a vida.


5.º Flee - A Fuga / Flugt (2021), de Jonas Poher Rasmussen

Flee - A Fuga revela na tela do cinema as confissões de uma vida e o sofrimento de um homem, guardado em segredo absoluto, ao longo de muitos anos. Jonas Poher Rasmussen cria um documentário, que junta a animação às imagens de arquivo, e conta ao Mundo a amarga história de superação de um jovem refugiado, de Cabul a Copenhaga. 





A Oeste Nada de Novo filma, com uma beleza aterrorizante, a Primeira Guerra Mundial do lado do inimigo - o dos alemães -, revelando a inutilidade de um conflito armado que ceifou milhões de vidas. A crueldade e a barbárie da guerra são retratadas com um realismo impressionante, num filme que ficará na memória pelo lado humano que capta, através de simples gestos ou olhares, e onde, afinal, todos foram vítimas.

3.º A Nossa Terra, O Nosso Altar (2020), de André Guiomar

Em A Nossa Terra, o Nosso Altar, André Guiomar entra no quotidiano e na intimidade das famílias do bairro do Aleixo (entretanto demolido), no Porto, ao longo de vários anos, seguindo a tensão e as mudanças impostas a uma comunidade unida por laços tão fortes como os de sangue.


2.º A Filha Perdida / The Lost Daughter (2021), de Maggie Gyllenhaal

Muito para além da maternidade, A Filha Perdida é também sobre liberdade de escolha, emancipação, arrependimento e redenção. Sem julgamentos, Maggie Gyllenhaal solidariza-se com as Ledas da vida real, contra expectativas desiguais.


1.º Drive My Car (2021), de Ryûsuke Hamaguchi

Ryûsuke Hamaguchi conduz-nos pela estrada sinuosa das emoções em Drive My Car e, na sua aparente simplicidade, chega aos mais profundos sentimentos, dentro e fora do ecrã. As três horas de filme propõem reflexão, introspecção e, todavia, nunca monotonia. Se, por um lado, uma morte precoce vem mudar a vida de várias personagens e o foco da acção, por outro, o Teatro - o texto e as palavras - tem um papel central na exorcização dos fantasmas que se teima em não deixar partir.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Os Melhores do Ano: Top 20 [20.º-11.º] #2022

2023 já começou, e é mais que hora de fazer o nosso balanço do ano cinematográfico que terminou. Não vimos tantos filmes como gostaríamos, não houve muitos que nos enchessem as medidas. Ainda assim, fizemos o nosso Top 20 cujos filmes são bastante equilibrados, de diversos géneros cinematográficos e onde se destaca a qualidade, em especial do Top 10.

Eis o Top 20 de 2022 do Hoje Vi(vi) um Filme, sempre tendo em conta as estreias no circuito comercial de cinema em Portugal ao longo do ano e nas plataformas de streaming. Aqui ficam os meus eleitos, do 20.º ao 11.º lugares.

20.º Restos do Vento (2022), de Tiago Guedes 

Tiago Guedes pretende imiscuir-se no centro da violência e perceber como pode ela ter origem nas sociedades envolventes. Esta pequena vila sem nome guarda em si o rastilho que faz despertar o que de pior pode existir no ser humano. Rituais ultrapassados, escondidos dentro de baús, estão mais vivos do que se pensa, num local onde parece não existir lei. E, por muita boa vontade que alguns tenham, as novas gerações cultivam os piores vícios e medos, da mesma forma que os seus pais: com humilhação, violência, machismo e abusos.


19.º 28½ (2020), de Adriano Mendes

28½ é o espelho dos obstáculos e do desencanto que o fim da inocência - e da adolescência - traz a cada um. O foco é a protagonista Teresa e os desvios e desfoques que a vida leva, por vezes, e que as palavras não são suficientes para explicar. 


18.º Top Gun: Maverick (2022), de Joseph Kosinski

É num cinema quase artesanal que Top Gun: Maverick se revela uma lufada de ar fresco entre os filmes de acção frenéticos e cheios de CGI que povoam as salas. Eis como a simplicidade faz a diferença, e como ir ao cinema ver um blockbuster ainda pode oferecer boas surpresas. Eis Maverick no seu esplendor.


17.º O Homem do Norte / The Northman (2022), de Robert Eggers  

O Homem do Norte veio alargar o espectro da filmografia de Robert Eggers, reforçando a criatividade e o talento que o realizador tem para entorpecer as audiências e, ao mesmo tempo, prendê-las à visceralidade tanto visual como psicológica da sua obra.


16.º Crimes do Futuro / Crimes of the Future (2022), de David Cronenberg

A estranheza está de volta ao cinema de David Cronenberg. Num futuro onde tudo é antigo e está em ruínas, os corpos alteram-se e a dor, o prazer e a arte misturam-se para o êxtase das massas, que sempre deliraram com o grotesco. Eis Crimes of the Future, a sua estética singular e personagens tão ambíguas, mas igualmente fascinantes. 


15.º Casa Flutuante (2022), de José Nascimento 

Casa Flutuante marca o regresso de José Nascimento à ficção, numa alegoria entre o passado e o presente de Brasil e Portugal. Colonizadores contra índios, fazendeiros e poderosos contra a floresta e suas tribos: ganância vs. Natureza. O filme deixa-nos num limbo entre as origens e o sentimento de pertença, num filme que transcende fronteiras, crenças e possibilidades, através de uma aura mística impossível de catalogar.


14.º Nope (2022), de Jordan Peele 

Mistério, humor e muitas referências cinematográficas, fazem de Nope mais uma prova da criatividade de Jordan Peele, que reforça a sua posição como um dos mais notáveis realizadores de terror da actualidade.


13.º Alma Viva (2022), de Cristèle Alves Meira

Observadora nata, Cristèle Alves Meira revela grande talento para filmar o sobrenatural, com um toque de humor e intimidade, potenciada pelas memórias que guarda da infância. Aliada à experiência mágica que proporciona, Alma Viva é feminismo e é, com certeza, Mulher.


12.º Decisão de Partir / Decision to Leave / Heojil kyolshim (2022), de Park Chan-wook

Park Chan-wook adora enigmas cinematográficos e Decisão de Partir não foge à regra. Um filme desafiante, de crimes por resolver e amores impossíveis. 


11.º Os Fabelmans / The Fabelmans (2022), de Steven Spielberg

Steven Spielberg filma a sua magia do Cinema em Os Fabelmans, um épico autobiográfico em jeito de elogio à Sétima Arte e à família. Uma obra íntima e tocante, que reflecte a alma do seu autor. 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Os Melhores do Ano: Top 20 [10.º - 1.º] #2021

Depois da primeira parte do TOP 20 de 2021 do Hoje Vi(vi) um Filme, revelamos agora os dez lugares cimeiros. Há uma certa melancolia latente nestes títulos, a alguns junta-se-lhe a revolta, a outros a saudade. 

Eis os meus 10 favoritos de 2021 (estreados no circuito comercial de cinema e streaming, em Portugal). 

10.º Pig - A Viagem de Rob, de Michael Sarnoski (2021)

Pig - A Viagem de Rob é a primeira longa-metragem de Michael Sarnoski, um filme cru e melancólico sobre solidão, perda e amor incondicional.


9.º Uma Miúda com Potencial / Promising Young Woman, de Emerald Fennell (2020)

Através da protagonista, Cassie, o filme de Emerald Fennell quer fazer justiça, enquanto joga, ironicamente, com a culpabilização da vítima e o elogio do criminoso. Do título às situações retratadas, Uma Miúda Com Potencial tudo discorre em redor de abusos e da noção de consentimento. O argumento constrói-se a partir daí e, dividido em vários actos, é inesperado até ao fim (mesmo que ambicionássemos uma conclusão bem mais inspirada).


8.º A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos (2020)

O mergulho nas memórias que uma casa guarda, ao longo de décadas de vida em comum, traz razões, reflexão, imaginação. E o ciclo da vida, que por vezes se repete, mesmo que de formas distintas, pode unir na dor e na experiência. O papel da Mãe na vida dos filhos; uma mãe árvore, qual mãe Natureza; a incapacidade de qualquer filho lidar com a ausência da figura materna, e a luta que trava com essa ideia; este filme transforma-se e transforma as emoções de quem o vê, tal como a antiga invenção de uma "metamorfose dos pássaros", que tranquiliza e apazigua tudo o que é impossível de explicar.


7.º Undine, de Christian Petzold (2020)

O tom trágico do cinema de Christian Petzold vem-se firmando em cada filme, alcançando uma aura mitológica e mágica no mais recente Undine. A dualidade de significados paira desde o início, num filme desafiante e encantador.


6.º O Poder do Cão / The Power of the Dog, de Jane Campion (2021)

Para além das vacas e de homens a cavalo (ou dos índios que aqui surgem em paz, longe de ser uma ameaça), há pouco de western no filme de Jane Campion. Em jogo estão relações interpessoais, que vão do amor à humilhação, da provocação à cumplicidade. Em redor da narrativa, está ainda aquilo que a sociedade espera de cada um, segundo as convenções da época; já quem vive fora da norma, o outsider naquele local, pode ser facilmente a vítima - ou o predador.


5.º O Pai / The Father, de Florian Zeller (2020)

O Pai aborda uma história simples e realista de envelhecimento e perda - de faculdades, de memórias, de laços... -, mas igualmente de dedicação e mágoa de uma filha. Zeller cria um drama desolador, pincelado por momentos de humor requintado, porque na tristeza também se encontram alguns sorrisos e amparo.


4.º Mães Paralelas / Madres paralelas, de Pedro Almodóvar (2021)

Pedro Almodóvar regressa às mulheres do seu Cinema, enquanto também recupera a memória do povo espanhol, que muitos querem que o tempo apague. Em Mães Paralelas, os laços de sangue e a herança histórica andam de mãos dadas.


3.º The Card Counter: O Jogador, de Paul Schrader (2021)

Tell não se comanda pela sorte ao jogo. Para ele, à mesa do casino, contam-se as cartas e joga-se com o bluff, sabendo sair no momento certo. Já na vida real, nem sempre é possível. Em The Card Counter: O Jogador não há santos, mas existe um muito forte desejo de redenção.


2.º Colectiv - Um Caso de Corrupção / Collective, de Alexander Nanau (2019)

Directamente da Roménia, Colectiv é um documentário que expõe as fraquezas e pecados de um Estado corrupto e doente. O realizador Alexander Nanau leva-nos aos bastidores da política e de uma investigação jornalística na sequência de um caso arrepiante.


1.º Mais Uma Rodada / Druk, de Thomas Vinterberg (2020)

Thomas Vinterberg convida-nos para um copo, para que o álcool de Mais Uma Rodada (Druk / Another Round) nos leve a uma reflexão sobre a vontade de viver. Esta ideia aparentemente louca não provoca ressacas, pelo contrário, é capaz de nos divertir e comover, na mesma medida.