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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Entrevista a Jorge Pelicano, realizador de Tony

Tony, o documentário sobre Tony Carreira, chegou aos cinemas esta Quinta-feira, dia 25 de Julho. O Hoje Vi(vi) um Filme fez algumas perguntas ao realizador, Jorge Pelicano, cuja filmografia conta com títulos como Ainda Há Pastores? (2006), Páre, Escute, Olhe (2009), Pára-me de Repente o Pensamento (2014) e Até Que o Porno nos Separe (2018).


Como surgiu a oportunidade de fazer este documentário sobre Tony Carreira?
Jorge Pelicano: No final de 2017, a produtora Até ao fim do Mundo  - onde trabalho como realizador – fez o convite ao Tony. Ele estava a comemorar os 30 anos de carreira e esse seria o mote. Por coincidência, o Tony anunciou uma pausa na carreira e isso acabou ser explorado na narrativa do filme. Como é que o músico de maior sucesso em Portugal vai lidar com a ausência dos palcos? 

Tendo em conta que o cantor gosta de manter a sua privacidade, como foi o processo de construir uma relação de confiança para entrar na sua intimidade?
Jorge Pelicano: Não o conhecia pessoalmente e ele também não conhecia o meu trabalho. Fiquei surpreendido com a sua simplicidade no primeiro encontro.  Não é a vedeta que estava à espera e isso ajudou no “ganhar confiança”. Somos naturais do mesmo distrito, ambos somos um “bom garfo” e isso ajudou na fase inicial. Quando o comecei a filmar ele questionava-me“Jorge, o que queres que faça?”, ao qual respondia “Quero que sejas tu”. Na segunda semana de rodagem a câmara tornou-se invisível e comecei a sentir o homem por detrás do artista.

Tony é, sem dúvida, o teu filme mais comercial. Como lidas com isso?
Jorge Pelicano: O cinema, teatro, pintura, música, as artes em geral, sempre existiram e representaram vários tipos de públicos. Infelizmente, a diversidade e pluralidade artística ao fim de tantos anos continua a ser questionada. Neste filme, uma linguagem mais acessível enquadra-se mais com o público do universo do Tony e isso é assumido. Não quero com isto dizer que o público-alvo ergue fronteiras apenas neste universo, pelo contrário, queremos trazer o público que não é fã do Tony e que têm preconceitos com o artista e a sua música. Numa altura em que o cinema vai perdendo espectadores para outros meios e plataformas, penso que um filme “mais comercial” pode trazer novos públicos às salas. 

Quais foram os principais desafios neste documentário?
Jorge Pelicano: Sabia que a maioria das pessoas conhecem a história do Tony. Nos últimos anos, a sua vida privada e profissional foi bastante mediatizada nas televisões e revistas. Sendo assim, a década dos grandes sucessos e auge da carreira é aquela que é menos abordada no filme. Interessou mais explorar o modo como ele conseguiu chegar ao topo e dificuldades e obstáculos que teve que ultrapassar. A primeira década da sua carreira é talvez aquela em que conseguimos trazer mais novidades, também ao nível das imagens de arquivo – grande parte delas inéditas.


Muitos acham que este é apenas um filme de promoção do artista. Como defenderias o teu filme? 
Jorge Pelicano: Quando iniciei a rodagem deste documentário, partilhei com amigos sobre o que estava a fazer e a pergunta era: “Mas esse filme é para limpar a imagem do artista? É para promoção do Tony?”. Somos assim, não há volta a dar, uma sociedade com ideias feitas, adquiridas através de generalidades e banalidades. Se existe pessoa que não precisa de promoção é o Tony Carreira. Temporariamente ou definitivamente, ele está fora do meio artístico. O documentário é o retrato do homem que é, com os seus defeitos e virtudes, as alegrias e tristezas, os sucessos e insucessos. Existe um momento do filme onde o Ricardo Landúm, compositor da maior parte dos sucessos do Tony diz: “O Tony é uma 'nódoa' em palco!”

Mudaste em alguma coisa a imagem que tinhas do cantor antes de o conhecer e de filmar Tony?
Jorge Pelicano: Por norma, não alicerço ideias feitas na minha cabeça antes de conhecer uma determinada pessoa. O Tony surpreendeu-me pela sua humanidade e simplicidade. Profissionalmente, fiquei espantado com a estrutura musical que construiu. A preocupação em ter os melhores equipamentos, técnicos e músicos. Essa é talvez uma das principais razões do seu sucesso.  

Quais os momentos que mais gosto te deram filmar?
Jorge Pelicano: Gostei de filmar o universo dos fãs, pessoas simples e trabalhadoras, muitas delas com vidas difíceis. As músicas do Tony preenchem um certo vazio que existe nestas vidas. Muitos identificam-se com as letras, dizem que já passaram por isso. Há sempre alguém com desgosto de amor, alguém que alimenta um sonho, a perda de alguém. É um retrato de Portugal, fora dos centros urbanos.


Tony chegou esta Quinta-feira aos cinemas portugueses. Que esperas da reacção do público? 
Jorge Pelicano: Muitas pessoas dizem que o sucesso está garantido tendo em conta a popularidade do Tony. Não penso dessa maneira. Uma coisa é ir aos concertos, outra é ir ao cinema. Mas acredito que a cumplicidade que existe entre o público e Tony consiga trazer pessoas para dentro da sala. Aquilo que reforço é que este não é apenas um filme do universo do Tony, pelo contrário, é a história de um homem que nos anos 70 emigrou para França e batalhou para conseguir aquilo que é hoje. Tony é também a história de muitos portugueses. 

Que projectos já estás a preparar para os próximos tempos?
Jorge Pelicano: Neste momento tenho um projecto documental a concurso no ICA sobre um aventureiro português que nos anos 70 tentou ligar São Tomé e Príncipe ao Brasil numa rudimentar canoa à vela. Logo no primeiro dia foi apanhado por uma tempestade e passou à condição de naufrago durante 38 penosos dias. Está vivo e ansioso por contar a sua história.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Hotel Império: Realizador e actores falaram com o Hoje Vi(vi) um Filme

Hotel Império, o novo filme de Ivo M. Ferreira, estreia esta Quinta-feira, dia 9 de Maio, nas salas de cinema nacionais. O Hoje Vi(vi) um Filme esteve no visionamento privado da longa-metragem e conversou um pouco com actores e realizador acerca deste trabalho, filmado integralmente em Macau. A longa-metragem é protagonizada por Margarida Vila-Nova, e conta com Rhydian Vaughan, Tiago Aldeia e Cândido Ferreira no elenco.


Margarida Vila-Nova fala quatro línguas diferentes no filme (cantonês, português, inglês e mandarim) e assume que a sua personagem, Maria, "é uma guerreira, uma lutadora, uma sobrevivente, uma mulher que vemos transformar-se ao longo do filme". A actriz explica que a sua personagem "começa por se anular e por ter como prioridade salvar este Hotel Império, este hotel em ruínas que é do pai dela, e está penhorado por uma dívida ao jogo". Vamos tentando perceber qual o preço da protagonista. "E entre casinos, prostituição, jogo, até onde é que esta Maria vai para salvar o seu hotel que no fundo são as memórias dela, as referências dela, a sua identidade", continua Margarida.

Margarida Vila-Nova convida a ver Hotel Império

Também os bairros de Macau surgem em Hotel Império como quase mais uma personagem e, a par de Maria, "também a própria cidade onde ela vive se transforma e muda, E há uma certa erosão, há um ruir deste Hotel Império, mas também de uma cidade e destas personagens que habitam este hotel", conclui.

Sobre interpretar Maria, personagem que a fez aprender a falar cantonês - já que é o idioma em que mais fala ao longo do filme -, Margarida Vila-Nova não hesita em dizer que "foi certamente um dos meus maiores desafios". "Tive durante muito tempo aulas de chinês e depois, próximo da rodagem, tinha cerca de duas horas de coaching por dia para ter a certeza de que tudo o que eu estava a dizer estava a dizer com o tom certo, da forma certa...", explica. Dado o português e o cantonês serem tão diferentes, houve necessidade de "esmiuçar cada palavra, perceber o sentido, a emoção, a sensação, a intenção que estava por detrás de cada frase", conta Margarida. "No caso do chinês, se alterarmos um tom à palavra vamos mudar-lhe o sentido. Corremos o risco de dizer... uma coisa muito feia." [risos]

Para além da língua, também fisicamente Margarida se sentiu desafiada ao interpretar Maria. "Eu vivi em Macau durante sete anos, mas não deixei de ser uma estrangeira", diz. "Esta personagem cresceu neste ambiente, então esta identificação ou esta familiaridade com o espaço, com o bairro, com os outros personagens foi um trabalho ainda longo de conquistar ou de construir", conclui.

Tiago Aldeia convida a ver Hotel Império

Para o realizador, Ivo M. Ferreira, que vive em Macau há mais de 20 anos, Hotel Império é, "de alguma forma, um filme síntese sobre as primeiras impressões em Macau e, por outro lado, sobre o que lá passei ao longo destes 20 e tal anos". Assume que "o filme tem um lado muito distópico, mas também um lado muito actual", tanto que poderia passar-se tanto agora, como nas décadas passadas ou até nos próximos anos. Contudo, conclui que "faz muito sentido ser agora, 20 anos depois da transferência de soberania da administração de Portugal para a República Popular da China".

Quanto ao visual dos bairros de Macau, o realizador explica que "a minha ideia era quase uma coisa um bocado absurda, como se a erosão da paisagem urbana pudesse ser também uma aglomeradora de ideias para forjar uma identidade. Há tanta coisa a acontecer de repente - que não é de repente, porque acontece desde os anos 50 -, em relação à destruição do que é património arquitectónico indoeuropeu, que cria um medo nas pessoas".

Ivo convida o público a assistir a Hotel Império: "Acho que é uma viagem interessante a Macau, uma viagem muito condicionada pelo meu olhar, pela minha visão, pela minha imagética".


Rhydian Vaughan e Ivo M. Ferreira convidam a ver Hotel Império (em português e cantonês)

Sinopse:
A casa de Maria sempre foi o Hotel Império, nos bairros tradicionais de Macau, onde há roupa pendurada entre os neons, e um emaranhado de fios eléctricos invade ruas cheias de vapores. Com o pai envelhecido, o fardo de manter o decrépito hotel em funcionamento recai-lhe sobre os ombros. Canta Fado num Casino onde o jogo e a prostituição andam de mãos dadas, mas o dinheiro é pouco e os especuladores imobiliários tornam-se insistentes. Surge então Chu, jovem misterioso com um interesse obsessivo por Maria. Sonhos desiludidos, ganância e decadência: crónica de uma Macau de hoje, 20 anos após o regresso à China.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Entrevista a Nuno Bernardo, realizador de Gabriel

Gabriel chega aos cinemas portugueses esta Quinta-feira, dia 21 de Março. O Hoje Vi(vi) um Filme já viu e a crítica está publicada no blog. Ficámos curiosos e quisemos saber mais sobre todo o processo de criação deste filme sobre um jovem cabo-verdiano, recém-chegado a Lisboa, que procura o pai e vê no boxe uma forma de ajudá-lo e ligar-se a ele.

O realizador Nuno Bernardo respondeu a algumas perguntas do Hoje Vi(vi) um Filme sobre Gabriel, a sua primeira longa-metragem.


Gabriel é um filme atual, que vai muito para além do boxe. De onde surgiu a ideia de escrever e realizar um filme com esta temática?
Nuno Bernardo (NB): Em 2014 estava em Dublin realizar um documentário sobre Stand-Up Comedy e, para um dos segmentos desse documentário, decidiu-se gravar um pequeno combate de boxe, isto porque um dos comediantes era um lutador amador. Esta experiência – de filmar boxe – foi amor à primeira vista. Adorei conhecer o meio, as pessoas e acima de tudo os códigos de valor e ética que regem este desporto. Depois, em Portugal, fui contactando frequentemente com esta comunidade, assistindo a galas e combates, o que fizeram crescer este desejo de fazer um filme sobre boxe. 

A violência das palavras funciona com uma naturalidade assustadora e condiz com a brutalidade dos vilões da história. Acha que é precisa coragem para filmar a violência com este realismo? 
NB: Apesar de não ser um apaixonado pelo Boxe, sempre tive um interesse especial por filmes sobre este desporto. Mas as lutas de Gabriel, em especial a forma de as filmar, seguiram um padrão diferente. O meu foco foi sempre criar uma luta realista, que represente um pouco o mundo do boxe amador como o descobri em Portugal. Ou seja, não estamos a falar de um combate de 12 assaltos, realizado em Las Vegas, com 10.000 espectadores onde tudo é muito estilizado. Em Gabriel, procurei filmar o boxe de uma forma crua, mas real. 

O racismo é um problema que persiste na actualidade e também é abordado em Gabriel. Quer despertar consciências, mudar mentalidades?
NB: As histórias que me dão prazer contar são as histórias que reflectem a vida como ela é, a atualidade, os problemas que nos afetam enquanto sociedade. Por isso Gabriel e esta história de imigração, de integração social, de chegada a um novo país e a uma nova vida. O meu objetivo é sempre contar uma boa história, uma história que não termine quando os créditos começam a passar no final do filme mas sim continue na memória de quem assistiu e gere discussões após sair da sala de cinema.

Como chegou a Igor Regalla para protagonista e como foi trabalhar com ele?
NB: Existiu um trabalho - em ligação com a produtora Sara Moita - de identificar atores portugueses que se enquadrassem nas personagens criadas. Na altura vimos vários showreels, ficção nacional e peças de teatro. A escolha do Igor vem de uma peça que vimos no Teatro São Luiz. A Ana Marta da sua carreira de um filme que tinha visto umas semanas antes em que ela participa. O José Condessa pela paixão que demonstrou no projeto quando reunimos com ele.


A câmara tem uma grande proximidade com as personagens e filma os combates com muita credibilidade. Como foi o desafio de filmar boxe?
NB: Existiu um intenso trabalho realizado com o coreógrafo e preparador de atores - David Chan - e com o Diretor de Fotografia, o Pedro Negrão, para passar o realismo para as cenas do combate de boxe. Eu não queria duplos, ou slow-motions, ou aqueles truques que vemos em filmes do género. Eu queria passar ao espetador a ideia de realismo e que aqueles combates são reais. 

Foi o Igor que lhe deu a conhecer a música de Vado Más Ki Às, que participa com quatro temas na banda sonora de Gabriel (e faz até uma participação especial). Por coincidência a história do cantor tem algumas semelhanças com a do protagonista (também cresceu num bairro problemático). De que forma a música de Vado e de outros interpretes de hip hop influenciaram a produção do filme?
NB: Durante o processo de escrita e de pregação do filme eu ouvi muitas músicas do novo hip hop português. Cheguei a criar um playlist no Spotify que ouvia muitas vezes durante a escrita e reescrita do guião. Algumas dessas músicas foram mesmo usadas no filme. O Vado apenas conheci dois dias antes do início da rodagem - por isso a sua música não influenciou a preparação do filme, mas depois a fase de pós-produção. 

Qual espera que seja a reacção do público português?
NB: Espero que vão ver cinema português, em especial Gabriel. Muitas vezes existe o preconceito contra o filme nacional. Mas Gabriel, como muitos outros filmes portugueses, contam histórias dos nossos locais, das nossas tradições e culturas, algo que nenhuma outra cinematografia faz. Só isso, justifica uma ida ao cinema. Mas Gabriel, espero, adiciona uma história atual, bons atores e a maior sequência de boxe alguma vez filmada em Portugal.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Entrevista a Bruno Gascon, realizador de Carga: "Tentei criar uma sociedade dentro de uma rede de tráfico de seres humanos"

Bruno Gascon gosta de temas difíceis e a sua primeira longa-metragem, Carga, faz jus a isso mesmo, é sobre o tráfico de seres humanos. Com duas curtas no currículo cinematográfico, o realizador estudou em Amesterdão e, de regresso a Portugal, começou por fazer documentários e programas de televisão sobre temas sociais. Agora, nos seus filmes, são esses os temas que continua a preferir.

Bruno Gascon - Foto: Luís Sustelo
O Hoje Vi(vi) um Filme esteve à conversa com Bruno Gascon (B.G.) sobre Carga. O filme estreia nos cinemas a 8 de Novembro.

Escolheste logo um tema muito forte para a tua primeira longa-metragem...
B.G.: Sim, eu gosto de temas fortes e posso já adiantar que a minha próxima longa vai ter um tema forte também. Posso dizer que é um tema actual. Gosto de explorar o pensamento humano e a mentalidade em relação a certo tipo de temas. Às vezes, as pessoas gostam de olhar para o lado e não enfrentar os problemas. A sociedade só evolui se tu falares sobre esses temas e sendo, no meu caso, ficção, acho que é uma forma de passar a mensagem também.

Como foi todo o processo da construção do argumento, as pesquisas, etc.?
B.G.: Em Amesterdão, entrei logo em contacto com este tipo de problemas. Existe aquela ideia de que lá, no red light [district], a prostituição é uma coisa livre, mas o que a maior parte das pessoas não sabe é que muitas daquelas mulheres são traficadas. Depois voltei [para Portugal], encontrei várias histórias sobre isso e decidi contar, na minha primeira longa, um tema pesado que é um problema global. Sobretudo, tentei demonstrar que não é só um problema de terceiro mundo, como ouvi muitas vezes, e as pessoas nem sequer tinham a noção disso. Muitas vezes, esse problema está mesmo ao nosso lado, no nosso vizinho, nos nossos amigos, na nossa família.

Vocês falaram - ou pelo menos a Joana Domingues [produtora] falou - com vítimas de tráfico humano, não foi?
B.G.: Sim, eu ouvi histórias até porque não tive acesso a essas pessoas. As mulheres que foram traficadas são muito protegidas e vivem em casas protegidas. Estão muito desconfiadas e é-lhes difícil confiar nas pessoas. A minha pesquisa foi muito por aí, ter acesso às histórias e tentar recriar a realidade o mais cruel possível. O que faço muitas vezes, seja uma traficada, seja um rei do tráfico, é meter-me nos pés da pessoa e tentar perceber o que é que eu faria naquela situação. Tal e qual fui fazendo nas minhas curtas - a curta anterior é sobre suicídio e a primeira é sobre esquizofrenia. [Em Carga] Tentei criar uma sociedade dentro de uma rede de tráfico de seres humanos. Aquelas personagens têm características comuns a todos nós e o que introduzi foi esse problema global. Temos, por exemplo, o António, que é interpretado pelo Vítor Norte que é um camionista e é uma personagem que está numa situação limite. Eu gosto de pôr as personagens nessas situações limite. Ele faz aquilo por dinheiro ou desculpa-se com o problema do dinheiro, mas depois vamos perceber que isso o vai atormentando ao longo do filme.


Ia agora falar-te sobre isso. As tuas personagens são muito ambíguas... Querias que as pessoas se identificassem? Que sentissem como se fossem personagens quase reais?
B.G.: Sim, tentei dar o máximo de realidade às minhas personagens e tento sempre fazer isso. Porque acho que não existem bons ou maus. Existe todo um lado cinzento que todos temos, no nosso dia-a-dia. Temos muitas camadas. Todos já tivemos más acções, todos já tivemos boas acções e é isso que tento tirar daquelas personagens. E, como o filme retrata, todas têm uma carga, aquela carga emocional é trazida por todas elas, tal como nós, na nossa vida, temos uma carga. Todos temos problemas, todos fazemos boas acções. Se uma pessoa é mais retraída ou fala menos é porque, provavelmente, existiu alguma coisa ao longo da vida dela que a tornou assim. E é essa experiência que eu quero que as personagens tenham, sejam elas boas ou más.

Porque aqui até com os mais mauzões nós simpatizamos ligeiramente, não é?
B.G.: Sim, no fundo, eles também são pessoas e, de certa forma, também têm boas acções. Por exemplo, o Viktor, que é protagonizado pelo Dmitry Bogomolov, é o chefe da rede de tráfico mas fá-la funcionar como uma empresa. Ele não deixa de ser um ser humano que teve problemas no passado, tem o tal background e essa carga emocional sobre ele também. O Dmitry deu-lhe um cunho muito pessoal. O próprio Dmitry foi criando aqueles movimentos e aquela personagem de acordo com o que fomos falando. Aquela rede já era uma coisa que vinha da geração anterior, é um negócio de família e o Viktor sempre se sentiu subjugado pelo pai. Não queria cometer os mesmos erros que o pai, porque ele era muito emotivo, e o Dmitry é uma pessoa mais fria, mais manipuladora, e quis demonstrar que era melhor do que o pai.


Vamos passar para a Sara Sampaio. Como surgiu a oportunidade trabalhar com ela?
B.G.: Falei com ela, ela leu o guião, disse-me que o tinha lido numa viagem de avião, que tinha adorado, que existia violência no filme, é verdade, mas que não era gratuita, tinha um sentido. Quando lhe expliquei a personagem dela e que queria que ela fosse a cara e a imagem de todo aquele grupo de pessoas, ela aceitou na hora. As pessoas estão sempre à espera de ver a Sara modelo e aqui é um registo completamente diferente. A Sara aqui não está embelezada, não está a vestir roupas de passerelle, de várias marcas, a Sara aqui é a Sara actriz e as pessoas vão ficar surpreendidas com o resultado.

E relativamente aos outros actores? Alguns já conhecias, como por exemplo o Duarte [Grilo]...
B.G.: Na verdade, o único que eu conhecia era o Duarte. Todos os outros foram contactos feitos a seguir. Quando escrevi o guião já tinha pensado em todos aqueles actores para aqueles papéis. Sendo uma primeira longa-metragem, eu tinha sempre aquele receio "eles não vão aceitar, não me conhecem de lado nenhum, é uma primeira obra", mas tal e qual como a Sara, assim que eu falei uma vez, todos eles aceitaram. Ou seja, foi das partes mais fáceis, ter aquelas pessoas, aqueles actores enormes a interpretarem estes papéis. Fiquei com uma óptima relação com todos eles. Foi isso que me surpreendeu de certa forma, porque eu estava habituado a ver na televisão, no cinema, no teatro todas aquelas pessoas e ver aqueles nomes a trabalharem contigo e a serem pessoas extremamente humildes, trabalhadoras... Senti-me honrado por virem fazer este filme comigo.

Como foi trabalhar com eles?
B.G.: Foi facílimo. Por exemplo o Vítor Norte, que já tem muitos anos de experiência, é das pessoas mais humildes e com um nível de exigência enorme. Está sempre muito preocupado, em todos os takes, em todos os planos, se está bem ou não. Com a Rita [Blanco] eu aprendi muito. A Rita é um poço de energia. Estar quieto ou mal-disposto ao pé da Rita é impossível. Ela é uma pessoa extremamente inteligente e ensinou-me muito sobre cinema. É incrível... A pessoa que mais me surpreendeu, na verdade, foi a Michalina [Olszańska]...

E eu ia perguntar-te como é que a escolheram...
B.G.: É uma história curiosa. Quando chegou a altura de escolher a personagem principal eu estava à procura de alguém que falasse russo e que tivesse alguns traços russos. Quando escrevo os guiões já imagino as características das personagens e quando vi a primeira curta da Michalina achei que ela tinha as características ideais e que se ia enquadrar no papel. Falei com a Joana Domingues, que é a produtora, e disse: "olha, acho que é esta rapariga", e ela disse: "mas tens a certeza? não querias escolher uma pessoa russa? ela é polaca" e eu disse: "tenho a certeza absoluta que é esta rapariga". Mandámos-lhe uma mensagem pelo Facebook e ela pediu para enviarmos o guião. Passado um dia, mandou-me um testamento enorme a dar-me uma dica, que não posso dizer para não criar spoilers do filme. Entretanto, veio cá três dias, nós falamos um bocadinho e depois eu e a Michalina criamos uma conexão enorme e, hoje em dia, ela é quase das minhas melhores amigas. É uma pessoa extraordinária além de, para mim, ser das mais talentosas da geração dela. Tive o Miguel, o Vítor que estavam a vê-la contracenar e até eles ficaram surpreendidos como é que uma rapariga com 25 anos consegue ter aquela capacidade, para além de ela ser um prodígio. Já escreveu livros, aprendeu a tocar violino aos seis anos de idade... Mas foi realmente a pessoa que mais me surpreendeu neste filme.


Nota-se no teu filme um pouco a estética que associamos aos filmes europeus - e é europeu, é português. Foi intencional? Tem a ver com as tuas influências cinematográficas?
B.G.: Também tem um bocadinho a ver com as minhas influências mas é a primeira vez que me dizem isso e que me fazem essa pergunta. Neste momento ainda estou à procura de encontrar um estilo próprio, mas há coisas que vou sempre fazendo e isso tem a ver com as influências que tenho. Por exemplo, utilizo muito planos centrados e o Kubrick utilizava muito as perspectivas. Vejo cinema, seja ele europeu, seja ele americano. Sou uma pessoa que gosta realmente de cinema, vejo do mais autoral ao mais comercial que possas imaginar. Gosto de Kubrick, Hitchcock, Polanski... Quando vou ao cinema gosto que o filme me diga alguma coisa e poderá ser essa a explicação para eu gostar tanto de temas fortes. Gosto muito de tudo o que seja sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre os judeus. Gostei muito de O Pianista, Os Falsificadores... Também gosto muito de cinema nórdico. Utilizam muito a técnica fria, escura, é uma coisa com que me identifico. Tens a saga Millennium ou Lars von Trier, têm muito esse lado negro. Acima de tudo quero passar uma mensagem, mesmo que essa mensagem seja negra. O mundo não é um mundo cor-de-rosa. As pessoas andam um bocadinho adormecidas e tu às vezes tens de levar aquele murro no estômago para que te apercebas que aquela realidade existe. E, se calhar, só assim é que as coisas vão mudar.

Tens aqui um filme feminista?
B.G.: Sim, pode dizer-se que sim. Tem de se começar a retirar a ideia de que só os homens têm personalidades fortes e são as pessoas fortes num filme. Até porque, muitas vezes, uma mulher é muito mais complexa do que um homem e acho que isso devia jogar a favor das pessoas que fazem cinema. Porque é que se dão sempre papéis fortes a homens? Apesar dos homens [em Carga] serem a rede de tráfico, o papel duro, físico, as mulheres têm um papel muito mais complexo e quando as pessoas virem o filme vão perceber que quem domina são as mulheres. A ideia foi, de certa forma, inverter os papéis. As mulheres aqui são traficadas, são frágeis mas o frágil não implica que as pessoas sejam fracas. Deve haver uma igualdade entre todos e a sociedade tem de evoluir para isso. Fala-se muito de feminismo e do #MeToo mas acho que ainda existe um largo caminho para isso acontecer. Não é uma questão das mulheres serem mais do que os homens mas de serem iguais. Ponto final. Tanto no cinema como na nossa sociedade as coisas devem ser igualadas. Este filme é um filme mais feminista, mas também foi com esse intuito, de mostrar às pessoas que apesar de serem frágeis, as mulheres também são extremamente complexas e, na verdade, são o sexo forte.

E é curioso porque surge no momento certo...
B.G.: Foi um timing, calhou. Quando começamos a gravar foi quando rebentou o #MeToo... Calhou. Mas é uma coisa que deve ser falada e temos de caminhar para isso. E acho que a sociedade só tem a ganhar.

Criaste um filme muito internacional, e não só pelo número de línguas em que é falado, quantas são?
B.G.: Três. Inglês, português e russo. Essa linguagem também funciona um bocadinho como uma personagem, porque tens muitas falhas de comunicação ao longo do filme. Pessoas que só falam russo, pessoas que só falam inglês, pessoas que falam português, mal falam inglês e nem sequer falam russo... e estas falhas de comunicação acontecem no nosso dia-a-dia e têm também a ver com a cultura que temos. Tentei criar um filme internacional, e como o tráfico de seres humanos é um problema global, tentei dar-lhe esse realismo. Estamos em Portugal mas, com a Internet, temos acesso a qualquer parte do mundo. Tentei que as pessoas percebessem que esta realidade existe em Portugal, existe na Rússia, existe em todo o mundo.

Criaste uma Torre de Babel...
B.G.: Tentei. Na verdade, a tentativa foi essa, criar um microcosmos, em que se perceba que existem varias pessoas da nossa sociedade metidas lá dentro, não só no nosso país mas no mundo inteiro. Tentei recriar um mundo ali.


Que motivos vão levar o público às salas de cinema para ver o Carga?
B.G.: Acho que um dos motivos será... Pergunta difícil essa! um dos motivos é o facto de termos um leque de actores fantástico. Outro é o facto de, apesar de ser um drama, também tens muitas situações de tensão. Também pela estreia da Sara Sampaio, como é óbvio. Pelo tema, que é o tráfico de seres humanos e está bem mais perto de nós do que podemos pensar. E porque é um filme português e espero que as pessoas possam dar uma oportunidade, porque o cinema português está a evoluir cada vez mais. Tem de se tirar aquele estigma de que o cinema português é chato e aborrecido.

Na Comic Con Portugal, disseram que já tinham vendido o filme para alguns países. Quais?
B.G.: Já vendemos para a China, existe interesse do Japão, da França, e já fomos vendidos para os Estados Unidos e para o Canadá. Para já é só, mas vamos passar na Rússia e no Luxemburgo, entretanto.

Queres que o Carga seja um filme activista?
B.G.: Boa pergunta. O que eu quero é que o filme chegue ao máximo de pessoas possível, que as pessoas vão ver e que tenha as salas cheias, não vou dizer que não. Mas, acima de tudo, quero que o filme passe uma mensagem, e essa mensagem tem a ver não só com o tráfico de seres humanos, como com o nosso dia-a-dia. Existem coisas subliminares que estão lá colocadas, que não são sobre o tráfico de seres humanos.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

MOTELx'17: Entrevistas - Gonçalo Almeida (Thursday Night)

O MOTELx'17 está em Lisboa desde ontem e até dia 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Já conhecemos quase todos os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Para terminar, falta apenas apresentar Gonçalo Almeida, realizador de Thursday Night.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Gonçalo Almeida (GA): A ideia partiu do meu gosto pela música de Brian Eno, particularmente do álbum Thursday Afternoon.

O protagonista de Thursday Night é um cão, que parece estar associado a algo sobrenatural. Porquê a escolha deste animal e não de outro?
GA: O cão de família é um elemento no grupo que é amado por toda a gente e ele sabe disso. Faz parte da família. Quando se encontra nesta situação acha estranho que, de um momento para o outro, o seu estatuto tenha mudado. Não pensei em fazer com outros animais por isso não sei como se comportaria por exemplo um gato, mas calculo que fosse mais complicado.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
GA: Não sei bem o que o púbico pode esperar, mas o meu objectivo é que vejam algo que seja de alguma forma diferente e interessante e que durante sete minutos não sintam vontade de olhar para o telemóvel.


Como correu o processo de rodagens, mais ainda com um actor tão especial?
GA: Foi uma das melhores experiências que já tive a fazer filmes. Estava entre amigos e todos estávamos entusiasmados para ver o que ia sair. Nenhum de nós tinha feito alguma coisa assim e por isso todos queriam participar de alguma forma. Como foi o último filme que fiz em Londres antes de me mudar para Lisboa, havia uma atmosfera de camaradagem que me causa agora alguma nostalgia.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
GA: Não sei se serei a melhor pessoa para comentar sobre isso. Cheguei em Dezembro do ano passado e só agora é que estou a tentar perceber como funcionam as coisas. Tenho sido muito bem tratado nos festivais em Portugal e também tenho visto  filmes interessantes.

Sinopse
Durante a noite, um estranho presta uma visita a Bimbo para lhe entregar uma mensagem importante.

MOTELx'17: Entrevistas - Guilherme Trindade (Revenge Porn)

O MOTELx'17 está em Lisboa desde ontem e até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Seguimos com a entrevista a Guilherme Trindade, realizador de Revenge Porn.

O título revela tanto do filme como parece?
Guilherme Trindade (GT): Que a personagem principal grava vídeos pornográficos amadores e depois partilha-os na net para se vingar das ex-namoradas? Que as ex-namoradas se vingam dando na pornografia o que nunca lhe deram na relação?  Que ele se gratifica vendo vídeos de vinganças? Que o título original do filme era Camgirl mas alguém já tinha tomado? Talvez.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
GT: Quando a curta-metragem que fizemos, Unbox, venceu o 2.º prémio das YORN Microcurtas no MOTELx o ano passado decidimos participar. Eu tinha uma shortlist de ideias - incluindo um musical - mas o Revenge Porn acabou por juntar três coisas essenciais: um tema relevante, décors e actores limitados e uma cena marcante.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
GT: Sentir-se intensamente desconfortável, espero eu.


Como decorreu o processo de filmagens?
GT: Três dias de filmagens e meio (tivemos de repetir metade do primeiro dia porque as imagens não se podiam aproveitar) intensos, a horas estranhas, com ajuda de muitos amigos. O João Harrington Sena e a Io Sacadura Franco tinham cenas muito complicadas devido à sua natureza sexual e violenta. Das coisas que mais gosto de fazer é descobrir por tentativa e erro como fazer certos efeitos especiais práticos. O mais chato foi limpar o sangue todo depois de gravar a cena final.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
GT: O MOTELx em particular é um oásis num meio eternamente dividido entre o cinema dito comercial e o de autor. O cinema de género não tem muito apoio em Portugal e se calhar não teria nenhum sem o MOTELx. Eu sei que não teria feito três curtas-metragens se não fosse a pensar no MOTELx. O festival dá um palco a muita gente que não o teria.

Sinopse
Wayne é um homem simpático que respeita as mulheres. Wayne sorri-lhes e acaricia-as com a mesma mão com que depois se toca a pensar nas coisas obscenas que lhes quer fazer. Wayne odeia que lhe digam não. Mas a vingança é fodida.

Página de Facebook da produtora Ankylosaur

MOTELx'17: Entrevistas - Hugo Passarinho (O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa)

O MOTELx'17 começou dia 5 e prolonga-se até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Nada como continuar a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. O Hoje Vi(vi) um Filme entrevistou Hugo Passarinho, um dos realizadores de O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme? 
Hugo Passarinho (HP): Este filme nasce (há 20 anos) da vontade de criar uma história onde a personagem principal fosse um objecto imóvel, mas que ainda assim fosse capaz de influenciar as personagens que o rodeiam. A animação 3d não era ainda mainstream e tínhamos muitas histórias para contar. O Candeeiro nasce como teste, aproximava-se cada vez mais a possibilidade de se realizar grandes projectos com recursos limitados e queríamos validar isso mesmo com o que tínhamos e muita diversão.

À primeira vista parece-me ver nas imagens o candeeiro de O Pátio das Cantigas... Há alguma inspiração dos filmes portugueses dessa época?
HP: Crescemos nos pátios, jogávamos à bola, fomos colegas de escola e a vida de bairro (embora nerds assumidos), em Benfica de onde somos, foi sempre uma realidade.  É este contacto com o real que nos trouxe estas e outras personagens, histórias reais que contadas são incríveis, um pouco à imagem dos filmes dessa época, há neles o mesmo brilho polido da história doce com travo amargo. São perfeitos na sua natural imperfeição e a nosso ver são anda hoje modelo para muito cinema feito não só em Portugal mas por toda a Europa em particular em França. Talvez sobretudo por haver em cada um de nós aquele bocado Narciso Fino tropençando numa chama feita sol para dar luz ao mundo.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
HP: Pouco, daí ser curta.


É a única curta-metragem de animação a concurso nesta edição do MOTELx. Acham que isso pode diferenciar-vos, de alguma forma?
HP: Dessa forma totalmente, o filme não se enquadra no projecto típico de cinema português, é atípico até no estilo de horror, é um horror com efeitos colaterais que nos atinge se o observarmos atentamente. Sendo que é feito praticamente a duas mãos com poucos ou nenhuns recursos e muita vontade. O cinema português está numa fase de crescimento, nota-se maturidade, vontade e saber fazer, que há que valorizar quem demonstra essa qualidade, investir deixar crescer. A selecção do MOTELx para curtas nacionais demonstra já muita dessa qualidade iminente. A diferenciação do futuro é o valor do que comunicamos, valor este que se encontra quer na verdade da razão pela qual o fazemos, quer na originalidade e frescura com que o fazemos. E o Candeeiro é sobretudo isto.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
HP: É total, os festivais permitem hoje que seja possível produzir pela nossa conta e risco e depois dar, através da sua plataforma, a conhecer um conteúdo que tem nesse lugar um público disposto a considerar a validade do mesmo. Mesmo quando a validação não é o mais importante, é crucial a existência deste espaço de discussão e partilha. Disto dependerá o futuro e o sucesso de qualquer produto artístico pelo mundo fora. Disto e do amor, claro está.

Sinopse
Uma história sobre escolhas, sobre os velhos tempos de uma Lisboa por descobrir, sobre as suas vielas escuras e sobre elegantes posters pintados à mão.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

MOTELx'17: Entrevistas - João Silva Santos (Mãe Querida)

O MOTELx'17 está em Lisboa entre 5 e 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Seguimos com as entrevistas aos realizadores dos filmes nacionais seleccionados. Ficamos desta vez a conhecer João Silva Santos, realizador de Mãe Querida.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
João Silva Santos (JSS): Desde que vi o Phantom of the Paradise do Brian De Palma que quis escrever uma rock opera cinemática. Como fã (não fanático) dos Xutos & Pontapés, tentei aliar o útil ao agradável e criar algo com a mesma energia desse mestre americano, mas inextricavelmente português. Tal não aconteceu: o Mãe Querida evoluiu bastante desde essa ideia inicial (nem sequer uma música deles tem!), tornando-se muito mais pesado e estranho em lugares, mas gosto de pensar que certos momentos e sequências sobreviveram às cambalhotas criativas que o filme acabou por dar.

Da sinopse de Mãe Querida, concluo que a bruxaria e o misticismo que lhe está associado parecem fundir-se aqui com uma realidade de violência familiar. É como se Matilda se quisesse refugiar na fantasia para fugir aos problemas reais?
JSS: De certo modo, sim. Esta é uma daquelas perguntas a que não quero dar muitas respostas antes de terem a oportunidade de ver o filme: a narrativa torce-se e distorce-se por entre esse misticismo e violência familiar, com personagens que não sabemos serem reais até ao último momento, figuras espectrais que porventura só depois do filme visto e umas conversas (com cerveja e boa disposição, preferencialmente) é que acabam por fazer sentido.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
JSS: Acima de tudo, muita música da Ágata e companhia. Mãe Querida não seria o mesmo filme sem essa trilha sonora oh-tão portuguesa. 


Trabalhou com actrizes conhecidas do grande público, em especial São José Correia. Como correram as filmagens?
JSS: Uns dias mais atribulados, outros menos. Mas nunca por culpa das actrizes! Tanto a Susana Sá como a Diana Lopes Moreira e a São José Correia foram incansáveis em tornar o filme melhor do que alguma vez poderia ter desejado quando o escrevi. Aturaram muito dos meus desvarios e espero apenas que a experiência para elas tenha sido tão positiva quanto para mim, e que me queiram aturar de novo. Quiçá, com ainda mais sangue e violência.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
JSS: Acho que mais que nas grandes salas destinadas ao blockbuster americano, é nos festivais que o público português pode encontrar o verdadeiro cinema do seu país. Pode nem sempre ser o mais fácil (quase nunca o é), nem o que mais recompensa, mas é nosso e existe e nunca tivemos tanto acesso a ele e aos seus criadores. No entanto, acredito que precisamos de uma maior variedade de festivais, que atraiam públicos distintos e apaixonados, como o do MOTELx. Para isso precisamos também de uma maior variedade de filmes, que se afastem dos paradigmas vigentes na nossa produção contemporânea, ou demasiado presa a códigos de autor, ou perdida na televisão glorificada que passa nas salas de cinema, condenada a perpetuar o público descrente e as massas desinteressadas na nossa cultura.

Sinopse
Matilda é uma adolescente assombrada pela morte do pai e maltratada pela sua mãe alcoólica, Susana. Um dia, decide pedir ajuda a uma bruxa.

MOTELx'17: Entrevistas - Hugo Malainho (Entelekheia)

O MOTELx'17 começa hoje, em Lisboa, onde fica até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Desta vez, o Hoje Vi(vi) um Filme entrevistou Hugo Malainho, realizador de Entelekheia.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Hugo Malainho (HM): Surgiu duma conversa com uma amiga, ela lançou-me o desafio de fazermos uma curta-metragem para tentar participar no MOTELx e aquela ideia não me saiu da cabeça. Decidi então escrever uma historia e apresenta-la a um grupo de amigos para ver o que é que eles achavam e se alinhavam no projecto. E o resultado está agora em exibição no próprio festival MOTELx.

A busca da perfeição a qualquer preço parece ser o mote de Entelekheia. Pretende com esta ideia criticar de alguma forma a sociedade em que vivemos?
HM: A actual sociedade vive desprovida de valores, impera a satisfação imediata dos egos de cada um, sem olhar a meios para alcança-los. Creio que a máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios retrata tristemente o comportamento social.


O que pode o público esperar da curta-metragem?
HM: Uma curta de suspense e de critica social com especial atenção pela estética.

A escolha de um termo grego para baptizar o filme tem especial razão de ser?
HM: O termo Entelekheia descreve na “perfeição” aquilo que o protagonista procura: criar uma obra de arte perfeita. Segundo Aristóteles, todo e qualquer ser do universo, animado ou inanimado, tem uma potencialidade intrínseca, e a transformação dessa tendência ou potencialidade, de forma a alcançar a sua plenitude ou perfeição, é o que designamos por entelekheia.

Como foi o processo de rodagem?
HM: Foi uma experiência espectacular. Levou tempo pois rodámos em diversas localizações e reunir uma equipa inteira em diversas ocasiões e por vários dias, não foi tarefa fácil. Mas trabalhei com uma excelente equipa que me ajudou a dar corpo a uma ideia que eu já tinha transposto para o papel, que se envolveu no projecto e lá conseguimos arranjar sempre algum tempo para concluir a rodagem.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
HM: Os festivais de cinema são uma importante janela para mostrar as novas tendências do cinema português e desempenham um papel fundamental para o desenvolvimento da industria cinematográfica nacional, criando num público cada vez mais generalizado, o habito de consumo do cinema português.

Sinopse
Um escultor vive obcecado com a criação da obra perfeita, que quer concretizar sob a forma de uma crítica social. Para tal, utiliza as vítimas marginalizadas de uma sociedade fútil e cada vez mais desprovida de valores humanos.

MOTELx'17: Entrevistas - Guilherme Daniel (Depois do Silêncio)

O MOTELx'17 chegou hoje a Lisboa onde fica até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Segue-se Guilherme Daniel, realizador de Depois do Silêncio.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Guilherme Daniel (GD): O filme surge de ideias e inspirações várias que se vão acumulando ao longo do tempo, até se ligarem e criarem uma base para o projecto. Penso que as mais importantes neste processo foi a descoberta de uma pintura de Franz Stuck (“Pietà”); e conhecer a Ágata Pinho, com quem me cruzei numa longa-metragem na qual trabalhei, e que é a interprete principal neste filme.

Pelo teaser e sinopse, posso concluir que estamos perante uma espécie de filme de mortos-vivos ou nada a ver com isso? Pode revelar um pouco mais?
GD: Assim é. Hoje em dia quando falamos de filmes de zombies o pensamento vai para infestações apocalípticas criadas por uma epidemia ou semelhante. A mim interessa-me as desconstruções de género, e em vez de termos hordas de zombies gosto da ideia de ter um só morto vivo, com quem há uma relação, e  assim permite explorar sentimentos de como lidar com a morte.

O que pode o público esperar da curta-metragem?
GD: Um filme em que a forma está intimamente ligada ao conteúdo, e que não se restringe por convenções de género.


Como foi o processo de rodagem de Depois do Silêncio?
GD: Exaustivo. Eu e a Raquel Santos, que cria os filmes comigo e assume a direcção de arte, propusemo-nos a alguns desafios difíceis, desde efeitos especiais práticos a decores complexos pelos quais tivemos de suar. Mas ao mesmo tempo foi um processo abençoado, porque estávamos rodeados de amigos talentosos com quem nos divertimos imenso a filmar.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
GD: Num país incapaz de suportar uma indústria de cinema, têm uma importância fulcral e decisiva. Penso só que falta alguma independência, aos festivais e aos cineastas. Nesse aspecto acho que o MOTELx se destaca, por reunir tanta gente com verdadeiro entusiasmo pelo género cria-se uma verdadeira festa do Cinema.

Sinopse
Uma mulher desolada esforça-se para aceitar a inesperada morte do marido, mas é confrontada com o seu recorrente retorno ao mundo dos vivos.


MOTELx'17: Entrevistas - Luís Campos (Carga)

O MOTELx'17 começa hoje e fica em Lisboa até 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Hoje começamos com a entrevista a Luís Campos, realizador de Carga.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Luís Campos (LC): A ideia de fazer o Carga nasceu de uma forte vontade de conjugar a paisagem litoral e as idiossincrasias da região de Cortegaça / Esmoriz (tradição pesqueira, venda de lenha, etc.) com uma narrativa fictícia que fosse capaz de envolver comboios de carga, crianças em situação de opressão e de atribuir uma certa fantasia ao conceito realista e pertinente da ida / fuga / migração das gerações mais jovens de Portugal ao longo dos últimos anos.

As bonecas que surgem numa das imagens promocionais do filme, já por si, causam uma espécie de arrepio. Como é que um brinquedo consegue tomar tais proporções quase fantasmagóricas?
LC: As bonecas são um desses vários elementos visuais que me suscitaram o desejo de retratar a peculiar paisagem da região. As bonecas já estavam lá, tal e qual como aparecem no filme, e são elas próprias uma característica do bairro dos pescadores que liga Cortegaça a Esmoriz. Têm o seu quê de creepy, de mórbido, bem junto à bandeira nacional que as acompanha e foi esse espírito que tentei incutir na narrativa do filme (e na realidade dos seus personagens). Esse plano das bonecas é por si só capaz de transmitir uma certa ausência de esperança e de futuro, directamente ligada à (propositada) inexistência de personagens femininas no filme. É um plano meio apocalíptico, como a gigantesca relva do campo de futebol do bairro, que transmite uma certa ideia de passado abandonado, de ruína. E praticamente tudo isso já faz parte daquela paisagem, não partiu da nossa imaginação. Apenas construímos uma narrativa fictícia em torno de (e capaz de ser potenciada por) tudo isso.

Ao mesmo tempo, as crianças assumem um papel fundamental na curta-metragem. Como foi trabalhar com actores tão jovens?
LC: Foi óptimo, recompensador e desafiante. Nenhum dos dois actores protagonistas tinha qualquer experiência prévia na representação e foi necessário encontrar delicadas formas de comunicação nos diversos momentos. Eles próprios são filhos ou netos de actuais pescadores locais, eles próprios fazem parte daquela paisagem. Fiz o casting nas ruas, cruzando-me e conversando com eles, com a ajuda do Humberto Rocha (produtor do filme, que é natural e residente naquela região). Sabia que precisava de um determinado tipo de olhares e de expressões de rosto capazes de sustentar o ambiente e o tom que eu procurava para o filme. Encontrei o que procurava no Gustavo e no André, que abraçaram o desafio com intensidade e com elevado sentido de compromisso. Passaram umas férias de verão diferentes do costume e estão de parabéns pelo resultado final, que é muito bem conseguido de ambos, e só lhes posso estar grato pelo que conseguiram atribuir ao filme.


O que pode o público esperar da curta-metragem?
LC: Espero que alguma tensão e algum deslumbre visual. Aquela paisagem é realmente maravilhosa, de intrigante, e espero que o desafio narrativo que o filme propõe lhe consiga corresponder.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
LC: É um papel fundamental, maioritariamente de causa, resistência e amor pelo cinema, que deveria ser mais e mais reconhecido pela sociedade em geral. Os organizadores da larga maioria dos festivais nacionais batalham arduamente para subsistir, ano após ano; os festivais de cinema não são um negócio propriamente rentável ou lucrativo e exigem muito trabalho de muitas pessoas para fazer nascer cada nova edição. Não deixar cair a diversidade da oferta que os nossos festivais eventualmente propõem é uma missão suficientemente digna (e difícil) para não ser aqui considerada. Todos os espaços são poucos para exibir cinema nacional e qualquer janela que possa ajudar a mostrar os filmes que por cá se vão fazendo é sempre benéfica, inclusive na lógica da exportação de conteúdos agora que cada vez mais o mundo está atento ao que acontece neste ímpar cantinho à beira-mar plantado. A concentração de público num determinado festival permite que as obras consigam chegar a pessoas que de outra forma não teriam oportunidade de visualizar os filmes, suscitando e estimulando curiosidade pela transversalidade do cinema. Os festivais têm esse papel activo na própria formação e educação de público. Parece-me que, portanto e apesar de existirem sempre formas de reforçar as actividades de divulgação ao cinema nacional por parte dos festivais existentes, é importante termos uma consciência e um sentimento de celebração pelo que com muito mérito e nobreza por cá vai sendo conquistado: vem aí a 11.ª(!!) edição do MOTELx. É incalculável o valor do trabalho que o festival tem colocado no estímulo e na divulgação do cinema nacional (e na diversidade das propostas que apresenta). Essa sensibilidade e reconhecimento são muito importantes para que eventos como o MOTELx e outros vários possam continuar a existir.

Sinopse
Numa pequena vila piscatória, dois rapazes são forçados a tomar parte activa no tráfico de substâncias ilícitas. Quando o mais velho prepara um plano de fuga, o mais novo vê-se obrigado a lidar com as adversidades de ser deixado para trás.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

MOTELx'17: Entrevistas - Diogo Lopes (#blessed)

O MOTELx'17 está em Lisboa entre 5 e 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Continuamos a conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. O Hoje Vi(vi) um Filme falou com Diogo Lopes, realizador de #blessed.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Diogo Lopes (DL): Da observação do comportamento de algumas pessoas nas redes sociais. A partir daí extrapolei para o exagero e para uma situação de limite. O resultado final é uma sátira, algures entre uma comédia negra e um thriller psicológico.

A febre das redes sociais parece servir de mote para o desenrolar do enredo. Há alguma critica social que queira fazer com #blessed - já que até o título é uma hashtag?
DL: É uma crítica, mas é uma crítica muito branda. A obsessão que algumas pessoas têm pelas redes sociais é algo que me diverte mais do que chateia ou revolta. Acho muita graça às pessoas que usam o facebook como se fosse o google. Dou muito valor às raparigas que em Dezembro se esforçam para arranjar uma desculpa para partilhar uma fotografia de bikini na praia em pleno Verão. Normalmente é o típico "saudades do sol", mas já se começa a ver maior criatividade nesse campo. Por isso eu acho que as redes sociais não se devem levar muito a sério. Eu pelo menos gosto de olhar para elas pelo lado que mais me diverte.


O que pode o público esperar da curta-metragem?
DL: Pode esperar um filme curtinho. Mesmo nesta era em os períodos de atenção são cada vez mais curtos, e as pessoas procuram cada vez mais entretenimento de durações muito reduzidas, pedir dez minutos de solicitude ao público não é um grande descaramento. Na pior das hipóteses, não gostam do filme, mas também não saem muito chateados porque não lhe dedicaram muito tempo.

Tem um elenco com nomes muito conhecidos do grande público. Como foi trabalhar com eles?
DL: Foi óptimo e muito recompensador. Todos eles perceberam de forma muito rápida o que eu pretendia para cada um dos personagens e foi extremamente fácil trabalhar com todos eles. Não sei se esta assimilação se deveu ao facto de eles se reconhecerem um pouco nos seus personagens, mas essa seria uma questão interessante para lhes fazer.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
DL: Tem um papel muito importante da divulgação do cinema nacional, especialmente no que toca aos realizadores que estão a começar a dar os primeiros passos. Eu penso que em Portugal já temos um bom número de festivais, que abrangem quase todos os géneros de cinema. Uma área onde se poderia investir um pouco seria na  divulgação.

Sinopse
Duas amigas com demasiada predisposição para esmiuçar as futilidades das redes sociais vêem-se arrastadas para uma confrontação que as irá obrigar a lutar pela vida.

MOTELx'17: Entrevistas - Ricardo Leite (A Instalação do Medo)

O MOTELx'17 está em Lisboa entre 5 e 10 de Setembro, e para o Prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2017 estão a concorrer 9 curtas-metragens nacionais: #blessed, de Diogo LopesCarga, de Luís CamposDepois do Silêncio, de Guilherme DanielEntelekheia, de Hugo MalainhoA Instalação do Medo, de Ricardo LeiteMãe QueridaJoão Silva SantosO Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa, de Henrique Costa e Hugo PassarinhoRevenge Porn, de Guilherme Trindade e Thursday Night, de Gonçalo Almeida.


Nada como conhecer melhor os realizadores e filmes nacionais seleccionados. Para começar, o Hoje Vi(vi) um Filme entrevistou Ricardo Leite, realizador de A Instalação do Medo.

De onde surgiu a ideia de fazer este filme?
Ricardo Leite (RL): A ideia surgiu do livro do Rui Zink, achei piada a este conceito parvo que, de repente, o governo controla a sociedade de tal forma que já não precisamos de sair de casa para sentir o medo.

O argumento de A Instalação do Medo parece ser um dos pontos fortes da curta-metragem. Acha que vai suscitar a curiosidade do público para o livro de Rui Zink que lhe serviu de base?
RL: Espero que sim, principalmente porque a história da curta-metragem não é exactamente igual à que está no livro, a obra do Rui tem cerca de 200 páginas e, naturalmente, houve alguns elementos e nuances que não cabiam numa curta de 14 minutos.


O que pode o público esperar da curta-metragem?
RL: Uma história intrigante, com performances muito boas do nosso elenco.

Trabalhou com três actores muito conhecidos do grande público. Como correram as filmagens?
RL: Correram bem, tivemos muita sorte por ter conseguido um elenco tão bom, principalmente tratando-se de um projecto de escola. Foram umas rodagens muito duras para todos, mas acho que o resultado final deixa-nos a todos orgulhosos.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
RL: É muito importante, principalmente para o formato de curta-metragem. Temos poucas formas de chegar ao público e os festivais acabam por ser praticamente a única forma de obtermos um feedback. Claro que hoje em dia temos as plataformas digitais, eu continuo um pouco reticente, mesmo o cinema curto merece ser visto na grande tela e é uma experiência completamente diferente. Acho que devemos incentivar cada vez mais o público a frequentar os festivais e a consumirem cinema português, e acabar com aquela mentalidade que o cinema português é mau. Temos tido felizmente vários exemplos do contrário em festivais de cinema onde o nosso cinema é distinguido competindo com filmes com orçamentos muito superiores.

Sinopse
A Mulher abre a porta de casa. Aparecem dois homens: «Bom dia, minha senhora. Viemos para instalar o medo».

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

MOTELx'15: Entrevistas - Óscar Faria (A Tua Plateia)

MOTELx já começou, no passado dia 8 de Setembro, e para o Prémio MOV MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2015, o único galardão do festival, estão a concorrer 10 curtas-metragens nacionais: A Tua Plateia, de Óscar FariaAndlit, de João Teixeira FigueiraErmida, de Vasco EstevesGasolina, de João TeixeiraInsónia, de Bernardo LimaMiami, de Simão Cayatte, Efeito Isaías, de Ramón de los SantosO Tesouro, de Paulo AraújoThe Bad Girl, de Ricardo Machado, The Last Nazi Hunter 2, de Carlos Silva.


Finalizamos hoje as entrevistas aos dez realizadores portugueses na corrida para o Prémio MOV MOTELx com Óscar Faria e a sua curta-metragem A Tua Plateia.

A Tua Plateia tem como palco o interior do país, cada vez mais abandonado. Qual o motivo para a escolha deste local para filmar a curta-metragem?
Óscar Faria: O local do filme surgiu inicialmente por uma questão de logística. Sendo que, mesmo estando na minha região e conhecendo perfeitamente, ao longo da repérage fui encontrando decores incríveis que se encaixavam claramente no meu conceito. O meu processo de escrita tem sempre muita liberdade, por vezes gosto de escolher os locais e voltar a rescrever sobre eles. Foi o que aconteceu neste projecto, achei que poderia ficar mais consistente criar uma linha de acção através de um local, um dos exemplos é a última imagem do filme.

O que podemos esperar de A Tua Plateia?
O.F.: Nunca gosto de afirmar o que podem esperar de um filme, gosto mais de saber a opinião posteriormente. Mas posso adiantar que se trata de uma narrativa muito subtil, com um ambiente pesado em torno de uma personagem, a fotografia e o som também são pontos fundamentais do filme. O ideal será ver A Tua Plateia com muita calma e deixarem-se levar pelo momento, são cerca de nove minutos em silêncio, sem pipocas.

Como foi trabalhar com Miguel Damião?
O.F.: O actor foi super acessível desde o inicio. Fomos discutindo todo o argumento, alterando perspectivas e essa junção de pensamentos foi notável no produto final. A capacidade de representação do Miguel Damião foi um dos pontos fortes durante a rodagem, estava sempre um passo à frente do que era previsto. Por isso, trabalhar com o Miguel foi uma mais valia para o filme e para mim como realizador. Foi um processo muito dinâmico e como podes notar no filme, é o actor que constrói todo o ambiente.

Qual é para o Óscar a importância de estar entre os seleccionados de 2015 para o Prémio MOV MOTELx? E o que o levou a submeter o seu filme?
O.F.: Esta selecção é sem dúvida um objectivo alcançado, visto que é a minha primeira curta-metragem "pós-escola", estrear no MOTELx é um grande incentivo a novos projectos para qualquer jovem realizador. Esta curta foi exclusivamente produzida em tempo recorde a pensar nesta edição do MOTELx, através de um desafio do produtor José Pedro Lopes, da Anexo82.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
O.F.: Os festivais de cinema são a chave principal para a divulgação do cinema nacional, principalmente na curta-metragem. Se o meu filme não estivesse em festivais de cinema, penso que alcançava poucas pessoas ou até mesmo nenhuma excepto a minha família e amigos, o que me deixa um pouco triste saber que depois de tanto trabalho e dedicação há sempre uma incerteza.


Sinopse
O interior de Portugal está cada dia mais isolado e abandonado. Um homem misterioso conduz nas suas estradas vazias recolhendo pedras, paus e... vítimas. Que anda ele a construir?

MOTELx'15: Entrevistas - João Teixeira (Gasolina)

MOTELx já começou, no passado dia 8 de Setembro, e para o Prémio MOV MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2015, o único galardão do festival, estão a concorrer 10 curtas-metragens nacionais: A Tua Plateia, de Óscar FariaAndlit, de João Teixeira FigueiraErmida, de Vasco EstevesGasolina, de João TeixeiraInsónia, de Bernardo LimaMiami, de Simão Cayatte, Efeito Isaías, de Ramón de los SantosO Tesouro, de Paulo AraújoThe Bad Girl, de Ricardo Machado, The Last Nazi Hunter 2, de Carlos Silva.


Vamos hoje conhecer melhor a curta-metragem Gasolina. É, como de costume, o seu realizador, João Teixeira, que nos conta um pouco mais sobre o filme.

Ao assistir ao trailer de Gasolina senti uma aura de insegurança, suspeição, de que nada é o que parece. É isso que o seu filme pretende ser? O que pode o público esperar desta curta-metragem?
João Teixeira: Insegurança e desconfiança são sem dúvida dois pontos sempre presentes neste filme. Um casal que procura ajuda e a insegurança ao encontrá-la, leva-os para uma constante sensação de desconforto. Este filme também foi escrito para ilustrar um momento que, por um motivo ou por outro, acaba sempre por nos afectar. Momento esse em que os preços aumentam, tornando-se descontrolados e podendo mesmo implicar vidas. Mas acima de tudo, um ponto importante e que defendo ser um dos principais objectivos de qualquer filme, é ser projectado com o objectivo de fazer passar um bom momento a quem o assiste.

Como surgiu a ideia de filmar Gasolina?
J.T.: A ideia surgiu no ano passado, quando decidi filmar para o submeter ao MOTELx. Ainda sem qualquer ideia resolvi primeiro assistir à edição de 2014 do festival. A partir daí li, folheei inúmeras páginas de contos pulp (uma literatura com a qual me identifico) e só aí começou a surgir a ideia. Fiz o convite ao António Nascimento, um “velho” colega de escola com quem nunca tinha tido oportunidade de trabalhar e começámos a escrever.

Como foi trabalhar com o veterano Carlos Santos?
J.T.: O Carlos foi uma excelente surpresa neste projecto. Para quem está no início de uma carreira, comparado com ele, e ao decidir contactá-lo, rapidamente vieram à cabeça pensamentos como: “ele nem me vai responder”. E aí começa a surpresa, uma pessoa super acessível, profissional e acima de tudo humana. Foi sem dúvida uma mais valia poder ter contado com o Carlos, ter uma pessoa com as suas características ao meu lado trouxe, não só inúmeros pontos positivos, como uma aura que só ele conseguiria ter trazido.

Qual é para o João a importância de estar entre os seleccionados de 2015 para o Prémio MOV MOTELx? E o que o levou a submeter o seu filme?
J.T.: Como disse, filmei o Gasolina já com esse objectivo e ser seleccionado já foi uma conquista. Toda a estrutura do MOTELx e a “vida própria” inerente ao mesmo tornam-no num festival de referência e submeter um filme rapidamente se tornou num objectivo, tal como acabou por acontecer.

Qual o papel dos festivais de cinema no campo da divulgação do cinema nacional? Que mais pensa que pode ser feito neste campo?
J.T.: O papel da divulgação é importante tanto para quem produz os filmes como para aqueles que os querem ver e são os festivais que fazem essa ponte que nos dá força para fazermos aquilo que gostamos. Neles temos a oportunidade de termos contacto directo com o outro lado, o do espectador. Na verdade, esta é a peça fundamental para que tudo resulte pois é ele que se interessa, assiste e comenta todos os novos trabalhos, alimentando a força de quem os faz. O que pode ser feito neste campo é simplesmente não deixar esmorecer este ciclo, mantendo sempre viva a ligação entre quem faz o filme e quem o assiste.


Sinopse
Um casal tira partido da escuridão da noite, acabando por ficar sem gasolina no seu carro. Ao procurarem ajuda percebem que a crise está a alastrar e a obrigar as pessoas a fazerem coisas terríveis.