Hoje vi(vi) um filme: Já Vi(vi) este Filme, por Rui Alves de Sousa

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Já Vi(vi) este Filme, por Rui Alves de Sousa

Já Vi(vi) este Filme 
por Rui Alves de Sousa, da Companhia das Amêndoas e Espalha-Factos


Há uma cena de Voando Sobre um Ninho de Cucos que gosto particularmente. Apesar de não ser uma das mais referenciadas do filme de Milos Forman, é um dos meus momentos de eleição da fita e uma das razões pelas quais gosto tanto da mesma. Apercebi-me desta ligação com a realidade logo no primeiro visionamento

Nessa cena, o protagonista, Randall McMurphy (Jack Nicholson) tenta convencer, numa sessão de terapia conjunta, a autoritária enfermeira Ratched a deixar os pacientes do hospício poderem ver a “world series”, que McMurphy visiona todos os anos já como tradição. Ratched, prepotente como sempre, impede-o de concretizar o seu desejo, porque não considera ser essa a vontade dos outros doentes (“outros” é como quem diz, porque quem conhece o filme sabe que McMurphy é o mais são daquela pandilha).

Mas a questão é posta em discussão e muitos dos compinchas da personagem de Nicholson votam a favor da “world series” (por influência óbvia do poder de persuasão deste seu amigo criminoso). Contudo, Ratched diz-lhe que só conta oito votos, e que é preciso um nono (ou seja, para chegar à metade dos pacientes) para tudo ser ponderado. Randall sai então do seu lugar e passeia-se pelos recantos do hospício, procurando alguém, entre os loucos mais loucos, que o possa ajudar. Depois, quando consegue que isso aconteça, Ratched, numa atitude autenticamente “bitchiana”, afirma que a votação já tinha sido feita e que esse voto não conta.

Pode não ser o episódio mais extraordinário para se poder dizer “Ena, eu já vi isto em algum sítio antes!”, mas a verdade é que a memória que eu associo a esta cena é um dos pontos mais fortes de ligação entre o Cinema e esta minha vida (para além das dezenas de frases cinematográficas que cito todos os dias).

A minha história real é ligeiramente diferente, mas tem os seus pontos em comum: uma vez, há uns largos anos, fui a uma festa de aniversário de um amigo da escola. Recordo uma tarde divertida, a daquele dia. Mas entretanto começou a chover, e todos tivemos de ir para dentro. Esse meu amigo achou que pôr-nos a todos a ver desenhos animados na RTP2 (naquele lar não existia cabo) seria uma boa maneira de passar os poucos momentos que faltavam para cada um de nós se ir embora. Mas ao chegarmos à sala, encontrámos os pais dele, muito atentos ao pequeno ecrã, a ouvirem as notícias.


E o moço começou a fazer uma cena com os seus progenitores semelhante à de Jack Nicholson com a atriz Louise Fletcher no filme de Forman. Implorou, implorou e implorou, e nós ali, a assistir àquela cena com toda a atenção (mas entretanto, um ou outro petiz já se tinha esgueirado para a cozinha, em busca de restos do bolo). E a mãe do menino teve esta brilhante ideia, de fazer uma votação. Éramos nove (no princípio da festa talvez fossemos o dobro disso), e com ele na sala estávamos ali quatro. E ela disse-lhe que para poder ter os desenhos animados, precisava de mais um voto! E não é que, quando o pirralho volta da cozinha com mais um coleguinha que foi bem persuadido para ser o quinto votante, ela lhe diz que o tempo da votação terminou?

Mas as duas histórias têm finais um bocadinho diferentes: enquanto que a ficção termina esta cena com Nicholson a inventar, perante o ecrã desligado, as sensações eufóricas que sentiria a ver a verdadeira “world series” (o que leva ao igual entusiasmo dos outros pacientes – e à fúria de Ratched), nesta história verídica, o que se passou foi que a mãe estava a brincar com o seu menino e, quando mudou a TV para o segundo canal… os desenhos animados já tinham acabado há meia hora, e alguns de nós tivemos os nossos pais a aparecerem para nos levarem a casa.

Não é o melhor nem mais interessante cruzamento entre o grandioso Cinema e a miserabilidade das vidas de cada um de nós, mas é o primeiro que me vem à cabeça, e o mais “fiel” aos acontecimentos da cena ficcional. E não deixam de ser caricatas as semelhanças que ocorrem entre os dois mundos…

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Obrigada pela tua participação, Rui!

1 comentário:

Os Filmes de Frederico Daniel disse...

Nunca vi o filme, mas achei a peripécia algo engraçada. xD