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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Crítica: True Detective - Primeira Temporada (2014)

*9/10*

True Detective está na ordem do dia. Entre confirmações e especulações, a série da HBO começa a preparar a sua segunda temporada. Aqui, dou-lhe tempo de antena, mas para falar da primeira. Não tenho por hábito usar este espaço para falar de séries. Abro excepção para True Detective, que me conquistou por tanto que tem de cinematográfico. Não serei exaustiva na análise, quero é que todos a vejam. Muito bem se falou aquando do seu surgimento. Esta série da HBO depressa chegou ao coração dos espectadores e conquistou fãs acérrimos. Matthew McConaughey e Woody Harrelson foram as escolhas certeiras para a primeira temporada.

True Detective dá-nos a conhecer a vida de dois detectives, Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Martin Hart (Woody Harrelson), ao longo dos 17 anos em que tentam resolver o caso de um assassino em série.

Os acontecimentos passados são-nos relatados, no presente, - a nós e a dois outros detectives - pelos dois protagonistas, longe da aparência e da carreira que tinham há 17 anos. Entrecruzando passado e presente, vamos descobrindo e reabrindo o caso. Iremos reconstruir os passos dos detectives, os crimes, as possibilidades de culpa. Vamos entrar em caminhos perigosos, sempre com Rust e Martin.


O Louisiana serve de palco aos acontecimentos. Somos mergulhados, logo de início, em macabros assassinatos nestas terras perdidas do sudeste dos Estados Unidos da América. Os primeiros episódios oferecem o choque necessário para sabermos que tudo aqui será sujo e brutal. Tudo é cru, mesmo cruel. Todas as personagens têm algo de imoral. Conhecemos, aos poucos, as suas vidas, família, os seus pecados. Percorremos com eles longas e solitárias estradas procurando suspeitos que tardam em chegar e encontrando fantasmas que teimam em não ir embora.

Será, no entanto, no quarto episódio que entramos verdadeiramente na investigação, no mundo pobre, triste, e obscuro desta América de ninguém. É aqui também que nos deparamos com um fabuloso plano-sequência, que valeu a Cary Fukunaga o Emmy para Melhor Realização em série dramática. Mas não é apenas ali que estão as marcas de uma realização de excelência. Fukunaga oferece-nos por diversas vezes fantásticos planos aéreos exteriores dos campos, do rio, das estradas desertas, outras vezes, em espaços fechados sufoca-nos com planos desconcertantes, onde o trabalho de fotografia adensa o suspense e o medo que paira também junto ao espectador.

A par da realização e do carácter negro do argumento, outro dos pontos fortes de True Detective assenta nas personagens. Todas assumem um carácter duvidoso e as aparências vão-se denegrindo, episódio a episódio. Descobrimos-lhes o passado, os segredos, as traições, os traumas, os fantasmas... E aqui reside o realismo da história: os protagonistas vão-nos desiludindo, tal e qual acontece na vida real. E, tal e qual, vamos habituar-nos a conviver com os seus defeitos e a seguir, com paixão, True Detective até ao fim.


Nem Rust nem Martin são exemplos de perfeição. Um é perturbado, dependente de drogas, o outro é mulherengo e alcoólico. Por outro lado, enquanto Rust tem o dom de encontrar pistas, formular hipóteses, obcecado com a investigação, desconfia e segue um rumo aparentemente certeiro, o outro, mais descontraído, é contudo quem o chama à terra e orienta, como bom polícia e bom colega. Assim se forma a equipa certa, entre segredos que os unirão para a vida e desavenças que podem colocar tudo a perder. Ambos se envolvem de corpo e alma na investigação que têm em mãos. As vítimas, na sua maioria mulheres e crianças, vão fazê-los chorar e lutar com uma fúria e vontade cada vez maior de encontrar culpados. Eles não desistem, mesmo quando todas as portas se fecham. E será provavelmente isso que nos fará gostar tanto de Rust e Martin.

True Detective começa em crescendo, sempre com o ambiente desconfortável mas perfeito para captar atenções, e aumentando-as até ao oitavo e último episódio. Nós apenas vamos clamar por mais, e aguardar que a segunda temporada consiga, pelo menos, ser tão boa quanto a primeira.

3 comentários:

rsl disse...

Cinematograficamente a serie é mto boa, as interpretaçoes sao magnificas mas a serie em si nao me cativou :( os dialogos filosoficos sao enfadonhos, já vi melhores historias de crimes...
Para mim Fargo (a serie) está muito melhor conseguida.

Inês Moreira Santos disse...

Eu não tenho muito o hábito de acompanhar séries. Esta conquistou-me, mas percebo o que dizes quando referes os diálogos.
Talvez futuramente experimente Breaking Bad e, já que falas nisso, Fargo. :)

rsl disse...

Eu perdi o habito de acompanhar filmes :) acho que de há alguns anos para cá a qualidade dos produtos televisivos é superior à dos filmes :(
Breaking Bad é das minhas series preferidas de sempre! Já meti muita gente a ve-la apesar de considerar a primeira temporada a mais fraca e muita gente nao aguenta a lentidao da mesma. A minha vida nunca mais foi a mesma depois de BB acabar :)
Mas é melhor começares por Fargo, sao só 10 episodios (contra os 62 de BB).