Hoje vi(vi) um filme: LEFFEST'16: Dogs / Câini (2016)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

LEFFEST'16: Dogs / Câini (2016)

*7.5/10*

Bogdan Mirica estreou-se nas longas-metragens com Dogs, sem medo de embarcar numa Roménia desolada e sem lei. O filme faz parte da Competição do Lisbon & Estoril Film Festival.

Roman, um rapaz da cidade, viaja até uma aldeia remota da Roménia para vender a terra que herdou do seu avô. À chegada, Roman depara-se com uma série de estranhos acontecimentos que lhe revelam que o avô era, afinal, um criminoso muito poderoso na região. Para vender a terra, o jovem tem de enfrentar os representantes do seu avô, agora liderados por Samir, um tártaro afável e carismático. Entretanto, Hogas, um agente da polícia, investiga o misterioso aparecimento de um pé amputado, mas a sua verdadeira intenção é a de vingar-se a todo o custo de Samir, o seu eterno rival.

Um lugar esquecido no tempo, de terrenos até perder de vista, uma casa sem água canalizada, guardada por uma cadela chamada Polícia. Ingredientes suficientes para nos deixar curiosos, a nós e a Roman, que se perde entre a caça aos faróis de carros que vê ao longe, no seu terreno, e aos javalis ameaçadores que a circundam.


Roman surge como um intruso nos estranhos negócios do grupo do seu falecido avô - uma espécie de máfia na zona. O seu interesse em vender casa e terrenos não deixam ninguém satisfeito, e o suspense começa. É à noite que os segredos bem guardados naquelas terras espreitam, para lá da vedação que cerca a casa. E é neste jogo do escuro da noite e da luz das lanternas e faróis que todo o ambiente, já de si incómodo e inseguro, se adensa mais ainda, cada vez mais inquietante.

Dogs é violento e inesperado, feito de silêncios que anunciam medos e perigos. Quem está sempre alerta é mesmo a nossa Polícia - o animal -, em contraste com a polícia da região, cada vez com menos recursos, apesar dos esforços do agente Hogas.


A planície até perder de vista, com estradas de terra batida, a noite escura e as lanternas que espreitam e pouco a iluminam, as luzes dos faróis, o pó que as rodas levantam, todos são bons elementos para fabricar planos marcantes e intensos para o espectador. O director de fotografia Andrei Butica faz um trabalho excelente, potenciando ao máximo a beleza da desolação do local. Por seu lado, Mirica captura essa beleza em planos longos e contemplativos.

Bogdan Mirica criou um filme duro, com alguns momentos de humor, onde a crítica sócio-política está bastante presente, a corrupção domina e a lei parece não conseguir impor-se. Uma excelente estreia do realizador romeno. A Roménia rural de Dogs, pode dizer-se, não é para os novos.

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