Hoje vi(vi) um filme: DocLisboa'13: Cativeiro / Captivity (2012)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DocLisboa'13: Cativeiro / Captivity (2012)

*8.5/10*

Cativeiro, de André Gil Mata, já tinha passado pelo DocLisboa em 2012, e repete agora o feito na presente edição, após ganhar o Prémio Doc Alliance 2013, em Cannes. A primeira longa-metragem do realizador debruça-se sobre a sua avó, o seu quotidiano, num retrato duro da rotina e da velhice, do passar do tempo, mais ou menos, consciente.

A casa da avó de Gil Mata, dona Alzira, serve de palco a este Cativeiro de tempo e espaço, a esta rotina que nos amedronta, tal como ao realizador. É ele que narra o documentário, de marcado tom pessoal, inevitavelmente, mas que nos consegue dizer quase tanto como ao seu autor. 

Filmado em 16mm e em vídeo - este predomina, mas o primeiro revela-se igualmente essencial, adensando a sensação de nostalgia e pertença ao local-, André Gil Mata partilha connosco medos, intimidade e indecisões. Dona Alzira é o centro do filme, mas no seu Cativeiro surgem outras personagens como Irene Julieta, que ajudam cuidam dela, e, ao mesmo tempo, sentimos a presença do realizador, o seu neto. "São as coisas do André", diz, a certa altura, uma das companhias da protagonista.

A acompanhar as imagens da casa e da avó, do seu gato que por lá passeia, ouvimos os desabafos do realizador, as suas preocupações, os seus objectivos, numa espécie de diário de filmagens. Desde a vontade de filmar o amanhecer na cozinha, à sua concretização, ao receio de não conseguir ali passar os 15 dias a que se propôs gravar junto da avó, Gil Mata tem-nos como seus confidentes.


E, tal como para ele é difícil encarar a realidade que filma, também para nós é duro assistir àquela rotina, às dificuldades de Alzira, à solidão, ao repetir do toque do sino da Igreja... No fundo, é duro assistir ao tempo a passar. Também nós, tal como o realizador, percebemos, a certo momento, como "o passado existe, realmente" e como não temos "noção desse futuro" que o passar do tempo faz chegar.

Cativeiro está repleto de planos, normalmente estáticos, que nos envolvem, nos entristecem e comovem, que nos fazem recordar locais ou pessoas. Perto do fim, Gil Mata percorre a casa da sua avó filmando o tecto, num plano-sequência inesquecível.

"O que são os espaços sem as pessoas que lhes pertencem?", questiona o realizador. A resposta pode estar neste documentário, que marca qualquer um que o assista. No fundo, cada um tem o seu Cativeiro.

Cativeiro passa no DocLisboa'13 no próximo Sábado, dia 2 de Novembro, às 16:45, na sala 3 do Cinema São Jorge.

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