sexta-feira, 24 de abril de 2015

Crítica: Ex Machina (2015)

"Isn't it strange, to create something that hates you?"
Ava

*7.5/10*

A estreia de Alex Garland na realização retoma os dilemas éticos da Inteligência Artificial do cinema de ficção científica e tem ao comando uma protagonista fabulosa. Em Ex Machina, o realizador enclausura-nos numa isolada e "fortificada" casa-laboratório, juntamente com o seu reduzido elenco onde facilmente nos envolvemos com o trio de actores principais: Oscar IsaacDomhnall Gleeson e Alicia Vikander.

Caleb (Domhnall Gleeson), um jovem programador da maior empresa de Internet do mundo, vence um concurso para passar uma semana no refúgio de montanha de Nathan (Oscar Isaac), o CEO da empresa. Quando Caleb chega ao local, percebe que terá de participar numa experiência estranha e fascinante em que deverá interagir com a primeira verdadeira inteligência artificial do mundo, incorporada no corpo de uma bonita rapariga robot, Ava (Alicia Vikander).

Garland conduz-nos por cenários incríveis e introduz-nos num ambiente claustrofóbico, onde deuses e homens parecem coexistir. Naquela casa há algo nunca antes visto, mas isso não nos coloca num futuro muito longe do presente actual. Eis que entra em cena o debate em redor das questões associadas à Inteligência Artificial. O argumento pode não ser o mais original - e lembrar-nos-á outros filmes do género, mesmo em pequenos pormenores - mas as ideias que pairam em Ex Machina continuam pertinentes: alguma máquina poderá ter inteligência e emoções similares às humanas? E quais os limites do poder do seu inventor, qual deus da tecnologia? Sim, porque, aqui, até a religião entra em cena, quer nas conversas entre os dois homens do filme como nos próprios nomes dos três protagonistas.


Entramos na casa de Nathan, tal como Caleb, num profundo desconhecimento daquilo a que vamos. Ele depara-se com Ava, a robot a quem terá de fazer o Teste de Turing, e nós seguimo-lo nas conversas e pelos recantos da casa que lhe estão acessíveis. Sentimos a mesma claustrofobia que o jovem programador naquela casa de alta segurança quase sem janelas, teremos desconfianças a cada nova informação, a cada nova conversa com o humano ou com a robot. As dúvidas apoderam-se de Caleb e da plateia que fica presa no suspense que o ritmo lento do filme tão bem constrói. É este ritmo que distingue Ex Machina de outros filmes de ficção científica recentes: aqui, tudo é mostrado com calma e é esta técnica que contribui para a forte tensão e suspense que se sentem, para este thriller funcionar tão bem enquanto tal. A longa-metragem encontra-se dividida em partes, que correspondem às sessões de Caleb com Ava, e marcam bem o desenrolar da acção - com algumas reviravoltas interessantes -, que culmina num final curioso mas que poderia ser ainda mais arrebatador.

Tecnicamente, Alex Garland mostra-se eficiente, quer pelos planos incómodos - a construção da casa e suas divisões, onde as barreiras estão por todo o lado, sejam elas portas ou vidros que nos separam da verdade, muito contribui para isso - mas principalmente pelo excelente trabalho da direcção de fotografia que tira óptimo partido dos cenários exteriores, mas faz igualmente um excelente e perturbador trabalho no interior, com o vermelho a ter um simbolismo muito próprio. O som é outro ponto forte de Ex Machina, lembra-nos as fronteiras entre o proibido e o permitido naquela casa, salienta igualmente a importância da tecnologia no local, e enquadra-se na perfeição com a banda sonora, repleta de tensão.


Nas interpretações encontramos um trio cheio de talento: Oscar Isaac é Nathan, o poderoso dono da empresa onde Caleb trabalha. Ele cria Ava, mas a sua confiança e o seu poder de "criador" são ameaçados pelo seu vício pelo álcool. Já Domhnall Gleeson interpreta o inteligente mas ingénuo Caleb, cujas dúvidas vão crescendo à mesma medida que o suspense. Mas a dominar Ex Machina está a máquina, Ava, a robot sensual e surpreendentemente inteligente, numa fenomenal interpretação da jovem promessa Alicia Vikander (que já vimos em Anna Karenina ou Um Caso Real, por exemplo). Os seus gestos e expressões são especialmente cuidadosos e é curioso assistir à sua evolução à medida que as conversas com Caleb se vão sucedendo. A forma como lida com o seu corpo mecanizado e com a sua sexualidade (lembrando-nos certa extraterrestre que passou pelos cinemas em 2014) é outro dos pontos a destacar na personagem de Ava e no desempenho de Vikander.

A Inteligência Artificial regressa assim ao cinema pela mão de Alex Garland, que, apesar de não vir marcar a história da ficção científica, traz uma lufada de ar fresco ao género com Ex Machina.

10 comentários:

Leonardo disse...

Acredito ter ocorrido um "furo" no final do filme, pelo menos a meu ver, visto que o personagem Caleb reprogramou o sistema de segurança para que as portas abrissem quando houvesse a queda de luz, contudo o mesmo personagem acaba o filme preso no quarto de Nathan sob uma luz vermelha que caracteriza essa queda, dessa forma poderíamos interpretar que devido a reprogramação ele não poderia estar preso. Ainda assim penso que a história num modo geral ficou muito encima das "bebedeiras" de Nathan e a interação de Caleb e Ava poderiam ter sido mais explorada, ao invés de apenas sessões de conversas, perguntas e respostas sem sentido um para com o outro.

H. Matheus S. Lima disse...

Leonardo, as quedas de energia aconteciam exclusivamente por causa da Ava, que no momento estava saindo dali. O que aconteceu não foi uma queda de energia ao meu ver e sim um alerta do sistema por causa uma tentativa ilegal de acessar o computador (Caleb tentou usar o computador com o cartão limitado dele).

Bia disse...

O filme e o roteiro foram uma merda ! O filme eh fraco muito ruim pqp

Bia disse...

O filme e o roteiro foram uma merda ! O filme eh fraco muito ruim pqp

Antonio Peneda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Peneda disse...

Filme que surpreendeu, o título sugeria mais uma "macacada" de Hollywood...
Filme inteligente, no entanto o final poderia ser melhor trabalhado, de modo a não subsistirem algumas dúvidas durante a primeira visualização...e a Ava "esqueceu" o cartão quando encontrou o Calleb derrubado? Ou foi propositado pelo realizador, para evidenciar ao espetador o papel da assistente do Mágico?
Na primeira visualização não nos apercebemos que ela não leva o cartão na mão...

Evânderson Pedro dos Santos disse...

O único "furo" que encontrei foi que se ele havia modificado um dia antes o sistema para as portas se abrirem porque isso não ocorreu no último dia em que eles estavam combinando a fuga? Fora isso gostei muito.

Ernesto Plastina disse...

Na verdade queria que alguem me explicasse o final, pois depois que ela derruba o Nathan no corredor ela volta até a sala onde está Calleb e pergunta se ele vem. Ele não responde, permanece caído no chão e fica meio na dúvida. Aí ela vai para o outro aposento, onde haviam as modelos antigas, se "veste" e durante todo esse processo a câmera mostra Calleb observando ela por uma janela. Aí, somente quando ela sai da casa é que mostra Calleb trancado e gritando. Como assim? Aquela porta não estava aberta na hora que ela foi chamar ele? Fiquei sem entender.

Ricardo disse...

Também não entendi muito bem o final! não entendi se ele ficou na dúvida se ia ficar ou não, ou se as portas realmente estavam trancadas e não abertas. Mas acredito que ele foi burro, pois deveria ir atrás dela. Acredito eu que as portas estavam abertas. Era só seguir ela, mas o bocaberta preferiu ficar observando ela! burro! Não gostei desse final dele trancado lá. Péssimo roteirista!

Rafael Pank's! disse...

Final estranho mesmo, como observou o Ernesto Plastina e o Ricardo, não se sabe se ele não a seguiu por que tava trancado ou não podia.
Ele observa ela se "montando", mas não faz nada... É estranho ele ficar lá por que não foi atrás dela.
Nos faz entender que Nathan estava certo, ela o usou, mas aí vc lembra que ela o chamou...
Estranho final, mas com certeza um filme que me surpreendeu.