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quarta-feira, 13 de março de 2024

Oscars 2024: Red carpet

Após uma cerimónia com a vitória anunciada de Oppenheimer e algumas surpresas, incluindo a estrondosa interpretação de Ryan Gosling do tema I'm just Ken, fazemos a habitual ronda pela passadeira vermelha dos Oscars. Entre alguns modelos exuberantes e outros mais discretos, destaquei os que mais me cativaram, entre a elegância e simplicidade (e o arrojo de Florence Pugh).

Lupita Nyong'o desfilou num elegante modelo cinza brilhante Armani Privé. A combinar com o vestido e as jóias, a actriz tinha glitter no corpo, rosto e cabelo. Era impossível ficar-lhe indiferente.

Vencedora do Oscar de Melhor Actriz em 2023, Michelle Yeoh desfilou glamourosa num vestido assimétrico Balenciaga, brilhante em tons de prata, em contraste com umas elegantes luvas pretas compridas.

Nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Secundária, Jodie Foster chegou à passadeira vermelha com um vestido azul escuro LOEWE, cuja saia se destacou pelos detalhes brilhantes, qual céu estrelado.

A realizadora francesa Justine Triet, nomeada por Anatomia de uma Queda, optou por um fato às riscas Louis Vuitton, juntamente com um top preto acetinado. Prática e elegante.

Jennifer Lawrence desfilou com um vestido sem alças da Dior Haute Couture, preto com bolinhas brancas, e echarpe a condizer. Inesperadamente, clássico e elegante.

Zendaya desfilou deslumbrante na red carpet dos Oscars com um escultural vestido de uma alça Giorgio Armani Privé, em tons rosa e bordados prateados em forma de palmeiras. A acompanhar, esteve um penteado clássico e jóias Bulgari.

Nomeada para o Oscar de Melhor Actriz pelo seu desempenho em Maestro, Carey Mulligan foi uma das mais clássicas da noite, num vestido preto sem alças Balenciaga, cuja saia terminava numa volumosa bainha branca em tule plissado. Para aumentar - ainda mais - o glamour do modelo, Mulligan usou umas longas luvas pretas.

Ryan Gosling foi um dos homens da noite e, antes de usar o fato rosa brilhante, com luvas a condizer e óculos de sol, que marcou um dos momentos dos Oscars 2024, o actor - nomeado na categoria de Melhor Actor Secundário pelo seu papel de Ken em Barbie - chegou discreto mas cheio de estilo à red carpet. Gosling usou um descontraído fato preto, com detalhes metalizados, da Gucci, que também assinou o visual rosa que deu que falar.

Sempre com o seu quê de ousadia, Florence Pugh destacou-se na passadeira vermelha com um original vestido cinzento-prateado Del Core, cujo corpete, repleto de cristais, não deixou ninguém indiferente (e aquele colar!). 

Nomeada para o Oscar de Melhor Actriz, Lily Gladstone desfilou com um vestido de veludo azul, resultado de uma colaboração da Gucci com o designer indígena Joe Big Mountain. A capa/cauda com detalhes bordados, que lembram as suas raízes, transforma este modelo numa obra de arte. O bom gosto da maquilhagem, cabelo e jóias só consolidaram a actriz como uma das mais belas da noite.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Crítica: Saltburn (2023)

"Lots of people get lost in Saltburn."

Duncan

*7.5/10*

A mente delirante de Emerald Fennell regressou à realização e argumento com Saltburn, uma tragicomédia, cínica, mordaz e sem pudor. 

"Enquanto luta para encontrar o seu lugar na Universidade de Oxford, o estudante Oliver Quick (Barry Keoghan) é atraído para o mundo do charmoso e aristocrático Felix Catton (Jacob Elordi), que o convida para um Verão inesquecível em Saltburn, a propriedade da sua excêntrica família."

Emerald Fennell já tinha mostrado o seu lado aguerrido atrás da câmara em Uma Miúda com Potencial (2020), e, se este filme ganhava pontos, em especial, pelo argumento, Saltburn é um prodígio visual, seja pelos planos impactantes, como pelo trabalho da direcção de fotografia, potenciado pelo uso da película, captando cores quase irreais e um trabalho de luz e sombras que torna a acção ainda mais tenebrosa e inebriante.

Por outro lado, e apesar da criatividade da narrativa, o argumento não é tão bem conseguido como o do filme anterior. Saltburn toca levemente em temas como bullying e luta de classes - mas não são estas as verdadeiras motivações do protagonista nem do enredo -, transformando-se numa história de ciúme e crime, repleta de muita excentricidade.

Não há clemência para com as personagens - nem plateia. O desejo de vingança ou a ambição desmedida do protagonista fá-lo ser capaz de tudo, com atitudes sempre inesperadas e, muitas vezes, chocantes. E Barry Keoghan interpreta-o com a naturalidade que o caracteriza como actor, proporcionando sempre grandes desempenhos em papéis doentios e arrepiantes q.b. O jovem actor alterna a postura consoante o momento e transforma-se, diversas vezes, entre o rapaz tímido e solitário, ao mais manhoso e manipulador.

Saltburn é um labirinto de perversidade e ambição que resulta numa experiência cinematográfica essencialmente sensorial. Emerald Fennell continua o seu percurso como realizadora com garra, sem medos nem tabus: o futuro só pode ser radioso - e agitado.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Crítica: Maestro (2023)

"If the summer doesn't sing in you, then nothing sings in you. And if nothing sings in you, then you can't make music."
Felicia


*9/10*

Maestro é um filme grandioso, a todos os níveis, revelando um Bradley Cooper maduro, que respira verdadeiramente cinema, dos dois lados da câmara. Um retrato comovente, empolgante e sem preconceitos de Leonard Bernstein e da sua companheira de vida, a actriz Felicia Montealegre Cohn Bernstein.

"Da sua paixão pela música até à fama como o primeiro maestro americano de renome mundial, seguindo sempre a sua ambição de compor tanto obras sinfónicas como populares musicais da Broadway", o filme acompanha as várias fases da vida de Bernstein e a sua relação com os que o rodeavam, em especial com a esposa Felicia.


Se dúvidas houvesse, depois de Assim Nasce uma Estrela (2018), Maestro fá-las dissipar e é a prova da emancipação de Bradley Cooper enquanto actor e realizador. O filme resulta de seis anos de preparação, tanto para interpretar Leonard Bernstein, como a pensar o filme, plano a plano. Este empenho e coragem sentem-se a cada cena, a cada linha de diálogo.

Com um início que deambula entre a realidade e os sonhos, onde a montagem sugere a magia da imaginação e as ambições que se concretizam mais depressa do que se espera, é aqui que as vidas de Lenny e Felicia se encontram e unem (apesar das relações extraconjugais pouco discretas que Bernstein teve ao longo do tempo). A vida avança e as carreiras dos dois seguem o seu caminho, sendo que Felicia adia os seus objectivos para ficar na sombra do marido, a apoiá-lo e incentivá-lo, chamá-lo à realidade quando o sucesso o tenta com excessos e vícios. Descurando a família, o maestro vive tudo tão intensamente que perde, por vezes, a razão de ser da sua obra. Até que Felicia regressa no momento certo, ela também novamente em ascensão, e o casal se reencontra na doença e no conforto e, desta vez, é ele quem passa a viver para ela.


E se Carey Mulligan está irrepreensível como Felicia Montealegre, artista que estudou afincadamente e que nem o característico sotaque descurou; Bradley Cooper desaparece enquanto Leonard Bernstein - e não é só graças à fantástica caracterização e próteses que usou, para interpretar o maestro em diversas fases da vida. Cooper alterou a voz, aprendeu a conduzir orquestras e a movimentar-se com o mesmo entusiasmo em palco que Bernstein, apreendeu gestos e expressões e o resultado é arrepiante.

Também de destacar, é a gloriosa direcção de fotografia que tira o melhor proveito da película (35mm, a preto e branco e a cores e com diferentes formatos, consoante a época dos acontecimentos), e esconde em si pequenos detalhes que ajudam a construir a personalidade das personagens. Ao mesmo tempo, é capaz de planos avassaladores, como é o caso do concerto na Ely Cathedral - momento de tirar o fôlego - em que é o próprio Bradley Cooper quem conduz a London Symphony Orchestra, numa cena que foi gravada ao vivo.


Maestro tem o dom de causar os sentimentos mais fortes e antagónicos na plateia, indo do delírio do sucesso à mais profunda tristeza. E, mais do que uma marcante experiência cinematográfica, o filme de Bradley Cooper é um retrato realista e comovente da relação entre dois artistas - tão diferentes, mas que se complementaram de forma tão humana. 

domingo, 10 de dezembro de 2023

Sugestão da Semana #591

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Maestro, realizado e protagonizado por Bradley Cooper. Uma experiência que vale mesmo a pena não perder em cinema, antes de estrear na Netflix.

MAESTRO

Ficha Técnica:
Título Original: Maestro
Realizador: Bradley Cooper
Elenco: Bradley Cooper, Carey Mulligan, Maya Hawke, Sarah Silverman, Sam Nivola, Matt Bomer, Michael Urie
Género: Biografia, Drama, Música
Classificação: M/14
Duração: 129 minutos

domingo, 2 de maio de 2021

Sugestão da Semana #453

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana regressa com um destaque duplo - tantos meses com salas fechadas, há que compensar. Mais uma Rodada e Uma Miúda com Potencial (ambos vencedores de um Oscar, de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Argumento Original, respectivamente) convidam-nos a ir ao cinema.



Ficha Técnica:
Título Original: Druk / Another Round
Realizador: Thomas Vinterberg
Elenco:  Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus MillangLars RantheMaria BonnevieHelene Reingaard Neumann
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/14
Duração: 117 minutos




Ficha Técnica:
Título Original: Promising Young Woman
Realizadora: Emerald Fennell
Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Adam Brody, Connie Britton, Jennifer Coolidge, Laverne Cox, Alfred Molina
Género: Crime, Drama, Thriller
Classificação: M/16
Duração: 113 minutos

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Crítica: Uma Miúda com Potencial / Promising Young Woman (2020)

"Can you guess what every woman's worst nightmare is?"

Cassie

*8/10*

Uma Miúda Com Potencial (Promising Young Woman) é um thriller em tons de rosa, onde Carey Mulligan encarna a vingança feminista. A estreia de Emerald Fennell na realização de longas-metragens alia a angústia ao humor sarcástico, num resultado extremamente desafiador.

A sinopse é simples e directa: "Uma jovem assombrada por uma tragédia no seu passado, vinga-se nos homens que tenham o azar de se cruzar com ela."


Um revenge movie no seu esplendor, com características que o tornam singular: provocador, sensual, feminino, delicado e inteligente. Uma Miúda Com Potencial destaca-se da multidão de filmes do género pela personalidade forte e pelo confronto constante aos preconceitos da sociedade actual - ainda tão machista -, através de atitudes, valores e, principalmente, dos crimes de violação e assédio sexual tão escrutinados nesta obra. 

Através da protagonista, Cassie, o filme de Emerald Fennell quer fazer justiça, enquanto joga, ironicamente, com a culpabilização da vítima e o elogio do criminoso. Do título às situações retratadas, Uma Miúda Com Potencial tudo discorre em redor de abusos e da noção de consentimento. O argumento constrói-se a partir daí e, dividido em vários actos, é inesperado até ao fim (mesmo que ambicionássemos uma conclusão bem mais inspirada).


Uma Miúda Com Potencial é um filme cheio de cor em contraste com a dor que suga a vitalidade e a vontade de viver de Cassie. Obviamente, reconhecemos que a nossa protagonista tem sérios problemas psicológicos, resultado do trauma que sofreu há alguns anos. Consome-se, definha psicologicamente e revela traços de sociopatia. Carey Mulligan revela-se surpreendente na pele desta personagem vingativa e corajosa. A aparente fragilidade e delicadeza da actriz, bem como a forma como é capaz de se transformar enquanto Cassie, fazem dela a mais acertada escolha para o papel.

E a par da direcção artística, da fotografia e do guarda-roupa cheios de cor (onde o rosa abunda), tão harmoniosos de dia, tão decadentes à noite, também a banda sonora tem um papel fulcral na formação da identidade do filme, aparentemente inocente e pop, mas muito mais agressivo e inteligente. Eis que encontramos Downhill Lullaby, de Sky Ferreira, Stars Are Blind, de Paris Hilton, versões de Toxic (Britney Spears) ou It's Raining Men, entre outros temas certeiros.


Eis a garra feminista, sem medos ou vergonha, que retrata a maioria das personagens masculinas como pouco inteligentes, enfrenta os piropos ordinários e traça o seu caminho contra as expectativas dos outros. Uma estreia ousada para Emerald Fennell. Que continue a criar boas histórias e quebrar tabus.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Oscars 2021: As Actrizes Principais

Passamos às nomeadas para o Oscar de Melhor Actriz. 2020 foi um ano de grandes desempenhos femininos. Das cinco nomeadas, temos duas verdadeiramente arrebatadoras nos seus papéis, duas veteranas que nunca fazem mau trabalho e um papel tão físico como psicologicamente exaustivo. Ficaram de fora nomes como Zendaya (em Malcolm and Marie - assumidamente, uma das minhas favoritas) ou Rosamund Pike (I Care a Lot). 

Eis a minha lista das nomeadas, por ordem de preferência.

1. Carey Mulligan (Uma Miúda com Potencial / Promising Young Woman

Carey Mulligan revela-se surpreendente na pele desta personagem vingativa e corajosa. A aparente fragilidade e delicadeza da actriz, bem como a forma como é capaz de se transformar enquanto Cassie, fazem dela a mais acertada escolha para o papel. Ela consome-se, definha psicologicamente e revela traços de sociopatia; ao mesmo tempo que renasce sensual e decidida, comandada por um insaciável desejo de vingança.

2. Andra Day (Estados Unidos vs. Billie Holiday / The United States v. Billie Holiday

Andra Day não é a primeira actriz a interpretar Billie Holiday, mas faz um trabalho fabuloso. Treinou a voz para conseguir o tom grave e rouco da cantora, começou a fumar e a beber, perdeu peso, entregou-se a uma interpretação tão física como psicológica, sem problemas com cenas de nudez, violência ou de consumo de heroína, e é capaz de dotar a personagem de um carisma imenso em palco e de uma incapacidade de amor próprio nos momentos de maior fragilidade. Andra é frágil e forte, dominada mas decidida, apaixonada, magoada, corajosa mas influenciável. A cantora e actriz percorre uma série de estados de alma, mas o olhar vazio e desalentado é capaz de nos arrebatar.

3. Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)

Vanessa Kirby é realmente extraordinária como Martha. A actriz transfigura-se de forma especialmente realista durante o parto, entre dores, fraqueza e desespero, bem como nos meses seguintes, deprimida, magoada, desamparada, capaz contudo de fazer valer a sua palavra e a sua vontade. No meio de tanto sofrimento, a vida de Martha ressurge quando as sementes de maçã começam a germinar.

4. Frances McDormand (Nomadland - Sobreviver na América)

Sempre a reinventar-se, Frances McDormand tem um desempenho sóbrio e realista, na pele desta mulher nómada por natureza, independente e corajosa, que viaja pelo país à medida que as estações do ano passam e para onde o trabalho surja. Incapaz de criar raízes, estabelece laços com quem quer que se cruze, mas segue caminho, deixando em aberto potenciais - e quase certos - reencontros. Fern só se sente livre e feliz dentro da sua carrinha; ela não quer amarras, luta contra os sentimentos e, muitas vezes, foge como uma adolescente.

5. Viola Davis (Ma Rainey: A Mãe do Blues / Ma Rainey’s Black Bottom)

Viola Davis capta na perfeição movimentos, postura e modo de falar da artista, de presença forte e personalidade difícil, fazendo-se valer do seu talento para reivindicar os seus direitos. No entanto, mesmo que Ma Rainey: A Mãe dos Blues sugira que Davis é a grande estrela do filme, certo é que é Chadwick Boseman quem mais brilha e se destaca. Viola Davis torna-se secundária na acção, que roda muito mais em torno do actor.

sábado, 27 de março de 2021

Crítica: A Grande Escavação / The Dig (2021)

"From the first human handprint on a cave wall, we're part of something continuous. So, we... don't really die."

Basil Brown

*7.5/10*

A Grande Escavação (The Dig), de Simon Stone, faz um elogio a duas personalidades responsáveis por uma das maiores descobertas arqueológicas da História da Inglaterra. Ao mesmo tempo, o filme compõe um intenso quadro visual, enquanto os dilemas e receios de uma Segunda Guerra Mundial assombram todas as personagens.

"Com o aproximar da Segunda Guerra Mundial, uma viúva abastada contrata um arqueólogo amador para escavar antigas estruturas funerárias na sua propriedade. Quando fazem uma descoberta histórica, os ecos do passado britânico enfrentam um futuro incerto‎."

Baseado no romance de John Preston e adaptado para cinema por Moira Buffini, A Grande Escavação é um elogio à arqueologia e à sua importância para contar o passado longínquo às gerações presentes e futuras.

A preservação de artefactos dos antepassados de uma civilização, o reconhecimento por quem dedica a vida à descoberta de vestígios da História e a eminência da guerra e da morte a pairar são os focos da acção do filme de Simon Stone. A defesa da memória é a grande mensagem da longa-metragem que, para além das descobertas museológicas, destaca ainda a importância da fotografia como mais um suporte físico que perdura no tempo, testemunhando, para o futuro, tempos há muito passados.

Destaque para Carey Mulligan e Ralph Fiennes com duas prestações muito discretas mas carregadas de uma paixão comum - a arqueologia. E se Mulligan surge na pele de Edith Pretty, uma mulher frágil e doente, que vive para o filho e para os tesouros que acredita estarem escondidos debaixo dos montes de terra no seu terreno, Fiennes como Basil Brown será a esperança de os encontrar. Um homem dedicado, experiente, dos maiores conhecedores da terra (e dos astros), contudo desvalorizado pelos seus pares por não ter estudos.

Com direcção de fotografia de Mike Eley, A Grande Escavação oferece-nos planos dinâmicos e envolventes, e transforma paisagens tristes, simples e despidas, em imagens de grande beleza e vida, com especial foco na terra e nos céus, na vida e na morte.

Para além da homenagem que presta, Simon Stone eleva a fasquia e traz-nos muito mais do que um filme histórico: a memória colectiva divide-se entre a alegria da descoberta na escavação e o pavor da guerra, numa obra estimulante e carismática.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Sugestão da Semana #308

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Mudbound - As Lamas do Mississipi, de Dee Rees. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

MUDBOUND - AS LAMAS DO MISSISSIPI


Ficha Técnica:
Título Original: Mudbound
Realizadora: Dee Rees
Actores: Garrett Hedlund, Carey Mulligan, Mary J. Blige, Jason Clarke, Jonathan Banks, Jason Mitchell, Rob Morgan
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 134 minutos

Crítica: Mudbound - As Lamas do Mississipi (2017)

"Violence is part and parcel of country life." 
Laura McAllan 

*8.5/10*

A decadência moral da História e da mentalidade do povo norte-americano é tão bem descrita em Mudbound - As Lamas do Mississipi, como injusto tem sido o seu quase completo esquecimento na temporada de prémios.

A realizadora Dee Rees é corajosa e não tem medo de atacar a América o seu passado e presente. Pouco ou nada mudou, os tempos actuais têm-no provado. É imoral, injusto e revoltante tudo o que vemos em Mudbound e temos visto em outros filmes, lido em livros de História ou visto em notícias... O que desde o início dos EUA enquanto país já não fazia sentido, continuou, décadas a fio, a revelar uma ignorância inacreditável. 


Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, duas famílias vêem dois dos seus membros recrutados como soldados. Quando regressam a casa, os dois homem conhecem-se e estabelecem uma amizade que vai contra os preconceitos do local onde vivem. Tudo porque um é negro e outro branco e aquela terra ainda é regida pelas Leis de Jim Crow, que estabeleciam limites entre brancos e negros. 

Para começar, é uma história que aborda o racismo nos EUA, mas também a guerra e os seus traumas. Jamie e Ronsel são dois excelentes exemplos de veteranos de guerra que não estão felizes por regressar. Por outro lado, os cenários estão a condizer com o estado de espírito de quem ali vive e se sente a afundar na lama, de castanho até perder de vista. Tão semelhante à mentalidade racista de muitos, à falta de esperança de outros, à submissão, ao machismo, à intolerância. Depois da guerra, Jamie e Ronsel não pertencem ali, respiram progresso e liberdade - a mesma pela qual lutaram em terra e no ar.


O filme, contado a várias vozes, transborda emoções e não apenas nas palavras. Tudo é intenso ali, onde tudo falta, onde as pessoas andam sujas e cansadas de esperar que a chuva passe, que as feridas sarem, que a sementeira dê fruto.

A realização de Dee Rees é ritmada e potenciada pelo excelente trabalho de direcção de fotografia de Rachel Morrison que nos proporciona planos marcantes. A cena inicial conduz-nos a uma analepse, que relata a história daquelas personagens até ali se cruzarem. Depois disso, tudo se cria em crescendo, com dramas, preocupações, conflitos e muita garra. A violência está latente e há-de estalar, sem receios, como um culminar da repressão.


Os desempenhos são outra das forças da Natureza de Mudbound - As Lamas do MississipiMary J. Blige é brilhante como Florence, a mãe trabalhadora e angustiada. Ela sofre e engole a sua revolta e mágoa ao lado do marido Hap, Rob Morgan, num papel muito sentido de um pai de família magoado pelo preconceito. Carey Mulligan é Laura, a outra grande mulher do filme. Infeliz, resignada, com um sofrimento que vem das entranhas, numa excelente interpretação. Garrett Hedlund é Jamie e espelha bem o alcoólico marcado pela guerra, desafiador e leal. Ao seu lado, o companheiro Jason Mitchell, ou Ronsel, um homem cheio de revolta mas com sonhos longe daquela terra, comporta um grande sofrimento, mas igualmente muito amor aos seus.


Curiosamente, será que os norte-americanos querem fechar os olhos a um filme tão corajoso e tão alarmante como Mudbound? Não querem aceitar mais este alerta, mais ainda numa altura em que Hollywood se mostra tão hipocritamente preocupada com abusos e minorias? É inexplicável o motivo pelo qual um filme tão poderoso está a ser tão ofuscado por outros nesta award season. Realização, fotografia, argumento e elenco, todos mereciam mais distinção.

domingo, 4 de março de 2012

Crítica: Vergonha (2011)

“We’re not bad people. We just come from a bad place.”
Sissy Sullivan


Sem medo nem pudor, Steve McQueen quis dar-nos a conhecer a Vergonha de um viciado em sexo. O filme chegou esta quinta-feira aos cinemas portugueses, depois da antestreia na sessão de abertura do Fantasporto.

Michael Fassbender protagoniza este filme na pele de Brandon, um empresário de sucesso, ninfomaníaco. Os seus dias dividem-se entre o trabalho, as mulheres que seduz e as prostitutas que contrata, todavia, tudo começa a fugir ao seu controlo com a chegada inesperada de Sissy, a sua rebelde e perturbada irmã.

Vergonha foi algo que Steve McQueen não teve (e ainda bem) ao mostrar, da melhor e mais perturbante forma, a realidade nua e crua de um viciado em sexo. Uma história pesada e de difícil abordagem resultou e muito bem no grande ecrã às mãos deste realizador. Logo no início, o filme apresenta-nos a nudez frontal do protagonista, e faz-nos adivinhar que a história será contada sem esconder ou minimizar qualquer aspecto. Até à chegada de Sissy, é-nos dado a conhecer o dia-a-dia de Brandon, que convive com o seu problema como se fosse algo natural. É a irmã que traz a mudança ao pensamento do protagonista que, de início parece entrar em negação, mas depressa começa a tentar mudar, sem sucesso. Ele parece ver em Sissy uma ameaça e renega-a, sem se importar com o facto de, também ela, ser uma mulher perturbada, e ao mesmo tempo, parece querer esconder todo o carinho que sente pela irmã.

O conflito interior do protagonista chega a deixar-nos com pena. Um homem que, para além do trabalho, apenas vive para o sexo, e que não consegue estabelecer relações emocionais com ninguém. Mesmo quando tenta "apagar" tudo o que alimenta esse vicio, acaba por ter uma muito forte recaída, e tão bem podemos ver o seu desespero. E a forma como Steve McQueen nos apresenta o problema e filma as cenas de sexo, onde destaco o momento em que Brandon está numa orgia com duas mulheres, é por vezes sufocante para o espectador, que consegue perceber, só através daquela cena, toda a loucura do protagonista. Um momento que consegue ser tão belo e tão incómodo, ao mesmo tempo.

Fassbender encarna uma personagem difícil e muito complexa e o seu desempenho é excelente, com o actor a entregar-se de corpo e alma a Brandon. Das cenas de sexo e nudez ao desespero, que, a certo momento, se apodera do protagonista, Fassbender não fraqueja, nem por um momento, e é um dos mais injustiçados no que respeita aos Oscars, sem sequer ter recebido uma nomeação este ano. Ainda no que respeita ao elenco, Carey Mulligan surge aqui com um dos melhores (ou mesmo o melhor) desempenhos da sua carreira na pele da problemática Sissy.

Apesar de todo o brilhantismo deste filme, fica no ar a dúvida acerca da origem das perturbações psicológicas dos dois irmãos. Estamos perante um homem viciado em sexo e uma mulher com tendências suicidas, e tudo aponta  para que algo na sua infância ou juventude, provavelmente a nível familiar, possa ter provocado esses problemas e instabilidade.

Vergonha termina numa cena semelhante a uma das do início do filme, mas com mudanças que, apesar de subtis, nos levam a construir o nosso final. Steve McQueen traz-nos um filme que irá deixar muita gente boquiaberta, principalmente se não souber ao que vai, mas Vergonha está muito longe do pornográfico. As cenas de sexo, por vezes explícitas, são inevitáveis para que o filme possa ser absorvido na íntegra e para que o resultado seja tão bom.

*8.5/10*