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quinta-feira, 29 de abril de 2021

Estreias da Semana #453

Esta Quinta-feira, chegam aos cinemas portugueses quatro novos filmes, para além da reposição de Cerimónia Secreta, de Joseph Losey. No streaming também se contam algumas estreias.

Martin e três colegas, professores cansados do ensino secundário, embarcam numa experiência com base na teoria de que o ser humano devia nascer com uma pequena quantidade de álcool no sangue e que a embriaguez moderada abre as mentes para o mundo ao redor, diminuindo os problemas e aumentando a criatividade. Se Churchill venceu a Segunda Guerra Mundial ébrio, quem sabe o que alguns copos podem fazer por eles e pelos seus alunos? Os resultados iniciais são positivos e o pequeno projecto dos professores transforma-se num estudo académico sério.

Manual da Boa Esposa (2020)
La Bonne Épouse
Durante décadas, a escola de ciência doméstica Boersch, na Alsácia, treina as suas jovens estudantes para se tornarem esposas modelo. Mas em vésperas do maio de 68, a tarefa torna-se complicada para a diretora Paulette van Der Beck, que, além do mais, vê o primeiro grande amor da sua vida regressar de forma inesperada.

O Começo (2020)
Dasatskisi
Yana vive com o marido, David, e com o filho, George, numa comunidade de Testemunhas de Jeová, situada nas montanhas da Geórgia. Quando são atacados por um grupo extremista,  confrontam-se com uma escolha entre o medo e o desejo de justiça. No meio do conflito, o mundo familiar de Yana desfaz-se lentamente e o seu descontentamento interior aumenta à medida que luta por dar sentido aos seus desejos.

Todos pensavam que Cassie (Carey Mulligan) era uma miúda com potencial. Até que uma misteriosa tragédia  arruína o seu futuro. Agora, nada na vida da Cassie é o que parece: perversamente inteligente, tentadoramente astuta, assume uma vida secreta durante a noite e um encontro surpreendente está prestes a dar-lhe a oportunidade de vingar o passado.

Netflix Portugal
Estreia a 29 de Abril:

Sussurros das Trevas (2021)
Things Heard & Seen
Um casal de Manhattan muda-se para uma casa histórica em Hudson Valley, onde acaba por descobrir que o seu casamento está envolto por uma penumbra tão sinistra quanto a que envolve a história da nova casa.

Estreia a 30 de Abril:

Os Mitchell Contra as Máquinas (2021)
The Mitchells vs. The Machines
Katie Mitchell é aceite na escola de cinema dos seus sonhos, mas os seus planos de se juntar rapidamente à malta da universidade vão por água abaixo quando o seu pai Rick, amante da natureza, decide fazer uma derradeira viagem em família e levar Kate de carro. Com eles, vai o resto da família. A mãe, Linda, o irmãozinho Aaron e o gordinho pug Monchi. De repente, os planos dos Mitchell são interrompidos por uma revolta tecnológica. Pelo mundo fora, os dispositivos eletrónicos - telefones, eletrodomésticos e uma linha inovadora de robôs pessoais - decidem que é hora de assumir o controlo. Com a ajuda de dois simpáticos robôs defeituosos, a família Mitchell terá de superar os seus problemas e trabalhar em conjunto para salvar o mundo.

The Disciple (2020)
Um homem dedicou a vida a tornar-se vocalista de música clássica indiana, esforçando-se para seguir as tradições e a disciplina dos antigos mestres, do seu guru e do pai. Mas com o passar dos anos, começa a questionar se será realmente possível alcançar o nível de excelência que ele persegue.

Amazon Prime Video
Estreia a 30 de Abril:

Without Remorse (2021)
Um esquadrão de soldados russos mata a família do militar dos SEAL John Kelly (Michael B. Jordan), em retaliação pelo seu papel numa operação ultrassecreta. Kelly persegue os assassinos a todo custo, unindo forças com um camarada dos SEAL (Jodie Turner-Smith) e com um sombrio agente da CIA (Jamie Bell). Involuntariamente, Kelly expõe uma conspiração secreta que ameaça envolver os EUA e a Rússia. Dividido entre a honra pessoal e a lealdade ao seu país, Kelly luta sem remorsos e tenta evitar o desastre ao revelar as identidades dos poderosos conspiradores. Baseado nos livros de Tom Clancy.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Crítica: Uma Miúda com Potencial / Promising Young Woman (2020)

"Can you guess what every woman's worst nightmare is?"

Cassie

*8/10*

Uma Miúda Com Potencial (Promising Young Woman) é um thriller em tons de rosa, onde Carey Mulligan encarna a vingança feminista. A estreia de Emerald Fennell na realização de longas-metragens alia a angústia ao humor sarcástico, num resultado extremamente desafiador.

A sinopse é simples e directa: "Uma jovem assombrada por uma tragédia no seu passado, vinga-se nos homens que tenham o azar de se cruzar com ela."


Um revenge movie no seu esplendor, com características que o tornam singular: provocador, sensual, feminino, delicado e inteligente. Uma Miúda Com Potencial destaca-se da multidão de filmes do género pela personalidade forte e pelo confronto constante aos preconceitos da sociedade actual - ainda tão machista -, através de atitudes, valores e, principalmente, dos crimes de violação e assédio sexual tão escrutinados nesta obra. 

Através da protagonista, Cassie, o filme de Emerald Fennell quer fazer justiça, enquanto joga, ironicamente, com a culpabilização da vítima e o elogio do criminoso. Do título às situações retratadas, Uma Miúda Com Potencial tudo discorre em redor de abusos e da noção de consentimento. O argumento constrói-se a partir daí e, dividido em vários actos, é inesperado até ao fim (mesmo que ambicionássemos uma conclusão bem mais inspirada).


Uma Miúda Com Potencial é um filme cheio de cor em contraste com a dor que suga a vitalidade e a vontade de viver de Cassie. Obviamente, reconhecemos que a nossa protagonista tem sérios problemas psicológicos, resultado do trauma que sofreu há alguns anos. Consome-se, definha psicologicamente e revela traços de sociopatia. Carey Mulligan revela-se surpreendente na pele desta personagem vingativa e corajosa. A aparente fragilidade e delicadeza da actriz, bem como a forma como é capaz de se transformar enquanto Cassie, fazem dela a mais acertada escolha para o papel.

E a par da direcção artística, da fotografia e do guarda-roupa cheios de cor (onde o rosa abunda), tão harmoniosos de dia, tão decadentes à noite, também a banda sonora tem um papel fulcral na formação da identidade do filme, aparentemente inocente e pop, mas muito mais agressivo e inteligente. Eis que encontramos Downhill Lullaby, de Sky Ferreira, Stars Are Blind, de Paris Hilton, versões de Toxic (Britney Spears) ou It's Raining Men, entre outros temas certeiros.


Eis a garra feminista, sem medos ou vergonha, que retrata a maioria das personagens masculinas como pouco inteligentes, enfrenta os piropos ordinários e traça o seu caminho contra as expectativas dos outros. Uma estreia ousada para Emerald Fennell. Que continue a criar boas histórias e quebrar tabus.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Oscars 2021: Melhor Filme

Para finalizar a análise aos nomeados, eis as oito longas-metragens na corrida para o Oscar de Melhor Filme. No geral, temos um grupo com qualidade e competência, mas longe de ser um conjunto estrondoso. Há dois filmes muito bons, seguidos de perto por outros dois. Há um dos nomeados que se destaca pela negativa - um filme fraco que não merece a nomeação. Sentem-se as ausências de títulos como Another Round, Malcolm & Marie ou mesmo One Night in Miami..., que poderiam ocupar alguns dos lugares da lista de nomeados de 2021.

Mas é tudo uma questão de votos dos membros da Academia e de opinião. Aí ficam os nomeados para o Oscar de Melhor Filme, por ordem de preferência.

1. Sound of Metal (Amazon Studios)

Sound of Metal, de Darius Marder, leva-nos numa experiência sensorial ao universo da surdez. A violenta viagem que o realizador nos propõe é um confronto de emoções, ruídos e silêncio absoluto, numa aprendizagem permanente e restruturação pessoal total para voltar a viver. E mesmo sem ouvir, a música pode continuar presente - tal como a esperança.

2. O Pai / The Father (Sony Pictures Classics)
 

O Pai aborda uma história simples e realista de envelhecimento e perda - de faculdades, de memórias, de laços... -, mas igualmente de dedicação e mágoa de uma filha. Zeller cria um drama desolador, pincelado por momentos de humor requintado, porque na tristeza também se encontram alguns sorrisos e amparo. O filme é cruel na realidade que retrata, mas é igualmente humanizador na forma como o faz.

3. Nomadland - Sobreviver na América (Searchlight Pictures)

Chloé Zhao criou um road movie melancólico e realista, que convida à introspecção, enquanto viajamos estrada fora pelas planícies sem fim do Oeste dos EUA. Para além da crítica socio-político, o filme apela ao autoconhecimento, à relação dos humanos com a perda e à harmonia entre o Homem e a Natureza.

4. Uma Miúda com Potencial / Promising Young Woman (Focus Features)

Uma Miúda Com Potencial (Promising Young Woman) é um thriller em tons de rosa, onde Carey Mulligan encarna a vingança feminista. A estreia de Emerald Fennell na realização de longas-metragens alia a angústia ao humor sarcástico, num resultado extremamente desafiador. Um revenge movie no seu esplendor, com características que o tornam singular: provocador, sensual, feminino, delicado e inteligente (menos o seu final!). 

5. Os 7 de Chicago / The Trial of the Chicago 7 (Netflix)

Entre vinganças políticas, muita violência e um juiz incapaz de imparcialidade, constrói-se a acção de Os 7 de Chicago. Através do elenco que dá vida ao filme, Aaron Sorkin faz-nos olhar para o passado, através destas personagens, e constatar como há ainda tanto a fazer política e socialmente e, afinal, tão pouco mudou desde 1968.

6. Mank (Netflix)


David Fincher 
criou em Mank uma homenagem a um homem e a uma era do Cinema - os anos 30 do século XX. O processo de criação de Citizen Kane dá o mote para a exploração - em jeito de guião - do universo dos estúdios, numa Hollywood a sentir as sequelas da grande crise de 1929. Para além do retrato histórico, a longa-metragem destaca-se por ser tecnicamente irrepreensível, num excelente trabalho de som, fotografia e direcção artística.

7. Judas and the Black Messiah (Warner Bros.) 


Shaka King capta bem o ambiente de desconfiança, chantagem e medo que rodeava Fred Hampton e os que lhe eram próximos. A perseguição cerrada por parte do FBI, injustiças e contradições são denunciadas no grande ecrã, num resultado dinâmico e honroso para a memória de Hampton. O filme reúne bons momentos de acção, e é mais um retrato da brutalidade policial contra os afro-americanos e do racismo endémico dos EUA. Os discursos de Fred Hampton são apresentados com a grandiosidade que merecem, graças também à interpretação de Daniel Kaluuya

8. Minari (A24) 


Sensível mas nada provocador ou disruptivo, o filme de Lee Isaac Chung baseia-se na sua própria infância com a família, numa quinta no Arkansas. Não há nada de realmente novo em Minari: temos um drama familiar, uma família imigrante em busca de uma vida melhor nos EUA, a ideia do sonho americano frustrado sempre presente, a solidão e tentativa de integração na comunidade, o casamento em crise e a relação afectuosa entre avó e netos. Não há nenhum rasgo de inspiração. O realizador cria uma história simples, focada nas personagens e no ambiente que as rodeia e põe-nas à prova, repetidamente.