quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Estreias da Semana #140

Dez filmes chegam esta Quinta-feira* aos cinema portugueses. A Praça, Lixo Tartarugas Ninja: Heróis Mutantes são alguns dos títulos a estrear.

A Praça (2014)
Maïdan
A Praça relata a insurreição popular ucraniana no Inverno 2013/2014. Foi nessa praça, em Novembro de 2013, que cidadãos de todas as idades e de todas as confissões se reuniram para protestar contra o regime do presidente Yanukovich. Foi obrigado a demitir-se no final de Março de 2014. De Novembro a Março, Sergeï Loznitsa filmou Maïdan.

As Duas Faces de Janeiro (2014)
The Two Faces of January
Em 1962, Chester Macfarland (Viggo Mortensen) e a sua mulher Colette (Kirsten Dunst) chegam a Atenas em passeio e durante uma visita à Acrópole conhecem Rydal (Oscar Isaac), um jovem golpista americano que trabalha ali como guia turístico. Contudo, os Macfarland não são o que aparentam. 

Comer Dormir Morrer (2012)
Äta sova dö
Quando uma jovem muçulmana sueco-bósnia, a operária Rasa, que tem uma atitude desprendida perante a vida, perde o seu trabalho, enfrenta o drama do desemprego. Sem diploma de ensino médio, sem emprego – apesar das “suas botas estarem profundamente manchadas pela lama da pequena cidade onde cresceu”Rasa vai entrar em rota de colisão com a sociedade e com o caricato mundo da burocracia, que contradiz os seus próprios valores e expectativas.

Dei-te o Melhor de Mim (2014)
The Best of Me
Baseado no romance de Nicholas Sparks, o filme conta a história de Dawson e Amanda, dois antigos namorados do liceu que voltam a estar juntos, após 20 anos de separação, quando regressam à sua pequena cidade para o funeral de um amigo. Um reencontro que reacende o amor que nunca esqueceram, mas que depressa os vai fazer descobrir que as forças que os separaram continuam vivas, colocando-lhes agora ameaças ainda mais sérias.

Filho de Deus (2013)
Child of God
Baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy, Filho de Deus conta a história de Lester Ballard, um homem violento - que o narrador descreve como “um filho de Deus, como um de nós” -, e a sua desastrosa tentativa de existir para lá da ordem social. Consecutivamente privado e afastado da família e com poucas ligações humanas, Ballard desce ao nível das cavernas, mergulhando cada vez mais fundo no crime e na perversão.

Lixo (2014)
Trash
Quando dois rapazes das favelas do Rio de Janeiro, encontram uma carteira na lixeira local onde trabalham, não podiam imaginar que as suas vidas iriam mudar para sempre. No momento em que a polícia aparece, oferecendo uma grande recompensa pela carteira, Rafael (Rickson Tevez) e Gardo (Luís Eduardo), percebem a importância do achado. Juntamente com outro amigo, Rato (Gabriel Weinstein), este trio inicia uma viagem de fuga à polícia e ao encontro dos segredos que a carteira esconde.

Mau Mau Maria (2014)
Depois de um acontecimento trágico, os irmãos Maria Gonzaga vêem-se confrontados com uma imposição do pai que lhes valerá a herança, a identidade e a inteligência emocional: sete semanas é o prazo estipulado para que cada um deles encontre uma mulher que lhe encha as medidas sem lhe esvaziar os bolsos.

O Grande Kilapy (2012)
O Grande Kilapy é a história de um bom malandro angolano no final do período colonial (anos 60/70), livremente inspirada em factos reais. Joãozinho, um vigarista com uma profunda ética de amizade, “bon vivant” a todo o custo, é uma pessoa simples, que congrega em si um conjunto de imperativos de “curtição” indiferente às contingências de vida numa colónia portuguesa: cor de pele e preconceito social. Por força das circunstâncias, Joãozinho acaba por se tornar um personagem incómodo, subversivo e politico para o regime colonial Português.

Sara Prefere Correr (2013)
Sarah préfère la course
Sara é uma jovem atleta de 20 anos, que recebe uma proposta para treinar numa das melhores equipas de atletismo universitário do país. Apesar dos receios da mãe, decide deixar a cidade natal, juntamente com o seu amigo Antony. Rapidamente, Sara percebe que precisa de encontrar novos meios para se sustentar sem a ajuda da mãe e, para conseguir um subsídio do Estado, decide casar-se com o amigo. Mas um casamento aos 20 anos não é exactamente aquilo que ela esperava.

Tartarugas Ninja: Heróis Mutantes (2014)
Teenage Mutant Ninja Turtles
A cidade precisa de heróis. A escuridão instalou-se em Nova Iorque desde que Shredder colocou o seu punho de ferro em todo o lado, da polícia aos políticos. O futuro é cruel até quatro irmãos se erguerem dos esgotos e descobrirem o seu destino como Tartarugas Ninja. Estes heróis mutantes vão ter de trabalhar com a repórter April O’Neil (Megan Fox) e com o seu cameraman, Vern Fenwick (Will Arnett), para salvar a cidade e desvendar o plano diabólico de Shredder.

Pulp: Um Filme Sobre a Vida, a Morte e Supermercados, de Florian Habicht, é apresentado em duas sessões especiais da meia-noite, no dia 31 de Outubro e 1 de Novembro, no Cinema IDEAL. O DVD do filme estará também nas lojas a partir de 31 de Outubro.

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Doclisboa'14: Pára-me de Repente o Pensamento (2014)

*9/10*

Jorge Pelicano (que já venceu o festival com o documentário Pare, Escute e Olhe) trouxe à Competição Portuguesa de Longas provavelmente o filme mais envolvente e poderoso de todo o Doclisboa'14. Em Pára-me de Repente o Pensamento, entramos numa viagem ao Centro Hospitalar Conde Ferreira, um hospital psiquiátrico no Porto, e partilhamos momentos com os seus doentes, que vagueiam pelos corredores entre cafés e cigarros, terapias que apelam aos sentidos e às emoções e rotinas que os puxam para a realidade. Do mundo exterior, chegamos nós, que assistimos, e o actor Miguel Borges, que ali procura a sua personagem para uma peça de teatro de comemoração dos 131 anos do Hospital, inaugurado a 24 de Março de 1883.


Nos primeiros minutos, preparamo-nos para entrar no Conde Ferreira, vemos os utentes e a sua rotina e conhecemos desde logo alguns personagens. Somos, para já, meros observadores: dos gestos, das palavras. O Sr. Abreu e o Alberto começam logo por nos conquistar e irão acompanhar-nos nesta visita. A eles juntar-se-ão outros utentes do Hospital: Zé Pedro, Joaquim Carvalho, Rosa Guedes e Torres.

A chegada de Miguel Borges torna-nos mais activos em Pára-me de Repente o Pensamento. Depressa damos por nós como parte integrante daquele local, partilhando dramas, amores e terapias. Tal como Miguel, vamos entrando no íntimo dos doentes, escutá-los e compreendê-los, sem preconceitos. E Jorge Pelicano sabe bem como nos aproximar de realidades distantes, sabe como dar um murro no estômago ao espectador, que, inevitavelmente, irá olhar com outros olhos para os doentes psiquiátricos - Miguel Borges será a personificação desse entendimento, dessa compreensão. O actor observa, questiona, sem nunca emitir juízos de valor, ao mesmo tempo que procura também ali a inspiração para escrever uma peça de teatro.

A excelente montagem do documentário contribui em muito para o envolvimento do público, bem como a realização rica em planos intimistas e curiosos (até espreitamos pela fechadura). Há uma enorme atenção aos pormenores e aos gestos repetitivos. Cafés, cigarros, moedas e a esperança depositada no euromilhões. A certo momento, Miguel pergunta a um dos doentes do Conde Ferreira: "O que é que fazias com tanto dinheiro?". A resposta parece ser simples e bem humorada: "Ficava mais tolo do que sou". Aí está um dos bons exemplos do que vamos encontrar neste filme: sorrisos, no meio de uma realidade dura que não deveria estar assim tão distante.


E vamos perder-nos entre conversas profundas ou outras extremamente divertidas - que seguimos, atentos -, mas todas elas tocantes. Tudo enquanto Miguel Borges prepara o seu papel para a peça de teatro do Hospital, em que encarna o poeta Ângelo de Lima, que ali esteve internado, e se inspira para futuros projectos. O actor quer encontrar a melhor forma de interpretar o poema que dá título ao documentário, Pára-me de Repente o Pensamento, e ultrapassa todos os seus limites para o conseguir perante o espanto do espectador e dos utentes.

E entre ensaios e preparação da personagem, alguém diz a Miguel: "Nunca tive ninguém que me inspirasse tanto". Eis a mútua satisfação e entreajuda entre actor e doentes e, muito possivelmente, uma das experiências mais marcantes da vida do actor.

Damos de caras com o desespero de alguns, com a dor, mas também com a esperança, a amizade e o amor. Depois de Pára-me de Repente o Pensamento não seremos os mesmos e Miguel também não. A magia do plano final é um culminar em beleza de um trabalho que fazia falta e que devia chegar a todos.

Doclisboa'14: Volta à Terra (2014)

*7/10*

João Pedro Plácido apresentou a sua primeira longa-metragem, Volta à Terra, no Doclisboa'14, e saiu duplamente vencedor. O filme conquistou o Prémio Liscont e o Prémio IADE para Melhor Longa-metragem da Competição Portuguesa.

O realizador leva-nos até Uz, uma povoação isolada nas montanhas do norte de Portugal, mais propriamente no distrito de Braga, onde vivem cerca de 50 pessoas, de quatro gerações diferentes. Podiam ter emigrado, como muitos nortenhos, mas escolheram ficar e continuar o seu modo de vida ancestral, longe do rebuliço da modernidade.


Para um primeiro trabalho, Volta à Terra é uma obra competente, abordando uma temática muito portuguesa e mostrando como a vida no campo ainda existe, entre a agricultura e a pecuária. A solidariedade entre os vizinhos e a religiosidade estão bem vincadas, e as festas populares ganham sempre uma importância especial ao encherem a aldeia. Em Uz, vemos velhos e novos a trabalhar na terra e no pastoreio, entre conversas mais ou menos críticas sobre o estado do país.

Das personagens da longa-metragem, conhecemos António, um antigo emigrante que realizou o sonho de regressar ao país, e que prepara a festa da aldeia para o Verão que aí vem em conjunto com os outros populares. Por outro lado, a nossa atenção vai centrar-se especialmente em Daniel, um jovem com cerca de 20 anos que trabalha no campo, como tantos outros naquela povoação, e é ali que gosta de estar - vamos percebendo que dificilmente ele trocaria Uz por outro local. Seguimo-lo entre conversas com os colegas, com o afilhado bebé que insiste em falar francês, e, claro, no momento alto do filme, em que reencontra Daniela, uma jovem colega de escola que se torna seu par no baile da terra e com quem dança ao som de A Bela Portuguesa - momento que invoca por breves instantes os amores de Verão de Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes.

Infelizmente, as festas duram pouco, e Volta à Terra concentra-se especialmente no trabalho do campo e nos seus protagonistas. Acima de tudo, um bonito retrato da ruralidade ao longo do ano, com um bom trabalho de fotografia que potencia as paisagens.

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Doclisboa'14: Prigionieri della Guerra / Prisoners of War (1995)

*6.5/10*

A secção O nosso Século XX - O Cinema face à História do Doclisboa'14 recebeu Prigionieri della Guerra, de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi, que reúne materiais cinematográficos da Primeira Guerra Mundial recolhidos nos arquivos dos impérios que se enfrentaram. O documentário põe em confronto “filmes-reportagem” militares dos dois lados da Guerra.


Os realizadores mostram os campos de prisioneiros, os órfãos de guerra, os mortos e feridos - com algumas imagens complicadas de digerir - ou mesmo imagens dos confrontos no campo de batalha. Às imagens da época, os realizadores dão cor e música, numa experiência curiosa e em jeito de documento histórico.

Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi abriram a passada edição do Doclisboa'13 com Pays Barbare, título mais recente, que repetia este género de estética onde a cor domina as imagens de arquivo.

Doclisboa'14: Tôi Quên Rôi + The Walking Tree

Da Competição Internacional de Curtas-metragens do Doclisboa'14, ficam aqui as análises a mais dois filmes: o vencedor Tôi quên rôi e The Walking Tree.

Tôi quên rôi! (I forgot!) - 7/10


Tôi quên Rôi (I forgot!), de Eduardo Williams, foi o vencedor da Competição Internacional de Curtas do Doclisboa. O filme começa por colocar-nos debaixo de água, a nadar ao lado dos peixes, e termina por nos elevar aos céus, num final surpreendente e estonteante. 

O documentário faz-nos acompanhar um grupo de jovens pelas ruas do Vietname, pelo super-mercado, corremos a fugir da polícia e ainda fazemos parkour em construções abandonadas. Ali, ao lado deles, sentimos a liberdade e a força daquela juventude.

The Walking Tree - 6.5/10


Tudo começa em Calcutá, onde Louidgi Beltrame filma uma grande figueira-de-bengala como um espaço metafísico onde histórias voltam à superfície: a invenção e desenvolvimento paralelo da fotografia e da telegrafia na Índia colonizada, o sonho de Lineu segundo Foucault, lembranças dos filmes de Ritwik Ghatak e Satyajit Ray,
 onde realidade e ficção se encontram.

A grande curiosidade de The Walking Tree é a de aliar os locais à História, à literatura e ao Cinema. A narração coloca-nos nos lugares e contextualiza-os de acordo com momentos que os marcaram. 

Doclisboa'14: Father and Sons / Fu Yu Zi (2014)

*5/10*

O grande vencedor do Doclisboa'14 não reuniu o consenso entre o público. Father and Sons, de Wang Bing, conquistou o grande prémio do festival mas não convenceu, mesmo que as intenções do realizador fossem as melhores.

A sinopse prometia algo mais marcante do que o filme nos oferece. Essencialmente contemplativo, Father and Sons debruça-se sobre a vida da família de Cai que, em 2011, levou os dois filhos para o seu local de trabalho, uma fábrica em Fuming, onde trabalhava com pedra, e arranjou-lhes uma escolha. Desde aí que têm vivido numa cabana da fábrica, apenas com uma cama. O realizador quis acompanhar a vida desta família, começando a filmar a 2 de Fevereiro de 2014; mas, na manhã do dia 6 a equipa foi ameaçada e parou as filmagens.


A crítica ao regime chinês continua a ser evidente neste filme de Wang Bing, todavia, o documentário não nos oferece mais do que o quotidiano daquela família, que vive em condições complicadas. O tom provocatório que se podia esperar não existe. Father and Sons resultaria muito mais eficazmente em forma de curta-metragem, tornando-se, como longa que é, num trabalho monótono para o espectador.

Observamos, ao longo de 87 minutos, a pequena divisão partilhada pela família, num acumular de roupa e outros objectos, com uma única cama - um colchão suportado por tijolos -, e vários cães que dormem ou passeiam pela divisão. Temos tempo para observar todos os pormenores, mas não retiramos muito mais do que isso do documentário. Apenas que as condições em que aquela família vive são difíceis e degradantes, mas que parecem ser encaradas de forma normal pelas crianças que desde que chegam não largam o telemóvel nem a televisão, que está sempre ligada, em jeito de companhia. Muito observativo, Wang Bing oferece-nos longos planos fixos onde praticamente nada acontece. Ainda assim, um dos pontos positivos desta opção prende-se com a temporalidade do filme. Pela luz que entra no quarto, sentimos o dia a passar, desde o sol da manhã, ao escurecer da passagem do dia, até ao momento em que a escuridão do local obriga a acender a luz.

Father and Sons poderia ter sido um grande filme, se se tivesse filmado o que inicialmente estava previsto, antes das ameaças e da retirada. Desta forma temos apenas um trabalho que se sente como inacabado - cuja contextualização é apenas dada no fim - e sem uma mensagem clara, por muito que a crítica social lhe seja intrínseca.

Sugestão da Semana #139

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recai no documentário de Bruno de Almeida sobre o fadista Camané. Depois de passar pelo festival Doclisboa, o filme chegou agora ao circuito comercial de cinema. Podes ler ou reler a análise do Hoje Vi(vi) um Filme aqui.

FADO CAMANÉ

Ficha Técnica:
Título Original: Fado Camané
Realizador: Bruno de Almeida
Género: Documentário
Classificação: M/6
Duração: 72 minutos

FIKE'14: Vencedores

O FIKE - 12º Festival Internacional de Curtas-Metragens acabou este Sábado, 25 de Outubro. O evento aconteceu simultaneamente nas cidades de Évora e Beja. Conhece aqui os vencedores.


Troféu e Diploma

Melhor Ficção - Travelers in the night - Ena Sendijarevic, Holanda

Melhor Documentário – Troféu FIKE / Estacão Imagem: Cutting Grass - Asier Altuna, Espanha

Melhor Animação - Canis - Marc Riba & Anna Solanas, Espanha


Diplomas FIKE 

Melhor Argumento - To Cut a Long Story Short - Marco Espirito Santo, Portugal

Melhor Fotografia - Touch of Silence - Sven Philipp Pohl, Alemanha

Melhor Representação - Matilde - Vito Palmieri, Itália

Melhor Curta-Metragem Europeia - Daphne or the lovely specimen - Sebastien Laudenbach & Sylvain Derosne, França

Prémio do Publico - ants apartment - Tofiq Amani, Iraque

Competição Nacional - Premio Comendador Rui Nabeiro para a Melhor Curta-Metragem Portuguesa - O Coveiro - André Gil Mata, Portugal

Menções Especiais: 
Virtuos Virtuell - Thomas Stellmach & Maja Oschmann, Alemanha
The Neighbour - Alexandra Galia Burca, Roménia
The being from elsewhere - Guy Bordin & Renaud De Putter, Bélgica

Prémio Don Quijote: (IFFS- International Federation of Film Societies) 
Matilde - Vito Palmieri, Itália

Menção Especial: The being from elsewhere - Guy Bordin & Renaud De Putter, Bélgica