Hoje vi(vi) um filme

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Estreias da Semana #308

Seis filmes chegaram às salas de cinema esta Quinta-feira. As Lamas do Mississipi e Chama-me Pelo Teu Nome são duas das estreias.

As Lamas do Mississipi (2017)
Mudbound
Dois veteranos da guerra, um negro e um branco, vão trabalhar no local que ainda é regido pelas Leis de Jim Crow, que estabeleciam limites entre brancos e negros. Apesar dos olhares discriminatórios, os dois vizinhos, Jamie e Ronsel, mantêm uma forte amizade e entreajudam-se para enfrentarem a vida pós-guerra. Mesmo assim, as duas famílias mantêm-se atoladas nas lamas das preconcepções sobre eles mesmos e no preconceito enraizado na sociedade do sul dos Estados Unidos.

Bad Investigate (2018)
Quando Romeu, um subcomissário da polícia corrupto até à medula (JD Duarte) obriga dois canastrões que tem no bolso, Alex e Cid (Luís Ismael e Francisco Menezes), a ludibriarem o agente Sam Folkes do FBI (Eric da Silva), o caldo está internacionalmente entornado. A sua missão de perseguir Xavier (Enrique Arce), um perigosíssimo traficante em rota de vingança, tem tudo para correr mal.

Basmati Blues (2017)
Uma cientista brilhante é arrancada do laboratório da empresa onde trabalha e enviada para a Índia para vender o arroz geneticamente alterado que criou. O que ela não sabe é que isso vai destruir os agricultores que pensa estar a ajudar e que um romance pode vir a atrapalhar os seus planos.

Tudo acontece no Verão de 1983, no norte de Itália. Elio Perlman (Timothée Chalamet), um precoce rapaz italo-americano de 17 anos, passa as férias na casa de família, uma mansão do século XVII, a transcrever e tocar música, a ler e a nadar. Elio tem uma relação próxima com o seu pai (Michael Stuhlbarg), um famoso professor especializado em cultura greco-romana, e a sua mãe Annella (Amira Casar), tradutora. Apesar da sua educação sofisticada e talento natural, Elio continua a ser bastante inocente, principalmente em assuntos do coração. Tudo muda quando chega Oliver (Armie Hammer), um aluno de Mr. Perlman, para passar uma temporada com a família e ajudar o professor nas suas pesquisas.

The Commuter - O Passageiro (2017)
The Commuter
Liam Neeson é Michael, um vendedor de seguros abordado por um misterioso estranho durante a viagem diária para o emprego. Forçado a desvendar a identidade de um passageiro escondido algures no comboio antes que este chegue à última paragem, Michael luta contra o tempo para resolver este puzzle e vai-se apercebendo do mortífero plano que se desenrola à sua volta. Um plano que o deixou inadvertidamente preso no centro de uma conspiração criminosa que coloca em perigo a sua vida e a segurança dos restantes passageiros.

Uma Mulher Não Chora (2017)
Aus dem Nichts
Katja viu a sua vida destroçada após a morte do marido Nuri e do filho Rocco num ataque terrorista. Os amigos e familiares tentam dar-lhe o apoio de que precisa. Mas a procura pelos responsáveis e as razões por detrás do atentado complicam o doloroso luto de Katja e geram feridas e dúvidas. Danilo, advogado e o melhor amigo de Nuri, representa Katja no julgamento dos dois suspeitos: um jovem casal com ligações aos neonazis. O julgamento leva-a ao limite, mas para Katja, simplesmente não há alternativa: ela quer justiça.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Crítica: Chama-me Pelo Teu Nome / Call Me By Your Name (2017)

"Call me by your name and I'll call you by mine." 
Oliver

*6.5/10*

Chama-me Pelo Teu Nome é um filme subtil, repleto de sensibilidade. Luca Guadagnino mergulha num romance que marca o final da adolescência e a descoberta da sexualidade. Uma longa-metragem bucólica, cheia de sentimentos e emoções.

É um filme que apela aos sentidos e à liberdade, com um argumento tímido, mas de momentos marcantes. Tudo acontece no Verão de 1983, no norte de Itália. Elio Perlman (Timothée Chalamet), um precoce rapaz italo-americano de 17 anos, passa as férias na casa de família, uma mansão do século XVII, a transcrever e tocar música, a ler e a nadar. Elio tem uma relação próxima com o seu pai (Michael Stuhlbarg), um famoso professor especializado em cultura greco-romana, e a sua mãe Annella (Amira Casar), tradutora. Apesar da sua educação sofisticada e talento natural, Elio continua a ser bastante inocente, principalmente em assuntos do coração. Tudo muda quando chega Oliver (Armie Hammer), um aluno do Mr. Perlman, para passar uma temporada com a família e ajudar o professor nas suas pesquisas.


Ouvimos falar em várias línguas, inglês, francês, italiano, alemão, viajamos à Grécia antiga durante os estudos de Oliver e do pai de Elio, ouvimos tocar piano e guitarra, estamos envoltos em cultura, na casa de uma família moderna em tempos ainda pouco liberais. Dois jovens, com muito mais em comum do que Elio parece sentir ao início, cruzam-se: ambos judeus, cultos, inteligentes e apaixonados.

Há um lirismo romântico a pairar sobre Chama-me Pelo Teu Nome. Tem momentos brilhantes, normalmente potenciados por um longo plano-sequência. Guadagnino filma cenas tão boas como uma conversa entre pai e filho, momentos de partilha e intimidade entre Elio e Oliver (onde não são as palavras que mais falam), a festa em que estão a dançar com amigos e surgem os ciúmes, ou os momentos de introspecção, em casa ou no campo. Por outro lado, há situações delicodoces que resultam em momentos pouco conseguidos, e dão um grande desequilíbrio ao filme. Sejam cenas banais, curtas ou de corte ríspido, que nada acrescentam, clichés românticos ou mesmo ocasionais encontros com amigos.


Visualmente, Luca Guadagnino tira partido de filmar em película, ao aproveitar a luz da melhor forma, e deixando passar para os espectadores os encantos do 35mm. A banda sonora é outro ponto forte, com temas a condizer com a época e outros com o ambiente e emoções das personagens.

Timothée Chalamet retrata a inocência, os medos e a arrogância típicas da adolescência, a par da curiosidade imensa pelo que o rodeia. Como Elio, ele interioriza as dúvidas e a paixão avassaladora que é este primeiro amor. Vive e sofre com a mesma ânsia e deixa-nos arrebatados com uma interpretação tão adulta. Michael Stuhlbarg faz de seu pai, um homem tolerante, muito à frente no seu tempo, com imensa consciência do que o rodeia. O actor tem um papel pequeno mas enche o ecrã quando surge. Por fim, destaque para Armie Hammer, o sensual e independente aluno de Mr. Perlman, Oliver. Ele é um homem bonito e interessante, trabalhador e misterioso, desperta a curiosidade de todos que com ele se cruzam. Curiosamente, nas reuniões com Perlman, Oliver muito se assemelha às estátuas gregas que estão a analisar e que parecem desafiá-los "a desejá-las".


Entre esta e outras simbologias (os pêssegos!), Luca Guadagnino constrói uma bela história de amor que só peca por não se centrar mais nos protagonistas e no ambiente que os rodeia.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Sugestão da Semana #307

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Três Cartazes à Beira da Estrada, de Martin McDonagh. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA


Ficha Técnica:
Título Original: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Realizador: Martin McDonagh
Actores: Frances McDormandSam Rockwell, Woody Harrelson, John Hawkes, Caleb Landry JonesPeter Dinklage, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Zeljko Ivanek
Género: Crime, Drama
Classificação: M/16
Duração: 115 minutos

sábado, 13 de janeiro de 2018

Crítica: Três Cartazes à Beira da Estrada / Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017)

"What's the law on what ya can and can't say on a billboard?" 
Mildred Hayes

*9/10*

Três Cartazes à Beira da Estrada é um grande murro no estômago. Um filme amargo, com personagens tão reais e profundas interpretadas por actores que põem alma no que fazem. Martin McDonagh escreveu e realizou um daqueles filmes que não nos vamos cansar de rever, partilhar dúvidas, esperanças, mágoas e clamar por justiça.

Depois de meses sem ser encontrado o culpado no caso do homicídio da sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) faz uma jogada ousada ao alugar três cartazes à entrada da cidade com uma mensagem polémica dirigida a William Willoughby (Woody Harrelson), o respeitado chefe de polícia da cidade. Mas quando o seu adjunto Dixon (Sam Rockwell), um menino da mamã imaturo com uma inclinação para a violência, se envolve, a batalha entre Mildred e a lei de Ebbing, descontrola-se.


Martin McDonagh coloca-nos numa pequena cidade sulista, de velhos costumes e pouca vontade de mudar. Apresenta-nos, desde logo, a uma mulher de armas, com excelente visão publicitária, que decide alugar três velhos outdoors perto de sua casa para pressionar a polícia a fazer o seu trabalho. E sete meses depois, o crime não resolvido volta a estar em cima da mesa e nas bocas de todos os habitantes - e visitantes. Os três cartazes passam a ser o seu maior tesouro.

A violência policial, actos irreflectidos, arrependimentos e relações familiares são alguns dos temas que constroem a história amarga e de desesperança que McDonagh nos conta - e que belo contador de histórias. O guião traz coerência e realismo, mas sabe igualmente como introduzir o humor, um humor sombrio, mordaz, que também dói.


No meio da forte crítica social de Três Cartazes à Beira da Estrada - a que nem a Igreja escapa -, destacam-se os actores e as suas personagens. Frances McDormand é uma força da Natureza na pele de Mildred Hayes, uma mãe-justiceira, sem medo de consequências, sem remorsos, sem papas na língua. Ela nunca sorri, é fria, dura, mas também chora. Já foi vítima, mas aprendeu a não se sentir intimidada por nada, desafia a autoridade e as provocações e protege os seus como pode. Sam Rockwell é um camaleão como Dixon, o homem intragável, intratável, violento e com um ódio desmedido que toma conta dos seus actos. É uma criança grande, que veste farda e usa armas, enquanto não larga os headphones ou as revistas de banda desenhada. A sua personagem sofre uma grande transformação ao longo do filme e há valores que vamos descobrindo neste homem imaturo que nos vão surpreender. Woody Harrelson é o desafiado chefe da polícia, um dos bons, mas impotente, desencantado, é um homem em claro sofrimento. O trio de actores tem desempenhos tão credíveis que tudo o que vemos poderia ser real.


Três Cartazes à Beira da Estrada é uma história de luta, revolta, batalhas infrutíferas, preconceitos, impunidade, onde, no meio do drama, surge o humor inusitado, sarcástico. Afinal, há que rir da própria desgraça.

Estreias da Semana #307

Esta Quinta-feira, chegaram aos cinemas portugueses sete novos filmes. A Hora Mais Negra e Três Cartazes à Beira da Estrada são duas das estreias.

47 Metros de Terror (2017)
47 Meters Down
Durante uma viagem ao México, duas irmãs, Lisa e Kate (Mandy Moore e Claire Holt), decidem aventurar-se num mergulho para observar os tubarões, mas tudo corre mal quando o cabo que prendia a jaula de observação ao barco se parte e ambas ficam presas no fundo do oceano a 47 metros de profundidade. Com grandes tubarões brancos próximos da jaula e botijas de oxigénio para apenas uma hora, elas terão de descobrir como atravessar os 47 metros de água para chegarem ao barco.

Nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial, à medida que as forças nazis avançam, e com o exército aliado encurralado nas praias de Dunquerque, o destino da Europa Ocidental está nas mãos do novo Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha: Winston Churchill (Gary Oldman). Enquanto lida com os seus rivais políticos, tem que enfrentar uma decisão fulcral: negociar com Hitler e salvar o povo britânico de um final terrível ou reunir a nação e lutar contra todas as expectativas.

Man Down - A Guerra (2015)
Man Down
O fuzileiro Gabriel Drummer regressa após uma comissão de serviço no Afeganistão. Assombrado por algo que aconteceu na guerra, Drummer sente-me pouco melhor em casa do que nos campos de batalha enquanto procura o paradeiro da sua família.

Pop Aye (2017)
Por mero acaso, um arquitecto desencantado com a vida encontra o seu antigo elefante nas ruas de Banguecoque. Empolgado, decido levá-lo numa viagem até ao local onde ambos cresceram.

Só Para Ter a Certeza (2017)
Ôtez-moi d'un doute
Erwan, um viúvo de 45 anos que trabalha como sapador, vê-se a braços com uma filha adolescente, grávida de pai desconhecido. Numa das consultas em que a acompanha, descobre que aquele que o criou não é afinal do seu sangue. Enquanto insiste em procurar o pai do neto, decide procurar também o seu pai biológico. A meio da busca, cruza-se com a indomável Anna, por quem se apaixona. Eventualmente, acaba por descobrir o pai ainda vivo: é Joseph, um velho senhor extremamente terno, por quem se afeiçoa. A bomba rebenta no dia em que vai visitar Joseph e descobre que Anna é filha dele.

Tad e o Segredo do Rei Midas (2017)
Tadeo Jones 2: El secreto del rey Midas
Depois de Sara descobrir uma das três peças de ouro da gargantilha do Rei Midas, provando a existência desta personagem que transformava em ouro tudo em que tocava, Tad viaja para Las Vegas a fim de se juntar à sua amiga na primeira apresentação desta descoberta arqueológica. O feliz encontro entre Tad e Sara rapidamente se transforma em desastre quando o vilão Jack Rackham e a sua equipa de bandidos roubam a jóia e raptam a jovem arqueóloga, sabendo que quem voltar a juntar as três peças da gargantilha do Rei Midas obterá enorme poder e riqueza. Tad terá de ser mais hábil do que nunca para salvar Sara e impedir os planos maléficos de Rackham, numa viagem até ao outro lado do globo, por Espanha, Grécia e Turquia, juntamente com os seus amigos - a Múmia, o papagaio Belzoni e o cão Jeff.

Depois de meses sem ser encontrado o culpado no caso do homicídio da sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) faz uma jogada ousada ao alugar três cartazes à entrada da cidade com uma mensagem polémica dirigida a William Willoughby (Woody Harrelson), o respeitado chefe de polícia da cidade. Mas quando o seu adjunto Dixon (Sam Rockwell), um menino da mamã imaturo com uma inclinação para a violência, se envolve, a batalha entre Mildred e a lei de Ebbing, descontrola-se.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Crítica: Um Desastre de Artista / The Disaster Artist (2017)

"I did not hit her. It's not true. It's bullshit! I did not hit her. I did not."

*7/10*

Quem diria que uma longa-metragem sobre a rodagem de um dos piores filmes alguma vez filmados poderia resultar em algo positivo? James Franco experimentou e tornou realidade Um Desastre de Artista, sobre as atribuladas filmagens de The Room e seu criador, o misterioso Tommy Wiseau.

Não é uma paródia. É um filme biográfico, quase um docudrama. Faz-nos rir bastante, mas também nos apresenta Tommy Wiseau e a sua força de vontade para perseguir os sonhos. Nota-se que houve, da parte de Franco, muito trabalho e exigência para fazer de Um Desastre de Artista uma homenagem vencedora.

Quando o aspirante a actor, Greg Sestero (Dave Franco), conhece o estranho e misterioso Tommy Wiseau (James Franco) numa aula de representação, os dois criam uma amizade única e viajam para Hollywood para tornar os seus sonhos realidade.


Da admiração por James Dean, cria-se uma amizade (quase) inabalável e surge a vontade - especialmente da parte de Tommy - de fazer o seu próprio filme. A partir daqui, James Franco dá vida ao criador daquele que se viria a tornar um filme de culto, The Room, e filma os bastidores, repete as cenas - palavra por palavra, com entoação e gestos idênticos - e ficcionaliza um pouco a história já tão caricata de Tommy e Greg. Pelo meio, cameos e mais cameos que nos vão divertir mais ainda.

James Franco é a alma do seu próprio filme, numa interpretação com tanto de divertido como de dramático. O estranho sotaque que denuncia as suas origens, os tiques e gestos mais peculiares, a teimosia, o mau feitio, mas também o medo da solidão, Franco coloca todas estas características na personagem, que por muito cómica que seja, tem igualmente muito de realista - e as semelhanças com o original estão à vista de todos.


De resto, é ver para crer. Conheça-se ou não The RoomUm Desastre de Artista vai aguçar a curiosidade para ver ou rever a longa-metragem de 2003 que vai ganhando cada vez mais fãs um pouco por todo o mundo. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Crítica: O Sacrifício de um Cervo Sagrado / The Killing of a Sacred Deer (2017)

"It's the only thing I can think of that is close to justice." 
Martin

*6.5/10*

Yorgos Lanthimos tem uma imaginação prodigiosa. Sabe chocar, surpreender e trabalhar o non sense como poucos. Canino, em 2009, catapultou-o para a fama pela forma ímpar e macabra que retratou a história do filme. Recentemente, A Lagosta marcou a sua estreia em inglês e O Sacrifício de um Cervo Sagrado segue a mesma linha do filme anterior.

Mas a fórmula está a repetir-se e, apesar da originalidade e competência técnica continuarem a brilhar, a sensação de dejá vu começa a surgir. Apesar de O Sacrifício de um Cervo Sagrado ser um filme de terror - e dentro do género tem um argumento incómodo a jogar com o sobrenatural, que funciona -, repete toda a estranheza das relações humanas, os diálogos impessoais, as conversas despropositadas.


Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado, casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos. Já há algum tempo que ele mantém contacto frequente com Martin (Barry Keoghan). A relação entre ambos é de grande cumplicidade e o médico decide apresentá-lo à família. Entretanto, o jovem sente que não está a receber a mesma dedicação e, por isso, decide elaborar um plano de vingança.

O realizador grego continua os seus planos geométricos, iluminados e limpos. Semelhanças ao cinema de Stanley Kubrick ou Michael Haneke têm-se sucedido e fazem crer que Lanthimos está a perder as suas próprias marcas autorais. Ainda assim, se isso não estiver a acontecer, está, pelo menos, a perder qualidades. O realizador continua a desafiar valores, mas desta vez vai mais longe - e com pouco sucesso, a meu ver -, ao querer associar o seu filme a simbolismos bíblicos e a peças gregas de autores clássicos.


O protagonista é tão semelhante ao de A Lagosta que até o actor é o mesmo: Colin Farrell. As personagens têm pouca profundidade, tal como no filme anterior, são despersonalizadas tal como os planos que a câmara capta. Eles são cobardes e hipócritas. Não há qualquer ligação entre a plateia e a família protagonista.

Curiosamente, e é ele o ponto forte do filme, vamos admirar o "vilão". Admirá-lo e temê-lo, tal como a família Murphy. Rodeia-o uma aura diabólica e violenta e, ao mesmo tempo, frágil e intimidante. Barry Keoghan tem uma interpretação aterradora na pele deste jovem Martin, omnipresente e de poderes sobrenaturais. A sua vingança personifica-se numa maldição que, para ele, não passa de justiça. Nicole Kidman é a mais corajosa de O Sacrifício de um Cervo Sagrado, para além de dar um show de interpretação com uma personagem pouco rica, uma mãe a quem a actriz confere poder e determinação.


Não são precisas mais explicações, Lanthimos joga com medos e aparências, com a moral e as crenças de cada um, e cria um filme de terror incómodo, mas que sabe a pouco. Os fãs do seu trabalho queriam mais novidades, menos exagero, menos preguiça.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Crítica: A Hora Mais Negra / Darkest Hour (2017)

"You can not reason with a Tiger when your head is in its mouth."Winston Churchill

*6.5/10*

2017 foi o ano de recordar a batalha de Dunquerque. Primeiro, Christopher Nolan mostrou-nos o campo de batalha em Dunkirk, a guerra no terreno. Depois, Joe Wright contou como tudo se passou politicamente em Inglaterra, em A Hora Mais Negra. Um apresentou-nos a acção, o outro a negociação, mas os dois estiveram à altura do desafio. Para Wright sobrou menos acção, mais palavras, mas igualmente muita tensão.

Com Gary Oldman ao comando, as atenções aumentam sobre o filme de Joe Wright, numa interpretação em que Winston Churchill toma conta de si, e não foi só a caracterização a responsável.


Nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial, à medida que as forças nazis avançam, e com o exército aliado encurralado nas praias de Dunquerque, o destino da Europa Ocidental está nas mãos do novo Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha: Winston Churchill (Gary Oldman). Enquanto lida com os seus rivais políticos, tem que enfrentar uma decisão fulcral: negociar com Hitler e salvar o povo britânico de um final terrível ou reunir a nação e lutar contra todas as expectativas.

Joe Wright conta-nos a História do ponto de vista de Churchill e sabe tornar reuniões e discussões, entre o Primeiro Ministro, políticos e rei, cativantes. Ainda assim, não traz nada de novo aos filmes do género. No argumento, o momento mais bem construído prende-se com o dilema na cabeça do protagonista, que se vê divido entre o que todos esperam que ele faça e o que os seus valores lhe dizem para fazer. A tensão é imensa, o dever de proteger o povo e a ética estão muito presentes e são muito bem tratados no grande ecrã.


Entre as salas e corredores sombrios, a condizer com a hora que se vivia, Joe Wright é fiel ao seu estilo, à fotografia resplandecente. Tons escuros em tempo de guerra, onde a luz ilumina as sombras, talvez como a persistência e esperança de Churchill. O realizador deixa sempre as imagens brilharem, sem nunca ofuscarem a acção.

Gary Oldman desaparece na personagem e ganha todas as cenas em que entra. A caracterização fez um trabalho estupendo, e é mesmo difícil encontrarmos o actor, não fossem os olhos azuis e alguns trejeitos de boca. De resto, voz, movimentos, expressões estão totalmente entregues ao filme. Ao seu lado, Kristin Scott Thomas, Lily James Ben Mendelsohn destacam-se nos seus papéis.


Joe Wright dá o seu brilho a uma história que muitos já conhecem, mas não a torna inesquecível. Gary Oldman agarra o papel de Winston Churchill com toda a sua garra e talento e proporciona-nos bons momentos da arte de interpretar.