terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Crítica: A Grande Beleza / La grande bellezza (2013)

"In fondo è solo un trucco, si è solo un trucco" 
Jep Gambardella
*8.5/10*

É só uma ilusão. Paolo Sorrentino leva-nos a reflectir sobre a vida e os seus excessos através de Toni Servillo como Jep Gambardella. Com ele entramos na mundanidade, num mundo superficial e de excessos, que esconde a saudade de tempos perdidos e a procura desenfreada por esta Grande Beleza do título, que tem como palco a fabulosa cidade de Roma.

Jep Gambardella goza a vida social da cidade ao máximo: frequenta jantares e festas, onde o seu humor e agradável companhia são sempre bem-vindos. Jep é um jornalista bem sucedido e um sedutor inveterado, que, na sua juventude, escreveu um romance de sucesso que lhe valeu um prémio literário e uma reputação de escritor frustrado, embora esconda o seu desencanto por detrás de uma atitude cínica que lhe permite ver o mundo com uma lucidez amarga. Cansado deste estilo de vida, Jep sonha por vezes voltar a escrever, assombrado por memórias de um amor da juventude.

Comparações à parte, A Grande Beleza vai muito mais longe do que a simples crítica ao estilo de vida das classes altas de Roma. É um retrato agridoce da vida - de cada um de nós -, através do passado e presente de Jep, o nosso guia nesta aventura cheia de espiritualidade, onde um realismo mágico espreita em muitos recantos. Entre diálogos especialmente bem construídos e cheios de significação, imagens delirantes - quase animalescas - e momentos mais tranquilos de descoberta - e auto-descoberta -, o filme convida-nos essencialmente à reflexão sobre nós mesmos e sobre a inevitabilidade e efemeridade da vida.


A vida, a morte, as ilusões, as festas, os sonhos, o passado, as memórias, o futuro, os romances, a religião, a saudade... tudo passa à frente dos nossos olhos e tudo constitui A Grande BelezaJep mostra-nos como não vale a pena procurá-la incessantemente, prova disso é o segundo romance que nunca começou. Vamos sempre olhar para trás e encontrar apenas os arrependimentos, o que se fez e o que se deixou por fazer, as pessoas que ficaram e que partiram. Essencialmente, encontramos apenas a vida, esta ilusão que construímos.

A cidade convida à contemplação e a câmara de Paolo Sorrentino para isso contribui, levando-nos a deslizar sob os céus e sobre as águas. Ao mesmo tempo, a direcção de fotografia de Luca Bigazzi apresenta-nos um dos melhores trabalhos do ano, qual obra de arte, onde as cores vibram entre claro-escuro, luz, sombra e cor, dotando os recantos da cidade de uma magia única. A aliança realização-fotografia apresenta-nos uma beleza pouco comum, fazendo-nos mergulhar nesta Roma mundana, artificial, mas, ao mesmo tempo, profunda e espiritual. A banda sonora, por sua vez, é poderosa, convidando aos excessos nocturnos, mas igualmente à espiritualidade e à introspecção.


Toni Servillo é fabuloso nesta interpretação, do êxtase à tristeza, da nostalgia ao arrependimento, assistimos à mudança da sua forma de encarar o mundo, muitas vezes cínica. A chegada dos 65 anos parece trazer consigo tantos sentimentos que pareciam perdidos para sempre. Jep comove-se, reencontra amigos, perde outros tantos, tem muitas perguntas sem resposta, recorda o passado perdido para sempre, vê os jovens partirem e os velhos permanecerem, todos eles desiludidos com a vida, com a ilusão que criaram. A decadência dá lugar à introspecção, à reflexão, à tomada de consciência de que é tempo de viver esta ilusão como nossa e, acima de tudo, como única - e Servillo transmite-nos tudo isto com alma e verdade.

Dificilmente encontraremos A Grande Beleza, mas esta, que Sorrentino criou para nós, dá-nos uma lição de vida e cria uma torrente de emoções e de sentimentos que são quase impossíveis de exteriorizar. Porque o filme é muito mais do que o retrato da vida de um intelectual em decadência e seus semelhantes, mas sim uma personificação da vida de cada um - com as devidas hipérboles mas mantendo as mesmas dúvidas.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Sugestão da Semana #143

Numa semana com algumas estreias sonantes, o destaque vai para a mais sonante de todas (especialmente para os fãs da saga) e com a esperança de um último capítulo, pelo menos, ao nível do segundo filme. A Sugestão da Semana recai em The Hunger Games: A Revolta - Parte 1, que já tem crítica publicada.

THE HUNGER GAMES: A REVOLTA - PARTE 1

Ficha Técnica:
Título Original: The Hunger Games: Mockingjay - Part 1
Realizador: Francis Lawrence
Actores: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Natalie Dormer
Género: Aventura, Ficção Científica
Classificação: M/12
Duração: 123 minutos

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Estreias da Semana #143

Seis filmes chegaram às salas de cinema portuguesas esta Quinta-feira. The Hunger Games: A Revolta - Parte 1 conquista as principais atenções.

20.000 Dias na Terra (2014)
20,000 Days on Earth
O 20 000º dia na vida de Nick Cave – a partir do som do seu despertador, logo pela manhã, até a um passeio nocturno pela praia, após um concerto – transforma-se num retrato de um dos mais criativos artistas do nosso tempo. Na sua estreia cinematográfica, a dupla Jane Pollard e Iain Forsyth combina fantasia e realidade, privado e público, num dia ficcionado, capturando a história de vida deste músico. Algumas cenas dramatizadas - como uma conversa com o psicanalista acerca da sua infância, ou um arquivista a às voltas com as fotografias dos tempos selvagens de Nick Cave – cruzam-se com imagens de ensaios e gravações em estúdio e com testemunhos de outros artistas que colaboraram com Cave, como Blixa Bargeld ou Kylie Minogue.

A Viagem a Itália (2014)
The Trip to Italy
Dois homens, seis refeições em seis locais diferentes numa viagem de carro por Itália: Ligúria, Toscana, Roma, Amalfi e a terminar em Capri. O The Observer pediu a Rob e Steve que fizessem uma série de críticas a restaurantes. Eles falam da vida, do amor, do trabalho e do exílio. Discutem Byron e Shelley, poetas românticos cujas vidas foram definidas pelo tempo que passaram em Itália. Acompanhamos a viagem em que eles embarcam, os hotéis onde ficam, os restaurantes onde comem, as cozinhas e os chefs, e depois a conta no fim.

Campo de Flamingos sem Flamingos (2013)
Os cinco elementos Japoneses são, por ordem de importância: Terra, Água, Fogo, Vento e Vazio. Pessoas e animais estão lado a lado num jogo muito antigo. Há o dia e a noite. Tudo existe simultaneamente. Uma viagem pelas fronteiras Portuguesas.

Sandra vê o emprego ameaçado quando os seus empregadores decidem oferecer um prémio aos restantes trabalhadores se eles votarem para que ela não regresse ao emprego. Com a ajuda do marido, Sandra tem apenas o fim-de-semana para visitar os colegas e convencê-los a abdicarem dos seus prémios para que ela possa voltar ao emprego.

Serena (2014)
Situado nas montanhas da Carolina do Norte na década de 1920, Serena conta a história de amor entre George Pemberton (Bradley Cooper) e a sua mulher Serena (Jennifer Lawrence), uma estreante no mundo dos negócios da exploração da terra e da madeira. A força e capacidade de liderança de Serena surpreende os trabalhadores e as ambições que ela tem sobre o crescimento da empresa aumentam à medida que se prepara para lutar contra o governo para manter as suas terras em vez de as vender para os Parques Nacionais. Mas a tragédia atinge este casal depois de Serena sofrer um aborto e descobrir que não pode mais ter filhos. Esta condição faz com que não consiga suportar a ideia do filho ilegítimo que o seu marido teve de uma relação anterior e acaba por contratar um dos funcionários para assassinar o filho antes de estes se conhecerem.

Quando Katniss (Jennifer Lawrence) destrói os jogos, ela é levada para o Distrito 13, depois do Distrito 12 ser destruído. Ali, conhece a Presidente Coin (Julianne Moore), que a convence a ser o símbolo da rebelião, enquanto tenta salvar Peeta (Josh Hutcherson) do Capitólio.

Crítica: The Hunger Games: A Revolta - Parte 1 / The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 (2014)

*6.5/10*

Começou a Guerra. Chegou o terceiro e penúltimo filme da saga The Hunger Games e a fasquia alta deixada pelo segundo capítulo desce agora consideravelmente com The Hunger Games: A Revolta - Parte 1. O ritmo abranda, mas os ânimos continuam exaltados e a revolta começou sob o contra-ataque - como sempre - cruel do Capitólio. Francis Lawrence traz a força de Katniss Everdeen de volta para agrado dos fãs que aguardarão com entusiasmo o capítulo final desta saga.

Encaremos este mais ou menos tranquilo primeiro capítulo de The Hunger Games - A Revolta como a estratégia de preparação para a Guerra aberta propriamente dita - apesar da mesma ter início, sem qualquer dúvida, neste filme. O foco agora é a promoção, o marketing em volta da revolta dos distritos contra o Capitólio. O importante aqui é motivá-los, fazê-los acreditar na possibilidade de vitória através de uma "imagem de marca": o mimo-gaio Katniss Everdeen. Será ela e os que a rodeiam e apoiam os principais alvos a abater pelos vilões da história.

Quando Katniss (Jennifer Lawrence) destrói os jogos, ela é levada para o Distrito 13, depois do Distrito 12 ser destruído. Ali, conhece a Presidente Coin (Julianne Moore), que a convence a ser o símbolo da rebelião, enquanto tenta salvar Peeta (Josh Hutcherson) do Capitólio.


Francis Lawrence surpreendeu pela positiva no segundo filme da saga: as emoções ficaram ao rubro, o público sofreu com as personagens. Agora, perto do fim, os ânimos abrandam para preparar toda uma estratégia de como convencer e motivar as massas, onde a televisão volta a ter um papel importante, sendo o único meio de contactar todos os Distritos e uni-los - aqui, a presença da equipa de filmagens, liderada pela realizadora Cressida (aplausos para a decidida e corajosa Natalie Dormer, numa personagem algo diferente do habitual e com visual a condizer), que acompanha Katniss até nos cenários de guerra, é de extrema importância. O tom opressivo reina, como sempre, com ataques grotescos e impiedosos a marcar este início da Guerra, e com a ideia de tortura por parte do Capitólio sempre a pairar e a semear o medo e o terror.

Lê a crítica completa no Espalha-Factos: "The Hunger Games: A Revolta – Parte 1: A Esperança no Mimo-Gaio"

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

Festa do Cinema Romeno'14: Dupa revolutie / After the Revolution (2010)

*7.5/10*

A Festa do Cinema Romeno começa amanhã na Culturgest e prolonga-se até dia 23 de Novembro com muito cinema e convidados de honra. Entre as longas-metragens a que podemos assistir está o documentário Dupa Revolutie.


Laurenţiu Calciu tomou as rédeas de Dupa Revolutie e oferece-nos um interessante registo histórico, que vale a pena conhecer, de uma Roménia logo depois da revolução - como o título indica. Curioso por natureza, o realizador pegou na câmara de filmar e foi para as ruas de Bucareste atrás da revolução, em 1989. O que ele viu está neste filme: a população discute furiosamente, por vezes de forma menos coerente, qual será o futuro da Roménia. 

Calciu coloca-nos no centro das emoções, das discussões, das ideias díspares - algumas com pouco sentido - de um povo que se viu livre após mais de 40 anos de ditadura. A desconfiança da população - será que aquele homem, que ninguém sabe quem é, é um infiltrado da Frente de Salvação Nacional? -, os exilados do regime que agora regressam, as opiniões que se discutem de forma acesa em plena rua e que não levam muito longe... acompanhamos ainda alguns candidatos às eleições, conferências de imprensa e mesmo o acto eleitoral e todas as peripécias menos legais que aconteceram.

Através dos rostos e palavras daqueles romenos que celebram e debatem o seu próprio futuro nas ruas, dos jornalistas e dos discursos dos políticos, conseguimos criar um retrato histórico marcante e único de um momento fundamental para um país que tanto mudou nas últimas duas décadas e, acima de tudo, entramos e envolvemo-nos no coração da revolução romena.

Dupa Revolutie é exibido no dia 20 de Novembro, pelas 18h45. O realizador Laurenţiu Calciu estará presente na sessão para partilhar a sua visão desta revolta que mudou a história da Roménia.

Sugestão da Semana #142

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recai sobre Nightcrawler - Repórter na Noite, de Dan Gilroy e com Jake Gyllenhaal num arrepiante papel. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida ou relida aqui.

NIGHTCRAWLER - REPÓRTER NA NOITE


Ficha Técnica:
Título Original: Nightcrawler
Realizador: Dan Gilroy
Actores: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed
Género: Crime, Drama, Thriller
Classificação: M/14
Duração: 117 minutos

LEFFEST'14: Dois Dias, Uma Noite / Deux Jours, Une Nuit (2014)

*7/10*

Passou pelo LEFFEST'14 e estreia também esta semana nas salas de cinema portuguesas, Dois Dias, Uma Noite é o mais recente filme dos irmãos Dardenne, protagonizado por Marion Cotillard.

A actriz francesa interpreta Sandra, cujo emprego é ameaçado quando os seus empregadores decidem oferecer um prémio aos restantes trabalhadores se eles votarem para que Sandra não regresse ao emprego. Com a ajuda do marido, Sandra tem apenas o fim-de-semana para visitar os colegas e convencê-los a abdicarem dos seus prémios para que ela possa voltar ao emprego.

Dois Dias, Uma Noite é realismo cinematográfico puro, repleto de simplicidade, mas que coloca um dilema muito real ao espectador: escolher entre um bónus no ordenado ou o despedimento de uma colega, em tempos de crise. Vamos seguir Sandra e torcer por ela, ainda que, por outro lado, estejamos tão divididos como os seus colegas de trabalho, ponderando os prós e contras de cada decisão, e conhecendo - apenas em dois dias e uma noite - a protagonista, ela mesma atormentada por uma depressão ainda longe de estar curada.


Marion Cotillard oferece-nos uma interessante interpretação numa personagem frágil (também fisicamente), com problemas psicológicos e numa luta aguerrida - mesmo que com algumas desistências pelo meio - pelo seu posto de trabalho, algo que ainda lhe poderia dar alguma esperança. Vamos querer apoiar Sandra, mas vamos igualmente ficar apreensivos ao verificar que o seu estado de saúde é inconstante e muito preocupante.

Jean-Pierre e Luc Dardenne construíram um trabalho cujo maior trunfo é o dilema que coloca directamente ao espectador que balança entre o bónus e o despedimento, do início ao fim de Dois Dias, Uma Noite.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

LEFFEST'14: Vencedores

O Lisbon & Estoril Film Festival 2014 terminou este domingo (mas os posts por aqui ainda vão continuar) e o júri desta edição (composto por Nan Goldin, Dimítris Dimitriádis, Dorota Maslowska, Philippe Parreno e Francisco Tropa) atribuiu os seguintes prémios:


Prémio Melhor Filme Jaeger-LeCoultre
Amour Fou, de Jessica Hausner

Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa
Phoenix, de Christian Petzold

Prémio Revelação TAP
Heaven Knows What, de Joshua e Ben Safdie

Prémio Melhor Actriz Nespresso
Ingrid García Johnsson (Hermosa Juventud)

O júri do Prémio MEO (Peter Handke, Birgit Hutter e Dulce Maria Cardoso), que premeia o trabalho dos alunos das Escolas de Cinema Europeias, escolheu em ex-aequo os seguintes filmes:

Para pero Sigue, de Lud Monaco (Escuela de Cine Barcelona - Espanha)
Paul e Virginie, de Paul Cartron (Institut des Arts de Diffusion – Bélgica)

Menções Honrosas
Poço das Almas, de Filipa Pinto (Escola Superior de Teatro e Cinema - Portugal)

Saba, de Sara Santos (Escola Superior de Tecnologia de Abrantes - Portugal)

Do Outro Lado, de Artur Maurício (ETIC - Portugal)

Prémio CINEUROPA
Angels of Revolution, de Aleksej Fedorchenko