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quarta-feira, 5 de março de 2025

Sugestão da Semana #655

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme de animação Memórias de Um Caracol, de Adam Elliot, que esteve nomeado para o Oscar de Melhor Filme de Animação.

MEMÓRIAS DE UM CARACOL


Ficha Técnica:
Título Original: Memoir of a Snail
Realizador: Adam Elliot
Vozes: Sarah Snook, Kodi Smit-McPhee, Jacki Weaver, Magda Szubanski, Dominique Pinon, Tony Armstrong
Género: Animação, Comédia, Drama
Classificação: M/12
Duração: 95 minutos

terça-feira, 4 de março de 2025

Oscars 2025: Red Carpet

Depois da entrega das estatuetas e da vitória de Anora, de Sean Baker, numa cerimónia divertida mas muito comedida politicamente, faço a habitual ronda pela passadeira vermelha dos Oscars. Entre alguns modelos mais exuberantes, os principais destaques, para o meu gosto, vão para os vestidos em tons claros e para o fato mais elegante dos que desfilaram pela passadeira vermelha. 

Elle Fanning desfilou num vestido branco em renda Givenchy, com uma capa igualmente rendada e um cinto preto cruzado em laço. Completou o look com jóias Cartier.

Vencedora do Oscar de Melhor Actriz no ano passado, Emma Stone apresentou as nomeadas e vencedora na mesma categoria na cerimónia de 2025. Com o seu cabelo curto "à la garçonne", desfilou com um vestido Louis Vuitton de corte simples, mas com muito brilho, em tons de branco

Nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Secundária, Monica Barbaro surgiu deslumbrante na passadeira vermelha com um volumoso vestido Dior rosa claro. O top de alças justo, cheio de brilhantes, define as suas formas, enquanto a saia de roda lhe dá um toque de princesa. Junta-se uma maquilhagem discreta e jóias Bulgari, a completar o look.

Lupita Nyong’o nunca desaponta na red carpet. Este ano, desfilou com um vestido de alças branco Chanel, de top justo e saia fluída. A acompanhar, jóias também Chanel.

Vencedora do Oscar de Melhor Actriz, Mikey Madison usou um vestido sem alças Christian Dior, rosa e preto, com um laço à frente e uma cauda. Uma opção muito clássica que destacou a jovialidade da actriz, complementada com jóias Tiffany & Co.

Nomeado para o Oscar de Melhor Actor, Colman Domingo é sempre um dos mais bem vestidos em qualquer passadeira vermelha por onde passe. Desta vez, surgiu num fato Valentino, com casaco vermelho com um cinto lateral e pormenores em preto, a condizer com as calças. Destaque ainda para as jóias Boucheron e o relógio Omega.

Demi Moore surgiu fabulosa, num escultural vestido prateado Giorgio Armani Privé, feito à mão, com cristais em toda a sua extensão. A dar ainda mais brilho à actriz estiveram as jóias Chopard, que incluíam um vistosos brincos de diamantes em ouro branco.

Selena Gomez desfilou com um dos visuais mais estonteantes dos Oscars 2025. A actriz e cantora usou um decotado vestido Ralph Lauren, repleto de cristais bordados à mão. A complementar o look, estavam jóias de diamantes Bulgari.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Oscars 2025: Vencedores

A 97.ª cerimónia dos Oscars aconteceu esta noite, no Dolby Theatre, em Los Angeles. O anfitrião foi Conan O'Brien - muito comedido - e o Hoje Vi(vi) um Filme esteve a acompanhar e a actualizar os vencedores em tempo real. 

Anora conquistou cinco Oscars e foi o grande vencedor da noite. O Brutalista conquistou três estatuetas, incluindo o de Melhor Actor para Adrien Brody. Ainda Estou Aqui levou para o Brasil o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.


Aqui fica a lista completa de vencedores e nomeados:

Melhor Filme

Melhor Actor
Timothée Chalamet, A Complete Unknown
Colman Domingo, Sing Sing
Sebastian Stan, The Apprentice

Melhor Actriz
Melhor Actor Secundário
Kieran Culkin, A Real Pain
Edward Norton, A Complete Unknown
Jeremy Strong, The Apprentice

Melhor Actriz Secundária 

Melhor Realizador
Melhor Argumento Original
A Real Pain (Jesse Eisenberg)
September 5 (Moritz Binder, Tim Fehlbaum; co-argumentista Alex David)

Melhor Argumento Adaptado
A Complete Unknown (James Mangold e Jay Cocks)
Nickel Boys (RaMell Ross & Joslyn Barnes)
Sing Sing (argumento de Clint Bentley, Greg Kwedar; e história de Clint Bentley, Greg Kwedar, Clarence Maclin, John “Divine G” Whitfield)

Melhor Filme de Animação
Inside Out 2 
Memoir of a Snail 
Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl 
The Wild Robot

Melhor Filme Estrangeiro

Melhor Fotografia

Melhor Montagem
Melhor Design de Produção
Melhor Guarda-Roupa
A Complete Unknown (Arianne Phillips)
Gladiator II (Janty Yates and Dave Crossman)
Nosferatu (Linda Muir)
Wicked (Paul Tazewell)

Melhor Caracterização
A Different Man (Mike Marino, David Presto e Crystal Jurado)
Nosferatu (David White, Traci Loader e Suzanne Stokes-Munton)
Wicked (Frances Hannon, Laura Blount e Sarah Nuth)

Melhor Banda Sonora Original
Wicked (John Powell e Stephen Schwartz)
The Wild Robot (Kris Bowers)

Melhor Canção Original
The Journey, The Six Triple Eight (Música e Letra: Diane Warren)
Like a Bird, Sing Sing (Música e Letra: Abraham Alexander e Adrian Quesada)
Never Too Late, Elton John: Never Too Late (Música e Letra: Elton John, Brandi Carlile, Andrew Watt e Bernie Taupin)

Melhor Som
A Complete Unknown (Tod A. Maitland, Donald Sylvester, Ted Caplan, Paul Massey e David Giammarco)
Wicked (Simon Hayes, Nancy Nugent Title, Jack Dolman, Andy Nelson e John Marquis)
The Wild Robot (Randy Thom, Brian Chumney, Gary A. Rizzo e Leff Lefferts)

Melhores Efeitos Visuais
Alien: Romulus (Eric Barba, Nelson Sepulveda-Fauser, Daniel Macarin e Shane Mahan)
Better Man (Luke Millar, David Clayton, Keith Herft e Peter Stubbs)
Kingdom of the Planet of the Apes (Erik Winquist, Stephen Unterfranz, Paul Story e Rodney Burke)
Wicked (Pablo Helman, Jonathan Fawkner, David Shirk e Paul Corbould)

Melhor Documentário
Black Box Diaries 
No Other Land 
Porcelain War
Soundtrack to a Coup d’Etat 
Sugarcane

Melhor Curta Documental
Death by Numbers
I Am Ready, Warden 
Incident
Instruments of a Beating Heart
The Only Girl in the Orchestra

Melhor Curta de Animação
Beautiful Men 
In the Shadow of the Cypress
Magic Candies
Wander to Wonder 
Yuck! 

Melhor Curta
A Lien
Anuja 
I’m Not a Robot
The Last Ranger 
The Man Who Could Not Remain Silent 

*artigo actualizado às 03h52 de dia 3 de Março de 2025.

domingo, 2 de março de 2025

Oscars 2025: As Previsões

Como é costume todos os anos, chegou o momento em que faço as apostas para a noite dos Oscars. Agora, é esperar para ver se as minhas previsões vão bater certo com os vencedores. Num ano em que nada é certo, tudo pode ser inesperado. Façam as vossas apostas e conheçam as minhas:


Melhor Filme
Com possibilidades: Conclave ou Anora
Devia Ganhar: The Brutalist

Melhor Actor
Com possibilidades: Timothée Chalamet, A Complete Unknown

Melhor Actriz

Melhor Actor Secundário
Ganha:  Kieran Culkin, A Real Pain
Com Possibilidades: Guy Pearce, The Brutalist

Melhor Actriz Secundária
Com Possibilidades: Monica Barbaro, A Complete Unknown

Melhor Realizador
Com possibilidades: Sean Baker, Anora

Melhor Argumento Original
Ganha: A Real Pain (Jesse Eisenberg)
Com possibilidades: Anora (Sean Baker)

Melhor Argumento Adaptado
Ganha: Nickel Boys (RaMell Ross & Joslyn Barnes)
Com possibilidades: A Complete Unknown (James Mangold e Jay Cocks) ou Conclave (Peter Straughan)
Devia Ganhar: A Complete Unknown (James Mangold e Jay Cocks)

Melhor Filme de Animação
Ganha: Flow
Com possibilidades: Inside Out 2 ou The Wild Robot
Devia Ganhar: Flow

Melhor Filme Estrangeiro
Com Possibilidades: Emilia Pérez (França)

Melhor Fotografia
Com possibilidades: Maria (Ed Lachman)

Melhor Montagem

Melhor Design de Produção
Ganha: Wicked (Nathan Crowley e Lee Sandales)
Com possibilidades: Nosferatu (Craig Lathrop e Beatrice Brentnerová)
Devia Ganhar: Nosferatu (Craig Lathrop e Beatrice Brentnerová)

Melhor Guarda-Roupa
Ganha: Nosferatu (Linda Muir)
Com possibilidades: Wicked (Paul Tazewell)
Devia Ganhar: Wicked (Paul Tazewell) ou Nosferatu (Linda Muir)

Melhor Maquilhagem e Cabelo
Com Possibilidades: Wicked (Frances Hannon, Laura Blount e Sarah Nuth)

Melhor Banda Sonora Original
Com possibilidades: Conclave (Volker Bertelmann)

Melhor Canção Original
Com Possibilidades: Like a Bird, Sing Sing (Música e Letra: Abraham Alexander e Adrian Quesada)

Melhor Som
Com possibilidades: A Complete Unknown (Tod A. Maitland, Donald Sylvester, Ted Caplan, Paul Massey e David Giammarco)
Devia Ganhar: Dune: Part Two (Gareth John, Richard King, Ron Bartlett e Doug Hemphill) ou A Complete Unknown (Tod A. Maitland, Donald Sylvester, Ted Caplan, Paul Massey e David Giammarco)

Melhor Efeitos Visuais
Com possibilidades: Kingdom of the Planet of the Apes (Erik Winquist, Stephen Unterfranz, Paul Story e Rodney Burke)

Melhor Documentário
Ganha: No Other Land 
Com Possibilidades: Porcelain War

Melhor Curta Documental
Ganha: Incident
Com Possibilidades: Death by Numbers

Melhor Curta de Animação
Ganha: Wander to Wonder 
Com Possibilidades: In the Shadow of the Cypress

Melhor Curta
Ganha: The Man Who Could Not Remain Silent  
Com Possibilidades: Anuja 

Relembra todos os nomeados aqui.

Crítica: Flow - À Deriva / Straume (2024)

*8/10*

Gints Zilbalodis mostra como um filme sem falas não tem de ser um filme mudo com Flow - À Deriva. Uma chamada de atenção para o futuro do planeta e seus habitantes e para o perigo das alterações climáticas. 

"O mundo parece estar à beira do fim, marcado pelos vestígios deixados pela presença humana. Um gato, solitário por natureza, vê a sua casa ser destruída por uma cheia catastrófica. Encontra refúgio num barco habitado por diversas espécies, com as quais terá de colaborar, apesar das suas diferenças. Neste barco à deriva, que navega por entre paisagens místicas e inundadas, os animais terão de enfrentar os desafios e perigos de se adaptarem a um novo mundo."

Eis um futuro em que os animais sobrevivem aos humanos, sendo obrigados a adaptar-se ao novo mundo, às catástrofes naturais e a cada nova mudança. A personagem principal é um gato, que passa os dias entre a tranquilidade da casa de um antigo amante de gatos - não faltam esculturas em variados tamanhos a endeusarem os felinos -, o seu porto seguro, e a liberdade do campo, onde procura comida e água, e se depara com outros animais que ameaçam a sua segurança. Até ao dia do dilúvio, que o obriga a fugir e a sobreviver num barco, numa união necessária com espécies tão distintas da sua, qual arca de Noé sem humanos.

Nesta necessária união para a sobrevivência, há zangas, receios, mas também confiança e amparo. Os sons e expressões físicas de cada espécie - muito realistas e bem captadas - transmitem tudo o que não precisa ser dito por palavras, capaz de emocionar a plateia embevecida. 

A animação é simples, mas extremamente bela e cuidada, retratando cada pequeno pormenor das atitudes dos animais - cães e gatos em particular -, e tratando a representação da água como se fosse real. A água que é, aliás, a maior agente de mudanças na narrativa de Flow - À Deriva, um bem tão precioso como potencialmente letal, em algumas situações.

Gints Zilbalodis foca-se na inesperada compreensão e entreajuda entre espécies diferentes. O carinho, a fidelidade aos seus, mas igualmente a mágoa por não se ouvir os mais experientes. O desejo de sobrevivência pode puxar pelo lado bom ou mau de cada ser, humano ou não. Aqui, o bem parece predominar, mas há instintos básicos que alguns não conseguem apagar da memória. Flow - À Deriva é uma lição para os humanos, em tempos tão instáveis e extremados.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Sugestão da Semana #654

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca longa-metragem letã Flow - À Deriva, de Gints Zilbalodis, nomeado para os Oscars de Melhor Filme de Animação e Melhor Filme Estrangeiro.

FLOW - À DERIVA


Ficha Técnica:
Título Original: Straume / Flow
Realizador: Gints Zilbalodis
Género: Animação, Aventura, Fantasia
Classificação: M/6
Duração: 85 minutos

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Crítica: Ainda Estou Aqui / I'm Still Here (2024)

"- O meu marido está em perigo!

- Todo o mundo está em perigo, Eunice."

*7.5/10*

Walter Salles regressa aos anos da ditadura brasileira para contar uma história real em Ainda Estou Aqui. O filme é inspirado no livro biográfico de Marcelo Rubens Paiva, sobre a história da sua família. Em tempos estranhos como os actuais, é ainda mais importante recordar os horrores das ditaduras do século XX.

"Rio de Janeiro, anos 70. No Brasil impera a ditadura militar iniciada em 1964 e que só terminaria em 1985. Rubens Paiva é um deputado do regime deposto, casado, pai de cinco filhos, engenheiro de profissão. Em janeiro de 1971, homens armados entram na sua casa e levam-no para interrogatório. Nunca regressou, sendo oficialmente considerado como 'desaparecido'. Ainda Estou Aqui é a história da sua família. A história de Eunice, uma mãe que procura incessantemente o marido desaparecido, empenhada em descobrir a verdade por detrás do 'desaparecimento', enquanto tudo faz para que a família tenha uma vida normal. A busca duraria 30 longos anos."

Num época de medo e perseguição, Walter Salles foca-se no desaparecimento de Rubens Paiva (interpretado por Selton Mello), para mostrar (ou relembrar) como a ditadura assombrava e destruía famílias. O realizador cria um filme realista, comovente e fiel aos acontecimentos, e em que todo o visual do filme transporta a plateia para os anos 70, onde tudo começa.

Depois de levarem o ex-deputado, é a matriarca Eunice, interpretada por Fernanda Torres, quem toma as rédeas. Uma dona de casa que vivia para gerir a casa e os filhos e não se envolvia nas lutas políticas do marido, vê-se, de repente, sem rumo. E é então que muda totalmente de vida, torna-se a cara da luta de tantos brasileiros.

Depois de ser vigiada, presa, interrogada e de lidar com a tortura, Eunice percebe que é preciso expor o caso mediaticamente e lutar por todos os meios legais para conseguir as respostas que teimam em não chegar e, principalmente, justiça. E é aqui que Fernanda Torres toma conta do filme. Ela encarna a verdadeira Eunice nas suas lutas, ao longo de 30 anos, sem nunca desistir. Um sorriso para uma foto que se espera triste já é desafiar o sistema. E Eunice já não teme. Ela supera-se, reinventa-se, mostra que nunca é tarde para o que for e que desistir nunca será opção.

Ainda Estou Aqui é memória, melancolia, revolta e justiça. É daquelas obras que nunca deixarão de ser necessárias.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Crítica: A Rapariga da Agulha / Pigen med nålen / The Girl with the Needle (2024)

"I have a new life. Please forgive me."
Karoline


*7/10*

Ao contrário do que muitos dizem, A Rapariga da Agulha não é um filme de terror. Poderá, contudo, perturbar os mais sensíveis, por se inspirar em factos reais. Magnus Von Horn constrói um filme envolto num ambiente pesado e obscuro, onde a esperança está longe de ser alcançável. 

A longa-metragem dinamarquesa, "acompanha Karoline, uma jovem grávida e abandonada, que procura sobreviver no pós-Primeira Guerra Mundial, em Copenhaga. Um dia conhece uma mulher que gere uma agência de adopção clandestina, de quem se aproxima, até ao momento em que uma descoberta inesperada muda tudo".


Numa sociedade cruel e desolada pela guerra, Karoline (Vic Carmen Sonne) não tem notícias do marido soldado há um ano e vive em grandes dificuldades. É a protagonista que dá nome ao filme, e logo ao início vêmo-la a fazer tricô e a trabalhar numa fábrica de confecção, onde manuseia máquinas de costura - e são muitas as agulhas que se partem. Entretanto, grávida e abandonada, desespera, até que o marido aparece-lhe, sem explicações e mutilado. Chocada e sem esperança, a protagonista toma decisões precipitadas e confia em Dagmar (aterradora interpretação de Trine Dyrholm), a mulher da loja de doces, que gere, em segredo, uma agência de adopções - a fachada perfeita para o paradoxal negócio que tem dentro de casa. 


A Rapariga da Agulha faz várias vítimas ao longo do decorrer da trama, para além das mais óbvias e indefesas. O marido de KarolinePeter (interpretado por Besir Zeciri), é uma das principais, um ferido de guerra que demonstra, a certo ponto, ser a encarnação da bondade (que escasseia na longa-metragem), num rosto desfeito, escondido atrás de uma máscara. É ele a nova atracção do circo das aberrações local e é assim que vai ganhando a vida que tenta reconstruir - nunca deixando de amar e acolher a mulher quando esta regressa. E é também Karoline, apesar de alguns actos impensados, uma das maiores vítimas da história: desde a dor da ausência à da separação, às dúvidas que a assolam, aos sacrifícios por que passa, quase sempre solitária, com a vida devastada.


Ao mesmo tempo que arrisca, o realizador coloca igualmente nesta obra algumas referências cinematográficas notórias, como a Sortie de l'usine Lumière à Lyon (1895), de Auguste e Louis Lumière, e outras tantas que se descortinam no marcado visual sombrio de A Rapariga da Agulha. A preto e branco, a direcção de fotografia faz um trabalho fabuloso, captando o ambiente e potenciando os momentos de maior suspense, muitas vezes, verdadeiramente assombrosos, em jogos de sombras e luz que mostram as diversas faces do ser humano. 

O tom pesado e o desenlace abominável, inspirado em acontecimentos reais, que encontram semelhanças em alguns casos pelo mundo, incluindo um em Portugal (Luiza de Jesus, no século XVIII - para evitar spoilers, pesquisem só depois de ver o filme), faz com que A Rapariga da Agulha não seja um filme consensual. Magnus Von Horn desafia os limites do drama, criando um incómodo latente na plateia.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Crítica: Anora (2024)

"PLEASE! STOP! SCREAMING!"
Igor


*6/10*

Sean Baker não descura o realismo social que coloca nos seus filmes. Normalmente, aborda histórias e personagens pouco felizes, que, paradoxalmente, vivem envoltas num ambiente de cores vivas (Tangerine, The Florida Project). Em Anora, a receita é semelhante, mas menos capaz de envolver público e personagens.

Anora (Mikey Madison) é uma stripper - e prostituta ocasional - em Brooklyn, que começa a viver uma história de Cinderela na vida real quando, no clube onde trabalha, conhece e casa impulsivamente com Ivan (Mark Eydelshteyn), filho de um oligarca russo. Quando a notícia chega à Rússia, o seu conto de fadas é ameaçado pelos pais do noivo, que partem para Nova Iorque para anular o casamento.


De conto de fadas, a amor proibido, o enredo de Anora não é nada do que parece na primeira metade do filme. Após a mudança radical de vida, a jovem acredita estar a viver um verdadeiro sonho, mas os primeiros dias de casados de puro ócio, entre sexo, jogos de vídeo, drogas e álcool, duram pouco. A vida de Anora sofre nova reviravolta com a chegada dos "capangas" que os pais de Ivan enviam à mansão da família. 

A partir daí, o filme de Sean Baker muda de rumo. A máscara de Igor cai - um menino mimado e rico, que gosta de contrariar os pais - e Anora vê o sonho transformar-se em pesadelo - muito divertido para a plateia, nada para a protagonista. Apesar da tragédia eminente, esta segunda metade da longa-metragem traz momentos hilariantes que começam na invasão da mansão, seguindo-se uma fuga e uma busca incessante, que conduz às mais inusitadas aventuras para as personagens.


Visualmente, Anora joga com as cores (abundam tons vermelhos, muito associados a Anora, e azuis), luzes, sombras e brilho, em especial no clube de striptease. Este local de encontros e desencontros é como um escape, uma realidade alternativa, onde cada um pode ser o que quiser. Mas é no mundo real, onde as cores são ligeiramente mais frias, que a dura realidade chega para destruir todas as fantasias.


Mikey Madison entrega-se à personagem com disponibilidade e sem preconceitos. A jovem actriz destaca-se, num filme que exige grande exposição do seu corpo e em que passa pelas maiores mudanças emocionais - de uma mulher confiante e sensual, para um registo tão cómico como trágico e da revolta para à aceitação. Não passa despercebido o tímido Igor, (interpretado por Yura Borisov, que já havia chamado a atenção no filme Compartimento No 6) contratado para ajudar na anulação do casamento de Anora e Ivan, mas também ele um estranho na confusão que se gera em torno da família russa. O seu olhar transmite surpresa, curiosidade e empatia para com Anora. O lado cómico reside nas interpretações de Mark Eydelshteyn como o irresponsável Ivan, e dos capangas Toros (Karren Karagulian) e Garnik (Vache Tovmasyan).


Não fosse o erotismo que carrega em si, Anora poderia ser uma comédia dramática de Domingo à tarde. É um filme leve, com toques de realismo e, sem dúvida, dentro da linha do realizador, mas com muito menos conteúdo. Essencialmente, divertido.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Crítica: Conclave (2024)

"Our faith is a living thing precisely because it walks hand-in-hand with doubt. If there was only certainty and no doubt, there would be no mystery. And therefore no need for faith. Let us pray that God will grant us a Pope who doubts. And let him grant us a Pope who sins and asks for forgiveness and who carries on."
Lawrence


*7/10*

Em Conclave, Edward Berger entra na reunião mais secreta do Vaticano, no momento da eleição de um novo Papa, tudo envolto em muitos segredos e conspirações. O filme adapta o romance do escritor inglês Robert Harris, um dos argumentistas do filme, juntamente com o dramaturgo Peter Straughan.

Conclave apresenta um "dos acontecimentos mais sigilosos e antigos do mundo - a escolha de um novo Papa. O Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) é encarregue de dirigir este processo secreto após a inesperada morte de um Papa muito estimado. Com os líderes mais poderosos da Igreja Católica de todo o mundo reunidos e encerrados entre as paredes do Vaticano, Lawrence encontra-se no centro de uma conspiração e descobre um segredo que poderá abalar os alicerces da Igreja."


O clima de tensão está instalado. Não só devido ao secretismo que envolve todos os Conclaves da História, mas porque em redor da morte do Papa, surgem possíveis conspirações, fortes rivalidades e segredos revelados. Lawrence, o responsável por manter a normalidade e justiça da eleição do novo chefe da Igreja Católica, vê-se assombrado por dúvidas e impasses, que, a seu ver, devem ser esclarecidos para que a eleição tenha o resultado mais justo possível.

Neste processo, há Cardeais, uns mais liberais, outros ultraconservadores, que se destacam entre os mais de 100 representantes da igreja católica a votação: para além de Lawrence - numa sóbria e emotiva interpretação de Ralph Fiennes, cheio de dúvidas em relação a si e aos que o rodeiam -, que se vê envolto numa teia de conspirações, encontram-se, no meio de conflitos e polémicas, os Cardeais Bellini (Stanley Tucci), Tremblay (John Lithgow), Adeyemi (Lucian Msamati), Benitez (Carlos Diehz) e Tedesco (Sergio Castellitto). A eles, juntam-se ainda duas freiras, a Irmã Agnes (Isabella Rossellini) e a Irmã Shanumi (Balkissa Maiga) - um pequeno vislumbre da importância e influência que as Mulheres podem (vir a) ter no seio da Igreja.


Num momento tão solene, Edward Berger consegue construir um thriller de suspense cheio de actualidade, onde montagem e direcção de fotografia muito contribuem para revelar o lado mais sombrio da Igreja e suas facções, e o total secretismo acerca do que se passa tanto dentro, como fora das paredes do Vaticano. A acompanhar, uma esplêndida banda sonora de Volker Bertelmann (que venceu o Oscar pela partitura de A Oeste Nada de Novo, também realizado por Berger), com uma composição que alia a música clássica a sonoridades mais tensas e sombrias, tal qual o ambiente do filme.


A intriga está bem construída, sendo um verdadeiro desafio para Lawrence, mas igualmente para a plateia, que testemunhará como os membros da Igreja estão bem longe de estarem isentos de pecado. E no meio de tantos mistérios, haverá um ligeiro desapontamento no culminar de Conclave, com tanto de previsível como de inesperado. Fora isto, Edward Berger continua o percurso virtuoso que, para além do seu trabalho em algumas séries, a longa-metragem A Oeste Nada de Novo veio consolidar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Oscars 2025: Nomeados

Os nomeados para os Oscars 2025 foram revelados esta Quinta-feira, 23 de Janeiro, por Bowen Yang e Rachel SennottEmilia Pérez lidera a corrida às estatuetas douradas com 13 nomeações, seguido de O Brutalista e Wicked, com 10.

Entre as principais ausências nos nomeados deste ano, está a banda sonora de Challengers, de Trent Reznor e Atticus Ross (vencedor da categoria nos Globos de Ouro), e as interpretações de Angelina Jolie (Maria), Denzel Washington (Gladiador II), Nicole Kidman (Babygirl), Selena Gomez (Emilia Pérez), Margaret Qualley (A Substância), Zendaya (Challengers), Daniel Craig (Queer), Pamela Anderson (The Last Showgirl) ou Jamie Lee Curtis (The Last Showgirl).

As maiores surpresas recaem no filme brasileiro Ainda Estou Aqui, nomeado para os Oscars de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Filme e Melhor Actriz (Fernanda Torres). A animação letã Flow, vencedor do Globo de Ouro, conseguiu afirmar-se com nomeações para Melhor Filme de Animação e Melhor Filme Estrangeiro. Nosferatu somou inesperadas quatro nomeações - Fotografia, Guarda Roupa, Caracterização e Design de Produção -;  e Nickel Boys surpreendeu com as nomeações para Melhor Filme e Argumento Adaptado.


A 97.ª cerimónia dos Oscars vai realizar-se a 3 de Março de 2025, apresentada por Conan O’Brien.

Aqui fica a lista completa de nomeados:

Melhor Filme
Anora 
The Brutalist 
A Complete Unknown 
Conclave 
Dune: Part Two
Emilia Pérez 
I’m Still Here 
Nickel Boys 
The Substance 
Wicked

Melhor Actor
Adrien Brody, The Brutalist
Timothée Chalamet, A Complete Unknown
Colman Domingo, Sing Sing
Ralph Fiennes, Conclave
Sebastian Stan, The Apprentice

Melhor Actriz
Cynthia Erivo, Wicked
Karla Sofía Gascón, Emilia Pérez
Mikey Madison, Anora
Demi Moore, The Substance
Fernanda Torres, I’m Still Here

Melhor Actor Secundário
Yura Borisov, Anora
Kieran Culkin, A Real Pain
Edward Norton, A Complete Unknown
Guy Pearce, The Brutalist
Jeremy Strong, The Apprentice

Melhor Actriz Secundária 
Monica Barbaro, A Complete Unknown
Ariana Grande, Wicked
Felicity Jones, The Brutalist
Isabella Rossellini, Conclave
Zoe Saldaña, Emilia Pérez

Melhor Realizador
Jacques Audiard, Emilia Pérez
Sean Baker, Anora
Brady Corbet, The Brutalist
Coralie Fargeat, The Substance
James Mangold, A Complete Unknown

Melhor Argumento Original
Anora (Sean Baker)
The Brutalist (Brady Corbet, Mona Fastvold)
A Real Pain (Jesse Eisenberg)
September 5 (Moritz Binder, Tim Fehlbaum; co-argumentista Alex David)
The Substance (Coralie Fargeat)

Melhor Argumento Adaptado
A Complete Unknown (James Mangold e Jay Cocks)
Conclave (Peter Straughan)
Emilia Pérez (Jacques Audiard, em colaboração com Thomas Bidegain, Léa Mysius e Nicolas Livecchi)
Nickel Boys (RaMell Ross & Joslyn Barnes)
Sing Sing (argumento de Clint Bentley, Greg Kwedar; e história de Clint Bentley, Greg Kwedar, Clarence Maclin, John “Divine G” Whitfield)

Melhor Filme de Animação
Flow
Inside Out 2 
Memoir of a Snail 
Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl 
The Wild Robot

Melhor Filme Estrangeiro
I’m Still Here / Ainda Estou Aqui (Brasil)
The Girl With the Needle / A Rapariga da Agulha (Dinamarca)
Emilia Pérez (França)
The Seed of the Sacred Fig (Alemanha)
Flow (Letónia)

Melhor Fotografia
The Brutalist (Lol Crawley)
Dune: Part Two (Greig Fraser)
Emilia Pérez (Paul Guilhaume)
Maria (Ed Lachman)
Nosferatu (Jarin Blaschke)

Melhor Montagem
Anora (Sean Baker)
The Brutalist (David Jancso)
Conclave (Nick Emerson)
Emilia Pérez (Juliette Welfling)
Wicked (Myron Kerstein)

Melhor Design de Produção
The Brutalist (Judy Becker e Patricia Cuccia)
Conclave (Suzie Davies e Cynthia Sleiter)
Dune: Part Two (Patrice Vermette e Shane Vieau)
Nosferatu (Craig Lathrop e Beatrice Brentnerová)
Wicked (Nathan Crowley e Lee Sandales)

Melhor Guarda-Roupa
A Complete Unknown (Arianne Phillips)
Conclave (Lisy Christl)
Gladiator II (Janty Yates and Dave Crossman)
Nosferatu (Linda Muir)
Wicked (Paul Tazewell)

Melhor Caracterização
A Different Man (Mike Marino, David Presto e Crystal Jurado)
Emilia Pérez (Julia Floch Carbonel, Emmanuel Janvier e Jean-Christophe Spadaccini)
Nosferatu (David White, Traci Loader e Suzanne Stokes-Munton)
The Substance (Pierre-Olivier Persin, Stéphanie Guillon e Marilyne Scarselli)
Wicked (Frances Hannon, Laura Blount e Sarah Nuth)

Melhor Banda Sonora Original
The Brutalist (Daniel Blumberg)
Conclave (Volker Bertelmann)
Emilia Pérez (Clément Ducol e Camille)
Wicked (John Powell e Stephen Schwartz)
The Wild Robot (Kris Bowers)

Melhor Canção Original
El Mal, Emilia Pérez (Música: Clément Ducol e Camille; Letra: Clément Ducol, Camille e Jacques Audiard)
The Journey, The Six Triple Eight (Música e Letra: Diane Warren)
Like a Bird, Sing Sing (Música e Letra: Abraham Alexander e Adrian Quesada)
Mi Camino, Emilia Pérez (Música e Letra: Camille e Clément Ducol)
Never Too Late, Elton John: Never Too Late (Música e Letra: Elton John, Brandi Carlile, Andrew Watt e Bernie Taupin)

Melhor Som
A Complete Unknown (Tod A. Maitland, Donald Sylvester, Ted Caplan, Paul Massey e David Giammarco)
Dune: Part Two (Gareth John, Richard King, Ron Bartlett e Doug Hemphill)
Emilia Pérez (Erwan Kerzanet, Aymeric Devoldère, Maxence Dussère, Cyril Holtz e Niels Barletta)
Wicked (Simon Hayes, Nancy Nugent Title, Jack Dolman, Andy Nelson e John Marquis)
The Wild Robot (Randy Thom, Brian Chumney, Gary A. Rizzo e Leff Lefferts)

Melhores Efeitos Visuais
Alien: Romulus (Eric Barba, Nelson Sepulveda-Fauser, Daniel Macarin e Shane Mahan)
Better Man (Luke Millar, David Clayton, Keith Herft e Peter Stubbs)
Dune: Part Two (Paul Lambert, Stephen James, Rhys Salcombe e Gerd Nefzer)
Kingdom of the Planet of the Apes (Erik Winquist, Stephen Unterfranz, Paul Story e Rodney Burke)
Wicked (Pablo Helman, Jonathan Fawkner, David Shirk e Paul Corbould)

Melhor Documentário
Black Box Diaries 
No Other Land 
Porcelain War
Soundtrack to a Coup d’Etat 
Sugarcane

Melhor Curta Documental
Death by Numbers
I Am Ready, Warden 
Incident
Instruments of a Beating Heart
The Only Girl in the Orchestra

Melhor Curta de Animação
Beautiful Men 
In the Shadow of the Cypress
Magic Candies
Wander to Wonder 
Yuck! 

Melhor Curta
A Lien
Anuja 
I’m Not a Robot
The Last Ranger 
The Man Who Could Not Remain Silent 

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

'Grand Tour' é o candidato de Portugal a Melhor Filme Internacional dos Oscars 2025

O filme Grand Tour, de Miguel Gomes, é o candidato de Portugal à categoria de Melhor Filme Internacional, na 97.ª edição dos Oscars, os Prémios da Academia Americana de Cinema. A cerimónia acontece a 2 de Março de 2025, em Los Angeles (EUA).

Os membros da Academia Portuguesa de Cinema votaram, entre 13 de Agosto e 10 de Setembro, e Grand Tour foi o filme eleito com mais votos. Em consideração, estavam também A Flor do Buriti, de João Salaviza e Renée Nader Messora (Karõ Filmes), Manga d’Terra, de Basil da Cunha (Continue Walking e Akka Films), O Teu Rosto Será O Último, de Luís Filipe Rocha (Ukbar Filmes) e O Vento Assobiando Nas Gruas, de Jeanne Waltz (C.R.I.M.)

Realizado por Miguel Gomes e produzido pela produtora Uma Pedra no Sapato, Grand Tour "retrata a história de Edward (Gonçalo Waddington), um funcionário público do Império Britânico, em Rangum, Birmânia, no ano de 1918. No dia da chegada da sua noiva Molly (Crista Alfaiate) para o casamento, Edward foge, dando início a uma jornada pela Ásia onde o pânico cede lugar à melancolia. Durante a viagem, ele reflecte sobre o vazio da sua existência e questiona o que terá acontecido a Molly. Determinada a casar-se, Molly decide seguir o rasto de Edward neste Grand Tour asiático".

O filme de Miguel Gomes já conquistou o prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes e está também entre as 29 primeiras obras seleccionadas para os Prémios do Cinema Europeu e é candidato à categoria de Melhor Filme Europeu na 39.ª edição dos Prémios Goya, de Espanha. Grand Tour tem estreia marcada nos cinemas portugueses para o próximo dia 19 de Setembro.