Hoje vi(vi) um filme: Doclisboa'16: Austerlitz (2016)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Doclisboa'16: Austerlitz (2016)

*8/10*

Um dos grandes filmes da edição de 2016 do Doclisboa foi Austerlitz, de Sergei Loznitsa. O realizador já passou no festival, em 2014, com o seu Maidan (A Praça), sobre a revolta civil que ocorreu em Kiev, na Ucrânia, no inverno de 2013/2014.

Desta vez, o cineasta leva-nos ao antigo campo de concentração Sachsenhausen-Oranienburg, agora local turístico. Como este, há outros na Europa que permanecem como memórias dolorosas do passado, e são agora monumentos de homenagem, abertos ao público. Recebem milhares de turistas todos os anos.

Sergei Loznitsa convida-nos a observar e fazer os nossos próprios juízos. Ele não opina, é um mero observador. Austerlitz serve-se dos seus longos planos fixos - onde algumas das escolhas iniciais são demasiado longas para o que daí retiramos - para nos dar a conhecer o espaço e as pessoas que o visitam, muitas vezes através de ângulos de câmara inesperados, campo e contra-campo, suscita-nos a curiosidade, não mostrando tudo, mas o essencial.

Apesar de todo o distanciamento que o cineasta tem das imagens que mostra, ele sabe que vai colocar diversos temas em discussão com o que filmou. A plateia não fica indiferente aos turistas com atitudes tão distintas que vê no ecrã, mas Loznitsa filma da mesma forma a comoção de um visitante ou de um guia junto a locais que testemunharam tamanhas atrocidades, ou a leviandade com que outros tiram fotografias com o portão de entrada no campo, a sorrir, ou com os fornos onde tantos corpos foram queimados.


Austerlitz não traz consigo qualquer ambiente fúnebre ou irónico propositadamente. Mostra-nos factos, nós somos os juízes e podemos iniciar tantas e diferentes análises e julgamentos a partir delas. Muitas questões ficarão no ar: Deveriam os campos de concentração estar abertos ao público neste âmbito turístico? Seria certo impor regras aos que os visitam? Onde estão os valores dos que parecem estar num sítio com um passado tão tenebroso como se estivessem num parque de diversões? Estas são as minhas perguntas, mas certamente outras tantas e tão diferentes terão surgido entre todos os que assistiram ao filme.

Sergei Loznitsa é isento, mostra-nos do mais condenável ao aceitável com a mesma frieza e desprendimento. Um filme que não nos largará durante horas depois de o vermos.

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