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sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Crítica: Maestro (2023)

"If the summer doesn't sing in you, then nothing sings in you. And if nothing sings in you, then you can't make music."
Felicia


*9/10*

Maestro é um filme grandioso, a todos os níveis, revelando um Bradley Cooper maduro, que respira verdadeiramente cinema, dos dois lados da câmara. Um retrato comovente, empolgante e sem preconceitos de Leonard Bernstein e da sua companheira de vida, a actriz Felicia Montealegre Cohn Bernstein.

"Da sua paixão pela música até à fama como o primeiro maestro americano de renome mundial, seguindo sempre a sua ambição de compor tanto obras sinfónicas como populares musicais da Broadway", o filme acompanha as várias fases da vida de Bernstein e a sua relação com os que o rodeavam, em especial com a esposa Felicia.


Se dúvidas houvesse, depois de Assim Nasce uma Estrela (2018), Maestro fá-las dissipar e é a prova da emancipação de Bradley Cooper enquanto actor e realizador. O filme resulta de seis anos de preparação, tanto para interpretar Leonard Bernstein, como a pensar o filme, plano a plano. Este empenho e coragem sentem-se a cada cena, a cada linha de diálogo.

Com um início que deambula entre a realidade e os sonhos, onde a montagem sugere a magia da imaginação e as ambições que se concretizam mais depressa do que se espera, é aqui que as vidas de Lenny e Felicia se encontram e unem (apesar das relações extraconjugais pouco discretas que Bernstein teve ao longo do tempo). A vida avança e as carreiras dos dois seguem o seu caminho, sendo que Felicia adia os seus objectivos para ficar na sombra do marido, a apoiá-lo e incentivá-lo, chamá-lo à realidade quando o sucesso o tenta com excessos e vícios. Descurando a família, o maestro vive tudo tão intensamente que perde, por vezes, a razão de ser da sua obra. Até que Felicia regressa no momento certo, ela também novamente em ascensão, e o casal se reencontra na doença e no conforto e, desta vez, é ele quem passa a viver para ela.


E se Carey Mulligan está irrepreensível como Felicia Montealegre, artista que estudou afincadamente e que nem o característico sotaque descurou; Bradley Cooper desaparece enquanto Leonard Bernstein - e não é só graças à fantástica caracterização e próteses que usou, para interpretar o maestro em diversas fases da vida. Cooper alterou a voz, aprendeu a conduzir orquestras e a movimentar-se com o mesmo entusiasmo em palco que Bernstein, apreendeu gestos e expressões e o resultado é arrepiante.

Também de destacar, é a gloriosa direcção de fotografia que tira o melhor proveito da película (35mm, a preto e branco e a cores e com diferentes formatos, consoante a época dos acontecimentos), e esconde em si pequenos detalhes que ajudam a construir a personalidade das personagens. Ao mesmo tempo, é capaz de planos avassaladores, como é o caso do concerto na Ely Cathedral - momento de tirar o fôlego - em que é o próprio Bradley Cooper quem conduz a London Symphony Orchestra, numa cena que foi gravada ao vivo.


Maestro tem o dom de causar os sentimentos mais fortes e antagónicos na plateia, indo do delírio do sucesso à mais profunda tristeza. E, mais do que uma marcante experiência cinematográfica, o filme de Bradley Cooper é um retrato realista e comovente da relação entre dois artistas - tão diferentes, mas que se complementaram de forma tão humana. 

domingo, 24 de dezembro de 2023

Sugestão da Semana #593

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca A Sociedade da Neve, de J.A. Bayona.

A SOCIEDADE DA NEVE


Ficha Técnica:
Título Original: La sociedad de la nieve
Realizador: J.A. Bayona
Elenco: Enzo Vogrincic, Agustín Pardella, Matías Recalt, Tomas Wolf, Diego Ariel Vegezzi, Esteban Kukuriczka, Francisco Romero, Rafael Federman
Género: Aventura, Drama, História
Classificação: M/14
Duração: 144 minutos

terça-feira, 6 de junho de 2023

Opinião - Séries: Rabo de Peixe / Turn of the Tide / Mar Branco (2023)

*8/10*


Rabo de Peixe, segunda série portuguesa da Netflix, inspira-se em acontecimentos reais para criar uma frenética e inacreditável história de crime e aventuras. Momentâneo sucesso mundial - tendo chegado ao top 10 da Netflix em mais de 30 países -, provavelmente perderá algum fôlego entre os mais vistos nos próximos dias, mas o impacto que causou, especialmente em Portugal, já ninguém lhe tira.

Tudo começa quando um barco cheio de cocaína se afunda na costa de São Miguel, ao largo da freguesia de Rabo de Peixe. O jovem pescador Eduardo (José Condessa) vê aí uma oportunidade para ganhar dinheiro, que se revela ter tanto de emocionante como de arriscado.


Criado pelo açoriano Augusto Fraga, que escreveu o argumento em conjunto com Hugo Gonçalves e João Tordo, Rabo de Peixe não fica atrás de outras séries internacionais sobre a máfia ou o tráfico de droga. A série portuguesa tem um ritmo frenético - tal como o efeito da cocaína nas personagens - e está repleta de analepses, com pausas na acção para mostrar como tudo aconteceu até ali. Humor e tragédia convivem com a esperança de uma vida melhor, que choca de frente com a violência dos que também acham que a droga lhes pertence.

A pobreza que se vive na freguesia, as escassas hipóteses de singrar na ilha, a homossexualidade num local tão fechado em si, o sonho americano sempre a pairar - em especial sobre Eduardo - são alguns dos temas que mais se destacam, paralelamente à acção principal.

Os protagonistas têm personalidades bem definidas e um contexto familiar/social que se vai construindo ao longo dos sete episódios desta temporada. O elenco jovem mostra talento: o carismático José Condessa como EduardoHelena Caldeira na pele da rebelde Sílvia, Rodrigo Tomás como Rafael - responsável por muitos dos momentos de humor da série - e André Leitão como o sonhador Carlitos. Pouco haverá a dizer sobre o extraordinário Albano Jerónimo, o antagonista Arruda, um homem perverso e cruel, e todavia, protagonista de momentos hilariantes. Ainda a destacar, o narrador Pêpê RapazoteUncle Joe, uma grande surpresa no decorrer da série.


A direcção de fotografia de André Szankowski filma Rabo de Peixe de um ponto de vista inebriante, destacando as paisagens naturais, mas igualmente as cores vivas das casas pelas ruas da freguesia. A direcção artística aproveita da melhor forma o tempo da acção, quando ainda havia clubes de vídeo, os telemóveis eram raros, os escudos e euros conviviam nas carteiras, as adolescentes espelhavam a moda da época (Sílvia tem sempre uma gargantilha que era peça fundamental também no meu visual de 2001).

Entre situações mais ou menos inverosímeis - ou exageradas - e aproveitando muitos dos mitos que se criaram em redor do caso real da cocaína na ilha, Rabo de Peixe apresenta bons valores de produção, um elenco competente e um enredo viciante que faz os sete episódios passarem num instante.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Crítica: A Oeste Nada de Novo / Im Westen nichts Neues / All Quiet on the Western Front (2022)

"My son killed in the war. He doesn't feel any honor."

Matthias Erzberger


*8.5/10*

A Oeste Nada de Novo filma, com uma beleza aterrorizante, a Primeira Guerra Mundial do lado do inimigo - o dos alemães -, revelando a inutilidade de um conflito armado que ceifou milhões de vidas. É a terceira adaptação cinematográfica (as outras duas datam de 1930 e 1979) do livro homónimo de Erich Maria Remarque.

"Quando Paul, de 17 anos, se junta à Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial, o seu entusiasmo inicial é abalado pela dura realidade da vida nas trincheiras."

Edward Berger filma um épico de guerra que espelha, em cada cena, toda a brutalidade e desumanidade do conflito, que aumentava à medida que as negociações do armistício tardavam. Ao mesmo tempo, regista-se o paradoxo: no conforto e segurança dos gabinetes ou no comboio das negociações, oficiais cercados de mordomias e boa comida decidiam o futuro dos que morriam e passavam fome no campo de batalha.

E se a Primeira Guerra Mundial é poucas vezes levada para o grande ecrã, filmá-la sob a perspectiva dos derrotados é ainda mais raro. Nesta adaptação, o realizador coloca o espectador ao lado dos alemães dentro das trincheiras ou no ataque corpo a corpo, seguindo de perto o protagonista, Paul (grande prestação do estreante Felix Kammerer), e os seus amigos e companheiros de batalha.

A Oeste Nada de Novo é um filme visceral e sujo, potenciado por uma direcção de fotografia soberba, capaz de planos que espelham o horror: cenários repletos de lama, corpos e sangue a perder de vista, sobre os quais paira uma névoa cerrada em tons de castanho e vermelho. Ali, tudo é morte.

A crueldade e a barbárie da guerra são retratadas com um realismo impressionante, num filme que ficará na memória pelo lado humano que capta, através de simples gestos ou olhares, e onde, afinal, todos foram vítimas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Cinco longas-metragens de realizadoras portuguesas estreiam na Netflix

A partir de hoje, dia 4 de Novembro, há cinco novas longas-metragens de realizadoras portuguesas disponíveis na plataforma de streaming Netflix a nível mundial. 

A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos, Desterro, de Maria Clara Escobar, Mar, de Margarida Gil, Simon Chama, de Marta Sousa Ribeiro, e Soa, de Raquel Castro, foram os projectos vencedores da convocatória aberta lançada pela Netflix e pela Academia Portuguesa de Cinema, "com o objectivo de apoiar as produtoras, guionistas e realizadoras nacionais que estiveram envolvidas diretamente em longas-metragens portuguesas de ficção e/ou documentário"

De um total de 31 candidaturas apresentadas, referentes a longas-metragens finalizadas entre 2019 e 2020, o concurso pretendia colmatar as disparidades de género no sector do cinema e audiovisual.

A estreia dos filmes acontece na véspera da celebração do Dia Mundial do Cinema, a 5 de Novembro.

O comité de selecção foi constituído por Carla Chambel, actriz, formadora  e vice-presidente da Academia Portuguesa de Cinema; Fátima Ribeiro, guionista, professora e realizadora; Isadora Laban, Gestora de Conteúdos da Netflix Portugal e Espanha; e Tota Alves, guionista e realizadora.

Sobre as cinco longas-metragens:

"A Metamorfose dos Pássaros, com Catarina Vasconcelos na realização e Joana Gusmão na produção, este é um filme que retrata a história da família da cineasta Catarina Vasconcelos, abordando temas complexos como o amor, a distância a maternidade."

"Desterro, com realização de Maria Clara Escobar, uma longa-metragem que  no feminino sobre a vida e as várias vidas, onde a poesia motivou o guião, questionando a representação da ideia de família na sociedade contemporânea."

"Mar, com Margarida Gil na realização e argumento e Rita Benis como coargumentista, retrata a história de vida de uma ex-funcionária da Comissão Europeia que decide mudar de vida e embarcar num veleiro que vai seguindo a  rota dos descobridores Portugueses do séc. XVI em alto mar."

"Simon Chama, com Marta Sousa Ribeiro na realização e Joana Peralta na produção, um filme que conta a história de uma adolescente que procura escapar das amarras típicas da vertigem existente entre a infância e a idade adulta."

"Soa, com Raquel Castro na realização e argumento e Isabel Machado, Joana Ferreira e Sara Serra Simões na produção, aborda temas como as paisagens sonoras, o ruído e o silêncio e de que forma as paisagens sonoras afetam as pessoas, sendo que estas são na maior parte das vezes responsáveis pelo som que geram."

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Crítica: Identidade / Passing (2021)

"We're all passing for something or other, aren't we?"

Irene


*6.5/10*

Identidade (Passing) marca a estreia da actriz Rebecca Hall na realização e não deixou ninguém indiferente. O filme adapta ao cinema o romance de Nella Larson, de 1929, e aborda o racismo e a descriminação de um ponto de vista raras vezes abordado no cinema.

"Em Nova Iorque, nos anos 20, uma mulher negra vê o seu mundo virado do avesso quando se aproxima de uma amiga de infância que se faz passar por branca."

Um reencontro abala o mundo das duas mulheres. Para uma, a vida tranquila torna-se foco de tensões, para a outra, a mentira diária passa a ter um lugar de libertação e alegria. Irene admira e condena em igual medida o modo de vida de Clare, que se faz passar por branca há vários anos, para escapar ao preconceito da sociedade, contribuindo, ela própria, para o aumentar.


Passing é um filme de conflitos constantes, não apenas dentro da sociedade polarizada, mas igualmente no âmago de cada personagem. Quando se cruzam, Irene e Clare criam uma relação de admiração mútua, quase sensual. No entanto, há ciúmes envolvidos e uma certa apropriação, por parte de Clare, da vida de Irene.

Neste filme de contrastes, Rebecca Hall tem atenção ao detalhe e capta cada gesto e olhar com delicadeza, realçando o lado feminino da longa-metragem. A direcção de fotografia tira todo o partido do preto e branco e das perspetivas, que adensam o conflito interior das personagens e suas diferenças. A direcção artística e guarda-roupa fazem um trabalho soberbo ao transportar a acção para a década 20 do século passado, com a elegância e vivacidade que a caracterizam.


No elenco, as duas grandes mulheres têm desempenhos assombrosos, com Ruth Negga a sobressair por toda a excentricidade de Clare, saudosa das suas raízes, mas capaz de tudo - até mesmo de negar a sua origem e ostracizar os seus pares - para levar uma vida confortável. Tessa Thompson implode em emoções e revolta, na pele de Irene. Sofre em silêncio, desconfia do que a rodeia, mas também é capaz de revelar um ponta de inveja da amiga tão emancipada.

E nesta ambiguidade de sentimentos, emoções e decisões, Passing peca por usar demasiadas palavras para contar o que as imagens já mostram. Rebecca Hall tem uma estreia inspirada e faz brilhar as suas actrizes, ainda que a narrativa não seja tão fluida e subtil como as personagens.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Crítica: O Poder do Cão / The Power of the Dog (2021)

"I just want to say... how nice it is not to be alone."
George Burbank


*8.5/10*

Jane Campion regressa às longas-metragens, mais de 10 anos depois, com O Poder do Cão (The Power of the Dog), uma obra que, na aparente simplicidade de um western, cria um turbilhão de tensões e desejos reprimidos.

Desde Bright Star - Estrela Cintilante (2009), que a cineasta estava afastada do grande ecrã - escreveu e realizou a série televisiva Margens Do Paraíso, entretanto - e o regresso não poderia ser mais celebrado. 

O Poder do Cão adapta o romance homónimo de Thomas Savage. O carismático rancheiro Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) inspira medo e admiração naqueles que o rodeiam. Quando o irmão George (Jesse Plemons) traz a nova esposa, Rose (Kirsten Dunst), e Peter (Kodi Smit-McPhee), o filho desta, para viver na casa da família, Phil fará tudo para atormentá-los, até se aperceber de que também ele pode estar exposto à possibilidade do amor.


O Poder do Cão está repleto de personagens perturbadas, de passado misterioso e sentimentos reprimidos. O isolamento a que estão sujeitos, ao viver num rancho solitário junto às montanhas, nos anos 20 do século XX, só adensa os maus modos de Phil e o desespero e solidão de Rose - que encontra no álcool, a par do filho, um dos melhores aliados.

Para além das vacas e de homens a cavalo (ou dos índios que aqui surgem em paz, longe de ser uma ameaça), há pouco de western no filme de Jane Campion. Em jogo estão relações interpessoais, que vão do amor à humilhação, da provocação à cumplicidade. Em redor da narrativa, está ainda aquilo que a sociedade espera de cada um, segundo as convenções da época; já quem vive fora da norma, o outsider naquele local, pode ser facilmente a vítima - ou o predador.

Sempre exímio no que faz, Benedict Cumberbatch é Phil, um homem cruel e intransigente como forma de esconder os sentimentos recalcados que guarda. Vê Rose como uma ameaça - uma mulher entre homens -, que tanto o receia como o desafia. E a chegada de Peter cria um desafio ainda maior, o jovem que ele quer domar à sua medida, a quem rebaixa, mas com quem também se identifica.


Kirsten Dunst sofre e desespera como Rose, a jovem viúva que vê em George a esperança de uma vida feliz, arruinada por Phil. Protectora do filho, que sabe não se enquadrar com as expectativas da sociedade, compreende-o e apoia-o. Já Peter, surge inicialmente como um rapaz frágil e constantemente humilhado, mas revela, aos poucos, uma insensibilidade chocante e muito mais forte do que aparenta. Uma prestação perturbadora de Kodi Smit-McPhee, cuja compleição física e o olhar inquiridor muito contribuem para o lado dúbio da personagem.

Os grandes planos das planícies desertas e as montanhas áridas são potenciados pelo trabalho de Ari Wegner na direcção de fotografia. Ao mesmo tempo, capta exemplarmente a intimidade do toque sensual em objectos, como se fossem humanos; o descarregar do ódio de Phil nos animais ou humanos mais fracos, ou a delicadeza das mãos de Peter, capaz de trabalhar os detalhes mais inesperados. Esta fusão entre violência e subtileza das imagens e da narrativa é acompanhados pela poderosa banda sonora de Jonny Greenwood.


O Poder do Cão está repleto de subtexto, desconstruções subliminares e uma sexualidade latente, com muito para absorver para além da visualização do filme. Excelente regresso de Jane Campion.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Crítica: A Mulher à Janela / The Woman in the Window (2021)

"You don't think it's paranoid if I wanna change the locks. Do you?"

Anna Fox

*3/10*

A Mulher à Janela, de Joe Wright, quer ser tanto e acaba por ser tão pouco. Um filme sem alma, que começa com mistério e termina num autêntico terror. Ver Joe Wright associado a um filme tão pouco coeso e sem personalidade é a grande surpresa de uma longa-metragem que não é sequer capaz de valorizar o elenco. 

"Confinada à sua casa por sofrer de agorafobia, uma psicóloga fica obcecada com os seus novos vizinhos e em resolver um crime brutal que testemunha pela janela."

Baseado no livro homónimo, de A. J. Finn (que não li), A Mulher à Janela pretende ser um Hitchcock dos tempos modernos - não lhe poupando referências, sendo a mais óbvia A Janela Indiscreta -, mas não lhe chega perto. Se, inicialmente, pode haver a esperança de estarmos perante um bom filme de mistério, com terror psicológico e voyeurismo à mistura, depressa nos desinteressamos do enredo confuso e pouco sustentado, com momentos quase cómicos, tal a implausibilidade ou a previsibilidade. Perto do fim, entramos noutra realidade, mais slasher, e num "novo" filme - ainda pior. 

Há pouco a que nos possamos agarrar para defender A Mulher à Janela. Amy Adams é talvez o ponto mais forte, mas longe das grandes interpretações que marcam a sua carreira. A direcção artística será, provavelmente, o mais admirável da longa-metragem, com a mansão solitária de Anna a ganhar personalidade, seja pela imensa escadaria, pela clarabóia, ou pelos detalhes de decoração (a casa de bonecas, por exemplo, chama-nos logo a atenção).

Tanta paranóia, referências cinematográficas, clichés e reviravoltas sem fim, e eis o vazio sideral após os créditos finais. Nada fica connosco de A Mulher à Janela, apenas a satisfação de termos conseguido matar a curiosidade mórbida que nos assolava antes da visualização.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Crítica: Oxigénio / Oxygène (2021)

*6/10*

Em Oxigénio, Alexandre Aja usa a claustrofobia como arma narrativa, potenciada ainda mais pela aura de mistério sempre presente, num filme de ficção científica para a Netflix.

"Uma mulher acorda numa cápsula criogénica sem se recordar de quem é. Com o oxigénio a esgotar-se rapidamente, ela tem de recuperar a memória para conseguir sobreviver."

Muito ao estilo de Enterrado (Buried), de Rodrigo Cortés, eis uma versão sci-fi da claustrofobia cinematográfica. Se, no filme de 2010, tínhamos um homem fechado num caixão, agora a protagonista é uma mulher trancada numa unidade criogénica; para ambos, a única forma de contacto com o exterior é a partir de chamadas telefónicas - em Oxigénio adicionamos um assistente inteligente (Mathieu Amalric) à acção.

O terror de acordar num local fechado e sem espaço para grandes movimentos é comum aos dois filmes, bem como a forma como se desenrola a história. Mas em Oxigénio, o progresso científico parece estar na origem da situação em que a protagonista, Liz, se encontra. Sem memória, nem forma de escapar, a ajuda externa é complexa e as informações confusas. A claustrofobia adensa-se à medida que o oxigénio se esgota e as descobertas não são tranquilizantes. 

Alexandre Aja é capaz de construir um ambiente angustiante e enclausurante, mas não cria nada que já não tivéssemos visto noutros filmes do género. O argumento de Christie LeBlanc torna-se cada vez mais complexo e, até certo ponto, previsível.

Mas a verdadeira fonte de oxigénio do filme é Mélanie Laurent, numa grande interpretação, capaz de passar por estados de espírito tão diversos em pouco tempo - e limitada no espaço -, num misto de emoções que vai da esperança, à confusão, descrença, desespero, raiva e pânico. Espectador e protagonista têm o mesmo nível de conhecimento desde o momento em que Liz acorda, e as descobertas vão sendo feitas ao mesmo tempo, dentro e fora do ecrã. Partilhamos o mesmo conflito interior, as mesmas dúvidas, fazemos suposições, questionamos as contradições e torcemos por ela, já que a empatia é inevitável.

Mélanie Laurent segura o filme com a mesma força com que a personagem não perde a vontade de sobreviver e é ela que nos faz suster o fôlego e acompanhar Oxigénio, com curiosidade, até ao fim.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Crítica: O Tigre Branco / The White Tiger (2021)

"But for the poor, there are only two ways to get to the top, crime or politics. Is it like that in your country too?"

Balram Halwai

*7/10*

O Tigre Branco (The White Tiger), de Ramin Bahrani, adapta ao cinema o livro homónimo de Aravind Adiga, e leva-nos numa viagem à Índia e às suas desigualdades, sempre acompanhados de um irresistível humor mordaz.

O jovem empreendedor Balram Halwai (Adarsh Gourav) narra a sua própria história, desde a infância e adolescência na aldeia pobre onde vivia, até se tornar motorista de uma abastada família indiana e todas as superações que se seguiram.

A ambição de chegar ao topo é o motor que faz Balram avançar, sem desistir, contra todas as injustiças e adversidades. A inocência vai-se perdendo e a raiva toma conta, naquilo que parece ser uma luta contra o próprio destino - a fuga do galinheiro.

Apropriando-se de alguns clichés, O Tigre Branco faz uma feroz crítica à sociedade indiana: a pobreza extrema, as castas, as desigualdades entre classes sociais, a corrupção na política - seja qual for a cor partidária -, o empreendedorismo e a concorrência são alguns dos temas mais dissecados.

Ramin Bahrani constrói uma comédia dramática (ou será um drama satírico?) com a vivacidade das paisagens e das gentes, mas igualmente com a violência necessária para corroer os males da sociedade. O resultado é um argumento incisivo e bem escrito num filme frenético e sensorial, onde as diferenças entre ricos e pobres são retratadas sem rodeios, como o dia e a noite.

A inesperada ascensão social de Balram - uma grande interpretação de Adarsh Gourav - , na rígida e retrógrada sociedade indiana, retrata a ambição e a vontade de sobreviver do tigre branco do título. Entre a diversão e o choque, Ramin Bahrani cria uma atmosfera inebriante que não deixará ninguém indiferente.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Crítica: A Sabedoria do Polvo / My Octopus Teacher (2020)

"What she taught me was to feel... that you're part of this place, not a visitor. That's a huge difference."

Craig Foster

*8/10*

A Sabedoria do Polvo (My Octopus Teacher), de Pippa Ehrlich e James Reed, leva-nos a mergulhar com Craig Foster e a conhecer as maravilhas subaquáticas, em especial um polvo fêmea com quem desenvolve uma relação inesperada.

É numa floresta de algas na África do Sul que o cineasta Craig Foster fez as descobertas mais arrebatadoras da sua vida. Se, por um lado, foi ali que passou a infância, sempre em contacto com o oceano, também foi ali que se refugiou quando sentiu a vida desmoronar. A cura parece ter chegado através do animal mais inteligente do planeta.

As imagens que Foster registou dos seus encontros diários - ao longo de quase um ano - com a sua amiga de oito tentáculos, juntam-se aos seus mergulhos e depoimentos recentes em que descreve toda a experiência quase sobrenatural que viveu e que resulta neste documentário.

My Octopus Teacher é um retrato de uma sensibilidade e dedicação extraordinárias, da inacreditável amizade que se criou entre um polvo e um humano. Se, para o homem este convívio foi terapêutico e de grandes ensinamentos, parece-nos que, para o animal, a companhia foi igualmente estimulante. Eis uma relação que nos ensina a confiança, a dedicação e o carinho. A descoberta mútua de uma outra forma de vida, do perigo, adversidade e superação. Craig Foster teve quase um ano de emoções intensas e uma obsessão que nem todos compreenderão. O polvo fê-lo mudar a sua personalidade, as suas preocupações e o seu foco, ajudando-o a curar uma depressão e reforçando a relação com o filho - e observar a interacção dos dois com os animais selvagens é surpreendente.

A personalização do ser aquático aproxima-nos do animal de uma maneira incrível. Admiramos a sua inteligência, curiosidade e criatividade, seguimo-lo e procuramo-lo com o mesmo interesse que Craig e compreendemo-lo. E, nestes mergulhos, somos presenteados com imagens únicas, de beleza ímpar e proporcionadas por uma direcção de fotografia de excelência.


My Octopus Teacher é um milagre da Natureza que nos alerta para a necessidade de protegê-la e, ao mesmo tempo, nos protegermos a nós e aos nossos. Acima de tudo, é uma prova de respeito e de valorização da sua grandiosidade e importância.

sábado, 27 de março de 2021

Crítica: A Grande Escavação / The Dig (2021)

"From the first human handprint on a cave wall, we're part of something continuous. So, we... don't really die."

Basil Brown

*7.5/10*

A Grande Escavação (The Dig), de Simon Stone, faz um elogio a duas personalidades responsáveis por uma das maiores descobertas arqueológicas da História da Inglaterra. Ao mesmo tempo, o filme compõe um intenso quadro visual, enquanto os dilemas e receios de uma Segunda Guerra Mundial assombram todas as personagens.

"Com o aproximar da Segunda Guerra Mundial, uma viúva abastada contrata um arqueólogo amador para escavar antigas estruturas funerárias na sua propriedade. Quando fazem uma descoberta histórica, os ecos do passado britânico enfrentam um futuro incerto‎."

Baseado no romance de John Preston e adaptado para cinema por Moira Buffini, A Grande Escavação é um elogio à arqueologia e à sua importância para contar o passado longínquo às gerações presentes e futuras.

A preservação de artefactos dos antepassados de uma civilização, o reconhecimento por quem dedica a vida à descoberta de vestígios da História e a eminência da guerra e da morte a pairar são os focos da acção do filme de Simon Stone. A defesa da memória é a grande mensagem da longa-metragem que, para além das descobertas museológicas, destaca ainda a importância da fotografia como mais um suporte físico que perdura no tempo, testemunhando, para o futuro, tempos há muito passados.

Destaque para Carey Mulligan e Ralph Fiennes com duas prestações muito discretas mas carregadas de uma paixão comum - a arqueologia. E se Mulligan surge na pele de Edith Pretty, uma mulher frágil e doente, que vive para o filho e para os tesouros que acredita estarem escondidos debaixo dos montes de terra no seu terreno, Fiennes como Basil Brown será a esperança de os encontrar. Um homem dedicado, experiente, dos maiores conhecedores da terra (e dos astros), contudo desvalorizado pelos seus pares por não ter estudos.

Com direcção de fotografia de Mike Eley, A Grande Escavação oferece-nos planos dinâmicos e envolventes, e transforma paisagens tristes, simples e despidas, em imagens de grande beleza e vida, com especial foco na terra e nos céus, na vida e na morte.

Para além da homenagem que presta, Simon Stone eleva a fasquia e traz-nos muito mais do que um filme histórico: a memória colectiva divide-se entre a alegria da descoberta na escavação e o pavor da guerra, numa obra estimulante e carismática.

terça-feira, 9 de março de 2021

Crítica: Tudo Pelo Vosso Bem / I Care a Lot (2020)

"My name is Marla Grayson, and I'm not a lamb. I am a fucking lioness!"

Marla Grayson

*5.5/10*

Tudo Pelo Vosso Bem (I Care a Lot) é um retrato perverso e cómico do lado mais violento do capitalismo, protagonizado por uma mulher, capaz de tudo para ser rica. Sem réstia de ética ou moral, não há personagem que fique do lado do bem e esse é o grande desafio que o filme de J Blakeson nos lança.

"Marla Grayson (Rosamund Pike) é nomeada pelo tribunal para tutelar dezenas de idosos, de cujos bens se acaba por apropriar indevidamente através de meios duvidosos, mas legais. Um esquema bem montado que Marla aplica com a ajuda da sua parceira de negócios e amante, Fran (Eiza González) e que se prepara para repetir com uma nova cliente, a abastada e solitária Jennifer Peterson (Dianne Wiest). Mas quando a vítima revela um segredo tão sombrio quanto o dela e ligações a um volátil criminoso (Peter Dinklage), Marla é obrigada a mostrar o que vale num jogo que nada tem de justo, nem limpo."

J Blakeson cria uma história sarcástica e incómoda em torno de uma mulher e do seu lucrativo negócio, altamente reprovável, mas que actua com o apoio do Estado e da Lei. Por todos os lados, espreitam esquemas e manobras para tutelar qualquer idoso com um património apetecível, tirando proveito da sua aparente fragilidade. Contudo, o caso de Jennifer Peterson não saiu como Marla previra. E eis que a acção se adensa, entre as situações mais inacreditáveis ou violentas, sempre com algum humor.

Rosamund Pike regressa ao papel de vilã (muito ao estilo do que fez em Em Parte Incerta), uma mulher com duas caras, ambiciosa, cínica e sem carácter, capaz de agir com frieza e sem remorsos. Dianne Wiest é outro dos destaques nas interpretações, a mulher que vem mudar o jogo de Marla Grayson, cuja aparente fragilidade esconde uma personalidade forte e provocadora e resistência inesperada. A juntar-se às duas actrizes, Peter Dinklage veste a pele de um mafioso dedicado a quem ama - e aos seus segredos -, facilmente irritável e sem rodeios no que toca à violência.

Tudo Pelo Vosso Bem não se preocupa muito com a plateia, lançando-a numa história com potencial que depressa se perde em jogos e chantagens - e um final terrível e indesculpável, com uma espécie de triunfo do patriarcado. A ambição desmedida das personagens proporciona momentos divertidos - e tensos - mas, principalmente, um leque de boas interpretações.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Crítica: Notícias do Mundo / News of the World (2020)

"See all those words printed in a line one after the other? Put 'em all together and you have a story."

Captain Kidd

*6/10*

Paul Greengrass alia-se novamente a Tom Hanks (depois de Capitão Phillips) para levar Notícias do Mundo (News of the World), pela América pós-guerra civil. O filme chega-nos pela Netflix, e revela-nos a jovem actriz alemã Helena Zengel.

"Cinco anos após o fim da Guerra Civil, o Capitão Jefferson Kyle Kidd (Hanks), viúvo e veterano de três guerras, desloca-se de cidade em cidade como um contador de histórias reais, partilhando notícias de presidentes e rainhas, lutas gloriosas, catástrofes devastadoras e aventuras emocionantes nos confins do globo. Nas planícies do Texas, cruza-se com Johanna (Helena Zengel), uma menina de 10 anos, acolhida pelo povo Kiowa seis anos antes e criada como um dos seus. Hostil a um mundo que ela nunca conheceu, Johanna está prestes a ser devolvida aos seus tios biológicos. Kidd concorda em entregar a criança onde a lei diz que ela pertence. À medida que viajam centenas de quilómetros, os dois enfrentam enormes desafios, humanos e naturais, enquanto procuram um lugar a que possam chamar lar."

Baseado no romance homónimo de Paulette Jiles, Notícias do Mundo, em tons e ambiente de western, faz-nos viajar pelos territórios sulistas decadentes e racistas, sem lei ou ordem, guiados por protagonistas solitários e de passado trágico. 

Mas Notícias do Mundo é previsível e está longe de ser brutal, estando os horrores subentendidos ou revelados através de mensagens subliminares. E se, numa das paragens de Kidd, este quase é culpabilizado por incitamento à revolta - apenas por ler uma notícia de reivindicação de melhores condições de trabalho -, ao espectador não provocará grande comoção. Paul Greengrass lança as críticas mas não as espicaça ou questiona, no longo caminho que percorre, e quase foge delas para viver a sua vida em paz, mesmo que Kidd e Johanna tenham de enfrentar crimes, ameaças e preconceitos. 

Tom Hanks está à vontade na pele desde veterano de guerra nómada, que ganha a vida a levar notícias aos outros, enquanto foge do seu próprio destino. À sua altura, está a companheira de viagem Johanna, interpretada pela jovem actriz alemã Helena Zengel, que, com poucas falas - normalmente no dialeto do povo Kiowa ou alemão -, conquista o ecrã, quer pela inocência, pelo olhar selvagem e desconfiado, pelos gestos, gritos, e pela naturalidade com que se emociona, move ou relaciona com Hanks

Visualmente, Notícias do Mundo ganha pontos, pela direcção de fotografia que proporciona belos planos, diurnos ou nocturnos, das planícies sem fim;  bem como pela direcção artística, fabulosa na representação da época, com a banda sonora de James Newton Howard, a adensar todo o ambiente de western.

Paul Greengrass não acompanhou as aventuras dos seus protagonistas, nem desafiou cânones ou estigmas. Preferiu jogar seguro, com uma dupla forte ao comando e uma história simples e harmoniosa, em paisagens que contam mais que a acção.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Crítica: Malcolm & Marie (2021)

"You know, life is gonna get easier, but it's also gonna get harder."
Marie


*7/10*

Malcolm & Marie, de Sam Levinson, introduz-nos num ambiente pesado e desconfortável, que, inicialmente, quer calar a revolta e a mágoa entre os elementos de um casal, para, depois, disparar, sem travões, para todos os lados, em ataques cerrados. Levinson transforma as palavras em armas e leva os dois actores - e a plateia - ao limite.

"De regresso a casa após a estreia do seu filme, o cineasta Malcolm (John David Washington) e a namorada, Marie (Zendaya), aguardam o veredito da crítica. Porém, o serão sofre uma viragem surpreendente quando revelações sobre o relacionamento do casal emergem e põem à prova o seu amor."


Malcolm & Marie
parte-nos o coração por ter tanto potencial e perder o rumo. A relação dos protagonistas pode ser uma analogia à do espectador com o filme: amor/ódio. Sam Levinson dotou o seu filme de uma teatralidade imensa: duas personagens, um único espaço, uma madrugada, diálogos e monólogos intensos, com actores que enchem o ecrã. Todavia, o excesso de palavras torna as boas ideias vazias e desproporcionais às emoções do elenco. Duas interpretações tão poderosas, batem-se em diálogos inflamados e violentos, mas caem na repetição constante, esgotando temas, mágoas e razões de ambos os lados.

Deambulando sobre os clichés das relações entre críticos e realizadores, mas também sobre os silêncios entre casais, a dificuldade de comunicação, a ofensa como modo de ataque (e defesa), a brutalidade das palavras, os agradecimentos e elogios sinceros que ficam por dizer, Malcolm & Marie caminha em círculos repetitivos, até ao monólogo final de Marie.


John David Washington e Zendaya batem-se com tudo o que têm, num duo onde ela se afirma mais nos silêncios e no que fica por dizer, enquanto ele explode (ela implode) e dramatiza todas as situações. Malcolm é um homem narcisista e confiante - pelo menos aparentemente - e parece ter tudo sobre controlo; já a fragilidade de Marie reside no passado ruinoso que superou, lutando agora, através das palavras, pelo seu lugar na relação - e na vida do companheiro. Washington alterna entre o entusiasmo, o carinho e a agressividade; Zendaya, entre a contenção, a revolta e a emoção, supera-se; os dois são uma explosão de sentimentos.

Filmado em película de 35 mm, a preto e branco, a longa-metragem tem um visual elegante e sóbrio, com a iluminação num papel de destaque. Para a densidade emocional da acção, muito contribuem planos e movimentos de câmara, que deambula por toda a casa e jardim e onde até as janelas funcionam, várias vezes, como quadros (o plano dentro do plano).


Malcolm & Marie podia ser muito mais significativo e profundo, mas Sam Levinson deixou-se levar pela vaidade de Malcolm, roçando o pretensiosismo do estilo acima da substância. Contudo, o amor não nos deixará indiferentes e, mesmo sem querer, seremos seduzidos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Crítica: Mank (2020)

"It's the best you've ever written."
Joe Mankiewicz

 
*7/10*

David Fincher criou em Mank uma homenagem a um homem e a uma era do Cinema - os anos 30 do século XX. O processo de criação de Citizen Kane dá o mote para a exploração - em jeito de guião - do universo dos estúdios, numa Hollywood a sentir as sequelas da grande crise de 1929.

Recuamos à década de 1930, onde acompanhamos, através da perspectiva do mordaz e alcoólico argumentista Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), as lutas e dissabores da indústria cinematográfica, enquanto tenta acabar o argumento de Citizen Kane, de Orson Welles, em contra-relógio.

Com argumento de Jack Fincher (pai do realizador, falecido em 2003), David Fincher cria um filme que lhe é íntimo e pessoal, numa homenagem ao pai e, por consequência, ao papel do argumento num filme. A acção desenrola-se em torno das experiências que Mankiewicz teve ao longo da década 30 e o inspiraram a escrever a história do filme de Orson Welles.


Entre flashbacks, assistimos a esses momentos-chave, onde somos capazes não só de construir a personalidade do protagonista; de perceber a sua relação com a mulher, mas igualmente com o irmão, actores, colegas ou patrões; acompanhar a dinâmica dos estúdios e ainda a época histórica em que tudo acontece: pós-Grande Depressão, ascensão do nazismo e início da Segunda Guerra Mundial. A política entra inevitavelmente em cena, não apenas pelas referências a Hitler, como pelo papel da propaganda do cinema na modelação do pensamento das massas.

Gary Oldman está irrepreensível nos maneirismos que incorpora para interpretar um homem frágil e doente, alcoólico e com gosto pelas apostas perigosas, que diz o que pensa sem receios. Na pele de Marion Davies, Amanda Seyfried tem um papel pequeno mas relevante para a acção. A elegância da actriz alia-se ao desalento de uma mulher que sente que a carreira está a perder fulgor e a idade vai passando.


Tecnicamente irrepreensível, Mank é realmente capaz de nos transportar para os filmes da época que retrata, quer por filmar a preto e branco, como pelo excelente trabalho de som. Caracterização e direcção artística compõem o que falta para esta viagem no tempo ser total.

Mank fará as delícias dos cinéfilos pelo mundo que retrata, com pormenores que apenas os mais conhecedores irão apreender, mas é acessível a todo o público, ao traçar uma biografia entusiasta de um nome pouco reconhecido na História do Cinema, precocemente desaparecido e afundado entre o álcool e os mitos que o rodearam.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Crítica: Pieces of a Woman (2020)

*7/10*

Pieces of a Woman, de Kornél Mundruczó, é um retrato de uma família em ruínas, após a perda de um bebé. O argumento, de Kata Wéber - companheira de Mundruczó -, baseia-se na sua própria experiência e na forma como a marcou.

"Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) são um casal de Boston cujas vidas mudam para sempre quando um parto caseiro resulta em tragédia. Martha tem de lidar com o pesar ao longo de um ano, enquanto tenta gerir as relações turbulentas com o marido, com a mãe dominadora (Ellen Burstyn) e com a parteira vilipendiada em público (Molly Parker), que terá de enfrentar em tribunal."


O corpo e os sentimentos da Mulher são o grande foco deste filme com selo Netflix. Uma mulher, desfeita física e emocionalmente, tenta, a cada dia, aprender a fazer o luto e continuar a viver. E como acontece a todas as mulheres, todos lhe apontam culpas, indicam qual o caminho a seguir, como deve agir, sempre sob atentos olhares de pena. Ainda grávida, o corpo de Martha era tocado e alvo de curiosidade; durante o parto, é exposta à violência que o momento em si implica; depois da tragédia, o mundo desaba e ela está só. Adensa-se a má relação com a família e surge, como por acaso, alguma alegria na sua predilecção por maçãs. O tom da longa-metragem de Kornél Mundruczó é triste e desencantado, apela à introspecção e reflexão.

São os primeiros 30 minutos - antes até do título surgir no ecrã - que fazem valer a visualização de Pieces of a Woman. São momentos de uma intensidade e execução acima da média, em que a câmara de Mundruczó nos faz circular pela casa de Martha Sean em plano sequência, acompanhando cada momento, desde as primeiras contrações, criando uma tensão tão realista e dolorosa capaz de entorpecer o espectador. Depois do início avassalador, nada terá o mesmo impacto. Segue-se o drama familiar, muitas vezes previsível, e a luta judicial.


A perda de um filho levou à destruição de um casal, quer como família, quer como indivíduos. Nesse aspecto, os protagonistas fazem um excelente trabalho. Shia LaBeouf é o companheiro dedicado que se afunda em vícios após a tragédia. Mas realmente extraordinária é Vanessa Kirby. A actriz transfigura-se de forma especialmente realista durante o parto, entre dores, fraqueza e desespero, bem como nos meses seguintes, deprimida, magoada, desamparada, capaz contudo de fazer valer a sua palavra e a sua vontade. No meio de tanto sofrimento, a vida de Martha ressurge quando as sementes de maçã começam a germinar.