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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Crítica: O Ornitólogo (2016)

*8/10*

Tradição e fantasia, rebeldia e um fabuloso sentido estético, eis a fórmula de O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues. O auge cinematográfico do realizador português é uma surpresa bucólica, onde nos perdemos e reencontramos.

Fernando (Paul Hamy), um ornitólogo solitário em busca de uma espécie ameaçada de cegonhas, é engolido pelos rápidos quando descia um rio no norte de Portugal. Salvo das águas por duas chinesas em peregrinação a Santiago de Compostela, entra numa floresta sombria e misteriosa ao tentar regressar ao local de onde partiu. Pouco a pouco, obstáculos e encontros inesperados colocam-no à prova, surpreendem-no e conduzem-no a actos extremos que o vão transformar. Gradualmente, Fernando revela-se um outro homem: inspirado, múltiplo e, finalmente, iluminado.


Inicialmente, somos meros observadores de aves e da Natureza, a par do protagonista. Enquanto o conhecemos, entramos na floresta perdida, repleta de mistérios e seres humanos que ameaçam, de alguma forma, Fernando. Entre a realidade e o surrealismo que se instala em crescendo, seja pela falta dos comprimidos ou porque a fantasia não tem de ter explicação, entramos numa espiral de acontecimentos estranhos ou macabros, que terminam numa mudança inesperada, mas satisfatória.

A tradição pagã e religiosa juntam-se para criar personagens e novas histórias. Os caretos transmontanos ou os santos António e Tiago, as aves - e também elas observam Fernando -, os peixes, o rebanho, os cães, as ameaçadoras peregrinas chinesas, o pastor surdo-mudo ou as caçadoras que faltam latim, todos contribuem para a singularidade de O Ornitólogo. O filme de João Pedro Rodrigues, por muito que lance interrogações ou estranheza na plateia, vai ficar na memória.


Uma realização arriscada (premiada em Locarno com o Leopardo de Prata para Melhor Realizador) a condizer com os riscos a que Fernando está exposto, um excelente trabalho de montagem e da direcção de fotografia que nos apresentam paisagens fabulosas resultam num exemplar trabalho técnico em O Ornitólogo.

A descoberta e transformação de Fernando são directamente proporcionais às sensações que O Ornitólogo irá despertar no público. Um filme para descobrir sem medo da aventura.

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