Hoje vi(vi) um filme: LEFFEST'13: Crítica: Mel / Miele (2013)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: Mel / Miele (2013)

*7.5/10*

Miele (ou Mel, em português) marca a estreia de Valeria Golino na realização de longas-metragens. O suicídio assistido está no centro da questão, com todas as implicações morais que lhe estão adjacentes, e certo é que Golino faz um trabalho sério e profundo, quer na realização como no argumento - uma adaptação livre do romance A nome tuo, de Mauro Covacich.

Irene (Jasmine Trinca) vive sozinha numa casa à beira-mar, perto de Roma. Sob o nome de código Miele, secretamente, ela ajuda doentes terminais a morrerem com dignidade, dando-lhes um barbitúrico poderoso. Um dia, Irene dá uma dessas doses mortais a um novo cliente, o Sr. Grimaldi (Carlo Cecchi). Contudo, ela descobre que ele está de perfeita saúde, mas quer suicidar-se, depois de ter perdido o interesse em viver. Determinada em não ser responsável por aquela morte, ela irá fazer de tudo para a impedir.

A polémica está lançada. A temática é sensível e a abordagem está extremamente bem conseguida, com todos os problemas de consciência aqui implícitos. Entre viagens, mortes assistidas e a sua própria vida privada, Irene vive um dia-a-dia agitado, onde a rotina não existe. Como Miele, ela age contra a lei, mas sempre de consciência tranquila, a fazer o que, para si, é certo. Contudo, ao cruzar-se com Grimaldi, Irene depara-se - mais tarde do que desejaria - com um caso diferente e que vai contra os seus princípios: um homem saudável que apenas quer morrer por estar farto da vida. Irene tem estabelecido que apenas ajuda a morrer pessoas que sofram de doenças terminais.


Ao mesmo tempo que evita, a todo o custo, ser culpada por um suicídio de um homem saudável, Irene desenvolve uma curiosidade pela teimosia de Grimaldi e pela sua solidão. Há semelhanças entre os dois, ambos solitários, ambos a precisar de alguém que dê sentido às suas vidas.

Ao longo do desenrolar da acção de Miele, desejamos saber mais sobre Irene. O que vamos conhecendo do seu passado é maioritariamente por flashbacks - pouco é aquilo que ela nos conta, ou conta a Grimaldi. Esse mistério envolvo na protagonista surge em paralelo com o seu anonimato como Miele, a mulher que ajuda os doentes a morrer, eles que nem o seu nome verdadeiro saberão. Irene perdeu a mãe muito jovem, por motivo de doença, mas nunca percebemos em que circunstâncias exactamente. Fácil é daí concluir que a jovem verá nessa morte que lhe foi tão próxima o motivo para realizar o trabalho que faz - que como a familiar de um doente lhe diz é um trabalho "de merda".

Para se libertar da dor que o trabalho e as memórias lhe trazem, Irene refugia-se no desporto e na Natureza. Desde nadar no mar, a passeios de bicicleta, ao simples sentar no meio de searas, são vários os momentos em que a tranquilidade e libertação que a protagonista sente passam para o espectador. É nestes momentos que Valeria Golino nos proporciona planos de extrema beleza, sempre tão dinâmicos como Irene.

No elenco, claro destaque para Jasmine Trinca a vestir a pele da personagem principal. Ela consegue dotar Irene de coragem e teimosia, encarnando uma mulher reservada, simples mas sensual à sua maneira, desafiadora das regras da sociedade mas sempre fiel às suas. A sua obsessão pela saúde revela fragilidades mais escondidas. Ao mesmo tempo, Carlo Cecchi oferece-nos uma interessante interpretação de Grimaldi, o engenheiro deprimido que encontra em Irene uma inesperada força que quebra essa rotina que tanto o desencanta.


A música tem uma presença muito forte em Miele e a banda sonora revela-se muito importante e de grande qualidade. Com sonoridades que vão das mais clássicas (Marino Marini, Enrique Granados...) às mais modernas (Caribou, The Shins...), é ela o motor que acompanha os momentos mais dramáticos ou os mais relaxados da longa-metragem. Solitária, Irene encontra na música - ela não larga os seus headphones - uma forma de se encontrar consigo própria. Por outro lado, enquanto assiste os doentes, ela dá-lhes a ouvir o seu tema favorito, nos últimos minutos de vida.

Miele prova como Valeria Golino é capaz de um excelente trabalho do outro lado da câmara. A grandiosidade técnica e argumentativa da longa-metragem perde apenas com o final que merecia ser melhor. Ainda assim, tendo em conta o todo, a realizadora traz até nós um filme singular, corajoso e sem tabus.

Miele repete amanhã, dia 14 de Novembro, no Lisbon & Estoril Film Festival. A sessão acontecerá no Centro de Congressos do Estoril, às 21h45, e conta com a presença da realizadora para uma conversa.

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