terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Crítica: O Quadrado / The Square (2017)

"The Square is a sanctuary of trust and caring. Within it we all share equal rights and obligations."

*9/10*

As relações humanas são hiperbolizadas até ao limite - haverá limite? - em O Quadrado, de Ruben Östlund, que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes. Provocador e corajoso, o realizador cria um ambiente carregado de humor inteligente e constrangimentos sociais que, cada vez mais, se vivem no dia-a-dia. Caminhamos para este cúmulo.


Christian é o respeitado curador de um museu de arte contemporânea; homem divorciado e bom pai dos seus dois filhos, conduz um carro eléctrico e apoia boas causas. A sua próxima exposição, O Quadrado, é uma instalação que pretende evocar o altruísmo em quem a vê, recordando-nos o nosso papel enquanto seres humanos responsáveis pelos nossos congéneres. Mas às vezes é difícil viver à altura dos nossos ideais: a resposta incauta de Christian ao roubo do seu telefone vai conduzi-lo a situações das quais ele se envergonha. Entretanto, os Relações Públicas do museu criam uma campanha inesperada para O Quadrado. A reacção é inflamada e lança Christian, bem como o próprio museu, numa crise existencial.

O Quadrado da perfeição das relações humanas contrasta com as atitudes de todos os que o rodeiam. A arte quer, sem sucesso, ensinar o ser humano a voltar a respeitar o seu semelhante, mas nem a campanha publicitária estrondosa é capaz de ter sucesso nesse campo. Tudo é escândalo, tudo é ameaça, ninguém sabe conversar ou relacionar-se. Mas, cada vez mais, as pessoas gostam de ser assim: pensar pouco e indignar-se muito.


E a arte parece desistir e aumentar o ridículo das relações humanas. Seja pela sua forma, pouco compreendida pelos leigos, seja pela interacção que estabelece com o seu público, que não lhe sabe corresponder. Conversas interrompidas - ou espiadas - por esculturas que mexem, um artista com tiques de primatas num jantar de gala, um encontro romântico com um macaco como colega de casa... Da apatia ou incapacidade de reagir, rapidamente se passa para os extremos, a violência, os instintos a comandar o Homem racional.

O Quadrado ataca preconceitos, coloca o inesperado perante os nossos olhos e espera que reajamos melhor que as personagens. Nós deixamo-nos levar nesta paródia social e rimos dos nossos semelhantes, seja de Christian ou da jornalista Anne.


Ruben Östlund constrói um argumento brilhante e transpõe-no para o grande ecrã com uma ironia genial. O protagonista Claes Bang revela-se à altura com medos e incertezas a sobreporem-se ao politicamente correcto, Elisabeth Moss tem um pequeno papel muito divertido e Terry Notary protagoniza um dos momentos mais fortes do filme, onde o silêncio impera. O Quadrado retrata a sociedade actual e faz-nos pensar no rumo que esta está a tomar. Rir e aprender, nada mau.

1 comentário:

Cesar Fontoura disse...

Discordei de quase tudo que foi avaliado do filme. Há, me parece, uma espécie de abandono da razão ao notório do prêmio de Cannes, o que, a meu ver não é novidade. A meu favor, permito-me examinar aspectos escolhidos, tanto da crítica quanto do filme mesmo. E concluo que este é meramente caricato.
O Quadrado da perfeição das relações humanas contrasta com as atitudes de todos os que o rodeiam. A arte quer, sem sucesso, ensinar o ser humano a voltar a respeitar o seu semelhante, mas nem a campanha publicitária estrondosa é capaz de ter sucesso nesse campo. Tudo é escândalo, tudo é ameaça, ninguém sabe conversar ou relacionar-se. Mas, cada vez mais, as pessoas gostam de ser assim: pensar pouco e indignar-se muito.”

Acabo de ver o filme referido, e não consigo encontrar-me com as sensações e dimensionamentos que a crítica acima diz exercitados durante o seu transcorrer. Ela, a crítica, destaca (acima e além) predicados que não consegui destacar. Comecemos; o quadrado (square) não apresenta nenhum elemento capaz de evoluir até a condição de arte; o personagem central recita – claro, de modo patético – a pretensão da autora de ser um espaço de cuidado e humanismo; e isto recusa – vide o problema com os montículos – qualquer convite a mais do que chocar. Certo, parece que o diretor está enviando a narrativa para pousadas mais conscientes, i.e., críticas. Certo que mostra aspectos humanos, como o medo sistemático do auxiliar do museólogo. Errado que o menino que vem cobrar a liberdade seja (próximo do) real, posto que a cobrança é feita com tal ênfase e dignidade somente existentes em sujeitos com avançado grau de confiança. Aliás, o auxiliar, que é negro, é também sempre cagão, e isto, se bem que aprovável como crítica, é no mínimo trivial; que o negro seja usado como bandido pelo branco norte-europeu, nada novo. Assim é questionável a passividade da plateia do homem-macaco, até que “descobre” sua própria força; note-se que um grupo exageradamente burguês mantém-se exageradamente quieto (cabeças baixas) com relação à cobrança (exageradamente) não-burguesa, i.e., proletária. Errado também que o mocinho tenha tanto apreço pelo esperma ao foder a mocinha, e que a mocinha tenha tanto desejo de desvencilhá-lo de ambições machistas, todo-poderosas, depois expressas em acusações, haja vista que a mesma (a moça) é culturalmente autônoma. Que as filhas do mocinho sejam tão agressivas a um tempo (surgimento no apto.) e tão condescendentes a outro (quando da procura do menino) – parecem outras.
De modo geral, o filme parece um agrupamento de situações hipotéticas, sem relevância para a arte – ainda que a ela dirigida como crítica – cinematográfica.