Hoje vi(vi) um filme: Crítica: Boyhood - Momentos de uma Vida (2014)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Crítica: Boyhood - Momentos de uma Vida (2014)

"I just thought there would be more."
Mom
*8/10*

Richard Linklater fez História no cinema. A aparente simplicidade de Boyhood acaba quando tomamos consciência de que a mesma equipa se reuniu todos os 12 anos de produção, dando, cada um deles, um pouco da sua vida, do seu crescimento/envelhecimento a este filme. É isto mesmo que o torna especial: a coragem e comprometimento de actores e técnicos e a persistência de Linklater em levar avante este projecto singular.

O realizador filmou, ao longo desta dúzia de anos, a vida de uma família fictícia, que podia ser a de qualquer um de nós. Neste caso, o protagonista é Mason, uma criança de seis anos, que conhecemos até aos 18. E o que vemos no ecrã é isso mesmo: a passagem do tempo, o crescimento, a mudança de voz, as discussões com a irmã mais velha, os encontros esporádicos com o pai, os novos maridos da mãe, os amigos, as mudanças de casa, os erros, as loucuras, as paixões, os sonhos...


Boyhood leva-nos a recordar a infância e adolescência, leva-nos a querer que também alguém filmasse cada ano da nossa vida, quando as mudanças são imensas, mas o privilegiado foi Ellar Coltrane (e também a filha do realizador, Lorelei Linklater), que se sai especialmente bem para este seu primeiro, longo e desafiante trabalho. Ethan Hawke é o pai ausente e irresponsável, sempre pronto para a diversão e para dar conselhos, apesar de não ser o melhor exemplo a seguir. Hawke é ele mesmo em Boyhood, igual ao que nos tem habituado - por exemplo na trilogia de Antes do Amanhecer. Mas quem se destaca verdadeiramente é a sofrida mãe Patricia Arquette. Sem medo nem vergonha de abraçar um projecto que mostra o seu envelhecimento, as mudanças físicas - e psicológicas - e a sua total entrega à personagem, a mãe sempre presente, que escolhe mal os maridos, Arquette oferece-nos uma das melhores prestações femininas do ano. É com ela que vamos lamentar a passagem do tempo - tão rápida - e compartilhar a revolta e explosão de sentimentos desta mãe, perto do final.

Filmado em 35 mm e com uma nostálgica banda sonora a acompanhar, Boyhood faz-nos viajar no tempo ao longo de quase três horas, com os saltos temporais anuais que a montagem de Sandra Adair nos proporciona, onde avaliamos as diferenças físicas e psicológicas de cada personagem (qual familiar que não vemos há muito tempo). O trabalho da direcção de fotografia, a cargo de Lee DanielShane F. Kelly, tem momentos muito competentes, sabendo aproveitar a luz e as vantagens da película.


Boyhood passa num instante, tal como a vida. Apesar de, na segunda metade do filme, o realizador cair no erro das conversas filosóficas sobre nada (que o aproxima do aborrecimento da trilogia mencionada), Linklater deu à luz um trabalho corajoso e único no cinema e, mesmo que não seja tão emocional como se poderia esperar, é contudo um retrato da banalidade da vida e de todas as fases do crescimento de um jovem.

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