sexta-feira, 20 de julho de 2018

Crítica: No Coração da Escuridão / First Reformed (2017)

"Can God forgive us for what we’ve done to this world?"
Michael

*9/10*

Que estocada no meu sossegado íntimo cinéfilo, que desconforto e vício, que bom voltar a sentir-me viva e em conflito numa sala de cinema. No Coração da Escuridão (First Reformed) merecia um título bem melhor em português e passará pelas salas sem que muitos se dêem conta do grande filme que vão perder.

Paul Schrader ensina-nos como com pouco se faz muito e aponta as câmaras ao que realmente interessa, as personagens e o seu conflituoso e perturbado interior. A plateia aguarda todo e qualquer novo detalhe, incomodada mas presa às personagens, suas dúvidas e dilemas.

O reverendo Ernst Toller (Ethan Hawke) é um solitário pastor numa comunidade a norte de Nova Iorque. A igreja é agora uma atracção turística que recebe uma congregação cada vez menor, eclipsada por um novo templo construído nas proximidades. Atormentado por demónios pessoais e sentimentos de culpa pela morte do filho e pelo divórcio que se seguiu, Toller vê os seus dilemas ganharem uma nova dimensão quando confrontado com as dúvidas de Mary (Amanda Seyfried). A jovem está grávida, mas o marido, um ambientalista radical, não quer ter a criança por considerar que o mundo não tem salvação ou futuro.


Num misto de desespero, obsessão, coragem e esperança, No Coração da Escuridão constrói-se e desabrocha numa jornada de decisões e acontecimentos inesperados. Toca em temáticas fulcrais da forma menos usual, sejam as crises de fé, o luto, o activismo ou os interesses económicos acima de tudo o resto. Nada aqui é cliché, nem simples, nem demasiado complexo. É um trabalho desconfortável mas muito intenso, inteligente e absorvente. O filme não nos irá deixar em paz, nem dormir sossegados.

Ethan Hawke revela-se como nunca o tinha feito. Que grande actor nasceu na pele deste pastor, ex-capelão militar, que se vê assolado em dúvidas e receios. Que turbilhão de sentimentos e sensações ele nos é capaz de transmitir, ao incorporar um homem de meia idade, envelhecido pela dureza da vida, pelos pecados - seus e dos outros -, pela constatação da realidade cruel. Um homem de poucos sorrisos e com pouco a que se agarrar. A igreja vazia e centenária é o seu refúgio, bem como a escrita de um diário em sua casa, quase despida e pouco confortável.


No singelo decorrer da acção, Paul Schrader surpreende-nos, de quando em quando, com planos absolutamente inesperados e extasiantes, surgidos certamente de um lado surrealista que todos devemos ter. Planos de libertação e esperança, inspiradores e corajosos.

Porque a esperança, o desespero e a coragem, de que Toller nos fala numa das avassaladoras conversas (tão bem escritas) que tem durante o filme, são um dos grandes motores da narrativa e, igualmente, aquilo de que mais precisamos para continuar a viver.

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