segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Crítica: Feliz Como Lázarro / Lazzaro Felice (2018)

*8.5/10*


As fábulas de Alice Rohrwacher continuam surpreendentes, com o retrato de uma Itália pobre e ignorante, mas, ao mesmo tempo, de personagens que nos dão esperança e enternecem. Depois de Corpo Celeste (2011) e O País das Maravilhas (2014), agora é Feliz como Lázaro que desafia as nossas emoções.

A realizadora filma histórias tristes ou dramáticas com inocência e fantasia à mistura, que fazem a plateia sonhar. A imaginação é sempre estimulada por esta mente tão criativa e apaixonada pelo cinema.

O filme relata o encontro entre Lazzaro, um jovem camponês tão bondoso que é muitas vezes confundido com um tolo, e Tancredi, um jovem nobre amaldiçoado pela sua imaginação. A vida na remota aldeia pastoral Inviolata é dominada pela terrível Marquesa Alfonsina de Luna, a rainha dos cigarros. Um elo de lealdade é selado quando Tancredi pede a Lazzaro para o ajudar a orquestrar o seu próprio rapto. Esta aliança é uma revelação para Lazzaro.


Tendo por base uma história real passada no início dos anos 80 em Itália, Alice Rohrwacher cria o ponto de partida para o seu filme. Um grupo de camponeses são explorados por uma mulher poderosa que os trata como escravos e não lhes paga ordenado, fazendo-os acreditar que são sua propriedade. Vivendo isolados da modernidade, aqueles homens e mulheres têm medo de tudo o que vai para lá dos limites das propriedades que cultivam. Será o êxodo do campo para a cidade a provocar uma grande mudança no enredo.

E eis iniciada mais uma fábula de encantar, uma metáfora de várias situações dos dias de hoje, ainda mais numa Itália com o momento político actual. Olhamos para Feliz Como Lázaro através dos olhos do protagonista, um jovem com uma inocência de criança no corpo de um homem sem tempo.


Lazzaro é uma espécie de santo, um órfão dotado de uma bondade irreal, inacreditável, capaz de milagres e de uma curiosa sabedoria bucólica. Ingénuo e crédulo, de expressão sempre calma e com um sorriso tranquilizador, Lazzaro conquista-nos sem esforço. Ele é a personificação do que de mais genuíno possa existir, não fosse também este o primeiro papel de Adriano Tardiolo.

Entre a aura mais mágica associada ao protagonista, vamos descobrindo como é vicioso o circulo em que as personagens entram. Afinal, escapam da escravatura rural da marquesa exploradora, mas não ficam melhor na cidade moderna. Valeria a pena descobrir a verdade ou seria melhor viverem enganados?


A poética de Feliz Como Lázaro é aguçada pela opção da realizadora em filmar em película de 16mm, com o grão sempre presente, que tanto potencia os planos dos grandes campos da Itália pobre e rural, como a claustrofobia da cidade movimentada e suja. E aqui também se identificam dois tons distintos da primeira para a segunda metade da longa-metragem. Enquanto a liberdade ilusória em que os camponeses viviam era filmada com um tom tragicómico, a cidade suga algum desse humor, tornando o ambiente mais pesado e infeliz, compensado pela aura mágica que vai pairando e seguindo Lázaro.

Alice Rohrwacher sugere-nos a esperança na bondade humana, sem, no entanto, nos deixar sonhar muito alto, num mundo altamente corrompido e onde resta pouco amor para partilhar. Fica a expectativa de que existam mais Lazzaros por aí e que não os deixemos desaparecer. 

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