sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ads & Cinema #10

O mais recente anúncio do perfume The One, da Dolce & Gabbana, esteve envolvido no mais profundo mistério muitas semanas antes do seu lançamento. À medida que os dias passavam, a marca levantava a ponta do véu, os nomes dos protagonistas - Scarlett Johansson e Matthew McConaughey -, algumas imagens de bastidores, o nome do realizador - Martin Scorsese - e, por fim, foi divulgada a curta-metragem - Street of Dreams - de dois minutos e meio, de onde saiu o spot televisivo.


Elegância a preto e branco não falta, com Nova Iorque como palco, e é sempre um prazer ver três grandes nomes do cinema juntos, mesmo que seja na publicidade.

Aqui fica o spot publicitário e a curta-metragem.


Curta-metragem Street of Dreams

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Crítica: Frozen - O Reino do Gelo (2013)

*7/10*

A Disney está de volta com Frozen - O Reino do Gelo (depois de Força Ralph, em 2012, e Entrelaçados, em 2010), um filme recheado dos valores clássicos da produtora e que, apesar de não marcar a história da animação, tem as suas singularidades e músicas de encantar.

Duas princesas, irmãs, protagonizam esta história onde o bem e o mal não se distinguem facilmente. As personagens fazem-nos rir e emocionam-nos, e levam-nos consigo nesta aventura gelada e mágica.

A princesa Anna embarca numa arriscada jornada, juntamente com Kristoff e a sua leal rena Sven, para encontrar a sua irmã Elsa, cujos poderes aprisionaram o reino de Arendelle num Inverno eterno. Enfrentando condições próprias do Evereste, trolls e um divertido boneco de neve chamado Olaf, Anna e Kristoff entram numa corrida para salvar o reino.

Frozen - O Reino do Gelo faz-nos regressar ao mundo das princesas da Disney - e já tínhamos saudades - depois de Rapunzel. Anna e Elsa são as protagonistas e trazem consigo o renascer das temáticas habituais dos clássicos da produtora: o amor, o bem e o mal, a morte e a esperança estão bem presentes. Inspirado no conto The Snow Queen, de Hans Christian AndersenChris Buck e Jennifer Lee trouxeram-nos um filme para toda a família e bem a propósito do Natal.

A história, com duas heroínas, prima por alguma originalidade e uma reviravolta inesperada, mas não se consegue assumir como um marco na animação da Disney. Ainda assim, Frozen - O Reino do Gelo distingue-se pela temática central: Elsa, a futura rainha de Arendelle, possui poderes raros que a tornam diferente e a fazem ser vista como vilã. Os seus pais preferem mantê-la fechada pensando que assim ela iria controlar melhor os seus poderes. Mas será que é essa a melhor opção?

A personalidade de Elsa é claramente marcada por essa clausura que limitou a sua infância e adolescência. Ela é uma mulher solitária, sisuda, aterrorizada pelo facto de não controlar os seus poderes. Quando, de repente, se vê acusada por todo o reino, Elsa foge para longe de tudo, para poder viver os anos que perdeu fechada no seu quarto. Pelo contrário, Anna é uma impulsiva, divertida e corajosa princesa, que ama a sua irmã mais velha, contra tudo e contra todos. Ela crê que Elsa nunca lhe poderá fazer mal. Ao mesmo tempo, acredita piamente no amor à primeira vista e parece não ter muita noção dos riscos que pode correr.


Para além das protagonistas, há outras personagens marcantes. O vendedor de gelo Kristoff, solitário e corajoso, a sua rena Sven, de quem é inseparável e que nos vai deixar enternecidos, e um improvável boneco de neve, Olaf, que sonha com o Verão que nunca viveu.

Uma das maiores forças de Frozen - O Reino do Gelo é a sua componente musical, onde as personagens cantam e encantam, fazendo prever algumas nomeações para o Oscar de Melhor Canção. Ao mesmo tempo, a animação tem bons momentos - a água ou a tempestade de neve são dois bons exemplos de uma sensação de quase imagem real. Por seu lado, o 3D não se revela aqui tão incómodo como é hábito.

Não se trata de um título ímpar, é verdade. Todavia, Frozen - O Reino do Gelo traz consigo uma magia muito característica de que já tínhamos saudades, e proporciona-nos momentos mágicos e gelados - ou não estivéssemos no tempo do frio.

Ads & Cinema #9

Depois de ter dado a cara à fragrância nocturna feminina BOSS NUIT Pour Femme, da Hugo Boss, Gwyneth Paltrow surge igualmente a representar a fragrância BOSS JOUR Pour Femme. O perfume ideal para uma saída à noite ou para o início de um novo dia, a Hugo Boss traz as suas duas propostas - tão em voga na publicidade televisiva ou nas ruas agora que estamos perto do Natal.

Nos anúncios, ambos realizados por Jordan Scott - filha do veterano Ridley Scott -, a elegância e a feminilidade predominam. Os tons claros do dia, cheios de luz, onde os brancos prevalecem, em BOSS JOUR, dão lugar aos tons mais escuros, em BOSS NUIT, onde a noite é a rainha, tal como a mulher.

Aqui ficam os dois spots publicitários da campanha:

BOSS JOUR Pour Femme



BOSS NUIT Pour Femme


Estreias da Semana #92

Nove longas-metragens e uma curta chegam esta Quinta-feira às salas de cinema portuguesas. Entre os títulos mais sonantes a estrear hoje está o vencedor da Palma de Ouro em Cannes, A Vida de Adèle, Os Jogos da Fome: Em Chamas e o animado Frozen - O Reino do Gelo.

A História do Cinema - Uma Odisseia (2011)
The Story of Film: An Odyssey
A história do cinema é aqui contada através das inovações cinematográficas. Em seis continentes e ao longo de 12 décadas, mostra-nos como os realizadores se deixaram influenciar uns pelos outros e pelas épocas históricas. A História do Cinema - Uma Odisseia é um guia do cinema mundial.

A Vida de Adèle (2013)
La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2
Adèle é uma adolescente de 15 anos, cuja vida muda quando conhece Emma, uma jovem de cabelo azul que a apresenta ao desejo e à vontade de se afirmar como mulher adulta. Diante do olhar dos outros, Adèle cresce, procura-se, perde-se, encontra-se. 

Dança de Sombras (2012)
Shadow Dancer
Colette McVeigh (Andrea Riseborough) é uma mãe solteira que vive em Belfast com a mãe e os irmãos, que são membros do IRA. Quando Colette é ser presa em Londres na sequência de um plano bombista do IRA que acaba mal, vê-se confrontada com duas soluções que o agente Mac (Clive Owen) do MI5 lhe dá a escolher: ir para a cadeia durante 25 anos e perder tudo o que tem ou regressar a Belfast como informadora, espiando a sua própria família. Com a vida do filho nas suas mãos, Collette decide confiar em Mac e voltar a casa. Mas quando a operação secreta dos seus irmãos é alvo de uma emboscada, levanta-se a suspeita-se sobre a existência de um informador e Collette descobre que tanto ela como a sua família se encontram em perigo.

Frozen - O Reino do Gelo (2013)
Frozen
A princesa Anna embarca numa arriscada jornada, juntamente com Kristoff e a sua leal rena Sven, para encontrar a sua irmã Elsa, cujos poderes aprisionaram o reino de Arendelle num Inverno eterno. Enfrentando condições próprias do Evereste, trolls e um divertido boneco de neve chamado Olaf, Anna e Kristoff entram numa corrida para salvar o reino.

Os Jogos da Fome: Em Chamas (2013)
The Hunger Games: Catching Fire
Na sequela de Os Jogos da Fome, a aventura de Katniss Everdeen continua, num futuro não muito distante, onde os E.U.A. sucumbiram a secas, guerras, fogos e fome, e deram lugar a Panem, dividido em 12 Distritos.

Miguel Gomes regressa aos cinemas com a curta-metragem Redemption que acompanha o filme Terra de Ninguém, de Salomé Lamas. No dia 21 de Janeiro de 1975, numa aldeia no norte de Portugal, uma criança escreve aos pais em Angola para lhes dizer como Portugal é triste. No dia 13 de Julho de 2011, em Milão, um velho recorda o seu primeiro amor. No dia 6 de Maio de 2012, em Paris, um homem diz à filha bebé que nunca será um pai de verdade. Durante o casamento, no dia 3 de Setembro de 1977, em Leipzig, a noiva luta contra uma ópera de Wagner que não lhe sai da cabeça. Mas onde e quando estas quatro pessoas começaram à procura da redenção?

Riscado (2011)
Qual a importância da sorte na vida das pessoas? Quanto esforço e talento é necessário para garantir uma carreira sólida? Bianca é uma excelente actriz, mas o teatro não lhe paga as contas. Para ganhar a vida ela imita divas do cinema e promove eventos. Até que um dia, consegue um papel numa grande produção internacional. O realizador, inspirado pelo trabalho dela, altera a personagem e transforma-a numa versão de Bianca. Será esta a oportunidade da sua vida?

Terra de Ninguém (2012)
Paulo oferece retratos sublimados das crueldades e paradoxos do poder, assim como das revoluções que o depuseram, apenas para erguer novas burocracias, novas crueldades e paradoxos. O seu trabalho como mercenário encontra-se na franja destes dois mundos.

Um Novo Final (2013)
The English Teacher
Linda Sinclair é uma professora de Inglês, solteira e na casa dos 40, na pequena cidade de Kingston, Pensilvânia. A sua vivência pacata é abalada quando o seu ex-aluno Sherwood Jason regressa a Kingston após uma fracassada tentativa para se tornar dramaturgo em Nova Iorque. Com 20 anos, e perante o seu insucesso, Jason está prestes a abandonar o seu sonho, sendo pressionado pelo pai, Dr. Tom Sherwood, a estudar Direito. Linda não quer que Jason desista dos seus sonhos e decide ajudá-lo, pondo em cena o seu último trabalho: uma peça, a ser exibida em Kingston, com o apoio e direcção de Carl Kapinas o professor de teatro da escola.

Viva a França (2013)
Vive la France
Muzafar e Feruz são dois pastores do Tabulistão, um pequeno país da Ásia Central que ninguém sabe que existe. Para colocar o seu país na cena internacional, o filho do presidente decide embarcar no terrorismo "publicitário" e confiar aos dois pastores mais ingénuos a missão das suas vidas: destruir a Torre Eiffel!

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sugestão da Semana #91

Hoje a Sugestão da Semana é dupla. Dos dez filmes estreados na passada Quinta-feira foi impossível destacar só um. Por um lado, temos o regresso ao grande ecrã de 2001: Odisseia no Espaço, por outro, temos a estreia do mais recente filme de Ridley Scott, O Conselheiro. São estas as duas escolhas do Hoje Vi(vi) um Filme para esta semana.

2001: ODISSEIA NO ESPAÇO


Ficha Técnica:
Título Original: 2001: A Space Odyssey
Realizador: Stanley Kubrick
Actores: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester
Género: Aventura, Mistério, Ficção Científica
Classificação: M/12
Duração: 160 minutos


O CONSELHEIRO


Ficha Técnica:
Título Original: The Counselor
Realizador: Ridley Scott
Actores: Michael Fassbender, Penélope Cruz, Cameron DiazJavier Bardem, Brad Pitt
Género: Crime, Drama, Thirller
Classificação: M/16
Duração: 117 minutos

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Estreias da Semana #91

Dez filmes chegaram aos cinemas esta Quinta-feira. Se, por um lado, 2001: Odisseia no Espaço está de regresso às salas, estrearam também esta semana títulos muito aguardados como O Conselheiro, O Desconhecido do Lago ou Parkland.

2001: Odisseia no Espaço (1968)
2001: A Space Odyssey
Desde os tempos da Pré-história, um monolito negro parece emitir sinais de outra civilização interferindo no nosso planeta. Quatro milhões de anos depois, no século XXI, uma equipa de astronautas liderados por David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) é enviada a Júpiter para investigar o enigmático monolito na nave Discovery, totalmente controlada pelo computador HAL 9000. Mas, no meio da viagem, HAL tem uma avaria e tenta assumir o controlo da nave, eliminando, um a um, cada um dos seus tripulantes.

7 Pecados Rurais (2013)
Quim e vão buscar duas primas afastadas de Lisboa, que pretendem reviver o Verão de há dois anos em Curral de Moinas, mas, no caminho, têm um fatal acidente. Quando chegam ao Céu, Deus oferece-lhes uma segunda oportunidade de voltar à sua terra. Contudo, têm de abdicar de uma vida amoral e libertina, renunciando aos sete pecados capitais: luxúria, gula, ira, inveja, avareza, soberba e preguiça. Será que Quim e resistem à avalanche de tentações que lhes são oferecidas?

A Segunda Vida de Camille (2012)
Camille redouble
Camille (Noémie Lvovsky) tem 16 anos quando conhece Eric (Samir Guesmi). Apaixonam-se e têm uma filha, mas após 25 anos de casamento, Eric pede o divórcio. Na noite da passagem de ano, Camille regressa subitamente ao passado, aos seus 16 anos, à sua família, aos seus amigos e a Eric. Acaba por reviver as suas memórias, redescobrindo-as com a doçura e vivacidade da sua juventude. Será que ela vai tentar mudar o rumo da sua vida?

Dentro da Cabeça de Charles Swan III (2012)
A Glimpse Inside the Mind of Charles Swan III
Charles Swan III, um bem-sucedido designer gráfico, tem tudo: fama, dinheiro e charme, que lhe proporcionam uma vida aparentemente perfeita. Mas quando Ivana termina abruptamente com a relação de ambos, Charles fica de coração partido. Com o apoio dos seus amigos – Kirby, Saul e a sua irmã, Izzy Charles inicia uma viagem de introspecção para tentar recompor a sua vida sem IvanaDentro da Cabeça de Charles Swan III é realizado por Roman Coppola.

Histórias que contamos (2012)
Stories We Tell
Sarah Polley descobre que a verdade depende de quem a conta. Polley é tanto cineasta quanto detective, à medida que investiga os segredos guardados por uma família de contadores de histórias. Ela entrevista e interroga um conjunto de personagens de fiabilidade variável, obtendo respostas honestas às mesmas questões mas, ainda assim, contraditórias. Enquanto cada um relata a sua versão da mitologia de família, as recordações actuais transformam-se em vislumbres pontuados de nostalgia da sua mãe, que partiu demasiado cedo, deixando um rasto de questões por responder.

O Conselheiro (2013)
The Counselor
Ridley Scott está de volta com O Conselheiro, um thriller intenso sobre um advogado criminalista que, ao ser atraído para o mundo do tráfico de droga, percebe que a sua decisão momentânea o conduz a uma espiral descendente de acontecimentos imparáveis e de consequências fatais.

O Desconhecido do Lago (2013)
L'inconnu du lac
É Verão. Um lago é um local de engate de vários homens. Franck apaixona-se por Michel, um homem bonito mas mortalmente perigoso. Franck sabe disso, mas deseja viver essa paixão.

O Último Exorcismo - Parte II (2013)
The Last Exorcism Part II
Ao tentar começar uma nova vida, Nell Sweetzer não consegue ignorar os pesadelos que vem tendo e a noção de que ouve, vê e sente coisas que mais ninguém percebe. Ela sabe que algo de errado se está a passar e que um poder maléfico se está a apoderar dela, totalmente fora do seu controlo. A certa altura, torna-se claro que o demónio cuja possessão levou ao assassinato da sua família no terrível O Último Exorcismo ainda detém um grande poder.

Parkland (2013)
Parkland relata os acontecimentos caóticos que ocorreram em Dallas, no dia 22 de novembro de 1963, o dia em que o presidente John F. Kennedy foi assassinado. O filme cruza as perspectivas de uma série de indivíduos comuns, subitamente colocados em circunstâncias extraordinárias: os jovens médicos e enfermeiros do Hospital Parkland; o chefe dos Serviços Secretos de Dallas; um homem que involuntariamente filmou o que viria a tornar-se o filme mais visto e examinado da história; os agentes do FBI que estiveram quase a deter o atirador; o irmão de Lee Harvey Oswald, a braços com a sua família destroçada; e a equipa de segurança do Presidente JFK, testemunhas da morte do presidente e da subida ao poder do vice-presidente Lyndon Johnson sobre uma nação cuja inocência foi alterada para sempre.

Virgem Margarida (2012)
Em 1975, após 500 anos de colonização portuguesa, Moçambique renasce. O novo regime procura limpar as ruas dos maus hábitos e prostituição. Assim, as prostitutas são enviadas para campos de re-educação para que se tornem úteis à nova sociedade que está a ser construida de base. Margarida, uma jovem camponesa de 16 anos, é enviada para um dos campos por engano.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crítica: Vénus de Vison / La Vénus à la Fourrure (2013)

"E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher."
*8/10*

Roman Polanski regressa aos grandes filmes com o seu novo Vénus de Vison. O teatro, o poder e a sexualidade são alguns dos temas presentes nesta longa-metragem protagonizada por Emmanuelle Seigner Mathieu Amalric - os dois únicos nomes do elenco.

Vénus de Vison teve antestreia nacional no LEFFEST'13 e já está nos cinemas. Sozinho num teatro parisiense após um dia de audições a actrizes para a peça que está prestes a encenar, Thomas (Mathieu Amalric) lamenta ao telefone o fraco desempenho das candidatas. Ninguém tem a dimensão necessária para assumir o papel principal, e, quando se prepara para sair, eis que surge Vanda (Emmanuelle Seigner), um verdadeiro turbilhão de energia, tão desenfreada como atrevida. Vanda incorpora tudo o que Thomas odeia. Ela é vulgar, insensata, e fará de tudo para conseguir o papel.

Mais uma vez, teatro e cinema fundem-se na filmografia de Polanski, depois de O Deus da Carnificina. Desta vez, o palco está ali, e tudo acontece naquele espaço - um teatro parisiense. O cineasta adaptou a peça de David Ives que se debruça sobre o romance Venus in Furs, de Leopold von Sacher-Masoch. Às (apenas) duas personagens em cena - no ecrã de cinema e no palco do teatro -, soma-se um argumento provocador, que vem recuperar temas recorrentes em outros filmes de Roman Polanski, e o resultado é provocador e aberto às interpretações da plateia.

Vénus de Vison está repleto de jogos de poder e de sedução. Machismo - "E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher", já Vanda se queixava - , feminismo, travestismo ou masoquismo, encontramos de tudo neste trabalho de Polanski. Mas Vanda parece sair sempre por cima, contrariando a reticência inicial de Thomas. Ela seduz, mas não se deixa seduzir, ela irrita-o, humilha-o, mas, acima de tudo, ela é tudo aquilo que ele imaginou.


O poder, tão central em Vénus de Vison, começa por ser detido por Thomas, o encenador saturado de procurar a sua Vanda. Ele nega-se a fazer a audição da atrasada actriz, com tão maus modos e  -aparentemente - poucos conhecimentos dramáticos. Todavia, rapidamente é Vanda que passa a deter o poder, contestando, surpreendendo e dominando o seu avaliador. E mesmo quando os papéis se voltam a inverter, é ela que o subjuga, novamente.

E é na personagem feminina que reside o mistério que perdura até ao final. Quem é esta mulher, que partilha o nome e se transforma completamente ao incorporar a personagem feminina da peça de Thomas? Vanda surge como a personificação do ideal de actriz que o encenador procura. Será que ela existe ou é apenas fruto da imaginação dele? Vénus de Vison é o retrato mordaz de um autor atraiçoado pela própria criação.

Para além das excelentes personagens, a longa-metragem de Polanski destaca-se igualmente pelos pequenos pormenores como os objectos invisíveis que se revelam através dos sons, genialmente presentes. Sabemos onde está a chávena, o pires ou a colher mesmo sem os ver. Ao mesmo tempo, tecnicamente, o realizador movimenta-se como ninguém num único espaço, coloca-nos muitas vezes na pele de Vanda - o início e final do filme são os exemplos mais flagrantes e que aguçam o carácter quase imaginário da personagem -, a fotografia de Pawel Edelman joga com luz e sombra tão perfeitamente como Vanda sabe iluminar o palco do teatro perante o olhar incrédulo de Thomas. A acompanhar toda a atmosfera teatral e dominadora - até do espectador - está a delicada e muito adequada banda sonora de Alexandre Desplat.


Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric são a alma de Vénus de Vison. A química entre ambos é evidente, e a energia e entrega às personagens são enormes. Amalric mostra uma vez mais o talentoso e versátil actor que é na pele do exigente e perturbado Thomas. Já Seigner oferece-nos um desempenho fabuloso como Vanda, esta mulher vulgar mas surpreendente, sensual, vingativa e desequilibrada.

Com Vénus de Vison, Roman Polanski volta aos temas fortes onde o poder é o grande motor da acção. O pesadelo dos autores é incorporado por Emmanuelle Seigner que trará ao de cima toda a perversidade escondida numa peça de teatro e na mente de um encenador.

Sugestão da Semana #90

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recai sobre o mais recente filme de Roman Polanski, Vénus de Vison.

VÉNUS DE VISON


Ficha Técnica:
Título Original: La Vénus à la fourrure
Realizador: Roman Polanski
Actores: Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 96 minutos

terça-feira, 19 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: Disponível para Amar / In the Mood for Love (2000)

*8.5/10*

Entre os homenageados do LEFFEST'13 esteve Wong Kar-Wai. Para além do mais recente trabalho do realizador, The Grandmaster, foram exibidos outros títulos da sua filmografia - Ao Sabor da Ambição, Days of Being Wild, As Cinzas do TempoChungking Express, Anjos Caídos, Felizes Juntos, Disponível para Amar, 2046 My Blueberry Nights - O Sabor do Amor

Em 2000, o mundo pôde conhecer Disponível Para Amar, uma longa-metragem sensível, romântica e realista que tem como palco Hong Kong dos anos 60. Wong Kar-Wai deixa o seu público hipnotizado pelas suas características marcas visuais que dão a este filme uma componente extra de brilhantismo.

O filme gira em torno da relação de Chow Mo-Wan (Tony Leung) e Su Li-Zhen (Maggie Cheung), vizinhos que vivem num prédio de apartamentos lotados na Hong Kong de 1962.  Casados com pessoas que estão sempre ausentes, os dois passam muitas noites sozinhos. Quando se conhecem, descobrem ter muito em comum: ambos gostam de artes marciais, frequentam o mesmo stand de noodles e, eventualmente, descobrem que são traídos pelos parceiros. Ao mesmo tempo que encontram conforto um no outro, escolhem não ser como os seus amantes infiéis.

O argumento simples ganha na originalidade ao tratar um tema que poderia ser tão comum. Contudo estes dois personagens  traídos preferem fugir à regra e manter a fidelidade aos que lhes são infiéis, com o consolo mútuo como único retorno desta relação. O amor e a paixão pairam em todo o ambiente de Disponível para Amar, quer nos sentimentos dos protagonistas, nas ruas da cidade, nos gostos em comum, nos movimentos de câmara, nas cores, nas cortinas que esvoaçam... Cada gesto, pensamento ou mínimo pormenor técnico ou de cenário transpira sentimentos fortes e contagia-nos.


Tecnicamente Wong Kar-Wai conquista-nos nos planos íntimos, inteligentes e sensíveis, que, por vezes, jogam com espelhos, ou com o arrastamento da imagem (tão típico do realizador), e onde a fotografia soberba evidencia cores fortes e padrões inebriantes (o vermelho domina e só nos enche de paixão), o fumo e a chuva, que unem as personagens. Recordem-se algumas cenas inesquecíveis em que os dois se cruzam, junto à escadaria que conduz ao stand de massas, ou o regresso a casa debaixo de chuva, onde não querem ser vistos a chegar juntos. A montagem faz igualmente um óptimo trabalho sendo os (belos) vestidos de Su Li-Zhen que nos informam da passagem do tempo. A banda sonora, não muito variada, é, no entanto, intensa e apaixonante.

Maggie Cheung e Tony Leung proporcionam-nos grandes interpretações com personagens divididas entre o amor e a fidelidade, numa árdua luta para não fazerem o mesmo que lhes fizeram. Entre o conforto e a alegria que sentem juntos, à consciência que lhes diz para não passarem os limites que impuseram a si mesmos, o dilema que sentem alastra até ao espectador, que sofre com eles.

Ao longo de todo o filme, Chow Mo-Wan e Su Li-Zhen têm de fazer escolhas e terão de viver com elas, para o melhor e para o pior. Será que estão disponíveis para amar?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Vencedores

Terminou hoje mais uma edição do Lisbon & Estoril Film Festival e os vencedores foram anunciados durante a tarde. O Hoje Vi(vi) um Filme continuará a publicar críticas aos filmes do festival nos próximos dias. Entretanto, fica a conhecer a lista completa de vencedores.


O júri do LEFFEST'13 é constituído por Arto Lindsay, Dominique Gonzalez-Foerster, Diego Masson, Carlos Saboga e Vhils e atribuiu os seguintes prémios:

Prémio Melhor Filme
Fish & Cat, de Shahram Mokri

Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa (em ex-aequo)
e
La última película, de Raya Martin e Mark Peranson

Paul Auster, Siri Hustvedt, J.M. Coetzee, Don DeLillo e Gonçalo M. Tavares fizeram parte do júri que escolheu os vencedores dos prémios Cineuropa e Melhor Curta-metragem MEO.

Prémio Cineuropa
Das merkwürdige Kätzchen, de Ramon Zürcher

Prémio Melhor Curtas-Metragens MEO
Primária, de Hugo Pedro — Escola Superior de Teatro e Cinema, Portugal

Menções Honrosas do Prémio Curtas-Metragens MEO
Melhor Comédia
Welkom, de Pablo Munoz Gomez —
Institut des Arts de Diffusion, Bélgica

Melhor Drama
La Prima Legge di Newton, de Piero Messina — Centro Sperimentale di Cinematografia, Itália

Melhor Ensaio Cinematográfico
Untitled, de Jorge Romariz —
Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, Portugal

Estreias da Semana #90

Nove filmes chegaram às salas de cinema na passada Quinta-feira. A escolha é variada e conta, por exemplo, com o segundo capítulo de Insidious e com o mais recente filme de Polanski, Vénus de Vison.

A Mentira de Armstrong (2013)
The Armstrong Lie
O documentário centra-se em toda a polémica relativa ao doping em que o ciclista  Lance Armstrong se viu envolvido.

Collider (2013)
Quando uma experiência científica corre mal, o mundo enfrenta os dias mais negros da sua história. Em 2018, o planeta entra em colapso e a espécie humana é dizimada devido a uma sucessão de desastres naturais e ao surgimento de uma raça mutante apelidada de Os Desconhecidos (The Unknown). Peter, Alisha, Carlos, Fiona, Luke e Lucia terão de unir esforços para conseguirem reactivar o Collider e assim recuarem no tempo e evitar o Apocalipse.

Insidious: Capítulo 2 (2013)
Insidious: Chapter 2
A sequela de Insidious acompanha a família Lambert, quando esta tenta desvendar o misterioso segredo de infância que a deixou perigosamente ligada ao mundo dos espíritos.

Malavita (2013)
The Family
Um chefe da máfia e a sua família são enviados para uma pacata cidade em França, ao abrigo do Programa de Protecção de Testemunhas, após terem denunciado os seus colegas do crime. Apesar dos esforços do Agente Stansfield (Tommy Lee Jones) para os controlar, Fred Blake (Robert De Niro), a sua mulher Maggie (Michelle Pfeiffer) e os seus filhos, Belle (Dianna Agron) e Warren (John D’ Leo), não conseguem evitar recorrer aos velhos hábitos para resolver os problemas. Tudo piora quando os seus antigos companheiros da máfia os tentam encontrar.

O Quinto Poder (2013)
The Fifth Estate
Julian Assange (Benedict Cumberbatch) e Daniel Domscheit-Berg (Daniel Brühl) são os fundadores da WikiLeaks, a organização mais ferozmente debatida do séc. XXI.

O Verão da Minha Vida (2013)
The Way Way Back
Duncan (Liam James) é um rapaz de 14 anos que passa as férias de Verão com a sua mãe Pam (Toni Collette), o seu namorado Trent (Steve Carell) e a filha deste, Steph (Zoe Levin). Embora Duncan tenha alguma dificuldade em se adaptar, encontra um aliado e mentor em Owen (Sam Rockwell), um funcionário do parque aquático local, onde Duncan arranja um emprego. Ao longo do Verão, apesar de cada vez mais afastado da sua mãe, mas com a ajuda de Owen, Duncan começa a ganhar confiança em si próprio.

Talvez um dia (2012)
Any Day Now
Quando um adolescente com Síndrome de Down é abandonado pela sua mãe, um casal gay acolhe-o e torna-se a família que ele nunca teve. Mas quando confrontado pelas autoridades, este casal é forçado a lutar contra um sistema legal que não permite a adopção por casais homossexuais. Talvez um dia é inspirado numa história verídica do final de 1970.

Thor: O Martelo dos Deuses (2011)
Hetjur Valhallar - Þór
O jovem ferreiro Thor sonha com grandeza, honra e respeito, mas a sua mãe tem outros planos para ele. Diz a lenda que ele é filho de Ódin, o Rei dos Deuses, e os aldeões acreditam que ele vive sob a sua protecção. O que ninguém sabe é que a Rainha do Mundo subterrâneo, Hel, está a preparar um plano que põe em perigo os humanos e os deuses. Por acidente, o martelo Esmagador - a arma mais poderosa do mundo - acaba nas mãos de Thor. Quando os gigantes arrasam a sua terra capturando várias pessoas, ele vê-se forçado a dominar-se a si próprio e ao seu novo amigo, de forma a ter alguma hipótese na batalha contra as forças do mal.

Vénus de Vison (2013)
La Vénus à la fourrure
O novo trabalho de Polanski é Vénus de Vison que já está nos cinemas depois de estrear no Lisbon & Estoril Film Festival. Sozinho num teatro parisiense após um dia de audições a actrizes para a peça que está prestes a encenar, Thomas (Mathieu Amalric) lamenta ao telefone o fraco desempenho das candidatas. Ninguém tem a dimensão necessária para assumir o papel principal, e quando se prepara para sair, surge Vanda (Emmanuelle Seigner), um verdadeiro turbilhão de energia, tão desenfreada como atrevida. Vanda incorpora tudo o que Thomas odeia. Ela é vulgar, insensata, e fará de tudo para conseguir o papel.

LEFFEST'13: Crítica: Nós Controlamos a Noite / We Own the Night (2007)

*7/10*

James Gray é um dos homenageados deste ano no Lisbon & Estoril Film Festival com os seus cinco filmes a serem exibidos no evento (Viver e Morrer em Little Odessa, Nas Teias da Corrupção, Nós Controlamos a Noite, Duplo amor e o novíssimo The Immigrant).

O filme de 2007, Nós Controlamos a Noite, conta a história de Bobby, um jovem gerente de um bar. Com tráfico de droga a aumentar, a máfia russa expande as suas influências no mundo da noite. Para continuar a sua ascensão no negócio, Bobby vê-se obrigado a esconder a sua relação familiar - apenas a sua namorada, Amanda, sabe que o seu irmão Joseph e o pai, Burt, são polícias. Cada dia que passa, a tensão entre a máfia e a polícia aumenta, tornando-se mais violenta. É quando vê a família ameaçada que Bobby terá de decidir de qual lado quer estar.

A família está no centro de Nós Controlamos a Noite, tal como o realizador nos tem habituado. Bobby é uma espécie de ovelha negra de uma família de polícias, fiéis à lei e à ordem, enquanto ele vive na noite, gerente de um bar, consumidor de drogas e demasiado próximo do mundo do tráfico. É essa a premissa do filme de James Gray, onde o protagonista se vê obrigado, por mais do que uma vez, a fazer escolhas.


Bobby sofre uma profunda mudança ao longo de Nós Controlamos a Noite. Ele vê-se obrigado a optar entre a vida boémia e a família - de quem é distante -; entre o amor da sua namorada Amada e o fazer justiça. Joaquin Phoenix tem aqui uma óptima interpretação na pele do transtornado e rebelde - mas muito fiel aos que ama - protagonista.

O ritmo inicial, lento, muda radicalmente e torna-se impossível tirar os olhos do ecrã. Perto do fim, assistimos a excelentes momentos de acção e suspense.

São muitos os valores em jogo em Nós Controlamos a Noite, e, no meio do obscuro submundo do tráfico, James Gray proporciona-nos um bom thriller de acção, onde família e a justiça comandam os sentimentos das personagens e da plateia.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: Harmony Lessons (2013)

*6/10*

Deveras violento e visceral - um carneiro é esfolado à nossa frente logo na primeira cena - à sua medida, Harmony Lessons traz-nos um retrato darwinista do que o bullying pode fazer à mente de uma criança. 

A longa-metragem de estreia do realizador cazaque Emir Baigazin, de 29 anos, centra-se no quotidiano de Aslan, de 13 anos, solitário, que vive com a avó nos arredores de uma pequena localidade do país. Humilhado durante um exame médico escolar, o jovem é depois ostracizado e vítima de bullying. Depressa se começa a manifestar em Aslan uma desordem de personalidade, desenvolvendo uma obsessão pela limpeza e pela perfeição, procurando controlar tudo o que o rodeia. Com o passar do tempo, ele decide elaborar um plano de vingança contra os seus agressores, entrando numa espiral de violência que vai pôr a sociedade em xeque. Harmony Lessons foi premiado no Festival de Berlim.

Harmony Lessons traz uma abordagem original e corajosa da violência, seja no bullying, na tortura ou mesmo na morte dos animais. Em jogo está, acima de tudo, a lei da sobrevivência da espécies, numa espécie de selecção natural. Certo é que, aqui, ninguém é inocente, nem a maior das vítimas.

Se, por um lado, somos fortemente incomodados pelas atitudes dos alunos mais fortes para com os mais fracos e ficamos do lado dos segundos, por outro lado não compreendemos o fascínio de Aslan por baratas e lagartos e, mais ainda, as práticas - um tanto ou quanto mórbidas - da criança para com esses seres-vivos. Testemunhamos o transtorno obsessivo-compulsivo do rapaz - os seus banhos constantes -, ao mesmo tempo que a sua obsessão por vingança aumenta, até alcançar níveis inesperados em que nem a amizade prevalece, entre sonhos, realidade e alucinações.


Harmony Lessons traz um retrato de uma adolescência cruel e violenta, e de uma sociedade que lhe segue os passos. Contudo, é um filme de momentos, que por vezes perde fôlego divagando para histórias secundárias que não se desenvolvem, ou com escolhas de montagem menos conseguidas. Tecnicamente, a fotografia é excelente e os planos são geometricamente bem construídos - feitos quase por medida.

Harmony Lessons é um trabalho interessante, mas a concretização poderia ser melhor. Por seu lado, Emir Baigazin estreia-se em grande forma, fazendo adivinhar uma promissora carreira na realização.

No Lisbon & Estoril Film Festival, a longa-metragem de Baigazin é uma das obras em Competição.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

LEFFEST'13: Crítica: Mel / Miele (2013)

*7.5/10*

Miele (ou Mel, em português) marca a estreia de Valeria Golino na realização de longas-metragens. O suicídio assistido está no centro da questão, com todas as implicações morais que lhe estão adjacentes, e certo é que Golino faz um trabalho sério e profundo, quer na realização como no argumento - uma adaptação livre do romance A nome tuo, de Mauro Covacich.

Irene (Jasmine Trinca) vive sozinha numa casa à beira-mar, perto de Roma. Sob o nome de código Miele, secretamente, ela ajuda doentes terminais a morrerem com dignidade, dando-lhes um barbitúrico poderoso. Um dia, Irene dá uma dessas doses mortais a um novo cliente, o Sr. Grimaldi (Carlo Cecchi). Contudo, ela descobre que ele está de perfeita saúde, mas quer suicidar-se, depois de ter perdido o interesse em viver. Determinada em não ser responsável por aquela morte, ela irá fazer de tudo para a impedir.

A polémica está lançada. A temática é sensível e a abordagem está extremamente bem conseguida, com todos os problemas de consciência aqui implícitos. Entre viagens, mortes assistidas e a sua própria vida privada, Irene vive um dia-a-dia agitado, onde a rotina não existe. Como Miele, ela age contra a lei, mas sempre de consciência tranquila, a fazer o que, para si, é certo. Contudo, ao cruzar-se com Grimaldi, Irene depara-se - mais tarde do que desejaria - com um caso diferente e que vai contra os seus princípios: um homem saudável que apenas quer morrer por estar farto da vida. Irene tem estabelecido que apenas ajuda a morrer pessoas que sofram de doenças terminais.


Ao mesmo tempo que evita, a todo o custo, ser culpada por um suicídio de um homem saudável, Irene desenvolve uma curiosidade pela teimosia de Grimaldi e pela sua solidão. Há semelhanças entre os dois, ambos solitários, ambos a precisar de alguém que dê sentido às suas vidas.

Ao longo do desenrolar da acção de Miele, desejamos saber mais sobre Irene. O que vamos conhecendo do seu passado é maioritariamente por flashbacks - pouco é aquilo que ela nos conta, ou conta a Grimaldi. Esse mistério envolvo na protagonista surge em paralelo com o seu anonimato como Miele, a mulher que ajuda os doentes a morrer, eles que nem o seu nome verdadeiro saberão. Irene perdeu a mãe muito jovem, por motivo de doença, mas nunca percebemos em que circunstâncias exactamente. Fácil é daí concluir que a jovem verá nessa morte que lhe foi tão próxima o motivo para realizar o trabalho que faz - que como a familiar de um doente lhe diz é um trabalho "de merda".

Para se libertar da dor que o trabalho e as memórias lhe trazem, Irene refugia-se no desporto e na Natureza. Desde nadar no mar, a passeios de bicicleta, ao simples sentar no meio de searas, são vários os momentos em que a tranquilidade e libertação que a protagonista sente passam para o espectador. É nestes momentos que Valeria Golino nos proporciona planos de extrema beleza, sempre tão dinâmicos como Irene.

No elenco, claro destaque para Jasmine Trinca a vestir a pele da personagem principal. Ela consegue dotar Irene de coragem e teimosia, encarnando uma mulher reservada, simples mas sensual à sua maneira, desafiadora das regras da sociedade mas sempre fiel às suas. A sua obsessão pela saúde revela fragilidades mais escondidas. Ao mesmo tempo, Carlo Cecchi oferece-nos uma interessante interpretação de Grimaldi, o engenheiro deprimido que encontra em Irene uma inesperada força que quebra essa rotina que tanto o desencanta.


A música tem uma presença muito forte em Miele e a banda sonora revela-se muito importante e de grande qualidade. Com sonoridades que vão das mais clássicas (Marino Marini, Enrique Granados...) às mais modernas (Caribou, The Shins...), é ela o motor que acompanha os momentos mais dramáticos ou os mais relaxados da longa-metragem. Solitária, Irene encontra na música - ela não larga os seus headphones - uma forma de se encontrar consigo própria. Por outro lado, enquanto assiste os doentes, ela dá-lhes a ouvir o seu tema favorito, nos últimos minutos de vida.

Miele prova como Valeria Golino é capaz de um excelente trabalho do outro lado da câmara. A grandiosidade técnica e argumentativa da longa-metragem perde apenas com o final que merecia ser melhor. Ainda assim, tendo em conta o todo, a realizadora traz até nós um filme singular, corajoso e sem tabus.

Miele repete amanhã, dia 14 de Novembro, no Lisbon & Estoril Film Festival. A sessão acontecerá no Centro de Congressos do Estoril, às 21h45, e conta com a presença da realizadora para uma conversa.