Hoje vi(vi) um filme: IndieLisboa'14: 3X3D (2013)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

IndieLisboa'14: 3X3D (2013)

*7/10*

Nas Sessões Especiais do IndieLisboa, mais uma longa-metragem feita no âmbito do Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura. Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard apresentam-nos três segmentos em 3D sobre Guimarães e sobre o Cinema (Guimarães está bem presente nos dois primeiros, a História do Cinema nos dois últimos).

Just in Time é o título do segmento de Greenaway, que relembra a História da cidade, atravessando dois milénios ao redor do Paço dos Duques de Bragança, que segue um percurso entre a Praça da Oliveira, a igreja da Senhora da Oliveira e os claustros do Museu Alberto Sampaio. 

Com o realizador entramos numa visita guiada, repleta de planos sequência (dando a ilusão de um único), à cidade e à História de Guimarães. Apresentam-nos muitos dos principais nomes oriundos do berço da nação, acompanhados de legendas que surgem por todo o lado e de voz off, qual guia turístico. Olhamos para toda a parte mas é-nos impossível ver tudo. O realizador faz-nos caminhar pelos corredores e pelas ruas e leva-nos a entrar numa Igreja tridimensional, por entre tradições macabras e descobertas marcantes.


Fulgurante é um bom adjectivo para Cinesapiens. Esta é a primeira produção portuguesa a usar o 3D e  explora o papel do público na experiência de ver um filme, utilizando um grupo de espectadores dentro de uma sala de cinema em Guimarães. O estilo ousado e mordaz de Edgar Pêra está em todo o seu esplendor nesta curta-metragem, que é provavelmente o melhor momento de 3X3D. O 3D revelou-se mais uma forma de Pêra experimentar e se reinventar, onde não faltam todas as características que o distinguem, seja a sobreposição de imagens, a utilização da cor, muitas vezes vibrante, outras a preto e branco, a distorção da voz e da imagem, e um argumento verdadeiramente original, crítico e alucinante, que entre exageros e momentos hilariantes, vai, subtilmente, sendo muito mais profundo do que parece. A análise do espectador ao longo do tempo - saltitando por momentos marcantes da História da Sétima Arte, onde nem o comboio dos Lumière falta - revela-se uma ideia curiosa e desafiante, culminando na desordem típica e quase surreal de Pêra. E quem deverá sobreviver? Os espectadores realistas ou os Cinesapiens, alienados pela tecnologia e pelo espírito comercial? Nuno Melo tem, uma vez mais, uma excelente prestação, desdobrando-se em curiosas personagens. 

Por fim, quem menos uso fez do 3D - mas que não deixa de também reflectir sobre ele - é Godard no seu tom mais experimental e introspectivo, a menos eficaz das três curtas-metragens. The Three Disasters é o vídeo-ensaio do cineasta que parte de material de arquivo para se debruçar sobre a fragmentação da história e a sua intersecção com a história do cinema.


Quanto ao 3D, reconheço claramente que - especialmente nos dois primeiros segmentos - o trabalho é exaustivo e proporciona uma experiência diferente do habitual, com uma profundidade pouco comum, que nos coloca dentro do filme como poucos conseguem fazer. Ainda assim, é de lamentar que a visualização em 3D da sessão de dia 30 de Abril não tenha permitido ao espectador desfrutar do momento na sua plenitude - seja por más condições da projecção, dos óculos, do lugar na sala ou decorrentes do olhar de cada um. No final do filme, foram muitos os que se queixaram de dificuldade na visualização do 3X3D, havendo mesmo momentos em que era impossível focar qualquer plano no ecrã. Noutras condições a experiência tridimensional teria sido, certamente, muito mais agradável mesmo para quem não é fã desta tecnologia.

A 3X3D - e tal como aconteceu com Centro Histórico - falta um pouco mais de unidade fílmica entre as três curtas-metragens para as sentirmos a trabalhar em conjunto. Sobressai - e muito -, pela originalidade e arrojo, Cinesapiens, seguindo de Just in Time, um belo cartão de visita da cidade berço. 3X3D é, acima de tudo, uma forma muito moderna de percorrer a memória e o futuro: em três dimensões.

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