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sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Caminhos do Cinema Português 2023: De 10 a 18 de Novembro em Coimbra

A 29ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português acontece de 10 a 18 de Novembro, em Coimbra, com a exibição de 156 filmes.

A Sessão de Abertura acontece no dia 10 de Novembro, às 21h30 no Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), com a projecção de Figueira da Foz, Rainha das Praias Portuguesas (Manuel Santos, 1930), Colheita da Batata (Adriano Coelho, 1930), Imagens de Portugal 23 (Vários Realizadores, 1954) Vinho do Porto (Adriano Ramos Pinto, 1937) e S. Miguel, 1924 – Um Filme De Família (Charles Mallet, 1924), "quatro filmes representativos da cultura popular portuguesa, acompanhados e reinterpretados por Ana Lua Caiano", numa cine-performance. 

O Caminhos encerra no dia 18 Novembro, na Antiga Igreja do Convento de São Francisco, com a entrega de prémios e a actuação de Hélder Bruno num cine-concerto com a curta-metragem Outubro Acabou, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes.


Secções Competitivas

No TAGV, serão exibidos os filmes das Selecções Caminhos e Ensaios. Na primeira, destaque para Baan, a primeira ficção de Leonor Teles; A Primeira Idade, de Alexander David; Vadio, de Simão Cayatte; Great Yarmouth – Provisional Figures, de Marco Martins; O Bêbado, de André Marques; Rosinha e Outros Bichos do Mato, de Marta Pessoa; e The Nothingness Club - Não Sou Nada, de Edgar Pêra.

Baan, de Leonor Teles

Na Selecção Ensaios, encontram-se produções provenientes do universo académico, nacional e internacional. Entre as obras a concurso, destaque para: Berço, de Carolina Costa; Mãos de Fado, de Alejandro Oropeza, Ana Rita Damasceno, Carolina Mendes, João Tomás Santos e Pedro Fernandes; Eschaton Ad, de Andrea Gatopoulos; e Daydreaming So Vividly About Our Spanish Holidays, de Christian Avilés.

A Casa do Cinema de Coimbra recebe Outros Olhares, que conta com filmes como Onde está o Pessoa?, de Leonor Areal; Uma História do Espectador de Cinema, de José Filipe Costa; Soma das Partes, de Edgar Ferreira; e A Viagem do Rei, de João Pedro Moreira.


Mostras Paralelas

Da mostra Filmes do Mundo, em exibição entre 13 e 17 de Novembro, pelas 15h00, destaque para Mountain Onion, de Eldar Shibanov, e Love Dogs, de Bianca Lucas.

Já nos dias 16 e 17 Novembro, às 23h59, a mostra Turno da Noite apresenta uma sessão de curtas-metragens de terror, com Paralisia, de Inês Monteiro, e Monsieur Sachet, de Mathieu Girard, e outra com Catboy, de Xaho, e New Kings on the Block, de Erika Lust.

Durante as manhãs, o Caminhos Juniores recebe grupos escolares, com sessões de cinema de animação dedicadas aos mais novos. As inscrições podem ser feitas em caminhos.info/grupos.


Ciclo: O Poder das Representações 

Em parceria com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o ciclo O Poder das Representações começa no dia 13 Novembro, às 16h00, "com uma mesa redonda em torno do tema 'Imaginários da Violência Sexual' com Sofia José Santos (CES/FEUC), Júlia Garraio (CES), Rita Alcaire (CES) e João R. Pais (CCP)". Até 17 Novembro, são exibidos, no Auditório Salgado Zenha, filmes que abordam a violência sexual de diferentes formas: Sopa Fria, de Marta Monteiro, No Canto Rosa, de Cláudia Rita Oliveira, Céu Aberto, ou Espaço Limitado, de José António Loureiro, e Mentes que sentem, de Ricardo Pinto Reis e Dânia Viana, entre outros.

Além das secções competitivas, o Caminhos do Cinema Português quer "alargar as possibilidades do cinema português chegar aos diversos públicos da região centro, levando a sua programação ao Cine-Teatro Messias, na Mealhada, e ao Auditório Municipal de Penacova, exibindo tanto uma selecção dos filmes em competição, como um criterioso programa de 'formação de públicos' com as secções Caminhos Juniores, dedicado às crianças em idade pré-escolar e do 1.º ciclo de ensino, e os Caminhos Juvenis em que será exibida a longa-metragem de Edgar Pêra, Não Sou Nada".

No Canto Rosa, de Cláudia Rita Oliveira

Masterclasses

O festival vai organizar quatro masterclasses dadas por profissionais da área do cinema. Na Casa do Cinema de Coimbra, Miguel Dores apresenta Revisitar Alcindo – concorrências entre processos fílmicos e processos sociais (dia 10 de Novembro, às 15h00), Leonor Areal Dar forma à matéria, no documentário (dia 11 de Novembro, às 15h00), e Nádia Henriques aborda A escuta como método de criação. A 15 Novembro, pelas 14h30, o Cine-Teatro Messias recebe Nuno Beato para falar sobre O processo criativo no filme Os Demónios do Meu Avô. "Explorando este contacto entre espectadores e criadores, nos dias 15 e 16 de Novembro é promovida a 2.ª edição do Programa Incentivar que procura descobrir novas ideias para novos filmes a produzir na região centro".


Toda a informação sobre o Festival Caminhos do Cinema Português pode ser consultada em https://www.caminhos.info/.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Estreias da Semana #585

Esta Quinta-feira, chegam aos cinemas portugueses sete novos filmes. Destaque para a estreia de Não Sou Nada – The Nothingness Club, de Edgar Pêra, e O Assassino, de David Fincher.

Kompromat - O Dossier Russo (2022)
Kompromat
Rússia, 2017. Mathieu Roussel (Gilles Lellouche) trabalha para uma organização francesa em Irkutsk. Preso diante da filha, descobre que foi vítima de um "kompromat", um esquema de falsas acusações gerado pelos serviços secretos russos a fim de justificar a detenção de alegados inimigos do Estado. Ameaçado de prisão perpétua, a Mathieu só resta tentar fugir para França pelos seus próprios meios.

Marcha Sobre Roma (2022)
Marcia su Roma
Através de material de arquivo pouco visto e da sua análise cinematográfica, o historiador e crítico de cinema Mark Cousins narra a ascensão do fascismo em Itália e a sua difusão pela Europa dos anos 30. Simultaneamente filme de ensaio e documento histórico, Marcia su Roma contextualiza a história e traça paralelos com a paisagem política atual, marcada pela progressão da extrema-direita e por meios de comunicação manipulados.

Não Sou Nada – The Nothingness Club (2023)
Thriller psicológico que decorre dentro da cabeça de Fernando Pessoa. No seu Clube do Nada, habitado por heterónimos, o poeta consegue concretizar todos os seus sonhos em vida. Mas a entrada em cena de uma mulher sofisticada, muito diferente da Ofélia do mundo real, vem destabilizar o Clube, enquanto o ultrajante heterónimo vanguardista, Álvaro de Campos, disputa a autoridade de Pessoa de forma violenta.

O Assassino (2023)
The Killer
Em Paris, um assassino solitário e frio, metódico e livre de escrúpulos, ou arrependimentos, aguarda pacientemente pelo seu alvo. Quando o momento chega, inesperadamente, falha. Um erro que terá consequências violentas para todos os que o rodeiam.

Saw X (2023)
Entre os acontecimentos de Saw e Saw II, um John Kramer doente e desesperado viaja para o México na esperança de uma cura milagrosa para o seu cancro. Acaba por descobrir que toda a história não é mais do que uma fraude para iludir os vulneráveis. Na posse de um novo objectivo, o infame assassino em série regressa ao trabalho, invertendo o jogo dos burlões com a sua característica abordagem e recorrendo às mais engenhosas e perversas armadilhas.

Trolls 3 - Todos Juntos! (2023)
Trolls Band Together
Após dois filmes de  amizade e namorico, Poppy e Branch são oficialmente um casal. Mas Poppy descobre que Branch tem um passado secreto. Ele fez parte da sua banda favorita, os BroZone, juntamente com os quatro irmãos: Floyd, John Dory, Spruce e Clay. Os BroZone separam-se quando Branch era ainda um bebé e não voltaram a ver-se desde então. Mas quando Floyd é sequestrado por uma dupla de vilões, Branch e Poppy iniciam um busca emocionante para reunir os irmãos e salvar Floyd de um destino ainda pior do que a obscuridade da cultura pop.

Uma Profissão Séria (2023)
Un métier sérieux
É o regresso às aulas. Um novo ano escolar no colégio onde trabalham Pierre, Meriem, Fouad, Sophie, Sandrine, Alix e Sofiane, um grupo de professores aplicados e unidos. A eles junta-se Benjamin, um jovem professor substituto sem experiência, que depressa se vê confrontado com os desafios da profissão. No contacto com eles, descobrirá o quanto a paixão pelo ensino permanece viva na frágil instituição.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: Fitas Cirurgykas (2021), de Edgar Pêra

*6.5/10*

Na secção Director's Cut do IndieLisboa 2021, Fitas Cirurgykas constrói-se a partir de "imagens de Domingos de Oliveira Santos, um cirurgião tornado cineasta". Edgar Pêra "compõe um mosaico que vai além dos vídeos caseiros, transbordando-os".

Das imagens de uma sala de operações, passamos para as brincadeiras de crianças na rua, para a interacção de homens e mulheres com animais, seja o cão da família, um macaco ou o boi e a vaca que ajudam nos trabalhos pesados. O trabalho junto ao mar, o vendedor de castanhas na cidade ou o parque de diversões, tudo se conjuga nestas Fitas Cirugykas que guardam memórias de rostos mas também de locais e de uma época. A curta-metragem faz parte do projecto Campanhã é a Minha Casa, no âmbito do programa Cultura em Expansão da Câmara Municipal do Porto.

E numa viagem entre a imaginação infantil e o quotidiano dos adultos - também eles animados -, Edgar Pêra aplica os seus jogos entre som e imagem, que tão bem caracterizam os seus filmes.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Momentos para Recordar #64

Em dia de Carnaval, o Momentos para Recordar destaca o filme de Edgar Pêra, Delírio em Las Vedras, uma autêntica folia filmada em plenos festejos do Carnaval de Torres Vedras. 

Uma comédia de costumes com o toque sempre surreal do realizador português. No elenco, encontramos - bem mascarados - Nuno Melo, Albano Jerónimo, José Raposo, Sofia Ribeiro, José de Pina, Rui Melo, Marina Albuquerque, Miguel Borges, Marco Paiva, Jorge Prendas, Miguel Pereira, João Sodré e Mafalda Matos.

Delírio em Las Vedras, Edgar Pêra (2016)

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

LEFFEST'18: Caminhos Magnétykos (2018)

"O dinheiro não é tudo..."

*7/10*

Em Caminhos Magnétykos, Edgar Pêra regressa à ficção surrealista a que já nos tem habituado, criando uma realidade que relembra ditaduras passadas, tão depressa como utiliza as ideias mais actuais e futuristas. O filme guia-nos por cenários que vão do tradicional ao moderno, sempre com distorções de imagens e sons, de luzes e cores alucinogénas.

Eis esta nova ditadura ultraliberal, um liberalismo ultraconservador, ou nem uma coisa nem outra. Mas temos um primeiro-ministro-celebridade televisiva com algo semelhante às conversas em família de Marcelo Caetano; Donald Trump surge sorrateiramente e os poderosos continuam a mandar no país. É novamente de admirar como mais um conto de Branquinho da Fonseca consegue ser tão bem adaptado na actualidade. Edgar Pêra inspira-se no autor pela terceira vez, após Rio Turvo e O Barão.


Em Caminhos Magnétykos, Raymond (Dominique Pinon), 60 e poucos anos, parisiense, autor de filmes fotográficos e BDs, veio para Portugal com o 25 Abril, apaixonou-se e ficou, onde reside há 40 anos. A sua actividade entrou em decadência e Raymond vive na dependência económica da sua mulher Gertrudes. Caminhos Magnétykos desenrola-se no dia do casamento da sua filha de 21 anos, Catarina (Alba Baptista), com Damião (Paulo Pires), um homem rico mais velho que ela. Em Lisboa, vive-se uma guerra civil.

Entre alguma paródia, surge o drama familiar e os dilemas de um pai que acaba de casar a filha preferida. Um existencialismo latente em Raymond vai-se desenvolvendo ao longo do filme, com o protagonista a questionar a sua vida e crenças. As ruas da cidade levam-no a encontrar-se com velhos amigos de ideais místicos ou revolucionários.

Após o encontro com a personagem de Ney Matogrosso, a expressão "o dinheiro não é tudo" passa a atormentar Raymond até ao final, num ambiente por vezes fantasmagórico.


No elenco, destaque para o protagonista Dominique Pinon, mas também para os papéis de Ney Matogrosso, Albano Jerónimo, Alba Baptista, Paulo Pires, António Durães e Teresa Ovídeo. Ao mesmo tempo, a banda sonora é outro ponto forte do filme de Pêra, com a música a cargo de Manuel de Oliveira, Paulo Furtado e Tó Trips.

Caminhos Magnétykos são mais um inspirado trabalho de Edgar Pêra, repleto da sua marcada estética e com ideias provocatórias e inebriantes.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

LEFFEST'18: David Lynch, João Botelho, Mike Leigh, Paul Schrader e mais...

O LEFFEST - Lisbon & Sintra Film Festival acontece entre os dias 16 e 25 de Novembro, mas já revelou alguns dos destaques programação desta edição.

Lisboa e Sintra voltam a ser palco do festival que, este ano, irá homenagear o cineasta português João Botelho, com a apresentação da retrospectiva da sua obra. Também os realizadores Mike Leigh, Paul Schrader, Mario Martone e Darezhan Omirbayev estarão presentes do evento para acompanhar as suas retrospectivas.


A obra de David Lynch está em destaque na programação deste ano - começando, desde logo, no cartaz da 12.ª edição, recordando a sua presença na edição inaugural do festival, em 2007. Para além de duas exposições de fotografia Small Stories, de David Lynch e Psychogenic Fugue, de Sandro Miller, o LEFFEST exibirá os filmes e vídeos de Lynch dos últimos 12 anos, incluindo os dois primeiros episódios de Twin Peaks – The Return, bem como uma série de iniciativas à volta da sua obra, contando com a participação de Chrysta Bell e Kristine McKenna, entre outros.

Haverá lugar ainda para sessões especiais dos filmes Caminhos Magnéticos, de Edgar Pêra, Ainda Tenho Um Sonho ou Dois – a História dos Pop Dell’Arte, de Nuno Galopim e Nuno Duarte, além dos works in progress de Mathieu Amalric.

Já é conhecido o júri da Selecção Oficial – Em Competição que será composto por Walter Salles (realizador), Martha Argerich (pianista), Johathan Littell (escritor e realizador), Stephen Kovacevich (pianista e maestro), Chrysta Bell (cantora, compositora e actriz) e Jorge Queiroz (artista plástico). Desta secção, já foram apresentados 10 filmes:

A Portuguesa, Rita Azevedo Gomes (2018), Portugal
Asako I & II, Ryusuke Hamaguchi (2018), Japão, França
In My Room, Ulrich Köhler (2018), Alemanha
L'Empire de la Perfection, Julien Faraut (2018), França
L'homme fidèle, Louis Garrel (2018), França 
Di qiu zui hou de ye wan, Gan Bi (2018), China 
Ozen, Emir Baigazin (2018), Casaquistão, Polónia 
Sedução da Carne, Júlio Bressane (2018), Brasil 
Transit, Christian Petzold (2018), Alemanha, França
Vox Lux, Brady Corbet (2018), EUA

Fora de Competição estão também já anunciados alguns filmes a exibir:

The Sisters Brothers, Jacques Audiard (2018), França, Bélgica, Roménia, Espanha
Capharnaum, Nadine Labaki (2018), Líbano 
High Life, Claire Denis (2018), Alemanha, França, EUA, Reino Unido, Polónia
Loro, Paolo Sorrentino (2018), Itália, França
Non Fiction, Olivier Assayas (2018), França 
The Wild Pear Tree, Nuri Bilge Ceylan (2018), Turquia, França, Alemanha, Bulgária, Macedónia, Bósnia Herzegovina, Suécia 
Shoplifters, Kore-eda Hirokazu (2018), Japão 
Beautiful Boy, Felix Van Groeningen (2018), EUA
Touch Me Not, Adina Pintilie (2018), Roménia, Alemanha, Republica Checa, Bulgária, França 
Las Herederas, Marcelo Martinessi (2018), Paraguai, Uruguai, Alemanha, Brasil, Noruega, França 
Ang panahon ng halimaw, Lav Diaz (2018), Filipinas

Entre os ciclos apresentados nesta 12.ª edição do LEFFEST estão O Desejo Chamado Utopia e Neoliberalismo - A Semente do Populismo e dos Novos Fascismos?, que contarão com a presença de vários convidados internacionais, com exibição de filmes.

Será apresentado o espectáculo Dub Love, da coreógrafa, bailarina e artista Cecilia Bengolea e de François Chaignaud, que desmitifica o modelo clássico do corpo e o olhar do espectador acerca da dança contemporânea.

Ainda de destacar, a exibição de La Flor, um dos filmes que marcou 2018, não estará online ou em DVD, nem terá mesmo cartazes. A longa-metragem (de cerca de 14 horas) poderá ser vista no LEFFEST, nos primeiros dias do festival, apresentada pelo seu realizador, Mariano Llinás.

Mais informações sobre o Lisbon & Sintra Film Festival em www.leffest.com.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

IndieLisboa'18: O Homem-Pykante – Diálogos com Pimenta (2018)

*8.5/10*


Edgar Pêra continua fiel a si e a pôr muito amor nos filmes que faz. Agora, traz para o grande ecrã  O Homem-Pykante – Diálogos com Pimenta num elogio ao poeta e performer português, Alberto Pimenta. Sem pimenta ou papas na língua, é fácil aceitar o convite para descobrir mais sobre o percurso do artista, embalados pelo estilo inconfundível de Pêra - e os dois entendem-se tão bem já há 24 anos...

O filme foca-se na poesia de Alberto Pimenta, mas também na sua importância enquanto pioneiro da performance em Portugal. O momento em que, em 1977, no Jardim Zoológico, Pimenta trancou -se numa jaula (junto à dos macacos) com uma tabuleta indicando “Homem (Homo sapiens)” é um dos que poderemos relembrar neste filme-performance ou filme-poema.

O Homem-Pykante - Diálogos com Pimenta homenageia o artista, e é quase tão desafiante como a sua obra. Arquivos - filmados por Edgar Pêra entre 1994 e 2018 - de conversas, leituras ou performances de Alberto Pimenta, a que se juntam imagens de arquivo e performances de alguns actores habituais do realizador (Miguel Borges e Marina Albuquerque, por exemplo) constroem este desafiante filme.


Entre o experimentalismo de Pêra e o de Pimenta, recupera-se a obra quase dadaísta e, ao mesmo tempo, tão crítica do poeta. O documentário convida-nos a conhecer mais, a rir e a chorar a rir com as suas palavras aparentemente vazias mas cheias de complexidade.

Depois, Edgar Pêra faz o resto: as suas típicas distorções de som (ou flores a cair como bombas), sobreposições de imagens, e a história nasce.

O Homem-Pykante – Diálogos com Pimenta fez parte das Sessões Especiais do IndieLisboa'18 e foi exibido perante um auditório quase cheio, numa emotiva sessão, onde realizador e poeta apresentaram o filme.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Filme da Minha Vida, por Edgar Pêra

O Filme da Minha Vida
por Edgar Pêra

As Aventuras de Buckaroo Banzai na Oitava Dimensão não é o melhor filme do mundo (mas qual é? para mim de certeza que não é Vertigo) nem consta das listas de melhores filmes de sempre, no entanto é o filme que mais vezes vi. Nunca o visionei numa sala de cinema mas vi-o mais de 4 dezenas de vezes numa sala de tver. Porque vi Buckaroo tantas vezes? Qual seria o motivo? Antes de mais, Buckaroo estimula no espectador o estatuto de fã (de cinema de culto). Os fãs convencionais de ficção científica tinham Star Wars e Star Trek, nós tínhamos Buckaroo.

Vi Buckaroo pela primeira vez em 1985, na companhia de correligionários e parceiros de aventuras, amigos das áreas do cinema, da escrita e da música pop/rock. O ambiente era quase sempre de festa. Estes visionamentos selvagens aproximavam-se das sessões dos primórdios do cinema, em que os espectadores ainda não se encontravam domesticados. Procurávamos alternativas de modos de viver e de criar no cinema de tendência trans-realista e Buckaroo foi o catalisador de dezenas de noites de galhofa e transe. Conhecíamos os diálogos e todos os pequenos detalhes de nonsense que a narrativa comportava. A arte do filme estava nos nossos olhos. Totalmente descomplexado, Buckaroo era sincrónico com os nossos propósitos: fazer ruir o sistema de sobriedade vigente.

Escrito por Earl Mac Rauch e realizado por W.D. Richter, As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da Oitava Dimensão é o resultado da harmonia total de pormenores, do guião ao casting, da banda sonora minimal pop aos adereços ecológicos alienígenas low-fi, tudo se combina para produzir uma pequena pérola de cine-paródia, que assenta nessa constante revelação: “isto é apenas um filme”.

Mas afinal quem é Buckaroo Banzai? Buckaroo Banzai é um (super)crioulo nipo-americano renascentista: neuro-cirurgião, astrofísico cantor e guitarrista rock, piloto de ensaio, protagonista de um comic (da Marvel), e líder dos Hong Kong Cavaliers, cuja sede é um ultra-sofisticado autocarro (inspirado numa capa de um disco de Elvis Costello) que os leva em tournée. Richter procurava no actor que interpretasse Buckaroo alguém que pudesse parecer heróico mesmo cheio de graxa na cara e que ao mesmo tempo projectasse a inteligência que associamos a um neurocirurgião ou inventor. Escolheu Peter Weller - o Buckaroo perfeito, com os seus olhos azuis cristalinos e penetrantes, actor-guitarrista-cantor multifacetado como o herói que interpreta. O naipe de personagens rivaliza com o de filmes como Casablanca: todos os actores são espectacularmente idiossincráticos, com um destaque especial para o Dr. Emilio Lizardo, interpretado por John Lithgow. É graças a esta personagem monty-pytonesca - um cientista italiano possuído por um lectróide do planeta dez da Oitava Dimensão - que o filme entra literalmente noutra dimensão, de delírio puro. É também graças a Lizardo que a palavra flashback se materializa pela primeira vez numa película (ver foto).


Esta paródia trans-realista, que começa como se fosse o comic-book número 123 de uma série, não se preocupando em explicar as múltiplas ramificações narrativas implícitas nos diálogos entre personagens com nomes como Perfect Tommy e  New Jersey (para além de que John é o primeiro nome de todos os invasores alienígenas – e não são poucos). O filme abre com Buckaroo Banzai a operar o cérebro de um esquimó para pouco depois pilotar um carro supersónico e atravessar uma montanha, entrando numa zona negativa infra-atómica, habitada por criaturas lovecraftianas em rota de colisão com o seu veículo. A pretexto dos relatos radiofónicos de Orson Welles de uma invasão extraterrestre, que geraram o pânico nos Estados Unidos, o argumentista encontrou uma solução inter-textual e inter-media (da rádio ao cinema, da realidade à ficção) e cozinhou uma premissa genial: e se a invasão de 1938 tivesse sido real e os invasores Lectróides tivessem raptado Welles, obrigando-o a radiodifundir que a invasão alienígena era apenas de uma encenação (e desde aí ocuparam o nosso planeta, camuflados)? E tudo isso explicado ao piano por Jeff Goldblum vestido de cowboy-palhaço?

Os alienígenas-bons desta fita imitam rudimentarmente a cultura terráquea: são pseudo-rastas que comunicam através de uma gramática invertida (sujeito depois do verbo) e de uma linguagem gestual estilo alien-hip-hop. O filme não pára nos créditos finais (que Wes Anderson citou em The Life Aquatic with Steve Zissou): são um cine-épico de simplicidade, entre a passagem de modelos e o desfile carnavalesco de uma banda pop. E ainda hoje há quem aguarde ansiosamente pela sequela anunciada no fim do filme (quem me dera ser eu a fazê-la, claro).

Buckaroo é um filme para quem não tem medo de não saber tudo e nesse sentido influenciou-me tanto como Eraserhead. Quis mais tarde criar no espectador dos meus filmes essa mesma sensação, de que um filme é um mistério, que merece múltiplas visitas de espírito aberto.

As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da Oitava Dimensão é à primeira vista o típico filme de aventuras pós-moderno, repleto de citações e clichés reciclados, da pulp fiction (Doc Savage) e de séries de ficção científica (Outer Limits) mas, a meu ver, vai muito mais longe do que os seus companheiros de viagem, quer seja  Indiana Jones ou até Jack Burton de Carpenter (que conta também com um argumento de Richter). Como afirma o recém convertido Bowes, a atenção que o filme exige do espectador coloca-o numa categoria diferente de outros filmes de (regresso ao) entretenimento. Buckaroo é um filme que se insere na tradição da cine-paródia, aderindo à ideologia do série B-ismo, ridicularizando e desconstruindo convenções do género, criando novas regras e atitudes. Sem proselitismos nem austeridades. Querem melhor de um filme menor?  

Termino citando uma expressão confucionista de Buckaroo: “No matter where you go… there you are”. 

*texto adaptado de artigo para revista Argumento.
__________

Edgar Pêra é realizador e na sua extensa filmografia encontramos títulos como A Janela (Maryalva mix), O Barão ou, mais recentemente, Virados do Avesso - entre muitos outros.

Agradeço ao Edgar ter aceite o meu desafio!

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Doclisboa'14: Lisbon Revisited (2014)

*7/10*

Edgar Pêra trouxe à Competição Internacional de Longas-metragens do Doclisboa o seu Lisbon Revisited, um título que nos conduz numa viagem a Lisboa, através dos olhos do realizador e das palavras de Fernando Pessoa.


A capital surge-nos irreconhecível - ainda distinguimos o Aqueduto das Águas Livres, as torres das Amoreiras ou a Sé, por exemplo -, com cores diferentes daquelas a que nos habituamos a ver. A visita a Lisboa é acompanhada por narrações de textos de Fernando Pessoa, que parecem ter sido escritos para a maioria das imagens que vemos, ele e os seus heterónimos são o nosso guia.

O estilo de Edgar Pêra está, pois claro, bem vincado, apesar de ser francamente mais experimental do que o habitual. Mas continuam aqui os jogos de som, com distorção de vozes, e os jogos de cor, sobreposição de imagens e uma espécie de atordoamento da plateia. O realizador parece rendido ao 3D, que tem momentos muito interessantes.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

IndieLisboa'14: 3X3D (2013)

*7/10*

Nas Sessões Especiais do IndieLisboa, mais uma longa-metragem feita no âmbito do Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura. Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard apresentam-nos três segmentos em 3D sobre Guimarães e sobre o Cinema (Guimarães está bem presente nos dois primeiros, a História do Cinema nos dois últimos).

Just in Time é o título do segmento de Greenaway, que relembra a História da cidade, atravessando dois milénios ao redor do Paço dos Duques de Bragança, que segue um percurso entre a Praça da Oliveira, a igreja da Senhora da Oliveira e os claustros do Museu Alberto Sampaio. 

Com o realizador entramos numa visita guiada, repleta de planos sequência (dando a ilusão de um único), à cidade e à História de Guimarães. Apresentam-nos muitos dos principais nomes oriundos do berço da nação, acompanhados de legendas que surgem por todo o lado e de voz off, qual guia turístico. Olhamos para toda a parte mas é-nos impossível ver tudo. O realizador faz-nos caminhar pelos corredores e pelas ruas e leva-nos a entrar numa Igreja tridimensional, por entre tradições macabras e descobertas marcantes.


Fulgurante é um bom adjectivo para Cinesapiens. Esta é a primeira produção portuguesa a usar o 3D e  explora o papel do público na experiência de ver um filme, utilizando um grupo de espectadores dentro de uma sala de cinema em Guimarães. O estilo ousado e mordaz de Edgar Pêra está em todo o seu esplendor nesta curta-metragem, que é provavelmente o melhor momento de 3X3D. O 3D revelou-se mais uma forma de Pêra experimentar e se reinventar, onde não faltam todas as características que o distinguem, seja a sobreposição de imagens, a utilização da cor, muitas vezes vibrante, outras a preto e branco, a distorção da voz e da imagem, e um argumento verdadeiramente original, crítico e alucinante, que entre exageros e momentos hilariantes, vai, subtilmente, sendo muito mais profundo do que parece. A análise do espectador ao longo do tempo - saltitando por momentos marcantes da História da Sétima Arte, onde nem o comboio dos Lumière falta - revela-se uma ideia curiosa e desafiante, culminando na desordem típica e quase surreal de Pêra. E quem deverá sobreviver? Os espectadores realistas ou os Cinesapiens, alienados pela tecnologia e pelo espírito comercial? Nuno Melo tem, uma vez mais, uma excelente prestação, desdobrando-se em curiosas personagens. 

Por fim, quem menos uso fez do 3D - mas que não deixa de também reflectir sobre ele - é Godard no seu tom mais experimental e introspectivo, a menos eficaz das três curtas-metragens. The Three Disasters é o vídeo-ensaio do cineasta que parte de material de arquivo para se debruçar sobre a fragmentação da história e a sua intersecção com a história do cinema.


Quanto ao 3D, reconheço claramente que - especialmente nos dois primeiros segmentos - o trabalho é exaustivo e proporciona uma experiência diferente do habitual, com uma profundidade pouco comum, que nos coloca dentro do filme como poucos conseguem fazer. Ainda assim, é de lamentar que a visualização em 3D da sessão de dia 30 de Abril não tenha permitido ao espectador desfrutar do momento na sua plenitude - seja por más condições da projecção, dos óculos, do lugar na sala ou decorrentes do olhar de cada um. No final do filme, foram muitos os que se queixaram de dificuldade na visualização do 3X3D, havendo mesmo momentos em que era impossível focar qualquer plano no ecrã. Noutras condições a experiência tridimensional teria sido, certamente, muito mais agradável mesmo para quem não é fã desta tecnologia.

A 3X3D - e tal como aconteceu com Centro Histórico - falta um pouco mais de unidade fílmica entre as três curtas-metragens para as sentirmos a trabalhar em conjunto. Sobressai - e muito -, pela originalidade e arrojo, Cinesapiens, seguindo de Just in Time, um belo cartão de visita da cidade berço. 3X3D é, acima de tudo, uma forma muito moderna de percorrer a memória e o futuro: em três dimensões.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Doclisboa'12: Visões de Madredeus

*8/10*
Visões de Madredeus foi o filme de abertura da secção Heart Beat, que pela primeira vez contou com um filme português, no Doclisboa'12. Neste documentário, Edgar Pêra, que acompanhou a banda de 1987 a 2006, apresenta-nos uma espécie de cine-diários dos Madredeus, da Europa ao Oriente. 

A música, profunda e melancólica, que espelha toda uma alma nacional, aliada a todo um ambiente visual tão característico do realizador, oferecem-nos um filme intimista e arrepiante. E tudo começa no último concerto da tournée em 2006, em Tóquio.

Nas imagens iniciais, que nos mostram a capital japonesa, misturam-se os sons da cidade com a música da banda de forma brilhante. Pêra já nos acostumou a uma espécie de experimentalismo com o som e, mais ainda, com as imagens. E do fim para o início, Visões de Madredeus continua regressando aos primeiros anos da banda, onde vemos uma Teresa Salgueiro muito jovem.


Imagens de concertos e bastidores, onde os Madredeus nos são apresentados sem medos ou floreados, mas sim de uma forma muito íntima. Pêra é um amigo que os acompanha e nós também somos colocados nesse lugar. Assistimos ainda a testemunhos de fãs um pouco por todo o mundo, que são praticamente unânimes na escolha das palavras para caracterizar a música da banda, quer se fale com um japonês, com um italiano ou um francês.

Não fugindo à regra dos filmes de Edgar Pêra, Visões de Madredeus é visualmente assombroso, no melhor sentido da palavra. A distorção da imagem, da cor, e mesmo do som, resulta de forma singular, e a sua fusão com a música é fabulosa. Há uma espécie de movimento sempre presente no documentário, que lhe confere igualmente uma intensidade muito especial. Ao assistir à longa-metragem é quase impossível não sentir arrepios, pelo conjunto do que nos é apresentado e estamos a experienciar.

O realizador nunca tem receio de arriscar e gosta de experimentar. Visões de Madredeus é uma explosão de cor e sentimentos, que atravessam a sala de cinema, vindos directamente dos mais diferenciados pontos do globo. A história de quase 20 anos de uma banda acompanhada num documentário que mexe com os sentidos.