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sexta-feira, 9 de maio de 2014

IndieLisboa'14: Competição Internacional Curtas-metragens

Depois de breves análises à Competição Novíssimos e Competição Nacional de Curtas-metragens, debruço-me agora, para finalizar, sobre a Competição Internacional de Curtas. Dos mais de 30 títulos, apenas pude assistir a 12. Fica aqui um breve olhar sobre eles.

Symphony No. 42 - 7.5/10

Em 47 cenas, Symphony No.42 apresenta-nos situações surreais, baseadas na interacção dos homens com a natureza. Uma forte mensagem ecológica é-nos aqui transmitida, de forma irónica. Chegando mesmo a alcançar o mórbido e macabro, certo é que a curta-metragem de Réka Bucsi é muito eficaz. 

Até o Céu Leva Mais ou Menos 15 Minutos - 7/10

Até O Céu Leva Mais ou Menos 15 Minutos junta numa curta viagem de carro duas mães e três crianças barulhentas. A sorte é que até ao céu a viagem não é longa. Camila Battistetti traz-nos uma ternurenta curta-metragem com três pequenos protagonistas que entre birras, disputas, distracções e doces, irão conquistar os sorrisos da plateia.

Heights - 7/10

Em Heights, qual janela indiscreta, dialogam tempos e espaços captados com um iPhone, a partir de uma única janela, ao longo de um ano. Em split screen, observamos os espaços e tempos diferentes, numa espécie de voyeurismo que aguça a curiosidade do espectador. Um excelente e original trabalho de Calum Walter.

Substanz - 6.5/10

A partir de imagens captadas pelo realizador no Japão, em 2011, poucas semanas após o terramoto e o tsunami que atingiram o país, Substanz sobrepõe imagens e som para recriar a sensação de se estar perdido num país em estado de emergência. Ao recorrer à sobreposição de imagens, Sebastian Mez deixa-nos atordoados, mas também bem atentos para o cenário de caos e destruição que filma. Entre a catástrofe, o regresso à vida quotidiana dos japoneses e os noticiários, Substanz faz um retrato competente de um país e de uma catástrofe.

Förår - 6/10

Förår é uma ficção que tem por base um acontecimento inusitado, ocorrido numa pequena cidade sueca. Todavia, a memória não tem uma sequência linear e cada momento tem o seu próprio peso na sua reconstrução. Apesar do argumento pouco consistente, a curta-metragem de John Skoog é visualmente fascinante, obscura, perdida no isolamento do local onde vemos a imagem inesquecível da criança protagonista de arma das mãos. 

Reign of Silence - 6/10

Reign of Silence é uma ficção que experimenta, numa única cena, a acção do homem sobre a natureza imóvel e o regresso da paisagem à normalidade. São apenas sete minutos de contemplação. E, apesar de não vermos mais do que descreve a sinopse, a ondulação circular desta curta-metragem experimental de Lukas Marxt capta a nossa atenção como poucas.

The Man who mistook his wife for a hat - 6/10

The Man Who Mistook His Wife For a Hat é uma animação que com um traço muito simples adapta o conto homónimo de Oliver Sacks sobre uma estranha desordem neurológica. Ross Hogg oferece-nos uma curta-metragem divertida, leve e de traço agradável. 

As seguintes curtas-metragens já foram analisadas no post sobre a Competição Nacional de Curtas.





quinta-feira, 8 de maio de 2014

IndieLisboa'14: Competição Nacional Curtas-Metragens

Seguimos para a Competição Nacional de Curtas do IndieLisboa'14. Das 17 curtas-metragens em competição, assisti a 11, e aqui fica uma breve análise a cada uma delas.

Coro dos Amantes - 8.5/10

Coro dos Amantes é composto por três “canções” que, a duas vozes, contam o mesmo acontecimento asfixiante sob duas perspectivas diferentes. Tiago Guedes traz-nos uma belíssima curta-metragem dividida em três capítulos - ou canções - que retratam um momento dramático na vida de um casal, onde o amor fica lado a lado com a eminência da morte. O filme, em splitscreen do início ao fim, detém uma sensibilidade ímpar e um texto que não deixa a plateia desviar a atenção do ecrã. Gonçalo Waddington e Isabel Abreu têm prestações desafiantes e muito competentes. Coro dos Amantes foi talvez a melhor surpresa da Competição Nacional de Curtas desta edição.

A Caça Revoluções - 7.5/10

A Caça Revoluções é uma animação experimental que explora a relação entre duas gerações, dois tempos e duas lutas diferentes; é a Revolução de Abril a inspirar as gerações que apenas a conhecem através de relatos dos que a viveram e das fotografias de que nos apropriamos para a tornar nossa. Margarida Rego conta-nos uma bonita história a partir de uma foto e convida-nos a não deixar morrer a revolução, com uma subtil mas eficaz crítica social. 

Coisa de Alguém - 7.5/10

Em gavetas, caixas e estantes, etiquetadas e organizadas num espaço poeirento, guardam-se objectos, uma Coisa de Alguém: o departamento de perdidos e achados da PSP em Lisboa tem uma rotina diária que o filme de Susanne Malorny acompanha, ao mesmo tempo que reflecte sobre as ideias de propriedade, de perda e de encontro. Dos esquecimentos mais comuns - chapéus-de-chuva, carteiras, chaves, telemóveis - aos mais originais - bengalas, guitarras - , a realizadora traz-nos um excelente registo de um local repleto de Coisa[s] de Alguém. Um ambiente nostálgico, entre malas ou brinquedos, acompanhado da expectativa de quem recorre àquela divisão. Seguimos o percurso natural dos achados que continuam perdidos, um ano depois, e que são levados a leilão.

Ennui Ennui - 7/10

Ennui Ennui é um filme em três línguas, que junta uma drone, filha do presidente dos Estados Unidos da América, a troca de noivas tribal e o voluntariado ocidental. Gabriel Abrantes traz-nos uma paródia sobre o conflito militar no Afeganistão, com um rumo muito original. Sarcástico, provocador e extremamente divertido, Ennui Ennui é uma experiência delirante, com um visual cheio de cor.

Le Petit Prince au Pays qui Défile - 7/10

Le petit prince au pays qui défile, de Carina Freire, desenha um retrato íntimo do patinador artístico Stéphane Lambiel, duas vezes campeão do mundo e medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2006, em Turim. Ao lado da realizadora, o espectador é convidado a conhecer de perto o jovem luso-descendente por detrás da celebridade. A proximidade do documentário faz-nos entrar na intimidade de Lambiel, conhecer o seu ritmo diário, as muitas viagens para espectáculos ou as saudades que tem de um "pastel de nata" ou de uma "bica", em Portugal.

Varadouro - 7/10

No Faial, Açores, Varadouro percorre as piscinas naturais da região num documentário que de um momento para o outro ganha uma dimensão mitológica. Mais do que um bonito retrato turístico, capaz de captar a beleza do local, Paulo Abreu e João da Ponte percorrem a História e os mitos, e trazem-nos um documentário divertido e um eficaz cartão de visita.

As Rosas Brancas - 6.5/10

As Rosas Brancas, de Diogo Costa Amarante, é um conto sobre a memória, o luto e a alteração dos papéis na família. Na sequência da morte da mãe, os irmãos e o pai juntam-se em torno de uma campa na neve e tentam superar o vazio que a mãe deixou. As imagens dizem-nos mais que as palavras, e deixam no ar algumas sugestões que ficam no subtexto. As Rosas Brancas traz também consigo delicadeza, sensibilidade e um bom trabalho de fotografia.

Implausible Things - 6/10

A partir de material em 16mm, Implausible Things constrói sete quadros que, com diferentes propostas, convidam o espectador a abandonar as noções de razão e causalidade. Experimental e desafiador é assim o filme de Rita Macedo, que ganha pontos pela valorização da película.

Square Dance, Los Angeles County, Califórnia, 2013 - 5.5/10

A partir de fotografias tiradas por Russell Lee, ao abrigo de um programa federal de ajuda a agricultores afectados pela Grande Depressão que recolhia retratos de migrantes zonas rurais, Sílvia das Fadas constrói Square Dance, Los Angeles County, California, 2013 que recupera, de acordo com as emoções que as fotografias lhe suscitam, a vida e as relações destas pessoas. Um filme experimental que dança em conjunto com os rostos que vemos nas fotos que desfilam no ecrã. 

As Figuras Gravadas na Faca com a Seiva das Bananeiras - 5/10

As Figuras Gravadas na Faca com a Seiva das Bananeiras (o vencedor da Competição de Curtas-metragens desta 11ª edição do IndieLisboa) recupera a memória colonial em postais trocados, nos anos 60 e 70, entre a Ilha da Madeira e Moçambique. As boas intenções de Joana Pimenta não vão contudo além de um filme que poderia dar-nos mais do que aquilo que apresenta. Falta-lhe contexto e uma narração menos monótona, por exemplo.

Antero - 5/10

Um homem que acabou de sair da prisão onde passou os últimos anos regressa à sua aldeia movido por um desejo de vingança que o ajude a recuperar a sua dignidade. Ele procura Antero, mas as notícias que recebe não são as que esperava. O excelente desempenho de Cláudio da Silva como protagonista não chega para desculpar a inexistente conclusão de Antero. Ico Costa parte de uma interessante premissa que deixa a plateia curiosa, mas no fim, um vazio e a desilusão instala-se. De elogiar ainda assim é o trabalho de realização que nos presenteia com um bom plano sequência logo ao início da curta-metragem.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

IndieLisboa'14: Novíssimos

No rescaldo do IndieLisboa'14, guardei ainda algumas publicações do Hoje Vi(vi) um Filme para analisar as competições de curtas-metragens, falando um pouco dos filmes que tive oportunidade de ver. Começamos pela secção Novíssimos. Dos 12 filmes em competição (onde se incluía a longa-metragem O Primeiro Verão, a que não tive oportunidade de assistir) vi sete e falarei sobre eles de seguida.

Gata Má - 8/10

Em Gata Má, de Sara Augusto, Eva Mendes e Joana de Rosa, temos como protagonista uma menina cujos melhores amigos são gatos. A mãe diz que ela é especial. Já os gatos, isso só a criança sabe, mas às vezes são maus. As três realizadoras trouxeram-nos uma animação eficaz, curta, mas arrepiante.

A animação, predominantemente em tons de preto e vermelho, caracteriza-se pelo seu traço sóbrio, e pelo ambiente que deixa a plateia pouco à vontade. A narração, de voz frágil, destaca-se pelo tom inocente e, paradoxalmente, aterrador. Um excelente e original trabalho das realizadoras.

Alda - 8/10

Alda fala da transformação do mundo rural e das consequências para quem sempre ali viveu e já só se identifica com o interior da própria casa. Filipe Fonseca, Ana Cardoso, Liliana Sobreiro e Luís Cataló oferecem-nos uma animação simples mas agradável, com um traço delicado que mostra a beleza do campo.

Alda é um triste e belo retrato de resistência à mudança, de amor ao que mais preservamos como nosso. Sem falas, a música ambiente embala-nos numa história pouco feliz, mas cheia de sentimento e significado.

Meio Corte - 7/10 

A partir do plano de um comboio a passar, repetido diversas vezes, variando apenas o seu contexto e som, Nikolai Nekh oferece-nos Meio Corte. A curta-metragem parte do seguinte mote: "Para reivindicar os seus direitos laborais, os trabalhadores dos transportes públicos decidiram retirar o som aos comboios em circulação”. Irónico e original, Meio Corte introduz desenvolvimentos a esta reivindicação a cada passagem do comboio, onde contexto e som mudam a perspectiva do espectador.

A curta-metragem revela-se um desafio interessante para a plateia, a partir de uma ideia surpreendente e de um bom trabalho de som. No meio de tantas greves de transportes, aqui está uma forma diferente de manifestar descontentamento. Por que não?

Irmãs - 7/10

Irmãs é uma ficção construída a partir de imagens de proveniências diversas que acompanham um texto que conta como uma mãe, obcecada com a beleza delicada dos filhos, decide criá-los como raparigas e como eles crescem resignados com o facto, ao mesmo tempo que inventam uma vida fora desses corpos. Pedro Lucas trouxe-nos um argumento arriscado mas muito bem construído e desenvolvido, com a história a ser narrada por um dos rapazes.

Ao óptimo texto - com uma boa conclusão -, juntam-se as imagens de arquivo que desfilam perante nós enquanto a arrepiante história nos é contada. Sentimos o medo dos dois irmãos, o medo do mundo que os espera. "Todo o corpo é uma prisão", ouvimos a certa altura e Irmãs é um bom exemplo disso.

Em Cada Lar Perfeito um Coração Desfeito - 6.5/10

Em Cada Lar Perfeito um Coração Desfeito recorre às sete fases do amor enunciadas por Stendhal para, em sete segmentos, falar do desamor ou da realidade da desilusão. Joana Linda traz-nos um trabalho poético, enquanto percorre Admiração, Desejo, Esperança, Sedução, Desilusão, Aceitação e Fim.

Em Cada Lar Perfeito um Coração Desfeito assume um carácter algo experimental, usando manequins enquanto ouvimos ler uma troca de cartas de amor, contando-nos a história da Princesa e o Sapo, oferecendo-nos uma nova versão de Strangers in the Night, filmando pavões ou o mar... Imagens cheias de significadas, acompanhadas por um óptimo texto e com um excelente trabalho de fotografia.

É Consideravelmente Admirável da Tua Parte que Ainda Penses em Mim Como se Aqui Estivesse - 6/10

É Consideravelmente Admirável da tua Parte que Ainda Penses em Mim Como se Aqui Estivesse cria um ambiente alucinado que reflecte o desespero de , um músico esquizofrénico que quer regressar aos palcos. André Mendes e Andreia Neves trazem-nos uma história cheia de cor que balança entre alucinações e lembranças do passado.

Um certo surrealismo paira sobre esta curta-metragem que, acima de tudo, aborda a relação de um pai ausente com problemas psicológicos e a sua filha, que, ao que parece, continua a lembrá-lo.

O Silêncio Entre Duas Canções - 4/10

Em O Silêncio Entre Duas Canções conhecemos a história de dois irmãos, Lucas e Laura, a viver temporariamente em Berlim. A relação de enorme dependência entre ambos é abalada quando Lucas revela a vontade de permanecer na cidade, oposta à de Laura que só pensa em ir embora. Mónica Lima leva-nos até à Alemanha e filma o conflito entre dois irmãos.

O Silêncio Entre Duas Canções não se consegue distinguir por nenhum motivo especial. O argumento não adianta muito, com a curta-metragem a começar e terminar sem decisões, sem grandes mudanças, sem um plot twist, sem conclusão. A relação entre os actores tem química, mas sente-se, ainda assim, a falta de maior cumplicidade entre irmãos. Mónica Lima merece contudo elogios pelos bonitos planos que consegue captar ao longo da curta-metragem, onde, muitas vezes, joga com reflexos.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

IndieLisboa'14: Stand Clear of the Closing Doors (2013)

*7/10*

O IndieLisboa'14 acabou ontem, mas ainda há muito que dizer sobre o festival. Stand Clear of the Closing Doors, de Sam Fleischner, passou pela Competição Internacional e debruça-se sobre uma temática pouco comum no cinema: o autismo.

Sam Fleischner, que marcou presença na sessão de Sábado, no Cinema City do Campo Pequeno, oferece-nos com esta longa-metragem um retrato rigoroso e atordoante de uma doença pouco compreendida. O realizador consegue, de forma brilhante, colocar-nos no mundo da criança protagonista e fazer-nos sentir como ela.

Stand Clear of the Closing Doors é um drama familiar que conta a história de Mariana, uma imigrante mexicana em Nova Iorque, e do seu filho autista, Ricky, de 13 anos. Mariana trabalha como empregada de limpeza e vive no bairro costeiro de Rockaway Beach com os filhos, Ricky e Carla. Ricardo, o pai quase-ausente, trabalha fora da cidade e passa dias sem regressar. Um dia, Carla não vai buscar o irmão à escola. Ricky não volta para casa. Maravilhado por um misterioso dragão vermelho, embarca numa odisseia de descoberta nos túneis do metro de Nova Iorque, onde o confronto com situações bizarras o leva a interagir com o mundo. Passam-se dias sem sinais de Ricky e as diferenças e divisões da família vêm ao de cima. Entretanto, o furacão Sandy aproxima-se e começam as evacuações das zonas costeiras.

Mais do que o desespero de uma mãe que corre os arredores na busca pelo seu filho desaparecido, Fleischner soube filmar o deslumbramento e desorientação de Ricky. Tal como ele, seremos sensíveis aos sons que ouvimos, fortes e confusos - fruto de um excelente trabalho de som -, que nos incomodam, e prestaremos atenção a detalhes que, normalmente, não iríamos ver.

Sam Fleischner apostou numa temática forte e de difícil abordagem, e tentou desmistificar o autismo colocando a câmara como o olhar - e os ouvidos - do doente. O público sente o desconforto, mas sairá positivamente surpreendido com este Stand Clear of the Closing Doors.

domingo, 4 de maio de 2014

IndieLisboa'14: Vencedores

O IndieLisboa termina este Domingo, e foi nesta noite de Sábado, dia 3 de Maio, que ficámos a conhecer os grandes vencedores da 11ª edição do festival. Matar a un hombre, de Alejandro Fernández Almendras, e Mille soleils, de Mati Diop, são os grandes vencedores da Competição InternacionalAlentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut, também foi um dos grandes premiados da noite.


Aqui fica a lista completa de vencedores:

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa
Matar a un hombre, Alejandro Fernández Almendras (Chile, França)

Prémio Allianz - Digimaster para Melhor Longa Metragem Portuguesa

Grande Prémio de Curta Metragem
Mille soleils, Mati Diop (França, Senegal)

Menções Honrosas
Animação: Symphony no. 42, Réka Bucsi (Hungria)
Documentário: Escort, Guido Hendrikx (Holanda)
Ficção: Pouco Mais De Um Mês, André Novais Oliveira (Brasil)

Prémio Pixel Bunker para Melhor Curta Metragem Portuguesa
As Figuras Gravadas na Faca com a Seiva das Bananeiras, Joana Pimenta (Portugal, EUA)

Prémio Novo Talento FNAC
Implausible Things, Rita Macedo (Alemanha, Portugal)

Prémio Restart para Melhor Filme da Secção Novíssimos
O Primeiro Verão, Adriano Mendes (Portugal)

Prémio SIC Notícias Pulsar do Mundo
La marche à suivre, Jean-François Caissy (Canadá)

Menção Honrosa
Deux fois le même fleuve, Amir Borenstein, Effi Weiss (Belgium)

Prémio Amnistia Internacional
Death Row II, Werner Herzog (Reino Unido, Áustria)

Prémio Árvore da Vida para Melhor Filme Português
O Novo Testamento de Jesus Cristo segundo João, Joaquim Pinto, Nuno Leonel (Portugal)

Prémio de Distribuição TVCine
Les Apaches, Thierry de Peretti (França)

Prémio IndieJúnior Árvore da Vida
Rabbit and Deer, Péter Vácz (Hungria)

Prémio Culturgest Escolas
Heights, Calum Walter (EUA)

Prémio Culturgest Universidades
Mouton, Gilles Deroo, Marianne Pistone (França)

Prémio TAP para Longa Metragem Portuguesa de Ficção
O Primeiro Verão, Adriano Mendes (Portugal)

Prémio TAP para Documentário de Longa Metragem Portuguesa

Prémio do Público Multishow para Melhor Longa Metragem
Bambi, Sébastien Lifshitz (França)

Prémio do Público Sanuk para Melhor Curta Metragem
Our Curse, Tomasz Sliwinski (Polónia)

Prémio do Público IndieJúnior
Sissy, Siri Rutlin Harildstad (Noruega)

sábado, 3 de maio de 2014

IndieLisboa'14: Revolução Industrial (2014)

*5/10*


Revolução Industrial, de Tiago Hespanha e Frederico Lobo, faz parte da Competição Nacional e da secção Cinema Emergente do IndieLisboa. O documentário leva-nos numa viagem - muitas vezes de barco - às indústrias do vale do Rio Ave, que nasce na Serra da Cabreira e desagua em Vila do Conde. Estas foram, durante muito tempo, uma marca de desenvolvimento da região. As cidades cresceram em torno de fábricas, nas margens do rio, construíram-se estradas e auto-estradas, transformaram-se pequenas aldeias em meios urbanos aparentemente prósperos. Ao percorrermos o rio, conhecemos histórias onde o passado é lembrado, o presente vivido e o futuro talvez já não seja aquele que a industrialização prometia.

A premissa de Revolução Industrial fazia antever uma jornada interessante sobre uma região pouco documentada, sobre a crescente da indústria e, quem sabe, sobre o seu progressivo desaceleramento (se pensarmos desde logo nas fábricas que fecham). Mas o filme que Tiago Hespanha e Frederico Lobo nos trazem fica marcado por opções menos bem conseguidas e injustificadas, num trabalho que aparenta perder o rumo por diversas vezes.

O início do documentário promete realmente fazer reviver a História da região. São projectados negativos pertencentes a arquivos de associações, que mostram a chegada da indústria ao vale do Rio Ave. Seguem-se, contudo, imagens do trabalho em fábricas da região na actualidade, viagens de barco pelo rio - com planos longos e monótonos -, e deambulações, por aqui e por ali, onde ouvimos histórias narradas - cuja autoria e veracidade desconhecemos -, ou conhecemos alguns populares e as suas lembranças.

Ainda assim, podemos encontrar em Revolução Industrial alguns momentos cativantes: o melhor de todos é protagonizado por um grupo de adolescentes da região, que durante a exploração de uma antiga fábrica, agora abandonada (e convertida numa pista de skate improvisada), descobrem entre dossiers a colecção de Outono/Inverno 97/98. Aquele espaço serve agora de pista de skate improvisada.

Como conclusão, Revolução Industrial não nos transmite muito para além das imagens que salteou, parecendo não saber bem o que fazer com elas. O mote do documentário merecia que os realizadores lhe tivesse concedido um pouco mais de rumo, um caminho narrativo a seguir, para lá de onde a corrente do Rio Ave nos levasse.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

IndieLisboa'14: 3X3D (2013)

*7/10*

Nas Sessões Especiais do IndieLisboa, mais uma longa-metragem feita no âmbito do Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura. Peter Greenaway, Edgar Pêra e Jean-Luc Godard apresentam-nos três segmentos em 3D sobre Guimarães e sobre o Cinema (Guimarães está bem presente nos dois primeiros, a História do Cinema nos dois últimos).

Just in Time é o título do segmento de Greenaway, que relembra a História da cidade, atravessando dois milénios ao redor do Paço dos Duques de Bragança, que segue um percurso entre a Praça da Oliveira, a igreja da Senhora da Oliveira e os claustros do Museu Alberto Sampaio. 

Com o realizador entramos numa visita guiada, repleta de planos sequência (dando a ilusão de um único), à cidade e à História de Guimarães. Apresentam-nos muitos dos principais nomes oriundos do berço da nação, acompanhados de legendas que surgem por todo o lado e de voz off, qual guia turístico. Olhamos para toda a parte mas é-nos impossível ver tudo. O realizador faz-nos caminhar pelos corredores e pelas ruas e leva-nos a entrar numa Igreja tridimensional, por entre tradições macabras e descobertas marcantes.


Fulgurante é um bom adjectivo para Cinesapiens. Esta é a primeira produção portuguesa a usar o 3D e  explora o papel do público na experiência de ver um filme, utilizando um grupo de espectadores dentro de uma sala de cinema em Guimarães. O estilo ousado e mordaz de Edgar Pêra está em todo o seu esplendor nesta curta-metragem, que é provavelmente o melhor momento de 3X3D. O 3D revelou-se mais uma forma de Pêra experimentar e se reinventar, onde não faltam todas as características que o distinguem, seja a sobreposição de imagens, a utilização da cor, muitas vezes vibrante, outras a preto e branco, a distorção da voz e da imagem, e um argumento verdadeiramente original, crítico e alucinante, que entre exageros e momentos hilariantes, vai, subtilmente, sendo muito mais profundo do que parece. A análise do espectador ao longo do tempo - saltitando por momentos marcantes da História da Sétima Arte, onde nem o comboio dos Lumière falta - revela-se uma ideia curiosa e desafiante, culminando na desordem típica e quase surreal de Pêra. E quem deverá sobreviver? Os espectadores realistas ou os Cinesapiens, alienados pela tecnologia e pelo espírito comercial? Nuno Melo tem, uma vez mais, uma excelente prestação, desdobrando-se em curiosas personagens. 

Por fim, quem menos uso fez do 3D - mas que não deixa de também reflectir sobre ele - é Godard no seu tom mais experimental e introspectivo, a menos eficaz das três curtas-metragens. The Three Disasters é o vídeo-ensaio do cineasta que parte de material de arquivo para se debruçar sobre a fragmentação da história e a sua intersecção com a história do cinema.


Quanto ao 3D, reconheço claramente que - especialmente nos dois primeiros segmentos - o trabalho é exaustivo e proporciona uma experiência diferente do habitual, com uma profundidade pouco comum, que nos coloca dentro do filme como poucos conseguem fazer. Ainda assim, é de lamentar que a visualização em 3D da sessão de dia 30 de Abril não tenha permitido ao espectador desfrutar do momento na sua plenitude - seja por más condições da projecção, dos óculos, do lugar na sala ou decorrentes do olhar de cada um. No final do filme, foram muitos os que se queixaram de dificuldade na visualização do 3X3D, havendo mesmo momentos em que era impossível focar qualquer plano no ecrã. Noutras condições a experiência tridimensional teria sido, certamente, muito mais agradável mesmo para quem não é fã desta tecnologia.

A 3X3D - e tal como aconteceu com Centro Histórico - falta um pouco mais de unidade fílmica entre as três curtas-metragens para as sentirmos a trabalhar em conjunto. Sobressai - e muito -, pela originalidade e arrojo, Cinesapiens, seguindo de Just in Time, um belo cartão de visita da cidade berço. 3X3D é, acima de tudo, uma forma muito moderna de percorrer a memória e o futuro: em três dimensões.

terça-feira, 29 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Suzanne (2013)

*5.5/10*

Filme de Abertura da Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2013 e nomeado para cinco Césares, Suzanne prometia mais do que tinha para oferecer. No IndieLisboa'14, a segunda longa-metragem de Katell Quillévéré integra a secção Cinema Emergente e debruça-se sobre a história de Suzanne que nos é contada ao longo de 25 anos. Vamos conhecê-la desde a infância ao lado da irmã e do pai, passando por uma adolescência rebelde. 

As escolhas de Suzanne (Sara Forestier) comprometem fortemente a sua vida, arrastando a sua família para mudanças profundas. As elipses da história mostram-nos isso mesmo e como, apesar de tudo, o pai e a irmã estão sempre lá - mais ou menos próximos - na esperança da redenção da protagonista.

Aqui temos um drama familiar que começa bem cedo, com duas crianças a crescerem sem mãe, que faleceu, criadas por um pai carinhoso que lhes incute os melhores valores. Apesar disso, Suzanne não se mostra a jovem mais responsável e, já como mãe, denota essa irresponsabilidade e falta de apego - quer ao trabalho, quer ao filho. É uma mulher movida por paixões, mais propriamente por Julien, um homem que inspira pouca confiança e que não parece trazer o melhor futuro para aquela mulher. Suzanne só dá valor ao que tem quando o perde e, mesmo assim, sem evitar erros futuros.


Apesar da Família estar no centro do filme de Quillévéré e do drama vivido pelos seus membros, Suzanne não consegue tocar tão fundo como se faz esperar. Rapidamente nos daremos conta que criamos empatia com o pai viúvo e com Marie, a irmã mas nova e que nunca desiste, mas com a protagonista torna-se muito difícil. Acções irreflectidas, decisões egoístas e mimadas, mais amor por um homem do que pelo filho, tornam impossível não fazer juízos de valor perante momentos totalmente injustificados. Nada nos explica o que a move ou faz tomar atitudes tão irreflectidas - cada novo episódio apenas nos parece mais um capricho da protagonista.

É quase como se em Suzanne descobríssemos o lado negativo daquilo que vimos em Frances Ha, com mais pés mas sem a mesma cabeça. A comparação possível entre os dois filmes reside nas protagonistas, Suzanne e Frances Ha - as duas mulheres dão título aos filmes -, ambas irresponsáveis e que levam a vida como bem entendem sem pensar nas consequências. O que as distingue: enquanto Frances se diverte e faz por continuar o seu estilo de vida, Suzanne não poderia passar por mais provações.

Tecnicamente, o filme oferece-nos planos interessantes, muitos filmados de cima, acompanhados por uma bonita fotografia de Tom Harari e por uma banda sonora que é, talvez, o ponto mais positivo de todo o filme. Nas interpretações, as duas actrizes Sara Forestier e Adèle Haenel têm desempenhos sentidos e competentes, acompanhadas de perto por François Damiens, que faz de pai de ambas.

IndieLisboa'14: Double Play: James Benning and Richard Linklater (2013)

*7/10*

Na secção Director's Cut do IndieLisboa, Double Play: James Benning and Richard Linklater traz-nos um interessante documentário sobre dois realizadores tão diferentes mas que, afinal, parecem ter tanto em comum. Gabe Klinger (que marcou presença na sessão na Cinemateca Portuguesa) filma, intimamente, a amizade entre os dois cineastas e desvenda o que os distingue e o que os une. Este retrato da amizade entre Benning e Linklater é construído a partir de conversas filmadas entre os dois e imagens de arquivo.

Ao estilo experimental de Benning contrapomos o mais comercial Linklater. Percorremos alguns títulos da filmografia dos dois cineastas, que nos ajudam a encontrar semelhanças entre géneros, à partida, tão diferentes. Enquanto Benning, mais ligado às artes plásticas, se define como minimalista e apela muito mais à simples contemplação - ele filma comboios a passar, o céu, as estradas, os lagos... -, preferindo tomar as suas próprias decisões e trabalhar sozinho, Linklater - apesar de um início mais experimental - rendeu-se às massas e, com algumas excepções, trabalha para o público comercial.

Muito actual, Double Play já nos oferece conversas - e excertos - sobre Boyhood, o tão falado e aclamado filme que Richard Linklater demorou 12 anos a filmar, e que acompanha o crescimento de duas crianças, o protagonista e a filha do realizador. E aqui encontra-se um ponto em comum com Benning: o registo da passagem do tempo. Um esperou mais de uma década para completar o que tinha idealizado, o outro esperou 27 anos e realizou o mesmo filme, com os mesmos actores. Este é um dos exemplos mais flagrantes que nos fazem ver que as fronteiras entre géneros podem ser muito ténues.


Klinger consegue, com sucesso, intercalar as imagens de arquivo e de excertos de filmes com as conversas entre os dois cineastas que discutem o seu trabalho, percurso e passado. Os dois se apaixonaram pelo cinema depois de uma carreira no basebol durante a universidade. Os dois, passados tantos anos, são filmados a jogar basebol.

Double Play: James Benning and Richard Linklater é este "jogo" que traça um olhar sobre o passado e presente dos dois realizadores, tudo o que os une para além da forte amizade e tudo o que os pode distinguir. Do experimental ao comercial, afinal, não existem assim tantas diferenças.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Centro Histórico (2012)

*6.5/10*

Centro Histórico faz parte das Sessões Especiais do IndieLisboa'14 e foi recebido por uma sala Manoel de Oliveira muito bem composta. O documentário, realizado no âmbito da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, junta quatro aclamados realizadores nacionais e internacionais: Aki Kaurismäki, Pedro Costa, Víctor Erice e Manoel de Oliveira, e subdivide-se em quatro histórias, cada uma da responsabilidade de um realizador.

A cidade de Guimarães é menos elo de ligação dos quatro segmentos de Centro Histórico do que o título sugere. Já a História, essa sim, consegue encontrar-se mais facilmente como unificadora da unidade fílmica. Das quatro curtas-metragens que compõem o filme, a primeira e última surgem num tom mais descontraído, a segunda revela-se a mais pesada e mexe com as emoções da plateia, e a terceira, documental, revela-se um registo histórico curioso, de uma região marcada pelo fabrico de têxteis, agora em decadência. 

Centro Histórico começa com O Tasqueiro, do finlandês Aki Kaurismäki, uma comédia agridoce sem diálogos sobre um taberneiro, que vê muito sem realmente experimentar o que quer que seja. Kaurismäki mostra-nos o centro histórico de Guimarães. Dá-nos a conhecer, naquele palco, um taberneiro anónimo que ambiciona mais, mas que parece viver num desencanto constante. Simples, sóbrio e bonito, Kaurismäki soube bem filmar o berço da nação.

Segue-se Sweet Exorcist, de Pedro Costa, um mergulho reflexivo na memória colonial através de um elevador onde estão um emigrante cabo-verdiano, Ventura (personagem de outros filmes do realizador), e um soldado português. Profundo e duro, o filme vive de memórias, algumas mais confusas que outras, de traumas e de muita História. Falta-lhe apenas o palco ser Guimarães, que não é - nem podia ser com esta temática. Sweet Exorcist proporciona-nos uma interpretação extremamente emotiva de Ventura, e um óptimo trabalho de som, em jeito de alucinação e delírio. O espaço claustrofóbico de um elevador convida a encontros sobrenaturais com recordações perdidas e marcantes. Sweet Exorcist será melhor acolhido por espectadores que conheçam bem a filmografia de Pedro Costa, já que Ventura tem um passado desenhado em filmes anteriores do cineasta português.


Vidros Partidos, do realizador basco Victor Erice, presta homenagem à indústria têxtil centenária de Guimarães, em jeito de documentário, fixando-se nos operários de uma fábrica de vidro inaugurada no século XIX e encerrada em 2002. As histórias dos operários - umas mais marcantes e divertidas que outras - contrastam sempre com a fotografia a preto e branco na parede. O ritmo do documentário - marcado por opções menos bem conseguidas - nem sempre ajuda a plateia, mas Vidros Partidos encerra em grande, acompanhado ao acordeão.

A encerrar Centro Histórico está Manoel de Oliveira com O Conquistador Conquistado que brinca com a avalanche de turistas no centro histórico de Guimarães e as suas fotografias. Simples, pouco profunda, acima de tudo, divertida e irónica, desde o título. A curta-metragem de Oliveira centra-se no turismo e nas máquinas fotográficas, qual arma apontada a D. Afonso Henriques a quem nem a espada pode valer contra elas, bem pelo contrário.

Isoladas, as quatro curtas-metragens que compõem Centro Histórico poderiam funcionar melhor. Já como unidade sente-se que há algo em falta. Talvez seja o título que induz em erro.

IndieLisboa'14: Alentejo, Alentejo (2014)

*9/10*

Um documentário cheio de emoção e de chamamento às raízes, Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut, trouxe ao IndieLisboa (onde integra a Competição Nacional e Observatório) uma surpresa cheia de sentimento e um excelente retrato do Cante Alentejano. Uma viagem à tradição, ao Alentejo profundo, mas também a todos os locais por onde estes cantos deixam marcas ou renascem da boca e para os ouvidos de gente de todas as idades.

De origem popular, o “cante” alentejano sobrevive graças aos grupos que o cultivam no Alentejo e na periferia de Lisboa, os quais recapitulam em ensaio o repertório conhecido de memória, quase sem registo escrito ou sonoro e com reduzidas alterações criativas. No Alentejo, dezenas de grupos amadores reúnem-se regularmente para ensaiar antigos cantos polifónicos e para improvisar cantos sobre o tempo presente. Nascido nas tabernas e nos campos, cantado por camponeses e por mineiros, o cante alentejano deixou os campos e atravessou as fronteiras da sua região. Nas últimas décadas, com a diáspora alentejana, apareceram novos grupos na periferia industrial de Lisboa e em diversos países de emigração, acentuando o cante como traço identitário dos alentejanos onde quer que estejam.

Ainda perto do início de Alentejo, Alentejo rumamos a Lisboa, ao grande piquenique na Praça do Comércio, com um concerto de Tony Carreira. O grupo coral foi convidado a ali comparecer. Contudo, o Cante Alentejano não se deu bem na multidão alienada e barulhenta da capital. Requer a tranquilidade do campo ou, pelo menos, a atenção e disponibilidade para ver, ouvir e sentir, à flor da pele, estas vozes e palavras.

Sérgio Tréfaut parte em busca das suas raízes e leva-nos consigo para que conheçamos (ou reconheçamos) uma das grandes tradições musicais portuguesas, com a calma e ritmo certo para a sentir. Ao apresentar uma série de grupos corais, o realizador desmistifica o Cante Alentejano, que é cantado por homens, mas também por mulheres ou grupos mistos e de todas as idades. Muitos são os jovens que reavivam a tradição, cantando com a mesma emoção e dedicação que os mais velhos.


Homens e mulheres cantam e contam-nos as suas histórias - muitas de uma infância dura e pobre, onde o Cante era um dos momentos de maior alegria - e contagiam-nos com esta paixão que não vivemos, nem ajudamos a criar, mas que vamos ter vontade de preservar e ver continuar.

Muitos relatos são feitos sentados à mesa - a típica açorda não poderia deixar de acompanhar estes cantares. Tréfaut intercala a música com estas conversas à refeição, com o trabalho no campo, na padaria, na mina ou com os relatos de crianças, na escola, com familiares ligados à tradição do cante Alentejano - muitos deles emigrantes.

Alentejo, Alentejo mostra como o Cante Alentejano está vivo e deve ser escutado. Das vozes femininas às masculinas, das vozes magoadas pela terra e pela vida, aos jovens que amam a tradição e sentem cada verso do que cantam, ou às crianças que começam agora a conhecer e a aprender - mesmo longe da região mãe -, este documentário apresenta um intimo e arrepiante registo dos cantares populares alentejanos na actualidade. 

sábado, 26 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Educação Sentimental (2013)

*7.5/10*


Júlio Bressane foi o Herói Independente do IndieLisboa'11 e, agora em 2014, marca presença na secção Observatório com o filme Educação Sentimental

Baseado no mito grego de Selene e Endimião, da lua que se apaixona por um mortal e o condena ao sono eterno, como a protagonista explica ainda no início da longa-metragem, Educação Sentimental resulta do encontro entre Áurea, uma professora solitária e conhecedora da literatura, e Áureo, um rapaz inculto que só conhece o desejo físico, em que é mais experiente. Ela sabe muito, fala e declama as coisas que leu; ele escuta e nem sempre a compreende. Pouco a pouco, ele parece assimilar as lições que lhe são ditadas pela apaixonada Áurea. Os dois não podiam ser mais distantes, mas apesar do improvável romance, ele deixa-se levar para o passado de que ela fala, quando lia e escrevia, quando a literatura existia e impunha um ritmo próprio, contrastando com o ritmo frenético do mundo exterior.

Apesar do tom marcadamente experimental, em Educação Sentimental há muita paixão e poética. O texto é fabuloso, marcado pelos monólogos de Áurea, dos quais é impossível desviar a atenção, pelos comentários ingénuos de Áureo, pela conversa quase surreal entre Áurea e a mãe do jovem... Ao mesmo tempo, as palavras são acompanhadas e complementadas pelos gestos, pela dança e pela música que, mesmo quando não está presente se sente.


A teatralidade de cada cena é quase mágica, e a ela se junta o rigor técnico de Bressane, com uma mise-en-scène perfeita. A bonita fotografia destaca-se pelo excelente trabalho de iluminação, onde a Lua se funde com Áurea e Áureo. Apesar de nem tudo (ou mesmo muito pouco) ter um significado óbvio, caberá a cada espectador tirar as suas conclusões - se quiser, pois se optar apenas por desfrutar desta obra marcadamente estética não ficará desiludido.

Em par com esta história de amor tão pouco comum está uma desconstrução e apelo à memória do cinema - Bressane mostra-nos os microfones, os focos de luz, mas relembra igualmente a película, cada vez mais esquecida. Com Áurea, e tal como Áureo, a plateia embarca numa viagem de nostalgia. Aprende e apreende muito do passado da professora, conhecendo-a mais intimamente, mas percorre igualmente o passado da literatura, dos poetas que morreram jovens, da música e do cinema.

Educação Sentimental é uma obra a descobrir, dando-lhe o espaço que ela pede, o tempo para ser assimilada e o olhar atento e deslumbrado pelo visual cheio de cor, de movimento e de emoções à flor da pele.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Filmes a Não Perder

Começa hoje o IndieLisboa'14 e, com ele, muito cinema independente chega à capital e por cá fica até dia 4 de Maio. A escolha é imensa e muito variada, mas aqui ficam alguns títulos a ter em atenção durante o festival.

Longas-metragens

Educação Sentimental, de Júlio Bressane
Secções: Observatório


Baseado no mito grego de Selene e Endimião, da lua que se apaixona por um mortal e o condena ao sono eterno, Educação Sentimental, de Júlio Bressane (o Herói Independente da edição de 2011 do IndieLisboa) resulta do encontro entre Áurea, uma professora solitária e profunda conhecedora da literatura, e Áureo, um rapaz inculto que só conhece o desejo físico, em que é mais experiente. Ela sabe muito, fala e declama as coisas que leu; ele escuta e nem sempre a compreende. Pouco a pouco, ele parece assimilar as lições que lhe são ditadas por Áurea. Os dois não podiam ser mais distantes, mas, apesar do improvável romance, ele deixa-se levar para o passado de que ela fala, quando lia e escrevia, quando a literatura existia e impunha um ritmo próprio, contrastando com o ritmo frenético do mundo exterior.

Finding Fela, de Alex Gibney
Secções: IndieMusic


Ninguém melhor que Fela Kuti para personificar o movimento musical africano dos anos 70 e 80. Ao mesmo tempo, o multi-instrumentista, cantor e compositor associou-se ao activismo político pós-colonial e anti-apartheid. A sua postura, os seus hábitos e consumos, bem como a sua música determinaram uma vida marcada por perseguições do repressivo regime militar nigeriano que se prolongaram até à sua morte, aos 58 anos, vítima de complicações decorrentes da SIDA. O ressurgir do afrobeat na última década recuperou o interesse no trabalho de Fela Kuti e levou à estreia de um aclamado musical na Broadway sobre a história do lendário músico. Finding Fela acompanha a estreia do musical em Lagos, na Nigéria, e aproveita a ocasião para recuperar o material que serviu de base à construção do espectáculo – filmes de arquivo, depoimentos, etc. –, ao mesmo tempo que recorda a vida do músico africano, documenta a performance e a sua recepção na terra natal de Fela Kuti.   

Gare du Nord, de Claire Simon
Secções: Herói Independente, Filme de Abertura


Gare du Nord é o Filme de Abertura do IndieLisboa. Esta ficção de Claire Simon acompanha o documentário Geographie humaine dedicado ao mesmo tema: a Gare du Nord, em Paris. As histórias que se cruzam na maior estação da Europa são agora encenadas neste espaço mas reflectem a mesma ideia de passagem presente no documentário (e, aliás, recuperam algumas personagens). Filmado dentro da estação e nas imediações, Gare du Nord conta as histórias de Mathilde (Nicole Garcia), uma professora universitária a fazer quimioterapia, e do jovem Ismaël (Reda Kateb), um estudante de sociologia em pesquisa para um doutoramento sobre a estação como aldeia global. O encontro entre os dois repete-se nos dias movimentados da estação onde voltamos a encontrar algumas pessoas cujas histórias se intersectam. Paralelamente, a pesquisa de Ismaël vai dando a conhecer o lado humano de uma estação de imigrantes, emigrantes, turistas e muitas histórias, não só de quem passa, mas dos lojistas, seguranças, empregados de limpeza, traficantes loucos e sem abrigo que são a alma de uma estação vivida à pressa.

Joe, de David Gordon Green
Secções: Observatório


Esta adaptação do livro homónimo de Larry Brown marca o regresso de David Gordon Green ao estilo mais independente que marcou o início da sua carreira. Joe mostra-nos Nicolas Cage num papel convincente ao lado do jovem actor Tye Sheridan. Joe é um ex-presidiário que trabalha como lenhador e emprega uma série de pessoas locais, satisfeitas com as suas qualidades enquanto patrão. Mas nem os fantasmas do passado largam Joe nem ele larga o álcool, onde se refugia para os dispersar. Um dia um jovem adolescente empenhado em livrar-se do contexto familiar adverso em que vive pede-lhe emprego e Joe aceita contratá-lo. Entre os dois cresce uma grande amizade e ao conformismo de Joe junta-se a vontade do jovem Gary de escapar às dificuldades de uma pequena cidade sulista, filmada num estilo documental com toques de acentuado lirismo.

Prima della Rivoluzione, de Bernardo Bertolucci
Secções: Director's Cut


“Quem nunca viveu antes da revolução, não conheceu a doçura de viver.” A célebre frase de Talleyrand (que se referia especificamente à Revolução Francesa) é citada em epígrafe nesta segunda longa metragem de Bertolucci, à qual também serve de título. O filme é a história da educação sentimental de um jovem burguês de Parma, às voltas com um envolvimento sentimental incestuoso com a tia e com a relação com o seu mentor intelectual, um pensador marxista.

3X3D, de Edgar Pêra, Peter Greenaway Jean-Luc Godard
Secções: Sessões Especiais


Na cidade de Guimarães, um lugar com mais de dois mil anos, três realizadores, Jean-Luc Godard, Peter Greenaway e Edgar Pêra, exploram o 3D e a sua evolução no mundo do cinema. Just in Time, de Greenaway, relembra a história da cidade, atravessando dois milénios ao redor do Paço dos Duques de Bragança num plano sequência de 16 minutos que segue um percurso entre a Praça da Oliveira, a igreja da Senhora da Oliveira e os claustros do Museu Alberto Sampaio. The Three Disasters, é o vídeo-ensaio de Godard que parte de material de arquivo para se debruçar sobre a fragmentação da história e a sua intersecção com a história do cinema. Cinesapiens, de Pêra, é a primeira produção do país a usar o 3D; o filme explora o papel do público na experiência de ver um filme, utilizando um grupo de espectadores dentro de uma sala de cinema em Guimarães. 3X3D é uma produção Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura que percorre a memória e nos projecta num futuro tridimensional.

Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut
Secções: Competição Nacional, Observatório


De origem popular, o “cante” alentejano sobrevive graças aos grupos que o cultivam no Alentejo e na periferia de Lisboa, os quais recapitulam em ensaio o repertório conhecido de memória, quase sem registo escrito ou sonoro e com reduzidas alterações criativas. No Alentejo, dezenas de grupos amadores reúnem-se regularmente para ensaiar antigos cantos polifónicos e para improvisar cantos sobre o tempo presente. Nascido nas tabernas e nos campos, cantado por camponeses e por mineiros, o cante alentejano deixou os campos e atravessou as fronteiras da sua região. Nas últimas décadas, com a diáspora alentejana, apareceram novos grupos na periferia industrial de Lisboa e em diversos países de emigração, acentuando o cante como traço identitário dos alentejanos onde quer que estejam. Este filme é uma viagem pelo Portugal contemporâneo, através de um modo musical único e dos seus intérpretes.

Dial M for Murder, de Alfred Hitchcock
Secções: Director's Cut


Filmado em 1953 (só estreou em 1954) durante a primeira e breve tentativa de Hollywood para aderir à tecnologia 3D, Dial M for Murder serviu de exercício tecnológico da Warner Brothers. Infelizmente, a moda passou antes mesmo da estreia do filme, fazendo com que a sua exibição tivesse tido o formato tradicional. A história centra-se num jogador de ténis, Tony Wendice, que, farto do seu emprego de vendedor de equipamento desportivo, começa a cobiçar a conta bancária da mulher e engendra um plano para a matar e ficar com a herança. Apesar da relutância inicial de Hitchcock em usar o formato, o filme acaba por ser um dos melhores exemplos de sempre do potencial artístico da filmagem em 3D, aliando movimentos de câmara fluídos que acompanham com subtileza o drama a efeitos 3D que aumentam a intensidade da experiência ao colocarem os espectadores no meio da acção.

Tom à la ferme, de Xavier Dolan
Secções: Observatório, Filme de Encerramento


Xavier Dolan regressa com Tom à La Ferme (o Filme de Encerramento desta edição do IndieLisboa), a história de um homem, Tom (Dolan), que vai até ao campo para o funeral do companheiro, morto num acidente de automóvel. Ao chegar, dá conta que ninguém o espera ou sequer desconfia daquela relação e da orientação sexual de Guillaume, o amante morto, e que por isso o acolhem tão bem. Mas se a simpatia da mãe advém da sua ignorância, que faz de Tom apenas um amigo, o irmão de Guillaume, machista e homofóbico, começa a questionar a sua presença, tornando-se uma ameaça e criando uma tensão que a banda sonora de Gabriel Yared acentua de forma brilhante.

Drinking Buddies, de Joe Swanberg
Secções: Observatório


Admirador assumido de comédias românticas e desencantado com o modo como se tornaram cada vez mais estereotipadas, Joe Swanberg recupera o género e dá-lhe um novo fôlego. Kate e Luke trabalham juntos numa fábrica de cerveja artesanal em Chicago, onde passam os dias a beber e a namoriscar um com o outro. Apesar de fazerem um par perfeito, cada um deles tem uma relação amorosa que inibe uma maior aproximação entre os dois. A relação é posta à prova quando os casais se juntam numa viagem de fim-de-semana. Filmado numa verdadeira fábrica de cerveja artesanal (a Revolution Brewing) e com os actores a beber a sério durante as filmagens e a improvisar grande parte dos diálogos, o filme, apesar do que sugere o seu enredo, consegue atingir uma tão grande maturidade emocional.

Curtas e médias-metragens:

A Caça Revoluções, de Margarida Rego
Secções: Competição Internacional, Competição Nacional


A Caça Revoluções é uma animação experimental que explora a relação entre duas gerações, dois tempos e duas lutas diferentes; é a Revolução de Abril a inspirar as gerações que apenas a conhecem através de relatos dos que a viveram e das fotografias de que nos apropriamos para a tornar nossa.

Boa Noite Cinderela, de Carlos Conceição
Secções: Cinema Emergente, Competição Nacional


No Reino de Portugal, em 1859, Boa Noite Cinderela recupera o conto da Gata Borralheira numa versão mais carnal, mais materialista, menos romântica, onde é imprecisa a fronteira que separa o desejo de ter e de ser a dona do sapato.

Coro dos Amantes, de Tiago Guedes
Secções: Competição Nacional, Observatório


Coro dos Amantes é composto por três “canções” que, a duas vozes, contam o mesmo acontecimento asfixiante sob duas perspectivas diferentes.

É Consideravelmente Admirável da Tua Parte que Ainda Penses em Mim Como se Aqui Estivesse, de André Mendes Andreia Neves
Secções: Novíssimos


É consideravelmente admirável da tua parte que ainda penses em mim como se aqui estivesse cria um ambiente alucinado que reflecte o desespero de , um músico esquizofrénico que quer regressar aos palcos.

Rio 2016, de Bianca Rotaru
Secções: Pulsar do Mundo


Os próximos Jogos Olímpicos estão marcados para o Rio 2016; duas ginastas, Teodora e Andreea, de 13 e 11 anos estão num centro avançado de treinos para conseguirem fazer parte da equipa nacional romena; aqui cresce-se de um modo diferente, em esforço mas com ambição, sonhos e batalhas diárias com os próprios limites; qual das duas irá estar no Rio?

True, de Paulo Segadães
Secções: IndieMusic


Filmado entre Janeiro a Setembro de 2013, True acompanha quase um ano na vida do músico português The Legendary Tigerman, na sua procura por novas canções para o seu mais recente álbum, True, lançado em Março de 2014. Os espectáculos são um homem só mergulhado na sua criatividade; os processos de composição revelam um homem de todos os instrumentos, desde os primeiros rascunhos até às apresentações públicas.

Consulta o programa completo do IndieLisboa'14 aqui.