quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Crítica: Al Berto (2017)

"O que toda a gente comenta pouco me importa."
Al Berto

*8.5/10*

Vicente Alves do Ó construiu um poema visual, um quadro vivo, tal a fortíssima estética de Al Berto, a sua mais pessoal e inspiradora longa-metragem. O filme, que estreia no ano em que se completam duas décadas da morte do poeta português, relata os anos em que Al Berto viveu em Sines e manteve uma relação amorosa com o irmão do realizador. 

Depois do seu regresso a Portugal, após uma longa estadia em Bruxelas, onde estudou Belas Artes, Al Berto instala-se no palácio da família, em Sines, onde ensaia uma vida em comunidade. Encontra João Maria, apaixona-se e abre uma livraria na vila. Acompanhamos os anos em que ali levou uma vida excêntrica e vanguardista pouco tempo depois do 25 de Abril. Mas a gente da terra não estava preparada para tanta liberdade.


As cores são vibrantes e livres, como os jovens do palácio querem ser, a direcção de fotografia de Rui Poças faz um trabalho estupendo, tirando o melhor partido da luz e da escuridão, compondo planos inesquecíveis. A acompanhar, o guarda-roupa e a direcção artística são exímios ao transportar a longa-metragem para a sua época, os anos 70. Ora, se nas imagens Vicente Alves do Ó nos apresenta uma obra de arte, as palavras e interpretações não lhe ficam atrás.

As festas, os poemas, a ambição e desejo de criar, sonhar com a arte, viver numa liberdade ilusória mas inebriante... Al Berto contagia-nos com o universo tão único que se vive dentro daquele velho palácio que é de todos e de ninguém. Em contraste com uma  terra parada nos velhos costumes do salazarismo - e, ao mesmo tempo, dominada pelo poder desmedido que todos acreditavam ter depois do 25 de Abril -, a vida no palácio é totalmente paradoxal à do resto de Sines. Eles não têm medo de quebrar regras, de ameaças, de se expressar e amar livremente, não têm medo de viver. E Al Berto, afinal, só quer o melhor para esta vila que tão mal o recebe de volta: quer modernidade, solidariedade e cultura.


Com uma banda sonora à altura, Al Berto põe-nos a dançar e vibrar com um elenco que reúne, muito provavelmente, os mais talentosos jovens actores nacionais (muitos deles quase totalmente desconhecidos do grande público). Ricardo Teixeira é um surpreendente Al Berto, de grande semelhança física com o poeta, ele entrega-se de corpo, alma e coração. Lábios grossos e voz tranquila, ele acalma-nos e ensina-nos muito, é o melhor guia que Vicente nos podia dar nesta viagem aos anos 70. A química é imensa com José Pimentão, que interpreta João Maria, um poeta apaixonado e insaciável, que vagueia entre a revolta, os ciúmes e o amor.

Com retratos realistas e magoados de três mulheres do seu tempo, Raquel Rocha Vieira, Ana Vilela da Costa e Gabriela Barros têm desempenhos muito fortes como Clara, Sara e Leonor, companheiras inseparáveis dos habitantes do palácio, cujos sentimentos oscilam entre a ambição de mudar, a resignação e a frustração.


Íntimo e corajoso, Al Berto respira poesia e liberdade, e, mais que uma sentida homenagem, é amor. Amor à arte, à liberdade, às pessoas, a Sines, a Al Berto e, claro, a João Maria.

1 comentário:

José Guerra disse...

Acabei de ver este magnífico filme. Quem conhece a forma de trabalhar do Vicente Alves Do Ó, as expectativas eram elevadas para este filme e foram sem dúvidas superadas. "Conheci" Alberto pela personagem do Ricardo Teixeira, embora o conhecesse pela escrita. Al Berto tem sem dúvida um "precipício" no nome pela sua enormidade. A poesia não seria a mesma sem o Al Berto. Se "Florbela" foi um poema, "Al Berto" foi a inspiração para o fazer. Sem dúvida, um hino à liberdade e ao amor. Um bem haja ao Vicente Alves Do Ó e, a todo o elenco, os meus sinceros parabéns pelo seu desempenho.