domingo, 29 de janeiro de 2023
Sugestão da Semana #545
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
Crítica: Amadeo (2023)
"Foge comigo. Tenho medo de ficar aqui para sempre e enlouquecer."
Amadeo
*7.5/10*
Depois de Florbela e Al Berto, Amadeo encerra a trilogia de filmes sobre artistas - dois poetas e um pintor - de Vicente Alves do Ó.
Amadeo é um filme melancólico, marcado por duas pandemias - com cem anos de distância - e, inevitavelmente, toda a experiência de visualização é distinta daquela que seria caso não tivessem passados três anos pandémicos. Desde a conclusão das filmagens, no final de 2019, até à estreia, em 2023, alguns elementos da equipa do filme perderam a vida, sendo o mesmo dedicado a Eunice Muñoz e Rogério Samora - que interpretaram a avó e o pai de Amadeo.
Amadeo de Souza-Cardoso, nascido em Manhufe, Amarante, fixa-se em Paris onde integra um círculo de artistas modernistas, onde se contam Modigliani, Picasso, Apollinaire, Brancusi, Derain, Emmerico Nunes e Max Jacob. Com o início da Primeira Guerra Mundial, regressa a Portugal, à casa da família, juntamente com a sua mulher Lucie. Em 1918, com a chegada da pneumónica a Portugal, vai para Espinho com as irmãs e Lucie, até adoecer e falecer a 25 de Outubro de 1918, aos 30 anos.
São estes os momentos-chave do filme de Vicente Alves do Ó, que se divide em três partes: a estadia em casa dos pais durante a Primeira Guerra Mundial e a primeira exposição que organiza, em 1916, no Passos Manoel, no Porto; 1911 e a temporada passada em Paris, onde assistimos a uma vernissage em sua casa, onde marcam presença os maiores artistas da época como Modigliani e Picasso (e onde estão alguns dos melhores momentos da longa-metragem); e, por fim, 1918, e a chegada da doença.
Amadeo carrega uma aura trágica tal qual o destino do seu protagonista: um homem com tamanha urgência em viver e com um talento grande demais para o país que o viu nascer. O jovem artista queria pintar o futuro que não chegou a viver, e que a guerra e uma pandemia fizeram adiar.
Rafael Morais incorpora o pintor de corpo e alma, e confere-lhe o ar sombrio de quem desespera por voltar a Paris e sair da "prisão" em que a guerra o colocou. Ele quer ser livre e compreendido e sabe que, em Portugal, isso não vai acontecer. Esta inquietação está latente no actor, bem como a sua extrema dedicação a Lucie e às irmãs.
Há que destacar também a fabulosa direcção de fotografia de Rui Poças, proporcionando planos que são autênticos quadros, a par dos que Amadeo pintou, numa fusão de artes.
Um dos mais talentosos e vanguardistas artistas portugueses do século XX tem finalmente um filme que o traz para a ribalta. Amadeo dá corpo e movimento ao pintor que é ainda tão desconhecido. O mistério em redor de um homem prometedor que morreu tão cedo torna-o, mais ainda, objecto de atento interesse.
Os filmes de Vicente são de uma sensibilidade pouco comum no cinema português e Amadeo não foge à regra: é poético, livre e urgente como o seu protagonista.
quarta-feira, 5 de maio de 2021
O Ídolo, escrito a partir de argumento de Fernando Pessoa, estreia a 12 de Maio
A curta-metragem O Ídolo, de Pedro Varela, criada a partir de um argumento inédito, escrito há quase cem anos por Fernando Pessoa, estreia a 12 de Maio em https://www.samsung.com/pt/idolo/.
O desafio foi lançado pela Samsung e pela Agência Uzina ao realizador e argumentista Pedro Varela, também como forma de promoção do novo smartphone Samsung Galaxy S21 Ultra 5G, equipamento usado para filmar a curta-metragem na totalidade.
O Ídolo baseia-se no argumento inédito Note for a thriller, or film, "escrito há quase cem anos, em que diversas personagens recebem a difícil missão de transportar um artefacto de valor incalculável a bordo de um navio que faz a travessia transatlântica entre Nova Iorque e Southampton. Este jogo arriscado, que mais parece um estudo sobre a natureza humana, é o ponto de partida de uma aventura onde ninguém é quem aparenta ser. A aventura, contada no formato de curta-metragem, tem a duração de 20 minutos, naquele que é o primeiro filme produzido a partir de um argumento de Fernando Pessoa, a chegar aos ecrãs."
Para a produção do filme O Ídolo, foi ainda recriada a Ecce Film, a produtora pensada por Fernando Pessoa com um logotipo desenhado pelo próprio, que seria responsável pela produção dos seus argumentos.
Quando surgiu o convite, Pedro Varela não hesitou em aceitar: "Criar personagens e dar-lhes voz, esse é o lugar onde sou feliz, e aqui senti que partilhei esse momento com alguém que sempre foi uma gigante influência na minha vida. Fazer justiça ao que o Pessoa teria na sua intenção original, foi o meu único objectivo. Foi esse o meu mergulho. Apesar do desafio de filmar o filme através de um smartphone, não podia estar mais feliz com o resultado final”, explica.
Por seu lado, José Correia, Director de Marketing de Produto Mobile da Samsung explica a aposta da marca neste projecto: "Este ano, e tendo em conta o contexto particular que vivemos, a Samsung enquanto parceiro de relevo no panorama nacional, quis destacar o papel da nossa cultura através de um dos seus autores mais representativos, Fernando Pessoa". E acrescenta: "Nos dias de hoje, registamos as nossas vidas e contamos as nossas histórias através dos smartphones - e é por isso que a câmara é um dos recursos mais importantes para o utilizador. O resultado final deste que é o primeiro filme de Fernando Pessoa é a prova da capacidade e versatilidade do Samsung Galaxy S21 Ultra 5G em evidenciar o melhor de cada imagem do início ao fim”.
O filme foi rodado entre Viana do Castelo, a Serra de Sintra e Lisboa, sendo que toda a acção nos remete para o ano de 1928. O elenco conta com actores como Tiago Felizardo, Ana Vilela da Costa, Soraia Tavares, Paula Magalhães, entre outras participações nacionais e internacionais.
Lançado em 2011, o livro Fernando Pessoa – Argumentos para Filmes deu a conhecer mais uma faceta da vida e obra de Fernando Pessoa, o seu interesse pelo Cinema e pela sua dimensão artística na perspetiva do autor. O livro apresenta seis argumentos originais (em português, inglês e francês) que reflectem, na sua maioria, temas do mundo pessoano, como as múltiplas identidades do ser e a curiosidade pela natureza humana.
Mais informações sobre O Ídolo em https://www.samsung.com/pt/idolo/.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Crítica: A Herdade / The Domain (2019)
A Herdade apresenta-nos a uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo, e leva-nos a mergulhar nos segredos da sua herdade, fazendo o retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal, dos anos 40, atravessando a Revolução do 25 de Abril, até aos anos 90.
João é um homem frio, poderoso, intransigente, de amores fugazes e opiniões sólidas. Albano Jerónimo é capaz de encarná-lo com dignidade, com uma sensualidade que contrasta com a sua rudez. Ao seu lado, Sandra Faleiro é a maior estrela do filme. Os seus cabelos loiros, olhos azuis, pele clara, de ar angelical, nórdico e frágil, compõem uma mulher muito mais forte e firme do que aparenta. Leonor sofre em silêncio mas não se deixa rebaixar em momento algum, acomoda-se mas não se deixa humilhar, é independente, apesar do marido infiel e do pai general da PIDE. Os seus olhos dizem muito mais do que qualquer palavra.
Elementos fundamentais e simbólicos surgem em A Herdade, quase como parte dos protagonistas. Os cavalos de João, com quem parece ter uma relação mais próxima que com a própria família; o vento, omnipresente naqueles campos a perder de vista; o sótão dos que não querem ser encontrados; a vedação onde Miguel encontra alguma liberdade, tal como o pequeno forte em ruínas onde João se refugiava em criança; a árvore que desde o início é quase um membro da família...
Um dos mais marcantes momentos do filme de Tiago Guedes coincide com o 25 de Abril de 1974. Imagens e som de arquivo entram em cena para contar a História. Testemunhamos a revolução a nascer lá fora mas não dentro daquela casa.
Tecnicamente, A Herdade consegue proporcionar-nos imagens inesquecíveis através da direcção de fotografia de João Lança Morais (que joga da melhor forma com luz e escuridão, adequando-as através dos tempos), entre planos sequência memoráveis (o do baile, com cerca de oito minutos, não escapará a ninguém), o simbolismo das personagens que surgem nas sombras ou os planos filmados junto à árvore ao longo dos tempos. Os silêncios são trabalhados de forma eficaz pela equipa de som que merece igualmente destaque.
A Herdade é quase um épico do cinema português e Tiago Guedes teve a coragem de assumir as rédeas de um projecto de grande dimensão, quer no elenco, responsabilidade histórica, duração (166 minutos) e beleza estética. Cada personagem é toldada pela infância que teve. João, com todos os seus fantasmas e vícios, só quer salvar o património da família e manter o poder que sempre julgou seu de direito.
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
Crítica: Al Berto (2017)
"O que toda a gente comenta pouco me importa."
Al Berto
As cores são vibrantes e livres, como os jovens do palácio querem ser, a direcção de fotografia de Rui Poças faz um trabalho estupendo, tirando o melhor partido da luz e da escuridão, compondo planos inesquecíveis. A acompanhar, o guarda-roupa e a direcção artística são exímios ao transportar a longa-metragem para a sua época, os anos 70. Ora, se nas imagens Vicente Alves do Ó nos apresenta uma obra de arte, as palavras e interpretações não lhe ficam atrás.
Com retratos realistas e magoados de três mulheres do seu tempo, Raquel Rocha Vieira, Ana Vilela da Costa e Gabriela Barros têm desempenhos muito fortes como Clara, Sara e Leonor, companheiras inseparáveis dos habitantes do palácio, cujos sentimentos oscilam entre a ambição de mudar, a resignação e a frustração.
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Já são conhecidos os filmes vencedores da 21.ª edição do Doclisboa , que terminou este Domingo. A cerimónia de entrega dos prémios aconteceu...













