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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Os Melhores do Ano: Top 20 [10º-1º] #2017

Depois da primeira parte do TOP 20 de 2017 do Hoje Vi(vi) um Filme, revelo agora os dez lugares que faltam. A ordem poderia ser outra já que, para mim, estão todos mesmo muito equilibrados. Eis os meus 10 favoritos de 2017 (estreados no circuito comercial de cinema em Portugal).

As festas, os poemas, a ambição e desejo de criar, sonhar com a arte, viver numa liberdade ilusória mas inebriante... Al Berto contagia-nos com o universo tão único que se vive dentro daquele velho palácio que é de todos e de ninguém. Em contraste com uma terra parada nos velhos costumes do salazarismo - e, ao mesmo tempo, dominada pelo poder desmedido que todos acreditavam ter depois do 25 de Abril -, a vida no palácio é totalmente paradoxal à do resto de Sines. Eles não têm medo de quebrar regras, de ameaças, de se expressar e amar livremente, não têm medo de viver. E Al Berto, afinal, só quer o melhor para esta vila que tão mal o recebe de volta: quer modernidade, solidariedade e cultura.

Mais adulto que o seu predecessor, T2 Trainspotting é como um velho amigo que não vemos há muito tempo e está de regresso. Do muito que possa ter mudado em duas décadas, o mais importante ficou na mesma: a amizade. Os conflitos sucedem-se, bem como as aventuras mais surreais, com Mark e Sick Boy ao comando, Spud como pacificador criativo e Begbie, incorrigível. T2 Trainspotting foi a nossa droga cinematográfica no início de 2017. O reencontro soube-nos bem e as escolhas continuam a ser nossas. Nada como "Escolher a vida".

A câmara não pára, tal como é inquietante o ambiente dentro e fora daquele motel. Trememos e tememos por aqueles jovens encostados à parede. Condenamos e testemunhamos a brutalidade e falta de ética e escrúpulos daqueles polícias, mas somos mais uma testemunha silenciada. A realizadora sabe como exaltar os nossos ânimos sem alaridos, sem exageros, é tudo cru e realista. Kathryn Bigelow e Mark Boal reforçam o seu talento como dupla corajosa ao trazer, com dignidade, para o grande ecrã acontecimentos passados que nunca poderão ser esquecidos. 

A luta pela sobrevivência, o barulho ensurdecedor dos tiros, das explosões, dos gritos dos soldados, a solidão no meio de tantos, o estar encurralado entre o mar e a guerra. Tudo isto conta a História. Afinal, onde fica a esperança? Na pátria? Os dias passam e a ajuda tarda, o inimigo sobrevoa a praia, as mortes sucedem-se e não há como fugir ou esconder-se. É nos olhos vazios e inocentes dos jovens soldados que as emoções se reflectem. Poucas palavras, muita acção e desalento. Christopher Nolan sabe o que faz e em 65mm.

Da opressão, surge a revolta, depois a emancipação. Um drama de época com uma protagonista tão inocente como feroz, ela ama tão impiedosamente como se vinga. Com Lady Macbeth, William Oldroyd filma um perverso retrato de emancipação feminina, uma luta pela liberdade individualista, capaz de tudo. A beleza e a fraqueza juntam-se numa perigosa equação e o resultado é a nossa inevitável derrota perante esta mulher tão à frente do seu tempo.

A arte parece desistir e aumentar o ridículo das relações humanas. Seja pela sua forma, pouco compreendida pelos leigos, seja pela interacção que estabelece com o seu público, que não lhe sabe corresponder. Conversas interrompidas - ou espiadas - por esculturas que mexem, um artista com tiques de primatas num jantar de gala, um encontro romântico com um macaco como colega de casa... Da apatia ou incapacidade de reagir, rapidamente se passa para os extremos, a violência, os instintos a comandar o Homem racional. O Quadrado ataca preconceitos, coloca o inesperado perante os nossos olhos e espera que reajamos melhor que as personagens.

Um retrato irónico e actual de uma sociedade de loucuras e excessos, onde as aparências iludem e todos querem o mesmo. Ben Wheatley cria um conjunto de sensações atordoantes, que se misturam com o emaranhado de corpos que se tocam nos corredores do arranha-céus. As cores, lânguidas ou vibrantes, transmitem ainda mais a loucura que ali se vive. Ao mesmo tempo, planos cativantes, o uso da câmara lenta em ocasiões-chave, um caleidoscópio pelo meio e eis que a obra nasce.

Paterson é a poesia do quotidiano. Jim Jarmusch dá-nos uma lição de vida ao mostrar como a mais pacata das existências pode resultar num belo poema sem rima. Adam Driver conduz tão bem o seu autocarro como o protagonista deste filme, e embala-nos ao ritmo lento da sua vida. O protagonista vive tranquilo e, tal como a sua caneca de cerveja, são mais as vezes em que o copo está meio cheio do que meio vazio. 

E quando a doença não é física, mas social? Kleber Mendonça Filho responde com Aquarius. Um retrato de uma sociedade, onde injustiça e desigualdade imperam. Clara é o Brasil ameaçado, destroçado. Sonia Braga é a mulher assombrada pela morte, mas que vive a vida com tudo aquilo a que tem direito. Apesar de tudo, os perigos aumentam e a vigília constante torna-se incomportável. Um conflito terrível toma conta da protagonista, mas também da plateia que se vê a recear pela segurança de Clara. Aquarius é uma perseguição, uma sociedade sem rei nem roque, onde ainda há resistentes que clamam pela justiça.

Connie faz tudo pelo irmão, mas é inconsciente e inconstante, com ausência de valores. Para si, tudo é válido para alcançar um vida melhor para o irmão, contra a lei, contra o socialmente aceite. Curioso é que ele parece realmente não perceber o quão errado está e que, na realidade, nada do que faz é benéfico para Nick. Ele é criminoso com um propósito de fazer o bem, ou assim o acha. Assistimos a situações tão caricatas e inacreditáveis que vamos rir com a desgraça alheia. mas Good Time está longe de ser uma comédia. É um filme que magoa e nos aproxima das personagens. Nós que somos ainda mais impotentes que os dois irmãos.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Sugestão da Semana #293

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana não consegue escolher apenas um filme, e por isso hoje há um duplo destaque. Al Berto, de Vicente Alves do Ó, (cuja crítica pode ser lida aqui) e Blade Runner 2049 (que terá crítica no blog muito em breve), de Denis Villeneuve, são os dois filmes que merecem ser vistos no cinema esta semana.



Ficha Técnica:
Título Original: Al Berto
Realizador: Vicente Alves do Ó
Actores: Ricardo Teixeira, José Pimentão, Ana Vilela da Costa, Raquel Rocha Vieira, Gabriela Barros, João Villas-Boas, Rita Loureiro, Manuela Couto
Género: Drama
Classificação: M/16
Duração: 109 minutos


BLADE RUNNER 2049


Ficha Técnica:
Título Original: Blade Runner 2049
Realizador: Denis Villeneuve
Actores: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Dave Bautista, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto
Género: Ficção Científica
Classificação: M/14
Duração: 164 minutos

sábado, 7 de outubro de 2017

Estreias da Semana #293

Esta Quinta-feira, feriado do 5 de Outubro, chegaram aos cinemas portugueses sete novos filmes. Entre as estreias estão Al Berto e Blade Runner 2049.

A Rainha de Espanha (2016)
La Reina de España
As desventuras de uma equipa de filmagens que tenta rodar um filme americano em Espanha, na década de 50.

A Viagem (2017)
The Journey
Após 40 anos de hostilidades na Irlanda do Norte, as principais figuras do conflito encontram-se na Igreja de Santo André para uma derradeira tentativa de forjar um acordo de paz duradouro. O sucesso da reunião está nas mãos do lealista Ian Paisley (Timothy Spall) e do antigo comandante do IRA Martin McGuinness (Colm Meaney), dois inimigos que terão de aceitar uma partilha de poder. Com as negociações em crise extrema, o par é forçado, pelas circunstâncias ou talvez pelo destino, a embarcar numa viagem de carro em conjunto. Depois de uma acesa troca de palavras, a conversa começa a evoluir e algumas fendas começam a surgir nas suas armaduras. Vigiados pelos colegas em Santo André, os rivais vão descobrir que não são assim tão diferentes um do outro e começam a criar uma improvável amizade.

Depois do seu regresso a Portugal, após uma longa estadia em Bruxelas, onde estudou Belas Artes, Al Berto instala-se no palácio da família, em Sines, onde ensaia uma vida em comunidade. Encontra João Maria, apaixona-se e abre uma livraria na vila. Acompanhamos os anos em que ali levou uma vida excêntrica e vanguardista pouco tempo depois do 25 de Abril. Mas a gente da terra não estava preparada para tanta liberdade.

Blade Runner 2049 (2017)
O Agente K (Ryan Gosling), da polícia de Los Angeles, depara-se com um segredo há muito enterrado e capaz de lançar o caos no que resta da sociedade. A descoberta leva-o a tentar localizar Rick Deckard (Harrison Ford), o antigo Blade Runner, cujo paradeiro é desconhecido há trinta anos.

Borg vs. McEnroe (2017)
Borg/McEnroe
Wimbledon, 1980. O Verão mais chuvoso das últimas décadas. O mundo aguarda pelo momento em que verá Björn Borg, número um mundial, conquistar o quinto título em Wimbledon. Poucos sabem do drama que se desenrola nos bastidores: com apenas 24 anos, Borg está no limite - exausto, desgastado e repleto de ansiedade. O seu adversário é John McEnroe, 20 anos, decidido a substituir o seu antigo herói no trono do torneio de ténis inglês.

O Maravilhoso Jardim de Bella Brown (2016)
This Beautiful Fantastic
Conto de fadas contemporâneo em torno da mais improvável das amizades entre uma jovem agorafóbica e solitária que sonha escrever livros infantis e um idoso viúvo e resmungão, tendo por pano de fundo um  jardim no coração de Londres.

Super Heróis (2016)
Bling
Sam é um desajeitado mecânico num parque temático e sonha declarar-se a Sue. Com a crença equivocada de que apenas um precioso anel pode ganhar o coração da rapariga dos seus sonhos, Sam planeia a noite perfeita. Mas eis que surge o super vilão Oscar com o seu anel maligno capaz de destruir a cidade. Uma troca inadvertida de anéis estraga os planos de Sam e obriga-o a juntar-se aos seus amigos robôs para encontrarem o anel certo e impedir o vilão de concretizar os seus objectivos.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Crítica: Al Berto (2017)

"O que toda a gente comenta pouco me importa."
Al Berto

*8.5/10*

Vicente Alves do Ó construiu um poema visual, um quadro vivo, tal a fortíssima estética de Al Berto, a sua mais pessoal e inspiradora longa-metragem. O filme, que estreia no ano em que se completam duas décadas da morte do poeta português, relata os anos em que Al Berto viveu em Sines e manteve uma relação amorosa com o irmão do realizador. 

Depois do seu regresso a Portugal, após uma longa estadia em Bruxelas, onde estudou Belas Artes, Al Berto instala-se no palácio da família, em Sines, onde ensaia uma vida em comunidade. Encontra João Maria, apaixona-se e abre uma livraria na vila. Acompanhamos os anos em que ali levou uma vida excêntrica e vanguardista pouco tempo depois do 25 de Abril. Mas a gente da terra não estava preparada para tanta liberdade.


As cores são vibrantes e livres, como os jovens do palácio querem ser, a direcção de fotografia de Rui Poças faz um trabalho estupendo, tirando o melhor partido da luz e da escuridão, compondo planos inesquecíveis. A acompanhar, o guarda-roupa e a direcção artística são exímios ao transportar a longa-metragem para a sua época, os anos 70. Ora, se nas imagens Vicente Alves do Ó nos apresenta uma obra de arte, as palavras e interpretações não lhe ficam atrás.

As festas, os poemas, a ambição e desejo de criar, sonhar com a arte, viver numa liberdade ilusória mas inebriante... Al Berto contagia-nos com o universo tão único que se vive dentro daquele velho palácio que é de todos e de ninguém. Em contraste com uma  terra parada nos velhos costumes do salazarismo - e, ao mesmo tempo, dominada pelo poder desmedido que todos acreditavam ter depois do 25 de Abril -, a vida no palácio é totalmente paradoxal à do resto de Sines. Eles não têm medo de quebrar regras, de ameaças, de se expressar e amar livremente, não têm medo de viver. E Al Berto, afinal, só quer o melhor para esta vila que tão mal o recebe de volta: quer modernidade, solidariedade e cultura.

Com uma banda sonora à altura, Al Berto põe-nos a dançar e vibrar com um elenco que reúne, muito provavelmente, os mais talentosos jovens actores nacionais (muitos deles quase totalmente desconhecidos do grande público). Ricardo Teixeira é um surpreendente Al Berto, de grande semelhança física com o poeta, ele entrega-se de corpo, alma e coração. Lábios grossos e voz tranquila, ele acalma-nos e ensina-nos muito, é o melhor guia que Vicente nos podia dar nesta viagem aos anos 70. A química é imensa com José Pimentão, que interpreta João Maria, um poeta apaixonado e insaciável, que vagueia entre a revolta, os ciúmes e o amor.


Com retratos realistas e magoados de três mulheres do seu tempo, Raquel Rocha Vieira, Ana Vilela da Costa e Gabriela Barros têm desempenhos muito fortes como Clara, Sara e Leonor, companheiras inseparáveis dos habitantes do palácio, cujos sentimentos oscilam entre a ambição de mudar, a resignação e a frustração.

Íntimo e corajoso, Al Berto respira poesia e liberdade, e, mais que uma sentida homenagem, é amor. Amor à arte, à liberdade, às pessoas, a Sines, a Al Berto e, claro, a João Maria.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A estrear: Al Berto e A Floresta das Almas Perdidas

Nas duas primeiras semanas de Outubro, os cinemas vão receber duas estreias de produções nacionais: Al Berto, de Vicente Alves do Ó, e A Floresta das Almas Perdidas, de José Pedro Lopes. Por aqui, aproveitamos para fazer uma pequena antevisão de ambos os filmes.


Al Berto estreia já no próximo dia 5 de Outubro e é a quarta longa-metragem de Alves do Ó. O filme percorre uma parte da vida do poeta Al Berto, depois do seu regresso a Portugal, após uma longa estadia em Bruxelas, onde estudou Belas Artes. Instala-se no palácio da família, em Sines, onde ensaia uma vida em comunidade. Encontra João Maria, apaixona-se e abre uma livraria na vila. Acompanhamos os anos em que ali levou uma vida excêntrica e vanguardista pouco tempo depois do 25 de Abril. Mas a gente da terra não estava preparada para tanta liberdade.

Vicente Alves do Ó faz deste um filme muito intimo e corajoso, já que retrata a história de amor que Al Berto viveu com o irmão do realizador, João Maria.

O elenco é composto, na sua maioria, por jovens actores pouco conhecidos do grande público e, todos eles, muito talentosos. Ricardo Teixeira é o protagonista e faz-se acompanhar por José Pimentão, Ana Vilela da Costa, João Villas-Boas, Gabriela Barros, Raquel Rocha Vieira, e ainda as veteranas Rita Loureiro e Manuela Couto.


Por sua vez, A Floresta das Almas Perdidas é a estreia do realizador José Pedro Lopes nas longas-metragens e chega aos cinemas portugueses no dia 12 de Outubro. O filme tem por base um projecto apresentado originalmente no FEST Pitching Forum do FEST - Festival Novo Cinema Novos Realizadores.

Curiosamente, José Pedro Lopes aventura-se num género pouco usual no cinema português dito comercial: o terror. Entre o drama familiar e o slasher, A Floresta das Almas Perdidas é um conto de terror dentro de uma história sobre a chegada à idade adulta. Numa floresta densa e remota, o local mais popular para a prática do suicídio em Portugal, dois estranhos conhecem-se. Ele é um pai de família à procura do local onde a filha morreu. Ela é uma jovem com uma paixão pela morte. Mas um deles não é quem diz ser.


O filme teve estreia mundial no Fantasporto 2017 e continuou a percorrer festivais de cinema como o Festival de Cinema de Sydney e venceu o prémio para Melhor Filme no Fant Bilbao - Festival de Cinema Fantástico de Bilbao, em Espanha, e Melhor Realizador no Triple Six Festival de Cinema de Terror de Manchester, no Reino Unido. Este mês, passa pelo Festival de Cinema de Cambridge, no Reino Unido, no Monsters of Film na Suécia e na Semana de Cinema de Autor de Lugo, em Espanha.

A Floresta das Almas Perdidas conta com distribuição nos EUA, Canadá, Espanha, Suécia e Reino Unido. Recentemente a revista Newsweek destacou-o como um dos 22 melhores filmes de terror de 2017.