"Olha que isto não vai lá com bombas. Querem poder, candidatem-se, como os outros sacanas todos."
Inspector-Chefe
*7/10*
Na semana de comemoração da Revolução do 25 de Abril de 1974, Ivo M. Ferreira trouxe para os cinemas portugueses Projecto Global, filme em que trabalhou nos últimos anos, resultado de muita pesquisa histórica, com o historiador Francisco Bairrão Ruivo - e do qual nasceu também o livro As FP-25 e o Pós-Revolução, editado pela Tinta da China -, entrevistas aos ex-operacionais e aos inspetores e agentes da PJ que estiveram no seu encalço.
Projecto Global está longe de ser panfletário ou de tomar partidos. O filme é isento de moralidades ou posicionamentos e retrata uma época de violência reaccionária em Portugal, no caso, do lado do grupo armado de extrema-esquerda FP-25, do ponto de vista de alguns dos seus membros, assombrados pelo medo do regresso de uma nova ditadura. Mas a Revolução já tinha sido feita.
Ivo M. Ferreira está longe de querer dar uma lição de História à plateia. Se por um lado, o seu filme representa uma época pouco abordada da História de Portugal recente - e convida a uma descoberta posterior mais aprofundada -, por outro, está construído para passar facilmente por um policial de época. Projecto Global é essencialmente um thriller cheio de acção e personagens magnéticas - em especial Rosa (Jani Zhao) e Queiroz (Isac Graça). Não faltam explosões, tiroteios e perseguições, com a qualidade técnica que pouco se vê no cinema português. Grande trabalho de montagem e som, especialmente nas sequências de acção, da direcção de fotografia capaz de captar a aura clandestina e obscura que paira sobre as personagens, e das equipas de direcção artística, caracterização e guarda-roupa pela muito certeira recriação da época.
Sem heróis, o realizador mostra as dúvidas e inquietações dos "potenciais" vilões, estes rebeldes que não percebem que a causa que defendem já não existe. A ligação da plateia às personagens nunca é de admiração, pelo contrário, há uma ambiguidade latente e personalidades tão díspares, mas as razões que levaram cada uma à situação em que está vão sendo reveladas ao longo da acção. A ideia de um fascismo que espreita a cada esquina ou os traumas que ficaram da guerra estão entre as razões para cada um daqueles homens e mulheres se mobilizarem e acreditarem que só pegando em armas é que conseguirão chegar à revolução.
No elenco, Jani Zhao destaca-se quase como uma femme fatale - sem intenção de o ser. Rosa é magnética, decidida, independente. Acredita ser capaz de tudo pela Liberdade, pela causa em que acredita e pelo filho pequeno. O seu magnetismo conquista os dois lados da barricada, mas, por muito que se queira entregar à paixão, viver na clandestinidade não lhe permite confiar ou entregar-se ao amor. Ao seu lado, logo ao início surge Queiroz, numa magnífica interpretação de Isac Graça, um homem sensível, cheio de revolta e dor, que encontra consolo nas acções das FP-25; um amigo fiel e companheiro de aventuras de Rosa - os dois actores resultam muito bem em cena. São muitos mais os nomes que também contribuem para o sucesso de Projecto Global, seja o PJ apaixonado, José Pimentão (Marlow), o inspector Ivo Canelas, o revolucionário convicto Rodrigo Tomás (Jaime), entre tantos outros.
Projecto Global funciona de forma intensa e muito cativante durante bastante tempo, mas perde-se um pouco em romances impossíveis e no impasse e desencanto que acaba por levar também ao fim das FP-25. Talvez a longa-metragem seja o reflexo daqueles que retrata, da excitação inicial cheia de ideais e esperança, ao desalento ao constatar a frieza com que alguns matam só porque "alguém" manda.
Ivo M. Ferreira merece todo o reconhecimento pela coragem em trazer para o cinema uma parte quase apagada da História de Portugal pós-revolução, mais ainda num momento de tanta divisão na sociedade e na política. O realizador gosta de aprofundar os traumas portugueses e já não é a primeira vez que o faz, veja-se, por exemplo, Cartas da Guerra, onde espelha alguns dos horrores da Guerra Colonial. Que continue com esta ousadia tão necessária na Sétima Arte.





Sem comentários:
Enviar um comentário