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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Crítica: Projecto Global (2026)

"Olha que isto não vai lá com bombas. Querem poder, candidatem-se, como os outros sacanas todos."

Inspector-Chefe

*7/10*

Na semana de comemoração da Revolução do 25 de Abril de 1974, Ivo M. Ferreira trouxe para os cinemas portugueses Projecto Global, filme em que trabalhou nos últimos anos, resultado de muita pesquisa histórica, com o historiador Francisco Bairrão Ruivo - e do qual nasceu também o livro As FP-25 e o Pós-Revolução, editado pela Tinta da China -, entrevistas aos ex-operacionais e aos inspetores e agentes da PJ que estiveram no seu encalço.

Projecto Global está longe de ser panfletário ou de tomar partidos. O filme é isento de moralidades ou posicionamentos e retrata uma época de violência reaccionária em Portugal, no caso, do lado do grupo armado de extrema-esquerda FP-25, do ponto de vista de alguns dos seus membros, assombrados pelo medo do regresso de uma nova ditadura. Mas a Revolução já tinha sido feita.


"Lisboa, anos 80. Rosa junta-se a um grupo de jovens desiludidos com o Portugal pós-Revolução. Integrados numa organização armada clandestina de extrema-esquerda, partilham ideais políticos e um quotidiano que os aproxima cada vez mais. Mas o seu idealismo colide de frente com o país em mudança e com uma vasta operação policial que os tem como alvo. Em fuga por uma estrada sem regresso nem saída, as suas vidas são feitas de assaltos a bancos, bombas, amizades, prisão, amor e morte. Encurralados, a única escolha que lhes resta é continuar a fugir até serem presos, ou mortos."

Ivo M. Ferreira está longe de querer dar uma lição de História à plateia. Se por um lado, o seu filme representa uma época pouco abordada da História de Portugal recente - e convida a uma descoberta posterior mais aprofundada -, por outro, está construído para passar facilmente por um policial de época. Projecto Global é essencialmente um thriller cheio de acção e personagens magnéticas - em especial Rosa (Jani Zhao) e Queiroz (Isac Graça). Não faltam explosões, tiroteios e perseguições, com a qualidade técnica que pouco se vê no cinema português. Grande trabalho de montagem e som, especialmente nas sequências de acção, da direcção de fotografia capaz de captar a aura clandestina e obscura que paira sobre as personagens, e das equipas de direcção artística, caracterização e guarda-roupa pela muito certeira recriação da época.

Sem heróis, o realizador mostra as dúvidas e inquietações dos "potenciais" vilões, estes rebeldes que não percebem que a causa que defendem já não existe. A ligação da plateia às personagens nunca é de admiração, pelo contrário, há uma ambiguidade latente e personalidades tão díspares, mas as razões que levaram cada uma à situação em que está vão sendo reveladas ao longo da acção. A ideia de um fascismo que espreita a cada esquina ou os traumas que ficaram da guerra estão entre as razões para cada um daqueles homens e mulheres se mobilizarem e acreditarem que só pegando em armas é que conseguirão chegar à revolução.

No elenco, Jani Zhao destaca-se quase como uma femme fatale - sem intenção de o ser. Rosa é magnética, decidida, independente. Acredita ser capaz de tudo pela Liberdade, pela causa em que acredita e pelo filho pequeno. O seu magnetismo conquista os dois lados da barricada, mas, por muito que se queira entregar à paixão, viver na clandestinidade não lhe permite confiar ou entregar-se ao amor. Ao seu lado, logo ao início surge Queiroz, numa magnífica interpretação de Isac Graça, um homem sensível, cheio de revolta e dor, que encontra consolo nas acções das FP-25; um amigo fiel e companheiro de aventuras de Rosa - os dois actores resultam muito bem em cena. São muitos mais os nomes que também contribuem para o sucesso de Projecto Global, seja o PJ apaixonado, José Pimentão (Marlow), o inspector Ivo Canelas, o revolucionário convicto Rodrigo Tomás (Jaime), entre tantos outros.

Projecto Global funciona de forma intensa e muito cativante durante bastante tempo, mas perde-se um pouco em romances impossíveis e no impasse e desencanto que acaba por levar também ao fim das FP-25. Talvez a longa-metragem seja o reflexo daqueles que retrata, da excitação inicial cheia de ideais e esperança, ao desalento ao constatar a frieza com que alguns matam só porque "alguém" manda.

Ivo M. Ferreira merece todo o reconhecimento pela coragem em trazer para o cinema uma parte quase apagada da História de Portugal pós-revolução, mais ainda num momento de tanta divisão na sociedade e na política. O realizador gosta de aprofundar os traumas portugueses e já não é a primeira vez que o faz, veja-se, por exemplo, Cartas da Guerra, onde espelha alguns dos horrores da Guerra Colonial. Que continue com esta ousadia tão necessária na Sétima Arte.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Sugestão da Semana #715 + Sugestão Literária

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Projecto Global, de Ivo M. Ferreira, que acompanha membros do grupo armado de extrema-esquerda FP25, na década de 1980, em Lisboa. O filme estreou em vésperas do 25 de Abril e, nada como aproveitar a celebração da Revolução dos Cravos, para uma sessão de cinema. Pela Liberdade, contra a violência, venha ela de qualquer quadrante político.

Aproveito esta estreia para uma sugestão literária, que ajuda a conhecer mais sobre os excessos pós-revolução. As FP-25 e o Pós-Revolução – «Normalização» e Violência Política, do historiador Francisco Bairrão Ruivo, editado pela Tinta da China, é o resultado de um extenso trabalho de investigação histórica que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira.

PROJECTO GLOBAL


Ficha Técnica:
Título Original: Projecto Global
Realizador: Ivo M. Ferreira
Elenco: Jani Zhao, Rodrigo Tomás, José Pimentão, Isac Graça, Gonçalo Waddington, João Catarré, Ivo Canelas, Hugo Bentes, Isabél Zuaa, João Pedro Mamede, Pedro Marujo, João Estima, Adriano Luz, Ana Tang, Lee Zhao Ferreira, Gonçalo Cabral
Género: Acção, Drama, Histórico, Thriller
Classificação: M/14
Duração: 140 minutos


Autor: Francisco Bairrão Ruivo
Prefácio: Rui Cardoso Martins


Editora: Tinta da China
MAIO DE 2026  |  280  PP |  14x21CM
ISBN: 978‐989‐595‐022-5

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

IndieLisboa'20: Fantasmas do Império (2020), de Ariel de Bigault

*7/10*


Em Fantasmas do Império, a realizadora Ariel de Bigault convida-nos a confrontar-nos com o passado colonial registado na Sétima Arte. Fez parte das secção Director's Cut do IndieLisboa 2020, e dá-nos uma visão muito abrangente de um passado que cada um contou à sua maneira - fosse por experiência no terreno, por pura manipulação propagandística ou por verdadeira curiosidade em reconstruir uma realidade que muitos receiam contar.

«O trabalho de Ariel de Bigault tem estado ligado às rotas da lusofonia. Em Fantasmas do Império somos guiados pelo actor são-tomense  Ângelo Torres através do cinema português que explorou o nosso passado colonial. Vários realizadores como Fernando Matos Silva, João Botelho ou Margarida Cardoso ajudam a compreender o imperialismo, o colonialismo, a propaganda vista através desse “álbum de família” que é o imaginário colectivo cinematográfico português.»


Ângelo Torres é o guia que nos conduz pelo passado, em conversas enriquecedoras com quem filmou ou estudou esta herança que o cinema registou em película. Debatem-se ideias e analisam-se os filmes do regime, tentando encontrar os Fantasmas do Império que dão título ao documentário, e se escondem nas mentes e nas imagens. As gerações de realizadores sucedem-se no ecrã, e a análise toma diferentes pontos de vista.

Ângelo Torres, João Botelho, Margarida Cardoso, Ivo M. Ferreira, José Manuel Costa, Fernando Matos Silva, Hugo Vieira da Silva, Orlando Sérgio, Manuel Faria de Almeida, Joaquim Lopes Barbosa, Maria do Carmo Piçarra, bem como os excertos dos inúmeros filmes que são mostrados, dão-nos um conjunto de testemunhos e interpretações valiosas para melhor compreender e fazer a leitura cinematográfica deste passado comum ao país colonizador e aos países colonizados.

A opção de, a certo momento do filme, deixarmos de ter o nosso guia no ecrã, marca o momento em que Fantasmas do Império perde o seu fio condutor e divaga, com destinos confusos - onde Macau surge a propósito do trabalho de Ivo M. Ferreira, mas totalmente desenquadrado do objectivo do documentário.


Todavia, no seu conjunto, o documentário de Ariel de Bigault constitui um importante registo e análise daquilo que foi o colonialismo e no impacto que isso tem tido até à actualidade: os traumas de guerra de que ninguém quer falar, os filmes-propaganda do Estado Novo e o redescobrimento dos fantasmas do colonialismo que, mais recentemente, o cinema nacional tem enfrentado sem receios e com muita vontade de compreender e desmistificar.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Sugestão da Semana #376

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana recomenda o filme português, Hotel Império, de Ivo M. Ferreira. Passada integralmente em Macau, a longa-metragem é protagonizada por Margarida Vila-Nova. Podes ler a crítica ao filme aqui, bem como a conversa com realizador e elenco, aqui.

HOTEL IMPÉRIO


Ficha Técnica:
Título Original: Hotel Império
Realizador: Ivo M. Ferreira
Actores: Margarida Vila-Nova, Rhydian Vaughan, Tiago Aldeia, Cândido Ferreira
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 82 minutos

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Crítica: Hotel Império (2018)

*8/10*


Ivo M. Ferreira guia-nos numa viagem de sensações e nostalgia a Macau, 20 anos após ter regressado à soberania chinesa. Hotel Império apela à memória e aos sentidos e filma uma realidade tão distante mas com tanto em comum com o passado português.

Falado em quatro línguas diferentes, onde o cantonês é o idioma mais presente (os outros são o português, inglês e mandarim), eis um projecto ambicioso. A decadência das personagens condiz com a dos bairros macaenses, e é o encanto presente nesta desilusão que se afigura singular e comovente.


A casa de Maria (Margarida Vila-Nova) sempre foi o Hotel Império, nos bairros tradicionais de Macau, onde há roupa pendurada entre os neons, e um emaranhado de fios eléctricos invade ruas cheias de vapores. Com o pai envelhecido e viciado no jogo, o fardo de manter o decrépito hotel em funcionamento recai-lhe sobre os ombros. Canta fado num casino onde o jogo e a prostituição andam de mãos dadas, mas o dinheiro é pouco e os especuladores imobiliários tornam-se insistentes. Surge então Chu (Rhydian Vaughan), jovem misterioso com um interesse obsessivo por Maria.

O realizador Ivo M. Ferreira tem uma sensibilidade estética pouco comum no cinema português. Tudo é inebriante em Hotel Império. Exteriores e interiores distinguem-se pelas cores, o brilho e os muitos paradoxos causados pela alegria dos neons junto aos edifícios antigos em tons escuros. Nas ruas, as sensações são mais que muitas, desde o homem que passeia com a gaiola do seu pássaro - parece saído de outra dimensão - à azáfama do dia-a-dia. As personagens e os bairros são filmados com um encanto que os eleva a algo inatingível, intocável: uma cidade em degradação, a par das personagens, coreografadas na ruína.


Os sonhos de Maria vão ficando pelo caminho, enquanto o dinheiro escasseia e tantos dependem dela. Chu chega para quebrar a monotonia da rotina da protagonista, carregando um segredo consigo. E, entre os dois, a ganância de Edgar - num bom desempenho de Tiago Aldeia - é o motor de arranque para o desmoronamento do hotel e da sua gente. A história de Maria e de Chu poderá não ser o ponto mais forte da longa-metragem, mas também ela é intensa, principalmente pelo magnetismo e sensualidade das personagens num excelente trabalho dos actores - destaque, sem dúvida, para Margarida Vila-Nova e Rhydian Vaughan.

Hotel Império faz-nos ainda questionar valores e apela à memória, com grande ênfase na destruição do passado (neste caso, o de Portugal em Macau), que acontece em Macau mas igualmente em outros locais do mundo, desde há muitos anos. Eis aqui a intemporalidade da narrativa. Mas há hábitos que continuam iguais. Como o dedilhar a parede enquanto subimos as escadas. O toque que faz regressar à infância, quase esquecida, dos protagonistas. Agora, no presente, tudo é cruel e difícil. A memória física vai desaparecendo, mas enquanto existirmos ela perdurará.


Há uma magia e encanto naturais do que nos é distante e quase desconhecido mesmo que alguma vez já tenha feito parte de nós. Assim é Macau. Assim nos chega em Hotel Império.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Hotel Império: Realizador e actores falaram com o Hoje Vi(vi) um Filme

Hotel Império, o novo filme de Ivo M. Ferreira, estreia esta Quinta-feira, dia 9 de Maio, nas salas de cinema nacionais. O Hoje Vi(vi) um Filme esteve no visionamento privado da longa-metragem e conversou um pouco com actores e realizador acerca deste trabalho, filmado integralmente em Macau. A longa-metragem é protagonizada por Margarida Vila-Nova, e conta com Rhydian Vaughan, Tiago Aldeia e Cândido Ferreira no elenco.


Margarida Vila-Nova fala quatro línguas diferentes no filme (cantonês, português, inglês e mandarim) e assume que a sua personagem, Maria, "é uma guerreira, uma lutadora, uma sobrevivente, uma mulher que vemos transformar-se ao longo do filme". A actriz explica que a sua personagem "começa por se anular e por ter como prioridade salvar este Hotel Império, este hotel em ruínas que é do pai dela, e está penhorado por uma dívida ao jogo". Vamos tentando perceber qual o preço da protagonista. "E entre casinos, prostituição, jogo, até onde é que esta Maria vai para salvar o seu hotel que no fundo são as memórias dela, as referências dela, a sua identidade", continua Margarida.

Margarida Vila-Nova convida a ver Hotel Império

Também os bairros de Macau surgem em Hotel Império como quase mais uma personagem e, a par de Maria, "também a própria cidade onde ela vive se transforma e muda, E há uma certa erosão, há um ruir deste Hotel Império, mas também de uma cidade e destas personagens que habitam este hotel", conclui.

Sobre interpretar Maria, personagem que a fez aprender a falar cantonês - já que é o idioma em que mais fala ao longo do filme -, Margarida Vila-Nova não hesita em dizer que "foi certamente um dos meus maiores desafios". "Tive durante muito tempo aulas de chinês e depois, próximo da rodagem, tinha cerca de duas horas de coaching por dia para ter a certeza de que tudo o que eu estava a dizer estava a dizer com o tom certo, da forma certa...", explica. Dado o português e o cantonês serem tão diferentes, houve necessidade de "esmiuçar cada palavra, perceber o sentido, a emoção, a sensação, a intenção que estava por detrás de cada frase", conta Margarida. "No caso do chinês, se alterarmos um tom à palavra vamos mudar-lhe o sentido. Corremos o risco de dizer... uma coisa muito feia." [risos]

Para além da língua, também fisicamente Margarida se sentiu desafiada ao interpretar Maria. "Eu vivi em Macau durante sete anos, mas não deixei de ser uma estrangeira", diz. "Esta personagem cresceu neste ambiente, então esta identificação ou esta familiaridade com o espaço, com o bairro, com os outros personagens foi um trabalho ainda longo de conquistar ou de construir", conclui.

Tiago Aldeia convida a ver Hotel Império

Para o realizador, Ivo M. Ferreira, que vive em Macau há mais de 20 anos, Hotel Império é, "de alguma forma, um filme síntese sobre as primeiras impressões em Macau e, por outro lado, sobre o que lá passei ao longo destes 20 e tal anos". Assume que "o filme tem um lado muito distópico, mas também um lado muito actual", tanto que poderia passar-se tanto agora, como nas décadas passadas ou até nos próximos anos. Contudo, conclui que "faz muito sentido ser agora, 20 anos depois da transferência de soberania da administração de Portugal para a República Popular da China".

Quanto ao visual dos bairros de Macau, o realizador explica que "a minha ideia era quase uma coisa um bocado absurda, como se a erosão da paisagem urbana pudesse ser também uma aglomeradora de ideias para forjar uma identidade. Há tanta coisa a acontecer de repente - que não é de repente, porque acontece desde os anos 50 -, em relação à destruição do que é património arquitectónico indoeuropeu, que cria um medo nas pessoas".

Ivo convida o público a assistir a Hotel Império: "Acho que é uma viagem interessante a Macau, uma viagem muito condicionada pelo meu olhar, pela minha visão, pela minha imagética".


Rhydian Vaughan e Ivo M. Ferreira convidam a ver Hotel Império (em português e cantonês)

Sinopse:
A casa de Maria sempre foi o Hotel Império, nos bairros tradicionais de Macau, onde há roupa pendurada entre os neons, e um emaranhado de fios eléctricos invade ruas cheias de vapores. Com o pai envelhecido, o fardo de manter o decrépito hotel em funcionamento recai-lhe sobre os ombros. Canta Fado num Casino onde o jogo e a prostituição andam de mãos dadas, mas o dinheiro é pouco e os especuladores imobiliários tornam-se insistentes. Surge então Chu, jovem misterioso com um interesse obsessivo por Maria. Sonhos desiludidos, ganância e decadência: crónica de uma Macau de hoje, 20 anos após o regresso à China.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Em Português: Cartas da Guerra (2016)

Não só é uma história de amor poética e fogosa, como é um retrato fiel de uma realidade histórica que ainda se tem medo de abordar. É um filme que sinto na pele, de cada vez que o vejo, captando sempre novos pormenores, novas sensações. Cartas da Guerra foi amor à primeira vista, apaixonante e apaixonado. Conquista-me pelas palavras de ternura e pelas imagens duras, a preto e branco.


O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

É um filme de guerra mas sensorial e sensível. Não é meigo, não esconde nada. Mas as saudades e a distância que separam um grande amor, em que cada um dos amantes está num continente diferente, a sofrer em silêncio, só o papel pode colmatar. O papel é a partilha que não acontece cara a cara. O papel é o que ateia a chama da paixão.


Uma realidade que tantos foram obrigados a viver, que marcou a vida de famílias inteiras, que está no passado mas corre no sangue da nação e, mesmo que ninguém fale, que ninguém recorde, todos se lembram dela. Uma guerra que Portugal tem vergonha de lembrar, de filmar, de admitir que foi sangrenta e marcante para todos. Por tudo isto, Ivo M. Ferreira é um homem de coragem ao filmar este tema, e fá-lo muito bem.

O sofrimento espelha-se nos olhares, mais do que nas imagens violentas, e o amor é personificado nas vozes e nos rostos jovens de Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes.

Cartas da Guerra é um poema de amor em termos de guerra.


Na altura da estreia no IndieLisboa'16 escrevi esta crítica.

sábado, 25 de março de 2017

Prémios Sophia 2017: Os vencedores

Os vencedores dos Prémios Sophia 2017 foram anunciados na passada Quarta-feira, dia 22 de Março, numa cerimónia no CCB, em Lisboa. Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, foi o grande vencedor da noite com nove estatuetas.


Eis a lista completa de vencedores:

Melhor Curta-Metragem de Ficção
Menina, Simão Cayatte

Melhor Curta-Metragem de Animação
Estilhaços, José Miguel Ribeiro

Melhor Curta-Metragem de Documentário
Balada de um Batráquio, Leonor Teles

Prémio Sophia Estudante
A Instalação do Medo, Ricardo Leite

Melhor Actriz Secundária
Manuela Maria - A Mãe é que Sabe

Melhor Actor Secundário
Adriano Carvalho - A Mãe é que Sabe

Melhor Guarda Roupa
Lucha d'Orey - Cartas da Guerra

Melhor Direcção Artística
Nuno G. Mello - Cartas da Guerra

Melhor Maquilhagem e Cabelos
Nuno Esteves “Blue” - Cartas da Guerra

Melhor Documentário em Longa-Metragem
Mudar de Vida, José Mário Branco, vida e obra, Nelson Guerreiro, Pedro Fidalgo

Melhor Som
Ricardo Leal - Cartas da Guerra

Melhor Banda Sonora Original
Mário Laginha - Cinzento e Negro

Melhor Direcção de Fotografia
João Ribeiro - Cartas da Guerra

Melhor Argumento Original
Luís Filipe Rocha - Cinzento e Negro

Melhor Argumento Adaptado
Ivo M. Ferreira, Edgar Medina - Cartas da Guerra

Melhor Montagem
Sandro Aguilar - Cartas da Guerra

Melhor Canção Original
Sobe o Calor – letra de Sérgio Godinho e música de Filipe Raposo - Refrigerantes e Canções de Amor

Melhor Actriz Principal
Ana Padrão - Jogo de Damas

Melhor Actor Principal
Miguel Borges - Cinzento e Negro

Melhor Realizador
Ivo M. Ferreira - Cartas da Guerra

Melhor Filme
Cartas da Guerra, O Som e a Fúria

Prémio Mérito e Excelência
Ruy de Carvalho

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Cartas da Guerra representa Portugal nos Oscars e nos Goya 2017

A Academia Portuguesa das Artes e Ciências Cinematográficas escolheu o filme Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, para representar Portugal na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, nos Oscars da Academia Americana de Cinema e na categoria de melhor filme ibero-americano, nos Prémios Goya, da Academia Espanhola.


Cartas da Guerra baseia-se no livro D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, composto por cartas que o escritor escreveu à mulher quando foi alferes em Angola, durante a guerra colonial. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido, ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

No elenco da longa-metragem estão actores como Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, Tiago Aldeia, João Luís Arrais e Pedro Ferreira.

A 89ª Gala de entrega dos Oscars está marcada para 26 de Fevereiro de 2017 em Los Angeles, enquanto que a 31ª Edição dos Prémios Goya acontecerá a 4 de Fevereiro de 2017, em Madrid.


Cartas da Guerra teve a sua estreia internacional na Competição Internacional do Festival de Berlim, passou pelo Festival IndieLisboa e está nos cinemas desde 1 de Setembro. 

Podes ler ou reler a crítica do Hoje Vi(vi) um Filme ao Cartas da Guerra aqui.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Sugestão da Semana #236

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira. Baseado nas cartas que António Lobo Antunes escreveu à mulher enquanto esteve na Guerra Colonial, o filme dá-nos uma visão romântica e dura desta época da História de Portugal. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

CARTAS DA GUERRA


Ficha Técnica:
Título Original: Cartas da Guerra
Realizador: Ivo M. Ferreira
Actores: Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Simão Cayatte, Isac Graça, Francisco Hestnes Ferreira, Tiago Aldeia
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 105 minutos

quarta-feira, 27 de abril de 2016

IndieLisboa'16: Cartas da Guerra (2016)

"Adoro-te, minha gata de Janeiro, meu amor, minha gazela, meu miosótis, minha estrela aldebaran, minha amante, minha Via Láctea..."
António


*9/10*

Amor em tempos de guerra é uma boa forma de resumir Cartas da Guerra, o corajoso e pioneiro filme de Ivo M. Ferreira nesta abordagem tão intima e absorvente da Guerra Colonial.

Foi assim que se celebrou o 25 de Abril no Grande Auditório da Culturgest, esgotado. Depois da estreia internacional na Competição Internacional do Festival de Berlim, Cartas da Guerra teve no IndieLisboa a sua estreia nacional. O filme adapta uma obra do escritor António Lobo Antunes, composta por cartas que este escreveu à mulher durante a sua estadia na guerra do ultramar. A acção começa em 1971, quando António vê o seu quotidiano em Lisboa ser interrompido ao ser destacado para servir como médico no Leste de Angola. Perante a extrema violência e desolação, António escreve à mulher Maria José, contando o que vê, o que sente, como que abrigando-se do pior.

Um retrato provavelmente nunca antes visto no cinema português do que foi estar na Guerra Colonial. A desconfiança, o medo do inesperado, os vícios, a saudade, a distância, a imprevisibilidade... o fim tão próximo e tão longe. A dor do tempo a passar só era aliviada quando o correio chegava, as notícias da família, do amor que ficou em Portugal, ou no momento de responder às cartas, contar o quotidiano, os tormentos, o desespero, o medo de não voltar.


Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes são o casal protagonista e são as suas vozes que nos lêem as cartas enviadas por António a Maria José. Ela em Lisboa, ele em Angola, o tempo a passar, a barriga dela a crescer e o amor dos dois a aumentar com as saudades. Cartas ternas, românticas, fogosas, a paixão que não se pode viver fisicamente é descrita com o mesmo fulgor em cada folha de papel. Um dos momentos mais fortes e envolventes de Cartas da Guerra é-nos mostrado pela câmara de Ivo M. Ferreira, numa espécie de amor feito à distância.

A acompanhar o texto, as imagens, duras, sombrias, entre os horrores da guerra, ver camaradas a partir, minas, tiros, o inimigo iminente que não se sabe por onde espreita, e os povos locais, doentes ou com medo, mas sempre com vontade de conviver com os soldados portugueses. A preto e branco, desde a viagem por mar para Angola, até ao quotidiano em Chiúme, Cartas da Guerra coloca-nos no centro da acção, através de planos hipnóticos, que agarram à acção, deixando-nos extasiados pelas paisagens longínquas e deslumbrantes - que transmitem o calor, o exotismo, a selva -, como igualmente abalados, atordoados, na expectativa de que aconteça o pior a qualquer momento, perdidos, por vezes, numa tranquilidade suspeita e inquietante.

Miguel Nunes merece destaque ao encarnar António, este médico sensível, que é obrigado a deixar a mulher grávida noutro continente para servir na guerra. A experiência transformadora - de onde a tristeza nunca vai desaparecer - e a impotência perante as atrocidades que o rodeiam é transmitida pelo actor de forma comedida, mas com uma naturalidade que nos diz muito. Miguel espelha as emoções no olhar, nos seus gestos subtis e contidos.


No meio destas cartas de amor escritas durante a guerra, sente-se a falta de mais visceralidade nas imagens, e, talvez, de menos narração, que, por vezes, tira o foco da acção (ou vice-versa). Compreende-se, contudo, que num filme romântico as cartas de amor sejam uma forma de aliviar a dor da separação e os horrores do conflito: mais poesia, menos sangue.

Ivo M. Ferreira realizou um filme que fazia muita falta a Portugal e ao mundo. Música, imagens e palavras revelam a Guerra Colonial do lado de quem lá esteve. Com harmonia e encanto, o cinema conta uma história de amor, que é também a dura História de uma nação.