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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Crítica: Projecto Global (2026)

"Olha que isto não vai lá com bombas. Querem poder, candidatem-se, como os outros sacanas todos."

Inspector-Chefe

*7/10*

Na semana de comemoração da Revolução do 25 de Abril de 1974, Ivo M. Ferreira trouxe para os cinemas portugueses Projecto Global, filme em que trabalhou nos últimos anos, resultado de muita pesquisa histórica, com o historiador Francisco Bairrão Ruivo - e do qual nasceu também o livro As FP-25 e o Pós-Revolução, editado pela Tinta da China -, entrevistas aos ex-operacionais e aos inspetores e agentes da PJ que estiveram no seu encalço.

Projecto Global está longe de ser panfletário ou de tomar partidos. O filme é isento de moralidades ou posicionamentos e retrata uma época de violência reaccionária em Portugal, no caso, do lado do grupo armado de extrema-esquerda FP-25, do ponto de vista de alguns dos seus membros, assombrados pelo medo do regresso de uma nova ditadura. Mas a Revolução já tinha sido feita.


"Lisboa, anos 80. Rosa junta-se a um grupo de jovens desiludidos com o Portugal pós-Revolução. Integrados numa organização armada clandestina de extrema-esquerda, partilham ideais políticos e um quotidiano que os aproxima cada vez mais. Mas o seu idealismo colide de frente com o país em mudança e com uma vasta operação policial que os tem como alvo. Em fuga por uma estrada sem regresso nem saída, as suas vidas são feitas de assaltos a bancos, bombas, amizades, prisão, amor e morte. Encurralados, a única escolha que lhes resta é continuar a fugir até serem presos, ou mortos."

Ivo M. Ferreira está longe de querer dar uma lição de História à plateia. Se por um lado, o seu filme representa uma época pouco abordada da História de Portugal recente - e convida a uma descoberta posterior mais aprofundada -, por outro, está construído para passar facilmente por um policial de época. Projecto Global é essencialmente um thriller cheio de acção e personagens magnéticas - em especial Rosa (Jani Zhao) e Queiroz (Isac Graça). Não faltam explosões, tiroteios e perseguições, com a qualidade técnica que pouco se vê no cinema português. Grande trabalho de montagem e som, especialmente nas sequências de acção, da direcção de fotografia capaz de captar a aura clandestina e obscura que paira sobre as personagens, e das equipas de direcção artística, caracterização e guarda-roupa pela muito certeira recriação da época.

Sem heróis, o realizador mostra as dúvidas e inquietações dos "potenciais" vilões, estes rebeldes que não percebem que a causa que defendem já não existe. A ligação da plateia às personagens nunca é de admiração, pelo contrário, há uma ambiguidade latente e personalidades tão díspares, mas as razões que levaram cada uma à situação em que está vão sendo reveladas ao longo da acção. A ideia de um fascismo que espreita a cada esquina ou os traumas que ficaram da guerra estão entre as razões para cada um daqueles homens e mulheres se mobilizarem e acreditarem que só pegando em armas é que conseguirão chegar à revolução.

No elenco, Jani Zhao destaca-se quase como uma femme fatale - sem intenção de o ser. Rosa é magnética, decidida, independente. Acredita ser capaz de tudo pela Liberdade, pela causa em que acredita e pelo filho pequeno. O seu magnetismo conquista os dois lados da barricada, mas, por muito que se queira entregar à paixão, viver na clandestinidade não lhe permite confiar ou entregar-se ao amor. Ao seu lado, logo ao início surge Queiroz, numa magnífica interpretação de Isac Graça, um homem sensível, cheio de revolta e dor, que encontra consolo nas acções das FP-25; um amigo fiel e companheiro de aventuras de Rosa - os dois actores resultam muito bem em cena. São muitos mais os nomes que também contribuem para o sucesso de Projecto Global, seja o PJ apaixonado, José Pimentão (Marlow), o inspector Ivo Canelas, o revolucionário convicto Rodrigo Tomás (Jaime), entre tantos outros.

Projecto Global funciona de forma intensa e muito cativante durante bastante tempo, mas perde-se um pouco em romances impossíveis e no impasse e desencanto que acaba por levar também ao fim das FP-25. Talvez a longa-metragem seja o reflexo daqueles que retrata, da excitação inicial cheia de ideais e esperança, ao desalento ao constatar a frieza com que alguns matam só porque "alguém" manda.

Ivo M. Ferreira merece todo o reconhecimento pela coragem em trazer para o cinema uma parte quase apagada da História de Portugal pós-revolução, mais ainda num momento de tanta divisão na sociedade e na política. O realizador gosta de aprofundar os traumas portugueses e já não é a primeira vez que o faz, veja-se, por exemplo, Cartas da Guerra, onde espelha alguns dos horrores da Guerra Colonial. Que continue com esta ousadia tão necessária na Sétima Arte.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Sugestão da Semana #715 + Sugestão Literária

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Projecto Global, de Ivo M. Ferreira, que acompanha membros do grupo armado de extrema-esquerda FP25, na década de 1980, em Lisboa. O filme estreou em vésperas do 25 de Abril e, nada como aproveitar a celebração da Revolução dos Cravos, para uma sessão de cinema. Pela Liberdade, contra a violência, venha ela de qualquer quadrante político.

Aproveito esta estreia para uma sugestão literária, que ajuda a conhecer mais sobre os excessos pós-revolução. As FP-25 e o Pós-Revolução – «Normalização» e Violência Política, do historiador Francisco Bairrão Ruivo, editado pela Tinta da China, é o resultado de um extenso trabalho de investigação histórica que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira.

PROJECTO GLOBAL


Ficha Técnica:
Título Original: Projecto Global
Realizador: Ivo M. Ferreira
Elenco: Jani Zhao, Rodrigo Tomás, José Pimentão, Isac Graça, Gonçalo Waddington, João Catarré, Ivo Canelas, Hugo Bentes, Isabél Zuaa, João Pedro Mamede, Pedro Marujo, João Estima, Adriano Luz, Ana Tang, Lee Zhao Ferreira, Gonçalo Cabral
Género: Acção, Drama, Histórico, Thriller
Classificação: M/14
Duração: 140 minutos


Autor: Francisco Bairrão Ruivo
Prefácio: Rui Cardoso Martins


Editora: Tinta da China
MAIO DE 2026  |  280  PP |  14x21CM
ISBN: 978‐989‐595‐022-5

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Estreias da Semana #715

Esta Quinta-feira, chegaram às salas de cinema portuguesas oito novos filmes. Projecto Global, de Ivo M. Ferreira, é o grande destaque, mesmo a propósito das comemorações do 25 de Abril.

A Mulher Mais Rica do Mundo (2025)
La Femme la plus riche du monde
Marianne (Isabelle Huppert) é a mulher mais rica do mundo. Pierre-Alain é um jovem escritor e fotógrafo em Paris. Conhecem-se numa sessão fotográfica e tornam-se inseparáveis. A amizade amorosa surpreende, diverte, intriga, faz as pessoas falarem e acaba por perturbar a comitiva e a família da bilionária. A filha de Marianne, em particular, tem dificuldade em aceitar a súbita cumplicidade da mãe com um homem mais jovem e portador de um apetite insaciável por dinheiro. História inspirada no caso real de Liliane Bettencourt, herdeira da L'Oréal.

A Rapariga Que Sabia Demais (2025)
Was Marielle weiß / What Marielle Knows
Julia e Tobias parecem o casal perfeito. O frágil equilíbrio entre os dois desfaz-se quando a sua filha, Marielle, desenvolve capacidades telepáticas que lhe permitem ver e ouvir tudo o que os seus pais fazem... dia e noite.

Aprender (2025)
Apprendre
O novo filme de Claire Simon leva-nos para a escola primária Makarenko, um estabelecimento de ensino público nos arredores de Paris. Entre o recreio e as salas de aula, observamos as interações diárias entre professores e alunos e os seus pequenos dramas e triunfos. Numa homenagem a uma das mais nobres profissões, posta em causa pelo subfinanciamento do sistema educativo francês, a documentarista mostra como os professores, mais do que ensinar, educam estas crianças. Sem interferir, mas de forma empática e gentil, Aprender dá-nos a ver a vida no seu estado mais cru e real.

Chão Verde de Pássaros Escritos (2026)
O escritor Luandino Vieira regressa ao Tarrafal, onde esteve encarcerado por oito anos, e traz à luz palavras antigas escritas na prisão - papéis soltos, cartas, telegramas, diários, projectos de livros – e abre janelas para sonhos distantes, medos, resistência e desistências, independências.

Cherchez la Femme (2026)
Durante a transição do século XIX para o século XX, entre Paris e Lisboa, Cherchez La Femme retrata uma época fervilhante de ideias e de ambição por novas sensações, na qual dois homens desenvolvem uma enorme cumplicidade: Lúcio Vaz (Ângelo Rodrigues), dramaturgo e escritor da Geração de Orpheu, e Ricardo de Loureiro (Romeu Costa), um poeta reconhecido e misterioso, de origens nobres. Marta (Joana Barradas), mulher-perdição e enigmática, é a musa que desperta impulsos de desejo e de loucura, levando à transgressão dos cânones burgueses e conservadores da altura.

Michael (2026)
Retrato aprofundado de Michael Jackson (Jaafar Jackson), um homem complexo que se tornou num dos artistas mais populares de sempre.

My Way - A História de uma Canção (2024)
My Way
Muito mais do que uma canção, My Way atravessou épocas, fronteiras e gerações. Hino que se impôs como parte duradoura na história da música é também uma das canções mais interpretadas do mundo, de Sid Vicious a Tom Jones, de Nina Simone a Pavarotti. No entanto, muitos desconhecem que My Way nasceu em França, à beira da piscina da mansão de Claude François numa tarde de verão de 1967, e que uma sucessão de encontros fortuitos e noites em branco a conduziram através do Atlântico. O documentário My Way conta a história de uma canção e a forma como ascendeu ao panteão da cultura popular.

Projecto Global (2026)
Lisboa, anos 80. Rosa (Jani Zhao) junta-se a um grupo de jovens desiludidos com o Portugal pós-Revolução. Integrados numa organização armada clandestina de extrema-esquerda, partilham ideais políticos e um quotidiano que os aproxima cada vez mais. Mas o seu idealismo colide de frente com o país em mudança e com uma vasta operação policial que os tem como alvo. Em fuga por uma estrada sem regresso nem saída, as suas vidas são feitas de assaltos a bancos, bombas, amizades, prisão, amor e morte. Encurralados, a única escolha que lhes resta é continuar a fugir até serem presos, ou mortos.