"Isto é o prenúncio do fim..."
*8/10*
João Nuno Pinto distingue-se no cinema português pela forma diferenciadora de filmar e pela criatividade com que tem construído a sua, ainda curta, filmografia. À terceira longa-metragem, o realizador continua a não desiludir. 18 Buracos para o Paraíso é um espelho do seu estilo provocador e muito actual.
"Numa herdade portuguesa assolada pela seca, proprietários e empregados relatam a mesma história a partir de visões opostas, expondo as feridas, contradições e fragilidades de um mundo à beira do colapso."
18 Buracos para o Paraíso acontece em pleno Verão, no Alentejo, onde uma reunião familiar, com vista à venda da propriedade que três irmãos herdaram do pai, se transforma numa história de sobrevivência, quer pelo grande incêndio que deflagra muito perto, quer pela luta de classes que, de repente, toma lugar.
Retrato hiperbolizado do mundo actual (ou talvez a realidade ainda seja pior), o filme lança temas "sensíveis", como a pressão imobiliária, a seca, a desertificação do interior e as culturas intensivas no Alentejo. Descobrem-se segredos, desafiam-se as personagens, que se revelam, pouco a pouco, quanto mais quente e seco o ambiente se torna. A tensão é crescente, e tudo fica cada vez mais incómodo e sujo (no sentido mais físico da palavra), com o calor, o fumo e falta de água a contribuírem para esse resultado. Prende-se ao ecrã a plateia, curiosa, que, inesperadamente, é conduzida por um caminho incómodo e para um desenlace desafiador.
Há um lado de alerta ambiental muito forte em 18 Buracos para o Paraíso - primeiro filme português com a certificação internacional Green Film, que reconhece práticas ambientalmente responsáveis na área audiovisual -, e mesmo que esse não seja o principal foco da longa-metragem, é o grande influenciador das cisões da trama.
Muito influenciado pelo seu percurso da publicidade, a obra de João Nuno Pinto apresenta um dinamismo pouco comum no panorama cinematográfico nacional. Ao mesmo tempo, as influências de outros cineastas denotam-se em muitos planos ou movimentos de câmara mais arrojados.
E mesmo que haja alguns clichés aparentemente evitáveis - quase todos na personagem do irmão da família, interpretado por Jorge Andrade -, estes também servem para agudizar o fosso entre ricos e pobres em redor da herdade. Os que servem e os que são servidos, os que têm tudo e querem mais e os que pouco têm e ainda continuam a dar aos outros.
A forma tripartida de contar a mesma história funciona especialmente bem na primeira e terceira partes - os pontos de vista de Francisca e de Susana -, com a conclusão épica na cena final, uma espécie de pintura em movimento. Tecnicamente, 18 Buracos para o Paraíso é irrepreensível, com uma fabulosa direcção de fotografia, efeitos especiais de invejar e um trabalho de som muito bem conseguido. Também a certeira banda sonora da compositora Ginevra Nervi acompanha a acção e a tensão crescente como poucas.
O filme de João Nuno Pinto distingue-se ainda por ter três protagonistas femininas, algo que rareia no cinema. Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço são as três mulheres fortes da história (onde também Luísa Ortigoso e Joana Bernardo se destacam), todas elas com interpretações marcantes.
Como Francisca, Margarida Marinho surge livre para se entregar a uma personagem que deambula entre a extravagância e a loucura, com o álcool a comandar grande parte dos seus dias, demonstrando um humanismo que os irmãos não partilham consigo; já a enfermeira Susana, de Rita Cabaço, a filha da empregada da casa, mostra uma extraordinária capacidade de tomar as rédeas da acção quando tudo parece perdido, num desespero e raiva latentes e um amor que chega a magoar. As duas actrizes são magnéticas e entregam-se totalmente a 18 Buracos para o Paraíso.
E, depois de América (2010) e Mosquito (2020), João Nuno Pinto não desilude. 18 Buracos para o Paraíso é o espelho da criatividade do seu autor e da sua forma diferenciadora de filmar. Um filme provocador, que mantém o suspense, segue rumos inesperados e nunca deixa a plateia num lugar seguro.






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