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domingo, 28 de junho de 2026

Crítica: 18 Buracos para o Paraíso (2025)

"Isto é o prenúncio do fim..."


*8/10*

João Nuno Pinto distingue-se no cinema português pela forma diferenciadora de filmar e pela criatividade com que tem construído a sua, ainda curta, filmografia. À terceira longa-metragem, o realizador continua a não desiludir. 18 Buracos para o Paraíso é um espelho do seu estilo provocador e muito actual.

"Numa herdade portuguesa assolada pela seca, proprietários e empregados relatam a mesma história a partir de visões opostas, expondo as feridas, contradições e fragilidades de um mundo à beira do colapso."


18 Buracos para o Paraíso acontece em pleno Verão, no Alentejo, onde uma reunião familiar, com vista à venda da propriedade que três irmãos herdaram do pai, se transforma numa história de sobrevivência, quer pelo grande incêndio que deflagra muito perto, quer pela luta de classes que, de repente, toma lugar.

Retrato hiperbolizado do mundo actual (ou talvez a realidade ainda seja pior), o filme lança temas "sensíveis", como a pressão imobiliária, a seca, a desertificação do interior e as culturas intensivas no Alentejo. Descobrem-se segredos, desafiam-se as personagens, que se revelam, pouco a pouco, quanto mais quente e seco o ambiente se torna. A tensão é crescente, e tudo fica cada vez mais incómodo e sujo (no sentido mais físico da palavra), com o calor, o fumo e falta de água a contribuírem para esse resultado. Prende-se ao ecrã a plateia, curiosa, que, inesperadamente, é conduzida por um caminho incómodo e para um desenlace desafiador.


Há um lado de alerta ambiental muito forte em 18 Buracos para o Paraíso - primeiro filme português com a certificação internacional Green Film, que reconhece práticas ambientalmente responsáveis na área audiovisual -, e mesmo que esse não seja o principal foco da longa-metragem, é o grande influenciador das cisões da trama.

Muito influenciado pelo seu percurso da publicidade, a obra de João Nuno Pinto apresenta um dinamismo pouco comum no panorama cinematográfico nacional. Ao mesmo tempo, as influências de outros cineastas denotam-se em muitos planos ou movimentos de câmara mais arrojados.

E mesmo que haja alguns clichés aparentemente evitáveis - quase todos na personagem do irmão da família, interpretado por Jorge Andrade -, estes também servem para agudizar o fosso entre ricos e pobres em redor da herdade. Os que servem e os que são servidos, os que têm tudo e querem mais e os que pouco têm e ainda continuam a dar aos outros.


A forma tripartida de contar a mesma história funciona especialmente bem na primeira e terceira partes - os pontos de vista de Francisca e de Susana -, com a conclusão épica na cena final, uma espécie de pintura em movimento. Tecnicamente, 18 Buracos para o Paraíso é irrepreensível, com uma fabulosa direcção de fotografia, efeitos especiais de invejar e um trabalho de som muito bem conseguido. Também a certeira banda sonora da compositora Ginevra Nervi acompanha a acção e a tensão crescente como poucas.

O filme de João Nuno Pinto distingue-se ainda por ter três protagonistas femininas, algo que rareia no cinema. Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço são as três mulheres fortes da história (onde também Luísa Ortigoso e Joana Bernardo se destacam), todas elas com interpretações marcantes.


Como Francisca, Margarida Marinho surge livre para se entregar a uma personagem que deambula entre a extravagância e a loucura, com o álcool a comandar grande parte dos seus dias, demonstrando um humanismo que os irmãos não partilham consigo; já a enfermeira Susana, de Rita Cabaço, a filha da empregada da casa, mostra uma extraordinária capacidade de tomar as rédeas da acção quando tudo parece perdido, num desespero e raiva latentes e um amor que chega a magoar. As duas actrizes são magnéticas e entregam-se totalmente a 18 Buracos para o Paraíso.


E, depois de América (2010) e Mosquito (2020), João Nuno Pinto não desilude. 18 Buracos para o Paraíso é o espelho da criatividade do seu autor e da sua forma diferenciadora de filmar. Um filme provocador, que mantém o suspense, segue rumos inesperados e nunca deixa a plateia num lugar seguro.

domingo, 14 de junho de 2026

Sugestão da Semana #722

Das estreias da passada Quarta-feira, a Sugestão da Semana destaca 18 Buracos para o Paraíso, de João Nuno Pinto, protagonizado por Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço. A prova de como o Cinema português pode ser surpreendente.

18 BURACOS PARA O PARAÍSO


Ficha Técnica:
Título Original: 18 Buracos para o Paraíso
Realizador: João Nuno Pinto
Elenco: Margarida Marinho, Beatriz Batarda, Rita Cabaço, Jorge Andrade, Luisa Ortigoso, Joana Bernardo, Rita Redshoes, Filomena Gigante, José Pimentão, Gonçalo Coré, Márcia Breia, Hugo Bentes
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 108 minutos

domingo, 19 de março de 2023

Sugestão da Semana #552

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Great Yarmouth: Provisional Figures, de Marco Martins, protagonizado por Beatriz Batarda.

GREAT YARMOUTH: PROVISIONAL FIGURES


Ficha Técnica:
Título Original: Great Yarmouth: Provisional Figures
Realizador: Marco Martins
Elenco: Beatriz Batarda, Nuno Lopes, Kris Hitchen, Rita Cabaço, Romeu Runa, Hugo Bentes
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 113 minutos

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Sugestão da Semana #349

Das estreias da passada Quarta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme português Raiva, de Sérgio Tréfaut. O filme recorda os tempos da ditadura de Salazar por terras alentejanas e tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.


Ficha Técnica:
Título Original: Raiva
Realizador: Sérgio Tréfaut
Actores: Hugo Bentes, Isabel Ruth, Leonor Silveira, Adriano Luz, Rita Cabaço, Luís Miguel Cintra, Catarina Wallenstein, Rogério Samora, Herman José, José Pinto, Diogo Dória, Lia Gama, João Pedro Bénard, Xico Xapas
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 84 minutos

domingo, 4 de novembro de 2018

Crítica: Raiva (2018)

*7/10*

É preciso continuar a lembrar o povo do que foi viver em ditadura. Mais ainda, em tempos como os que correm. Sérgio Tréfaut faz a sua parte ao filmar Raiva, baseado na obra Seara do Vento, de Manuel da Fonseca.


Raiva passa-se no Alentejo, em 1950. Nos campos desertos do Sul de Portugal, fustigados pelo vento e pela fome, a violência explode de repente: vários assassinatos a sangue frio têm lugar numa só noite. Porquê? Qual a origem dos crimes? A história relata os acontecimentos que levaram um camponês pobre a assassinar dois homens a sangue frio e afrontar sozinho a guarda e o exército numa luta desigual.

Mais habituado ao género documental, aqui é a ficção que prevalece, mas não muito distante da História real que aconteceu naqueles campos alentejanos em plena ditadura (quer na realidade, nos anos 30, quer no livro, nos anos 50). Tal como o protagonista diz, a certo momento: "nas terras mortas não há pão, os pobres nascem pobres, os ricos nascem ricos, os pobres morrem pobres, os ricos morrem ricos". Eis um bom resumo de Raiva, onde o abuso de poder dos ricos sobressai. O cante alentejano (não esqueçamos que Tréfaut realizou Alentejo, Alentejo em 2014) acompanha as personagens na sua dor.


A preto e branco como os tempos pedem, entre o passado, a pobreza e a fome, Raiva prima pela direcção de fotografia de Acácio de Almeida e pela crueza da realidade que retrata e que ninguém quer que se repita. 

A simplicidade da história que conta, e deambula pelo neo-realismo, não é maior do que tudo o que simboliza. Um enredo intenso, de que conhecemos primeiro o fim, e depois todos os acontecimentos que levaram àquele desfecho. Esta opção faz com que Raiva perca cedo o fôlego inicial, sem deixar de ser profundo.


No elenco, muitos nomes experientes, de onde destaco a sempre fabulosa Isabel Ruth num papel à sua imagem, uma mulher destemida e forte, e um protagonista não-actor. Hugo Bentes é natural de Serpa e faz parte de grupos de cante alentejano, tendo sido um dos visados no documentário de Sérgio Tréfaut, onde também deu a cara ao cartaz do filme. No caso de Raiva, Bentes revela-se a escolha perfeita, com a alma de um homem da terra e uma grande presença. Das lides do teatro, surge a talentosa Rita Cabaço com um papel pequeno mas relevante, de uma jovem corajosa e emancipada, muito à frente no seu tempo, contra e o abuso de poder constante.

Eis um bom western à portuguesa.