*2/10*
Nicolas Winding Refn regressa às longas-metragens, dez anos depois de O Demónio de Néon (2016), com Her Private Hell - Viagem ao Inferno. No fundo, é mesmo isso que a plateia sentirá ao fim de quase duas horas de luzes, muito fumo e caras bonitas: um filme cheio de nada.
"Um misterioso nevoeiro envolve uma metrópole futurista e liberta uma entidade letal e esquiva. Uma jovem atormentada procura o pai desaparecido e cruza-se com um militar norte-americano destacado no Japão que embarca numa perigosa odisseia para resgatar a filha das profundezas do inferno."
Se logo nos planos iniciais, a cidade de aspecto futurista que é apresentada lembra em muito o ambiente de Blade Runner (1982), - à excepção de uma estrutura espelhada na forma de duas mãos pontiagudas -, depressa esse conceito familiar é abandonado para começar a acção, na forma de uma estranha viagem temporal, entre passado presente e futuro, todos ao mesmo tempo, na mesma dimensão. A misteriosa narrativa, que prometia um encontro entre duas personagens em busca de alguém que lhes era próximo, mal chega a acontecer, com o argumento a perder-se entre fait-divers e aberrações. Repetem-se os corredores sem fim, os clássicos neons, os corpos esbeltos, e, até na violência, os golpes são os do costume. No fundo, tudo se desfaz na névoa que teima em dominar a cidade e deixar um enorme e decepcionante vazio dentro e fora do ecrã.
Sophie Thatcher é (novamente, depois de Companion) tomada como mulher objecto, um talento totalmente desperdiçado, a par de Charles Melton. O filme roça a misoginia, onde não há uma personagem feminina vista de forma positiva. A violência é gratuita (e pouca, tendo em conta o historial do realizador) e francamente repetitiva, para quem acompanha a filmografia do cineasta. O melhor da longa-metragem: talvez a banda sonora de Pino Donaggio.
Lamentavelmente, Nicolas Winding Refn quis filmar sem ter uma história. O visual impactante do autor torna-se, cada vez mais, repetitivo e não chega para criar um bom filme, muito menos com referências cinematográficas despejadas sem engenho. Enquanto não voltar a ter um bom argumento em mãos, o realizador deveria manter-se a trabalhar em publicidade, algo que tão bem faz, sem nunca cansar.



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