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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

BEAST International Film Festival 2022: Programa completo

O BEAST - Internacional Film Festival já tem programação fechada. O evento acontece de 21 a 25 de Setembro, no Porto, e conta com 70 filmes seleccionados, bem como actividades e eventos paralelos.

Para além dos filmes que compõem a Competição Oficial e do programa Highlight Ukraine!, já anunciados anteriormente, esta 5.ª edição do BEAST apresenta um foco no cinema do Montenegro, onde, para além do filme de abertura A Elegia de Laurel, de Dusan Kasalica, haverá espaço para programas dedicados à representação de cineastas emergentes, projectos escolares e uma extensa retrospectiva feita em parceria com a Cinemateca Montenegrina

Novidade nesta edição do festival é o programa Queer Shorts, apresentado em colaboração com o Queer Archives Institute, "organização que regista as representações visuais queer da Europa de Leste na história moderna, em que cada filme nos faz ver a forma como o cinema da região trabalhou e representou a comunidade LGBTQIA+." Por sua vez, a secção Territories "explora o conceito de 'lugar', ao interrogar a força da pertença a um local e o sentimento de deslocação e dissociação a um território".

O BEAST conta ainda com o Visegrad Film Hub, "que apoia as obras audiovisuais da região V4 (República Checa, Hungria, Polónia, Eslováquia), promovendo a interacção cultural e colaborativa através de exibições e projectos educacionais". Aqui inclui-se o programa especial Lost Sci-Fi Epic, onde será exibido o filme de culto inacabado (cancelado pelas autoridades governamentais) do polaco Andrzej Żuławski, On the Silver Globe, acompanhado pelo documentário que conta a história de todo o processo.

Aos filmes, juntam-se conversas, masterclasses, festas, exposições, ou workshops. O BEAST - International Film Festival decorre em vários locais da cidade do Porto: Cinema Passos Manuel, Cinema Trindade, Casa das Artes, OKNA - Espaço Cultural e Livraria Térmita. Mais informações em https://beastfilm.pt/.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Crítica: Cosmos (2015)

*5/10*

Desconcertante, frenético, mas perdido nas suas excentricidades, Cosmos surge-nos como dinamite, provocando espanto, estranheza, nojo, irritação, admiração. Sentimentos opostos que, por um lado, tornam especial e marcante a longa-metragem de Andrzej Żuławski mas, por outro, descredibilizam-na.


Witold (Jonathan Genet) acaba de chumbar nos seus exames de Direito, e Fuchs (Johan Libéreau), seu amigo, abandonou recentemente o emprego numa Casa de Alta Costura parisiense. Ambos vão passar alguns dias no campo e decidem alojar-se numa residencial familiar. São recebidos por um pardal enforcado num cordel na floresta. Depois, um pedaço de madeira preso da mesma forma, uma série de estranhos sinais na parede, no jardim e no bosque. Na pousada há uma empregada – com uma boca estranha e deformada – e, Lena (Victória Guerra), a jovem filha dos donos, por quem Witold manifesta uma paixão obsessiva. Ela está casada com um jovem íntegro e honesto; mas será que ela mesma o é? Um terceiro enforcamento. Um gato, obra de Witold. Mas porquê? Poderá o próximo enforcado ser humano?

A adaptação da obra homónima, de Witold Gombrowicz, ao grande ecrã talvez possa não ter sido boa ideia, especialmente em termos narrativos. Cosmos perde-se em si mesmo, na sua análise psicológica que, no meio de um ritmo tão frenético, deixa o espectador sem rumo. O absurdo sobrepõe-se ao todo e, mesmo que seja essa a intenção, sente-se a falta de uma aura, de uma aproximação ao público para que também ele se possa "apropriar" do filme, senti-lo.


E as sensações são uma constante em Cosmos. Apela-se aos sentidos: à audição, atenta a todos os personagens que gritam, discutem e constroem novas palavras e textos; à visão, que divaga entre as cores fortes no ecrã - o batom, por exemplo -, e as belas paisagens portuguesas - Sintra, Ericeira, Serra da Estrela... -; ao tacto, na ânsia de tocar, no próprio toque, quer nas pessoas, animais, alimentos ou objectos; o paladar, nos pequenos almoços servidos na cama, que, certamente, vão agoniar o espectador, com formigas e lesmas à mistura; e, por fim, menos presente, mas psicologicamente inevitável, o olfacto, já que mesmo na sala de cinema conseguimos imaginar os odores da serra, do mar ou mesmo daquela casa. Este jogo de sensações é um dos pontos fortes da longa-metragem de Żuławski.

A realização, premiada em Locarno, é outra força do filme, com planos entusiastas, uma direcção de fotografia competente, iluminação e cores que condizem com as emoções dos personagens. O ritmo é extremamente frenético e o trabalho de mise-en-scène é fabuloso e fundamental, quando estão em cena muitos personagens e ocorrem diferentes e caricatas situações.


O tom muito excêntrico e teatral de Cosmos faz-me associá-lo a uma farsa - ainda que longe do sentido exacto do género - onde a grande entrega dos actores muito contribui para tal e, neste caso,  Sabine Azéma é mesmo a grande estrela.

Cosmos convida-nos a lidar com a estranheza, com a morte, com a obsessão, mas, ao mesmo tempo, é difícil de entranhar, de digerir, mesmo de tolerar. Fica uma relação amor-ódio, qual Witold e Lena.