terça-feira, 29 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Suzanne (2013)

*5.5/10*

Filme de Abertura da Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2013 e nomeado para cinco Césares, Suzanne prometia mais do que tinha para oferecer. No IndieLisboa'14, a segunda longa-metragem de Katell Quillévéré integra a secção Cinema Emergente e debruça-se sobre a história de Suzanne que nos é contada ao longo de 25 anos. Vamos conhecê-la desde a infância ao lado da irmã e do pai, passando por uma adolescência rebelde. 

As escolhas de Suzanne (Sara Forestier) comprometem fortemente a sua vida, arrastando a sua família para mudanças profundas. As elipses da história mostram-nos isso mesmo e como, apesar de tudo, o pai e a irmã estão sempre lá - mais ou menos próximos - na esperança da redenção da protagonista.

Aqui temos um drama familiar que começa bem cedo, com duas crianças a crescerem sem mãe, que faleceu, criadas por um pai carinhoso que lhes incute os melhores valores. Apesar disso, Suzanne não se mostra a jovem mais responsável e, já como mãe, denota essa irresponsabilidade e falta de apego - quer ao trabalho, quer ao filho. É uma mulher movida por paixões, mais propriamente por Julien, um homem que inspira pouca confiança e que não parece trazer o melhor futuro para aquela mulher. Suzanne só dá valor ao que tem quando o perde e, mesmo assim, sem evitar erros futuros.


Apesar da Família estar no centro do filme de Quillévéré e do drama vivido pelos seus membros, Suzanne não consegue tocar tão fundo como se faz esperar. Rapidamente nos daremos conta que criamos empatia com o pai viúvo e com Marie, a irmã mas nova e que nunca desiste, mas com a protagonista torna-se muito difícil. Acções irreflectidas, decisões egoístas e mimadas, mais amor por um homem do que pelo filho, tornam impossível não fazer juízos de valor perante momentos totalmente injustificados. Nada nos explica o que a move ou faz tomar atitudes tão irreflectidas - cada novo episódio apenas nos parece mais um capricho da protagonista.

É quase como se em Suzanne descobríssemos o lado negativo daquilo que vimos em Frances Ha, com mais pés mas sem a mesma cabeça. A comparação possível entre os dois filmes reside nas protagonistas, Suzanne e Frances Ha - as duas mulheres dão título aos filmes -, ambas irresponsáveis e que levam a vida como bem entendem sem pensar nas consequências. O que as distingue: enquanto Frances se diverte e faz por continuar o seu estilo de vida, Suzanne não poderia passar por mais provações.

Tecnicamente, o filme oferece-nos planos interessantes, muitos filmados de cima, acompanhados por uma bonita fotografia de Tom Harari e por uma banda sonora que é, talvez, o ponto mais positivo de todo o filme. Nas interpretações, as duas actrizes Sara Forestier e Adèle Haenel têm desempenhos sentidos e competentes, acompanhadas de perto por François Damiens, que faz de pai de ambas.

IndieLisboa'14: Double Play: James Benning and Richard Linklater (2013)

*7/10*

Na secção Director's Cut do IndieLisboa, Double Play: James Benning and Richard Linklater traz-nos um interessante documentário sobre dois realizadores tão diferentes mas que, afinal, parecem ter tanto em comum. Gabe Klinger (que marcou presença na sessão na Cinemateca Portuguesa) filma, intimamente, a amizade entre os dois cineastas e desvenda o que os distingue e o que os une. Este retrato da amizade entre Benning e Linklater é construído a partir de conversas filmadas entre os dois e imagens de arquivo.

Ao estilo experimental de Benning contrapomos o mais comercial Linklater. Percorremos alguns títulos da filmografia dos dois cineastas, que nos ajudam a encontrar semelhanças entre géneros, à partida, tão diferentes. Enquanto Benning, mais ligado às artes plásticas, se define como minimalista e apela muito mais à simples contemplação - ele filma comboios a passar, o céu, as estradas, os lagos... -, preferindo tomar as suas próprias decisões e trabalhar sozinho, Linklater - apesar de um início mais experimental - rendeu-se às massas e, com algumas excepções, trabalha para o público comercial.

Muito actual, Double Play já nos oferece conversas - e excertos - sobre Boyhood, o tão falado e aclamado filme que Richard Linklater demorou 12 anos a filmar, e que acompanha o crescimento de duas crianças, o protagonista e a filha do realizador. E aqui encontra-se um ponto em comum com Benning: o registo da passagem do tempo. Um esperou mais de uma década para completar o que tinha idealizado, o outro esperou 27 anos e realizou o mesmo filme, com os mesmos actores. Este é um dos exemplos mais flagrantes que nos fazem ver que as fronteiras entre géneros podem ser muito ténues.


Klinger consegue, com sucesso, intercalar as imagens de arquivo e de excertos de filmes com as conversas entre os dois cineastas que discutem o seu trabalho, percurso e passado. Os dois se apaixonaram pelo cinema depois de uma carreira no basebol durante a universidade. Os dois, passados tantos anos, são filmados a jogar basebol.

Double Play: James Benning and Richard Linklater é este "jogo" que traça um olhar sobre o passado e presente dos dois realizadores, tudo o que os une para além da forte amizade e tudo o que os pode distinguir. Do experimental ao comercial, afinal, não existem assim tantas diferenças.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sugestão da Semana #113

Das estreias da passada Quinta-feira, o Hoje Vi(vi) um Filme destaca Tropicália. Um documentário cheio de música e cor, que percorre a História do Tropicalismo em tempo de ditadura. Podes ler aqui a crítica.

TROPICÁLIA

Ficha Técnica:
Título Original: Tropicália
Realizador: Marcelo Machado
Elenco: Gilberto Gil, Caetano Veloso
Género: Documentário, Música
Classificação: M/12
Duração: 87 minutos

IndieLisboa'14: Centro Histórico (2012)

*6.5/10*

Centro Histórico faz parte das Sessões Especiais do IndieLisboa'14 e foi recebido por uma sala Manoel de Oliveira muito bem composta. O documentário, realizado no âmbito da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, junta quatro aclamados realizadores nacionais e internacionais: Aki Kaurismäki, Pedro Costa, Víctor Erice e Manoel de Oliveira, e subdivide-se em quatro histórias, cada uma da responsabilidade de um realizador.

A cidade de Guimarães é menos elo de ligação dos quatro segmentos de Centro Histórico do que o título sugere. Já a História, essa sim, consegue encontrar-se mais facilmente como unificadora da unidade fílmica. Das quatro curtas-metragens que compõem o filme, a primeira e última surgem num tom mais descontraído, a segunda revela-se a mais pesada e mexe com as emoções da plateia, e a terceira, documental, revela-se um registo histórico curioso, de uma região marcada pelo fabrico de têxteis, agora em decadência. 

Centro Histórico começa com O Tasqueiro, do finlandês Aki Kaurismäki, uma comédia agridoce sem diálogos sobre um taberneiro, que vê muito sem realmente experimentar o que quer que seja. Kaurismäki mostra-nos o centro histórico de Guimarães. Dá-nos a conhecer, naquele palco, um taberneiro anónimo que ambiciona mais, mas que parece viver num desencanto constante. Simples, sóbrio e bonito, Kaurismäki soube bem filmar o berço da nação.

Segue-se Sweet Exorcist, de Pedro Costa, um mergulho reflexivo na memória colonial através de um elevador onde estão um emigrante cabo-verdiano, Ventura (personagem de outros filmes do realizador), e um soldado português. Profundo e duro, o filme vive de memórias, algumas mais confusas que outras, de traumas e de muita História. Falta-lhe apenas o palco ser Guimarães, que não é - nem podia ser com esta temática. Sweet Exorcist proporciona-nos uma interpretação extremamente emotiva de Ventura, e um óptimo trabalho de som, em jeito de alucinação e delírio. O espaço claustrofóbico de um elevador convida a encontros sobrenaturais com recordações perdidas e marcantes. Sweet Exorcist será melhor acolhido por espectadores que conheçam bem a filmografia de Pedro Costa, já que Ventura tem um passado desenhado em filmes anteriores do cineasta português.


Vidros Partidos, do realizador basco Victor Erice, presta homenagem à indústria têxtil centenária de Guimarães, em jeito de documentário, fixando-se nos operários de uma fábrica de vidro inaugurada no século XIX e encerrada em 2002. As histórias dos operários - umas mais marcantes e divertidas que outras - contrastam sempre com a fotografia a preto e branco na parede. O ritmo do documentário - marcado por opções menos bem conseguidas - nem sempre ajuda a plateia, mas Vidros Partidos encerra em grande, acompanhado ao acordeão.

A encerrar Centro Histórico está Manoel de Oliveira com O Conquistador Conquistado que brinca com a avalanche de turistas no centro histórico de Guimarães e as suas fotografias. Simples, pouco profunda, acima de tudo, divertida e irónica, desde o título. A curta-metragem de Oliveira centra-se no turismo e nas máquinas fotográficas, qual arma apontada a D. Afonso Henriques a quem nem a espada pode valer contra elas, bem pelo contrário.

Isoladas, as quatro curtas-metragens que compõem Centro Histórico poderiam funcionar melhor. Já como unidade sente-se que há algo em falta. Talvez seja o título que induz em erro.

IndieLisboa'14: Alentejo, Alentejo (2014)

*9/10*

Um documentário cheio de emoção e de chamamento às raízes, Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut, trouxe ao IndieLisboa (onde integra a Competição Nacional e Observatório) uma surpresa cheia de sentimento e um excelente retrato do Cante Alentejano. Uma viagem à tradição, ao Alentejo profundo, mas também a todos os locais por onde estes cantos deixam marcas ou renascem da boca e para os ouvidos de gente de todas as idades.

De origem popular, o “cante” alentejano sobrevive graças aos grupos que o cultivam no Alentejo e na periferia de Lisboa, os quais recapitulam em ensaio o repertório conhecido de memória, quase sem registo escrito ou sonoro e com reduzidas alterações criativas. No Alentejo, dezenas de grupos amadores reúnem-se regularmente para ensaiar antigos cantos polifónicos e para improvisar cantos sobre o tempo presente. Nascido nas tabernas e nos campos, cantado por camponeses e por mineiros, o cante alentejano deixou os campos e atravessou as fronteiras da sua região. Nas últimas décadas, com a diáspora alentejana, apareceram novos grupos na periferia industrial de Lisboa e em diversos países de emigração, acentuando o cante como traço identitário dos alentejanos onde quer que estejam.

Ainda perto do início de Alentejo, Alentejo rumamos a Lisboa, ao grande piquenique na Praça do Comércio, com um concerto de Tony Carreira. O grupo coral foi convidado a ali comparecer. Contudo, o Cante Alentejano não se deu bem na multidão alienada e barulhenta da capital. Requer a tranquilidade do campo ou, pelo menos, a atenção e disponibilidade para ver, ouvir e sentir, à flor da pele, estas vozes e palavras.

Sérgio Tréfaut parte em busca das suas raízes e leva-nos consigo para que conheçamos (ou reconheçamos) uma das grandes tradições musicais portuguesas, com a calma e ritmo certo para a sentir. Ao apresentar uma série de grupos corais, o realizador desmistifica o Cante Alentejano, que é cantado por homens, mas também por mulheres ou grupos mistos e de todas as idades. Muitos são os jovens que reavivam a tradição, cantando com a mesma emoção e dedicação que os mais velhos.


Homens e mulheres cantam e contam-nos as suas histórias - muitas de uma infância dura e pobre, onde o Cante era um dos momentos de maior alegria - e contagiam-nos com esta paixão que não vivemos, nem ajudamos a criar, mas que vamos ter vontade de preservar e ver continuar.

Muitos relatos são feitos sentados à mesa - a típica açorda não poderia deixar de acompanhar estes cantares. Tréfaut intercala a música com estas conversas à refeição, com o trabalho no campo, na padaria, na mina ou com os relatos de crianças, na escola, com familiares ligados à tradição do cante Alentejano - muitos deles emigrantes.

Alentejo, Alentejo mostra como o Cante Alentejano está vivo e deve ser escutado. Das vozes femininas às masculinas, das vozes magoadas pela terra e pela vida, aos jovens que amam a tradição e sentem cada verso do que cantam, ou às crianças que começam agora a conhecer e a aprender - mesmo longe da região mãe -, este documentário apresenta um intimo e arrepiante registo dos cantares populares alentejanos na actualidade. 

sábado, 26 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Educação Sentimental (2013)

*7.5/10*


Júlio Bressane foi o Herói Independente do IndieLisboa'11 e, agora em 2014, marca presença na secção Observatório com o filme Educação Sentimental

Baseado no mito grego de Selene e Endimião, da lua que se apaixona por um mortal e o condena ao sono eterno, como a protagonista explica ainda no início da longa-metragem, Educação Sentimental resulta do encontro entre Áurea, uma professora solitária e conhecedora da literatura, e Áureo, um rapaz inculto que só conhece o desejo físico, em que é mais experiente. Ela sabe muito, fala e declama as coisas que leu; ele escuta e nem sempre a compreende. Pouco a pouco, ele parece assimilar as lições que lhe são ditadas pela apaixonada Áurea. Os dois não podiam ser mais distantes, mas apesar do improvável romance, ele deixa-se levar para o passado de que ela fala, quando lia e escrevia, quando a literatura existia e impunha um ritmo próprio, contrastando com o ritmo frenético do mundo exterior.

Apesar do tom marcadamente experimental, em Educação Sentimental há muita paixão e poética. O texto é fabuloso, marcado pelos monólogos de Áurea, dos quais é impossível desviar a atenção, pelos comentários ingénuos de Áureo, pela conversa quase surreal entre Áurea e a mãe do jovem... Ao mesmo tempo, as palavras são acompanhadas e complementadas pelos gestos, pela dança e pela música que, mesmo quando não está presente se sente.


A teatralidade de cada cena é quase mágica, e a ela se junta o rigor técnico de Bressane, com uma mise-en-scène perfeita. A bonita fotografia destaca-se pelo excelente trabalho de iluminação, onde a Lua se funde com Áurea e Áureo. Apesar de nem tudo (ou mesmo muito pouco) ter um significado óbvio, caberá a cada espectador tirar as suas conclusões - se quiser, pois se optar apenas por desfrutar desta obra marcadamente estética não ficará desiludido.

Em par com esta história de amor tão pouco comum está uma desconstrução e apelo à memória do cinema - Bressane mostra-nos os microfones, os focos de luz, mas relembra igualmente a película, cada vez mais esquecida. Com Áurea, e tal como Áureo, a plateia embarca numa viagem de nostalgia. Aprende e apreende muito do passado da professora, conhecendo-a mais intimamente, mas percorre igualmente o passado da literatura, dos poetas que morreram jovens, da música e do cinema.

Educação Sentimental é uma obra a descobrir, dando-lhe o espaço que ela pede, o tempo para ser assimilada e o olhar atento e deslumbrado pelo visual cheio de cor, de movimento e de emoções à flor da pele.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

IndieLisboa'14: Filmes a Não Perder

Começa hoje o IndieLisboa'14 e, com ele, muito cinema independente chega à capital e por cá fica até dia 4 de Maio. A escolha é imensa e muito variada, mas aqui ficam alguns títulos a ter em atenção durante o festival.

Longas-metragens

Educação Sentimental, de Júlio Bressane
Secções: Observatório


Baseado no mito grego de Selene e Endimião, da lua que se apaixona por um mortal e o condena ao sono eterno, Educação Sentimental, de Júlio Bressane (o Herói Independente da edição de 2011 do IndieLisboa) resulta do encontro entre Áurea, uma professora solitária e profunda conhecedora da literatura, e Áureo, um rapaz inculto que só conhece o desejo físico, em que é mais experiente. Ela sabe muito, fala e declama as coisas que leu; ele escuta e nem sempre a compreende. Pouco a pouco, ele parece assimilar as lições que lhe são ditadas por Áurea. Os dois não podiam ser mais distantes, mas, apesar do improvável romance, ele deixa-se levar para o passado de que ela fala, quando lia e escrevia, quando a literatura existia e impunha um ritmo próprio, contrastando com o ritmo frenético do mundo exterior.

Finding Fela, de Alex Gibney
Secções: IndieMusic


Ninguém melhor que Fela Kuti para personificar o movimento musical africano dos anos 70 e 80. Ao mesmo tempo, o multi-instrumentista, cantor e compositor associou-se ao activismo político pós-colonial e anti-apartheid. A sua postura, os seus hábitos e consumos, bem como a sua música determinaram uma vida marcada por perseguições do repressivo regime militar nigeriano que se prolongaram até à sua morte, aos 58 anos, vítima de complicações decorrentes da SIDA. O ressurgir do afrobeat na última década recuperou o interesse no trabalho de Fela Kuti e levou à estreia de um aclamado musical na Broadway sobre a história do lendário músico. Finding Fela acompanha a estreia do musical em Lagos, na Nigéria, e aproveita a ocasião para recuperar o material que serviu de base à construção do espectáculo – filmes de arquivo, depoimentos, etc. –, ao mesmo tempo que recorda a vida do músico africano, documenta a performance e a sua recepção na terra natal de Fela Kuti.   

Gare du Nord, de Claire Simon
Secções: Herói Independente, Filme de Abertura


Gare du Nord é o Filme de Abertura do IndieLisboa. Esta ficção de Claire Simon acompanha o documentário Geographie humaine dedicado ao mesmo tema: a Gare du Nord, em Paris. As histórias que se cruzam na maior estação da Europa são agora encenadas neste espaço mas reflectem a mesma ideia de passagem presente no documentário (e, aliás, recuperam algumas personagens). Filmado dentro da estação e nas imediações, Gare du Nord conta as histórias de Mathilde (Nicole Garcia), uma professora universitária a fazer quimioterapia, e do jovem Ismaël (Reda Kateb), um estudante de sociologia em pesquisa para um doutoramento sobre a estação como aldeia global. O encontro entre os dois repete-se nos dias movimentados da estação onde voltamos a encontrar algumas pessoas cujas histórias se intersectam. Paralelamente, a pesquisa de Ismaël vai dando a conhecer o lado humano de uma estação de imigrantes, emigrantes, turistas e muitas histórias, não só de quem passa, mas dos lojistas, seguranças, empregados de limpeza, traficantes loucos e sem abrigo que são a alma de uma estação vivida à pressa.

Joe, de David Gordon Green
Secções: Observatório


Esta adaptação do livro homónimo de Larry Brown marca o regresso de David Gordon Green ao estilo mais independente que marcou o início da sua carreira. Joe mostra-nos Nicolas Cage num papel convincente ao lado do jovem actor Tye Sheridan. Joe é um ex-presidiário que trabalha como lenhador e emprega uma série de pessoas locais, satisfeitas com as suas qualidades enquanto patrão. Mas nem os fantasmas do passado largam Joe nem ele larga o álcool, onde se refugia para os dispersar. Um dia um jovem adolescente empenhado em livrar-se do contexto familiar adverso em que vive pede-lhe emprego e Joe aceita contratá-lo. Entre os dois cresce uma grande amizade e ao conformismo de Joe junta-se a vontade do jovem Gary de escapar às dificuldades de uma pequena cidade sulista, filmada num estilo documental com toques de acentuado lirismo.

Prima della Rivoluzione, de Bernardo Bertolucci
Secções: Director's Cut


“Quem nunca viveu antes da revolução, não conheceu a doçura de viver.” A célebre frase de Talleyrand (que se referia especificamente à Revolução Francesa) é citada em epígrafe nesta segunda longa metragem de Bertolucci, à qual também serve de título. O filme é a história da educação sentimental de um jovem burguês de Parma, às voltas com um envolvimento sentimental incestuoso com a tia e com a relação com o seu mentor intelectual, um pensador marxista.

3X3D, de Edgar Pêra, Peter Greenaway Jean-Luc Godard
Secções: Sessões Especiais


Na cidade de Guimarães, um lugar com mais de dois mil anos, três realizadores, Jean-Luc Godard, Peter Greenaway e Edgar Pêra, exploram o 3D e a sua evolução no mundo do cinema. Just in Time, de Greenaway, relembra a história da cidade, atravessando dois milénios ao redor do Paço dos Duques de Bragança num plano sequência de 16 minutos que segue um percurso entre a Praça da Oliveira, a igreja da Senhora da Oliveira e os claustros do Museu Alberto Sampaio. The Three Disasters, é o vídeo-ensaio de Godard que parte de material de arquivo para se debruçar sobre a fragmentação da história e a sua intersecção com a história do cinema. Cinesapiens, de Pêra, é a primeira produção do país a usar o 3D; o filme explora o papel do público na experiência de ver um filme, utilizando um grupo de espectadores dentro de uma sala de cinema em Guimarães. 3X3D é uma produção Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura que percorre a memória e nos projecta num futuro tridimensional.

Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut
Secções: Competição Nacional, Observatório


De origem popular, o “cante” alentejano sobrevive graças aos grupos que o cultivam no Alentejo e na periferia de Lisboa, os quais recapitulam em ensaio o repertório conhecido de memória, quase sem registo escrito ou sonoro e com reduzidas alterações criativas. No Alentejo, dezenas de grupos amadores reúnem-se regularmente para ensaiar antigos cantos polifónicos e para improvisar cantos sobre o tempo presente. Nascido nas tabernas e nos campos, cantado por camponeses e por mineiros, o cante alentejano deixou os campos e atravessou as fronteiras da sua região. Nas últimas décadas, com a diáspora alentejana, apareceram novos grupos na periferia industrial de Lisboa e em diversos países de emigração, acentuando o cante como traço identitário dos alentejanos onde quer que estejam. Este filme é uma viagem pelo Portugal contemporâneo, através de um modo musical único e dos seus intérpretes.

Dial M for Murder, de Alfred Hitchcock
Secções: Director's Cut


Filmado em 1953 (só estreou em 1954) durante a primeira e breve tentativa de Hollywood para aderir à tecnologia 3D, Dial M for Murder serviu de exercício tecnológico da Warner Brothers. Infelizmente, a moda passou antes mesmo da estreia do filme, fazendo com que a sua exibição tivesse tido o formato tradicional. A história centra-se num jogador de ténis, Tony Wendice, que, farto do seu emprego de vendedor de equipamento desportivo, começa a cobiçar a conta bancária da mulher e engendra um plano para a matar e ficar com a herança. Apesar da relutância inicial de Hitchcock em usar o formato, o filme acaba por ser um dos melhores exemplos de sempre do potencial artístico da filmagem em 3D, aliando movimentos de câmara fluídos que acompanham com subtileza o drama a efeitos 3D que aumentam a intensidade da experiência ao colocarem os espectadores no meio da acção.

Tom à la ferme, de Xavier Dolan
Secções: Observatório, Filme de Encerramento


Xavier Dolan regressa com Tom à La Ferme (o Filme de Encerramento desta edição do IndieLisboa), a história de um homem, Tom (Dolan), que vai até ao campo para o funeral do companheiro, morto num acidente de automóvel. Ao chegar, dá conta que ninguém o espera ou sequer desconfia daquela relação e da orientação sexual de Guillaume, o amante morto, e que por isso o acolhem tão bem. Mas se a simpatia da mãe advém da sua ignorância, que faz de Tom apenas um amigo, o irmão de Guillaume, machista e homofóbico, começa a questionar a sua presença, tornando-se uma ameaça e criando uma tensão que a banda sonora de Gabriel Yared acentua de forma brilhante.

Drinking Buddies, de Joe Swanberg
Secções: Observatório


Admirador assumido de comédias românticas e desencantado com o modo como se tornaram cada vez mais estereotipadas, Joe Swanberg recupera o género e dá-lhe um novo fôlego. Kate e Luke trabalham juntos numa fábrica de cerveja artesanal em Chicago, onde passam os dias a beber e a namoriscar um com o outro. Apesar de fazerem um par perfeito, cada um deles tem uma relação amorosa que inibe uma maior aproximação entre os dois. A relação é posta à prova quando os casais se juntam numa viagem de fim-de-semana. Filmado numa verdadeira fábrica de cerveja artesanal (a Revolution Brewing) e com os actores a beber a sério durante as filmagens e a improvisar grande parte dos diálogos, o filme, apesar do que sugere o seu enredo, consegue atingir uma tão grande maturidade emocional.

Curtas e médias-metragens:

A Caça Revoluções, de Margarida Rego
Secções: Competição Internacional, Competição Nacional


A Caça Revoluções é uma animação experimental que explora a relação entre duas gerações, dois tempos e duas lutas diferentes; é a Revolução de Abril a inspirar as gerações que apenas a conhecem através de relatos dos que a viveram e das fotografias de que nos apropriamos para a tornar nossa.

Boa Noite Cinderela, de Carlos Conceição
Secções: Cinema Emergente, Competição Nacional


No Reino de Portugal, em 1859, Boa Noite Cinderela recupera o conto da Gata Borralheira numa versão mais carnal, mais materialista, menos romântica, onde é imprecisa a fronteira que separa o desejo de ter e de ser a dona do sapato.

Coro dos Amantes, de Tiago Guedes
Secções: Competição Nacional, Observatório


Coro dos Amantes é composto por três “canções” que, a duas vozes, contam o mesmo acontecimento asfixiante sob duas perspectivas diferentes.

É Consideravelmente Admirável da Tua Parte que Ainda Penses em Mim Como se Aqui Estivesse, de André Mendes Andreia Neves
Secções: Novíssimos


É consideravelmente admirável da tua parte que ainda penses em mim como se aqui estivesse cria um ambiente alucinado que reflecte o desespero de , um músico esquizofrénico que quer regressar aos palcos.

Rio 2016, de Bianca Rotaru
Secções: Pulsar do Mundo


Os próximos Jogos Olímpicos estão marcados para o Rio 2016; duas ginastas, Teodora e Andreea, de 13 e 11 anos estão num centro avançado de treinos para conseguirem fazer parte da equipa nacional romena; aqui cresce-se de um modo diferente, em esforço mas com ambição, sonhos e batalhas diárias com os próprios limites; qual das duas irá estar no Rio?

True, de Paulo Segadães
Secções: IndieMusic


Filmado entre Janeiro a Setembro de 2013, True acompanha quase um ano na vida do músico português The Legendary Tigerman, na sua procura por novas canções para o seu mais recente álbum, True, lançado em Março de 2014. Os espectáculos são um homem só mergulhado na sua criatividade; os processos de composição revelam um homem de todos os instrumentos, desde os primeiros rascunhos até às apresentações públicas.

Consulta o programa completo do IndieLisboa'14 aqui.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Estreias da Semana #113

Dez estreias acontecem em véspera de Dia da Liberdade. A escolha é muita esta semana, e conta com títulos como Laços de Sangue, Marretas Procuram-se, Prince Avalanche ou Tropicália.

100% Cachemira (2013)
100% cachemire
Na vida de Aleksandra (Valérie Lemercier) tudo corre bem, tem um bom marido, Cyrille (Gilles Lellouche), um apartamento em Paris junto ao Sena, um óptimo amante e um excelente trabalho como editora-chefe da revista ELLE. Aleksandra apenas não tem o último acessório da moda: uma criança. Decide então adoptar o pequeno Aleksei, de sete anos, que chega da Rússia para sua casa, só que não é tão perfeito como ela está habituada.

Diplomacia (2014)
Diplomatie
Na noite de 24 para 25 de Agosto de 1944, o destino de Paris encontra-se nas mãos do general Von Choltitz, que às ordens de Hitler se prepara para fazer explodir a cidade. Descendente de uma antiga linha de militares prussianos, o General não apresenta qualquer tipo de hesitação em cumprir as suas ordens. Esta é a principal preocupação do cônsul Sueco nos instantes em que sobe as escadas da suite do hotel Meurice, onde está hospedado o General. Tanto as pontes do Sena como os principais monumentos de Paris estão rodeados de explosivos prontos a explodir. Utilizando todas as armas e argumentos diplomáticos, o cônsul é a única pessoa que poderá convencer Von Choltitz a não executar a sua ordem de destruição.

Laços de Sangue (2013)
Blood Ties
Em 1974, em Nova Iorque, Chris (Clive Owen), de 50 anos, acaba de ser libertado por bom comportamento após vários anos preso por um assassínio relacionado com lutas de gangues. À sua espera nos portões da cadeia encontra-se Frank (Billy Crudup), o seu irmão mais novo, um jovem policia com uma carreira promissora. Apesar da relação difícil que sempre existiu entre os dois, os laços de sangue falam mais alto e Frank está decidido a dar outra oportunidade ao irmão – acolhe-o em sua casa, arranja-lhe um emprego e ajuda-o a reatar a relação com a sua ex-mulher, Monica (Marion Cotillard), e com os filhos. Mas o inevitável regresso de Chris à antiga vida de crime acaba por ser uma última longa descida de sucessivas traições, que acabará por colocar os dois irmãos frente a frente.

Em Marretas Procuram-se o grupo dos Marretas parte para uma tournée mundial onde acaba por se ver involuntariamente envolvido num crime internacional.

Não Há Duas Sem Três (2014)
The Other Woman
Carly (Cameron Diaz) descobre que o seu novo namorado Mark (Nikolaj Coster-Waldau) é uma fraude e o pior acontece quando ela, acidentalmente, conhece a sua mulher, Kate (Leslie Mann). Carly, de repente, vê-se a confortar Kate, e esta improvável amizade entre as duas consolida-se quando elas percebem que Mark está a enganar ambas com uma outra mulher, Amber (Kate Upton). Estas três mulheres juntam então forças para delinear um invulgar plano de vingança.

Pecado Fatal (2013)
Lila, uma rapariga de 20 anos, regressa a Paços de Ferreira para tentar descobrir quem foram os seus pais e porque a abandonaram num contentor de lixo no dia em que nasceu. Aluga um quarto a Nuno, um jovem divorciado. Em pouco tempo apaixonam-se. Mas ela está longe de imaginar que, na noite em que se conheceram, Nuno cometeu um Pecado Fatal que pode comprometer para sempre a sua história de amor.

Por Aqueles em Perigo (2013)
For Those in Peril
Apresentado na Semana da Crítica em Cannes, o filme conta a história de Aaron, um jovem pescador que vive numa remota comunidade escocesa e é o único sobrevivente de um estranho naufrágio onde o irmão perdeu a vida. Instigada pelo folclore marítimo e a superstição local, a aldeia culpa Aaron e faz dele um pária entre a sua própria gente. Recusando-se a acreditar que o irmão morreu, Aaron decide ir procura-lo.

Prince Avalanche (2013)
Alvin (Paul Rudd) e Lance (Emile Hirsch) deixam a cidade para trás para trabalhar durante um Verão. Passam os dias juntos a repor as marcas rodoviárias de uma estrada numa zona do Texas assolada por incêndios florestais. Se a princípio as personalidades de ambos entram em conflito, à medida que o tempo passa os dois vão aprendendo um pouco mais sobre o outro e sobre as suas limitações.

Sabotagem (2014)
Sabotage
Arnold Schwarzenegger lidera um grupo de elite da DEA contra alguns dos mais perigosos cartéis de droga. Quando a sua equipa executa com sucesso uma perigosa missão ao esconderijo de um cartel, todos julgam que este trabalho foi concluído - até que, um por um, os 10 elementos da equipa começam a ser misteriosamente abatidos. À medida que vão sendo eliminados, todos se tornam suspeitos.

Tropicália traz um olhar contemporâneo sobre o importante movimento cultural que explodiu no Brasil no final dos anos 1960 apelidado de Tropicalismo. Junta material de arquivo precioso, recuperado propositadamente para esta produção, e testemunhos dos protagonistas do movimento, de onde se destacam os nomes de Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre muitos outros.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Crítica: Marretas Procuram-se / Muppets Most Wanted (2014)

"Hi-ho, Kyer-mit thee Frog heere."
Constantine


*6.5/10*

O realizador é o mesmo (James Bobin), mas a nostalgia foi toda gasta em Os Marretas (2011). Marretas Procuram-se regressa com as personagens que nos são queridas, repleto de cameos e com nomes que nos são muito familiares, mas a magia do primeiro filme perdeu-se. A diversão, no entanto, continua, acompanhada de novas músicas e muitas surpresas, num filme em que os Marretas vão enfrentar uma inesperada ameaça, muito parecida com o Cocas.

Em Marretas Procuram-se o grupo dos Marretas parte para uma tournée mundial onde acaba por se ver involuntariamente envolvido num crime internacional.

Com os Marretas percorremos Berlim, Madrid, Dublin, Londres e mesmo a Sibéria, onde Cocas vai parar por engano. Nesta visita guiada pela Europa, acompanhamos as aventuras e desventuras dos Marretas, a quem se junta um novo "membro": Constantine, o sapo mais perigoso do mundo. Entre explosões, assaltos, espectáculos, investigações policiais e muita música, iremos partir numa jornada incansável, mas muito menos profunda do que aquela que Os Marretas nos proporcionou em 2011. O argumento tem mais de acção e apela muito menos ao coração da plateia que, sim, anseia por mais filmes dos Marretas, mas que preferia que estes partilhassem do encanto do primeiro.


Entre o elenco de Marretas, destaque especial para o corajoso Cocas que, neste filme, é injustamente colocado perante dificuldades que nunca imaginou, para Piggy, que se farta de cantar e vê-se dividida entre dois sapos, e para Walter, que se integrou perfeitamente no grupo, após o primeiro filme.

Nos elenco de actores (e para além dos inúmeros e hilariantes cameos que vale a pena ver sem saber demais), encontramos Ricky Gervais, Ty Burrell e Tina Fey. Gervais é Dominic Badguy, o companheiro de crime - pouco valorizado - de Constantine, malicioso mas incapaz de se impor perante o sapo russo. Ty Burrell veste a pele a um agente da Interpol, Jean Pierre Napoleon, que, comparado com o agente - Marreta - da CIA, oferece uma ideia divertida e algo crítica dos europeus - pouco dedicados ao trabalho, com horas de almoço longas e demasiadas férias. Já Tina Fey é Nadya, uma implacável guarda prisional na fria Sibéria, que esconde uma secreta paixão pelo sapo Cocas.


Acima de tudo, entramos numa aventura cheia de caras conhecidas, e onde o sentimentalismo e a nostalgia deram lugar a alguma auto-paródia, bem conseguida, e a momentos hilariantes com Marretas e actores de carne e osso. Logo ao início - o filme começa no exacto momento em que o anterior termina -, todos se apercebem que as câmaras continuam ligadas para uma sequela: e a música começa com We're Doing a Sequel. E se os próprios admitem que "toda a gente sabe que a sequela nunca é tão boa", quem somos nós para contrariar. Neste caso, têm toda a razão.

IndieLisboa'14: A Caça Revoluções e Boa Noite Cinderela no Festival de Cannes

Duas curtas-metragens seleccionadas para a Competição Nacional IndieLisboa'14 - A Caça Revoluções, de Margarida Rêgo, e Boa Noite Cinderela, de Carlos Conceição - fazem parte da selecção do Festival de Cannes.


Realizado por Margarida Rêgo, A Caça Revoluções está seleccionado para a Quinzena dos Realizadores em Cannes. O filme explora a relação entre duas gerações, dois tempos e duas lutas diferentes. A curta-metragem mostra a Revolução de Abril a inspirar as gerações que a conhecem através de relatos dos que a viveram e das fotografias de que se apropriam para a tornar sua. A Caça Revoluções passa no IndieLisboa no dia 25 de Abril, às 19h00 no Pequeno Auditório da Culturgest, 26 de Abril, às 18h00 no Grande Auditório da Culturgest, e dia 27 de Abril, às 16h45 no Pequeno Auditório da Culturgest.


Por seu lado, Boa Noite Cinderela, realizado por Carlos Conceição, foi seleccionado para a secção competitiva da Semana de Crítica, na secção de curtas e médias-metragens. O realizador recria o famoso conto de fadas, protagonizado por João Cajuda, David Cabecinha e Joana de Verona. Boa Noite Cinderela é exibido no IndieLisboa a 27 de Abril, às 18h00 no Grande Auditório da Culturgest, 30 de Abril, às 19h00, no Pequeno Auditório da Culturgest e dia 2 de Maio, às 21h45 no Pequeno Auditório da Culturgest.

Mais informações sobre o IndieLisboa'14 aqui.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

8 ½ Festa do Cinema Italiano'14: Too Much Johnson (1938)

*8/10*

O 8 ½ Festa do Cinema Italiano já deixou Lisboa e rumou a Coimbra, mas há ainda que destacar um dos grandes momentos da passagem do festival pela capital: a exibição de Too Much Johnson, o filme perdido de Orson Welles.

O filme mudo, rodado em 1938 para servir como prólogo da peça teatral homónima exibida no Mercury Theatre de Nova Iorque pelo próprio autor, foi recentemente descoberto e posteriormente restaurado. Inacabado por problemas financeiros, Too Much Johnson foi encontrado por acaso em 2008 nuns armazéns em Pordenone, Itália. Pensava-se que o filme teria desaparecido no incêndio de 1970 no apartamento de Welles. Esta descoberta foi de enorme valor no que respeita à recuperação, salvaguarda e difusão do património cinematográfico.

O Cinemazero e a Cinemateca do Friuli - responsáveis pela descoberta e pelo restauro (juntamente com a George Eastman House e a National Film Preservation Foundation), respectivamente - foram premiados pela National Society of Film Critics.


O 8 ½ Festa do Cinema Italiano deu a oportunidade aos espectadores portugueses de assistir a este clássico inacabado (e incompleto) na Cinemateca Portuguesa, no dia 16 de Abril, e no Cinema São Jorge, no dia 17, onde o filme foi - e muito bem - acompanhado ao piano por Filipe Raposo.

Too Much Johnson, de William Gillette, é uma comédia teatral de 1894 que conta a história de um playboy nova-iorquino, que para fugir ao violento marido da sua amante, rouba a identidade do proprietário de uma plantação em Cuba, que entretanto espera a chegada da sua “esposa por correspondência”. É a partir desta sinopse que poderemos construir ligações entre os fragmentos que vemos no filme de Welles. Três anos antes da estreia de O Mundo a Seus Pés (Citizen Kane), Orson Welles aventurou-se nesta produção que, infelizmente, não ficou completa.


Too Much Johnson, por si só, funciona mais como uma curiosidade da História do Cinema, do que como um projecto uno e finito. Faz parte da construção de uma grande carreira, notamos influências clássicas mas verificamos também a imaginação e a singularidade da realização que, anos mais tarde, tomou forma plena em O Mundo a Seus Pés. Este registo work in progress apresenta-nos uma história de amores e desamores, de divertidas perseguições em telhados, quase labirínticas, de lutas de espadas e um guarda-chuva que não deixaram a plateia indiferente. Apesar de não existir um fio condutor que ligue as cenas soltas que vamos vendo, isso aqui não importa, pois sabemos de antemão que somos uns privilegiados em poder assistir a um marco histórico, que se julgava perdido.

A sessão musicada - onde o Hoje Vi(vi) um Filme marcou presença - resultou perfeitamente com as imagens projectadas e é de elogiar o rigoroso e esforçado trabalho que o pianista e compositor Filipe Raposo concretizou.


Too Much Johnson ainda poderá ser visto no 8 ½ Festa do Cinema Italiano, na Casa das Artes, no Porto, no dia 26 de Abril, pelas 16h00.

IndieLisboa'14: As Festas que Celebram o Cinema

O IndieLisboa'14 está mesmo aí e não vive apenas de Cinema. Durante o festival, todas as noites irão celebrar a Sétima Arte, juntando público e convidados em vários espaços da cidade, com programação musical. O bar Primeiro Andar, junto ao Coliseu, será o espaço nocturno oficial do festival, mas o IndiebyNight estende-se também ao mítico Metropolis Club, entre outros locais.


No dia 24 de Abril, o primeiro do IndieLisboa'14, é o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado que, a partir das 23h00, conta com a Festa Abertura IndieLisboa’14 & Inauguração IndieMovingImage Powered by JAMESON. A entrada é feita com convite. O hall do Museu do Chiado recebe simultaneamente a festa de abertura do IndieLisboa e a inauguração de uma das suas secções paralelas, o IndieMovingImage. No museu podemos descobrir, em contexto de instalação, os trabalhos da artista Anna Franceschini. A música da festa fica a cargo de Pan Sorbe.

A 25 Abril, Dia da Liberdade, a festa Festa 25 de Abril, Sempre! tem lugar, a partir das 23h00, no Primeiro Andar. A entrada é livre. Francisco Valente e Rodrigo Nogueira inspiram-se no talento científico do imortal Dr. Venkman para caçar maus espíritos nocturnos e dar lugar às boas vibrações.

Na noite seguinte, no Primeiro Andar, a festa acontece sobre o tema Europe In 8 Bits After Party. Depois da sessão de Europe in 8 Bits, da secção IndieMusic realizado por Javier Polo, um dos artistas do filme estará no Primeiro Andar para um concerto: Meneo. Com um gameboy numa mão e um microfone na outra os concertos de Meneo têm por hábito dar que falar. http://meneo.info/ || https://soundcloud.com/meneo

A Festa da Equipa IndieLisboa acontece a 27 de Abril no Primeiro Andar. Já na noite seguinte, o espaço recebe a True After Party - The Legendary Tigerman. True é o novo disco de Legendary Tigerman e é o nome do filme realizado por Paulo Segadães que documenta o processo de criação do álbum. A festa homónima traz-nos The Legendary Tigerman em formato DJ

29 Abril é dia da Festa de Apresentação do 22º Curtas Vila do Conde, como de costume, no Primeiro Andar. O festival de curtas-metragens acontece em Julho em Vila do Conde. Nesta noite, teremos oportunidade de ficar a conhecer as novidades da próxima edição. Nuno Lopes & Sérgio Gomes são os DJ's convidados.

A mítica Festa Gigi, que habitualmente acontece no Porto, desce a Lisboa a 30 de Abril, ao Primeiro Andar, com Lara Soft & Marta Hari. No mesmo dia, o Metropolis Club recebe, a partir das 23h00, a Festa IndieMusic com Billy Brown vs Mr. Mikk vs Mr. Mudd & Mr. Gold + Mr. Gross. A entrada custa 5 euros, e a noite irá celebrar a música Indie dentro de uma cave, como as festas costumavam ser celebradas antigamente. Até às 6h00, terá lugar uma espécie de DJ Battle com amigos do IndieLisboa, para dançar ao som dos melhores hits e de músicas mais obscuras e menos conhecidas.

No Dia do Trabalhador, 1 de Maio,  o Primeiro Andar recebe Meryll Hardt, realizadora da curta-metragem Une Vie Radieuse (na Competição Internacional do IndieLisboa), que é também cantora, para um concerto em que canta por cima de discos instrumentais antigos. A noite continuará com um DJ Set de Tiago Saint-Maurice. || http://meryllhardt.blogspot.pt/

A 2 de Maio, o Primeiro Andar recebe o Finding Fela Kuti After Party. Fela Kuti é um ícone da música mundial e uma das pessoas mais respeitadas no meio. O documentário Finding Fela, na secção IndieMusic, é uma homenagem a este cantor e retrata a sua história de vida. A homenagem continua no fim do filme com os Irmãos Makossa para um DJ Set inspirado em Fela Kuti e na música africana dos anos 70.


A Festa de Encerramento IndieLisboa’14 - Powered by JAMESON acontece a 3 de Maio a partir das 00h00 na garagem da Culturgest. A entrada é feita com convite. Pela primeira vez a acontecer neste espaço, a festa de despedida fechará em grande o IndieLisboa'14.

Mais informações sobre o festival aqui.

domingo, 20 de abril de 2014

Sugestão da Semana #112

Em dia de Páscoa, a Sugestão da Semana recai sobre um documentário arrasador e arrepiante: O Acto de Matar. Joshua Oppenheimer (e os co-realizadores, um anónimo e Christine Cynn) fazem um excelente e macabro contraste entre o passado e o presente de um país marcado por assassinatos que nunca foram punidos.

O ACTO DE MATAR


Ficha Técnica:
Título Original: The Act of Killing
Realizador: Joshua OppenheimerChristine Cynn e anónimo
Género: Documentário, Histórico
Classificação: M/16
Duração: 115 minutos