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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Doclisboa'19: Wozu denn über diese Leute einen Film? / Why Make a Film About People Like Them? (1980) + Volkspolizei / People’s Police Force (1985)

Polícias e Ladrões é o título de mais uma sessão da Retrospectiva Ascensão e Queda do Muro - O Cinema da Alemanha de Leste, do Doclisboa'19, no 30.º aniversário da Queda do Muro de Berlim. Os dois filmes da sessão das 15h30, de 21 de Outubro, na Cinemateca Portuguesa, foram realizados por Thomas Heise. Enquanto em Wozu denn über diese Leute einen Film? (Why Make a Film About People Like Them?), conhecemos uma família de pequenos criminosos, em Volkspolizei (People’s Police Force) assistimos ao dia-a-dia de uma esquadra de polícia. Curiosamente, os dois filmes foram banidos durante vários anos.

Wozu denn über diese Leute einen Film? (Why Make a Film About People Like Them?) - 7/10


Wozu denn über diese Leute einen Film? foi uma das primeiras obras de Thomas Heise, tendo sido rapidamente censurado e apenas exibido em 1989. O realizador filmou uma família de pequenos criminosos, que conversam animadamente sobre as ocasiões em que foram presos pela polícia e falam dos seus pequenos crimes. 

Segundo Heise, "a razão para ter sido banido foi a forma descontraída como o filme retratava esses jovens a viver a vida sem sombra de ideologia, incluindo, dando por garantida a carreira de pequenos criminosos, o que significava que o autor aceitava a sua existência como tal e apenas a queria analisar”. O partido não queria mostrar que havia crime na RDA.

As conversas fluem à frente da câmara sem vergonha ou receio, numa realidade que parece ser a única que aqueles jovens delinquentes - sem grandes projectos para o futuro - conhecem. A somar à descontracção dos intervenientes, também a mãe alinha nos relatos, já resignada com as escolhas dos filhos.

Volkspolizei (People’s Police Force) - 6/10


Em 1985, e dentro da mesma lógica de observação de Wozu denn über diese Leute einen Film?Volkspolizei coloca-nos desta vez do lado da Polícia do Povo, no bairro de Mitte, perto do muro de Berlim. Também este filme foi barrado pelo partido.

Thomas Heise filma o quotidiano daquela esquadra, conhece os polícias ao serviço que se apresentam e contam alguns dos seus casos mais marcantes - contrabandistas que atravessam ilegalmente o muro, violência doméstica, desaparecimentos, desacatos -, ao mesmo tempo que segue os oficiais durante o serviço fora de portas; ouvem-se as chamadas de rádio entre as várias estações da cidade; ou vêem-se alguns dos detidos, a quem os polícias fazem questões.

Todos eles falam de como chegaram à posição que actualmente ocupam, desde os que foram recrutados por outros polícias quando ainda eram muito jovens, aos que procuravam uma vida de sonho em Berlim. Perto do final de Volkspolizei conhecemos duas crianças que ambicionam ser Polícias do Povo e prometem esforçar-se para se tornarem as forças de segurança do amanhã.

domingo, 20 de outubro de 2019

Doclisboa'19: She / Sie (1970) + Who’s Afraid of the Bogeyman / Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann (1989)

O Doclisboa'19 assinala os 30 anos da queda do muro de Berlim, com a retrospectiva Ascensão e Queda do Muro - O Cinema da Alemanha de Leste. A Cinemateca é o principal palco de exibição destes filmes cuja visualização é uma oportunidade quase única. Na sessão das 19h00 de 19 de Outubro (repete no dia 23), o tema foi Mulheres Poderosas?, e foram exibidos dois filmes realizados por mulheres, sobre mulheres com poder: Sie (She), de Gitta Nickel, e Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann (Who’s Afraid of the Bogeyman), de Helke Misselwitz.

Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann, de Helke Misselwitz

Sie (She), Gitta Nickel - *8.5/10*

Sie traz-nos uma visão surpreendente das mulheres de um fábrica têxtil da Alemanha de Leste nos anos 70, que espelha a emancipação feminina no seu esplendor. Mulheres com ideias bem definidas, cultas e versáteis, com funções de chefia e capazes de planear a sua vida, trabalho e família. 

A realizadora Gitta Nickel coloca a sua câmara entre as conversas e faz entrevistas a uma médica jovem, trabalhadoras e gerentes de todas as idades, posições e contextos sociais da fábrica Treffmodelle. Expressam as suas preocupações pessoais e falam sobre relações, planeamento familiar e pílula contraceptiva, educar crianças e habilitações profissionais, direitos das mulheres e igualdade na sociedade (meritocrática) socialista.

Sie, de Gitta Nickel 
Um entusiasta elogio às mulheres da época na RDA.


Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann (Who’s Afraid of the Bogeyman), Helke Misselwitz - *7/10*

Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann (Who’s Afraid of the Bogeyman), da realizadora Helke Misselwitz, conduz-nos pelo quotidiano da empresa privada de transporte de carvão Prenzlauer Berg, na Alemanha Oriental, entre 1988 e 1989. Em vésperas da reunião do país, eis um registo de como se vivia à época, em especial naquela fábrica, gerida por uma mulher de pulso firme e sem papas na língua.

Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann, de Helke Misselwitz 
O trabalho físico e pesado cabe aos homens que fazem a entrega de carvão, cortam lenha, carregam e descarregam camiões, enquanto a gestão está nas mãos de uma patroa que, apesar de líder é compreensiva e nutre grande simpatia pelos empregados - e vice-versa, eles respeitam-na e admiram-na.

Nas conversas do quotidiano - em que nem a realizadora, nem a câmara parecem incomodar os intervenientes -, vamos conhecendo homens e mulheres, que desabafam sobre a sua vida pessoal ou conversam sem receios sobre o Muro de Berlim - e os seus dois lados -, casos de abuso de menores, prisão, morte, alcoolismo ou educação. Mal sabiam que o muro cairia dali a uns meses e a Alemanha voltaria a ser uma só.