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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Crítica: Kontinental '25 (2025)

*7.5/10*


Em Kontinental '25, Radu Jude regressa com a rebeldia que o caracteriza, enquanto homenageia Europa '51 (1952), de Roberto Rossellini. Quase 70 anos depois, o realizador romeno mostra com os temas de 1952 se mantêm presentes, adaptados à cruel realidade actual.

"Orsolya é uma oficial de justiça em Cluj, a principal cidade da Transilvânia. Um dia, ela é obrigada a despejar um sem-abrigo que vive na cave de um prédio. Um acontecimento inesperado cria uma crise moral que ela tenta resolver da melhor maneira possível."


O poder das grandes imobiliárias e a crescente especulação nas cidades europeias - e com eles, a crise na habitação, tão familiar a Portugal - são o ponto de partida para o infinito sentimento de culpa que se apodera de uma pacata oficial de justiça, Orsolya (ela que recusa fazer despejos no Outono e Inverno, pois não aguenta a violência de colocar pessoas na rua durante os meses mais frios). 

O trágico destino do sem-abrigo despejado é culpa de um Estado Social que não funciona, mas  Orsolya, apesar de saber que não tem qualquer responsabilidade ao abrigo da lei, fica obcecada com a ideia de que poderia ter feito mais e culpabiliza-se. 


Ela precisa desabafar. Amigos, colegas de trabalho e família são (quase todos) bons ouvintes, mesmo que nem sempre compreendam ou tomem partido da oradora. Também eles testemunham injustiças e partilham-nas, mostrando o que fazem para que não sintam sobre si a responsabilidade pelo próximo.

No meio do drama, lá está o tom sarcástico de Radu Jude, que despoleta risos envergonhados - mas sentidos - da plateia, que partilha um pedaço da culpa de Orsolya e a que cada um carrega nas suas vidas, perante tantas injustiças a que se assiste passivamente.

Entre a consciência pesada que não a deixa e os insultos que recebe nas redes sociais, torna-se aceitável que Orsolya se refugie no álcool, num quase desconhecido que também tem muito para dizer, ou mesmo na fé, para encontrar a consolação para a tristeza que teima em não deixá-la.


Para além da empatia cobarde que rodeia a história da protagonista e do sem-abrigo, Radu Jude abarca um conjunto de temas que tem insistido em acompanhar nos seus mais recentes filmes. Volta a abordar a corrupção na Roménia, da qual tem sido um crítico feroz, e não deixa de tocar nos temas da guerra e da fome, que são também problemas mundiais. Em Kontinental '25, juntam-se ainda as tensões étnicas locais, entre romenos e húngaros, que dirão mais aos cidadãos da Transilvânia (região onde a acção decorre e onde a protagonista vive), mas que roçam a xenofobia e resultam de conflitos históricos mal resolvidos.

A gentrificação das cidades é outro tema espelhado na longa-metragem. O realizador filma a cidade de Cluj e a zona de Florești, a primeira com a sua arquitectura confusa, em que os estilos se misturam e lhes conferem alguma entropia visual, com a bonita identidade histórica a perder-se entre as construções modernas que a descaracterizam. Já em Florești, a urbanização em massa não pára de crescer e começa a tomar conta do sossego habitual. Locais que reflectem aos problemas da sociedade.


Kontinental '25 é dos filmes mais certeiros do sempre insubmisso Radu Jude. Com poucos meios, o cineasta romeno capta a realidade mais crua, ao mesmo tempo que o humor se apodera da tragédia, com os planos e as situações mais inesperados a "intrometerem-se" na acção.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Sugestão da Semana #700

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Kontinental '25, de Radu Jude.

KONTINENTAL '25


Ficha Técnica:
Título Original: Kontinental '25
Realizador: Radu Jude
Elenco: Eszter Tompa, Gabriel Spahiu, Adonis Tanța, Oana Mardare, Șerban Pavlu, Annamária Biluska, Ilinca Manolache
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/14
Duração: 109 minutos

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Estreias da Semana #700

Esta Quinta-feira, chegam às salas de cinema portuguesas cinco novos filmes. Família de Aluguer, de Hikari, Kontinental '25, de Radu Jude, e Pai, Mãe, Irmã, Irmão, de Jim Jarmusch, são algumas das estreias em destaque.

Família de Aluguer (2025)
Rental Family
Um actor americano em Tóquio luta para encontrar um propósito até conseguir um trabalho incomum: trabalhar para uma agência japonesa de "famílias de aluguer", desempenhando papéis substitutos para estranhos. À medida que mergulha no mundo dos seus clientes, começa a formar laços genuínos que esbatem as fronteiras entre a representação e a realidade.

Greenland: Um Novo Começo (2026)
Greenland 2: Migration
Tendo encontrado segurança num bunker na Gronelândia após o cometa Clarke ter devastado a Terra, a família Garrity arrisca tudo e inicia uma perigosa viagem, através das terras devastadas da Europa, em busca de um novo lar.

Kontinental '25 (2025)
Orsolya é uma oficial de justiça em Cluj, a principal cidade da Transilvânia. Um dia, tem de despejar um sem-abrigo de uma cave, uma ação com consequências trágicas que desencadeia uma crise moral que Orsolya tem de superar da melhor forma possível.

Pai, Mãe, Irmã, Irmão (2025)
Father Mother Sister Brother
Três histórias que abordam relações entre filhos adultos, os seus pais um pouco distantes e entre si. Cada um dos três capítulos decorre no presente e em países diferentes. FATHER passa-se no nordeste dos Estados Unidos, MOTHER em Dublin, na Irlanda, e SISTER BROTHER em Paris, França. O filme é uma série de estudos de personagens, tranquilo, observacional e sem julgamentos – uma comédia entrelaçada com fios de melancolia.

Song Sung Blue (2025)
Dois músicos sem sorte formam uma banda de tributo a Neil Diamond para seguir os seus sonhos e provar que nunca é tarde demais para encontrar o amor.