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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Crítica: Kontinental '25 (2025)

*7.5/10*


Em Kontinental '25Radu Jude regressa com a rebeldia que o caracteriza, enquanto homenageia Europa '51 (1952), de Roberto Rossellini. Quase 70 anos depois, o realizador romeno mostra com os temas de 1952 se mantêm presentes, adaptados à cruel realidade actual.

"Orsolya é uma oficial de justiça em Cluj, a principal cidade da Transilvânia. Um dia, ela é obrigada a despejar um sem-abrigo que vive na cave de um prédio. Um acontecimento inesperado cria uma crise moral que ela tenta resolver da melhor maneira possível."


O poder das grandes imobiliárias e a crescente especulação nas cidades europeias - e com eles, a crise na habitação, tão familiar a Portugal - são o ponto de partida para o infinito sentimento de culpa que se apodera de uma pacata oficial de justiça, Orsolya (ela que recusa fazer despejos no Outono e Inverno, pois não aguenta a violência de colocar pessoas na rua durante os meses mais frios). 

O trágico destino do sem-abrigo despejado é culpa de um Estado Social que não funciona, mas  Orsolya, apesar de saber que não tem qualquer responsabilidade ao abrigo da lei, fica obcecada com a ideia de que poderia ter feito mais e culpabiliza-se. 


Ela precisa desabafar. Amigos, colegas de trabalho e família são (quase todos) bons ouvintes, mesmo que nem sempre compreendam ou tomem partido da oradora. Também eles testemunham injustiças e partilham-nas, mostrando o que fazem para que não sintam sobre si a responsabilidade pelo próximo.

No meio do drama, lá está o tom sarcástico de Radu Jude, que despoleta risos envergonhados - mas sentidos - da plateia, que partilha um pedaço da culpa de Orsolya e a que cada um carrega nas suas vidas, perante tantas injustiças a que se assiste passivamente.

Entre a consciência pesada que não a deixa e os insultos que recebe nas redes sociais, torna-se aceitável que Orsolya se refugie no álcool, num quase desconhecido que também tem muito para dizer, ou mesmo na fé, para encontrar a consolação para a tristeza que teima em não deixá-la.


Para além da empatia cobarde que rodeia a história da protagonista e do sem-abrigo, Radu Jude abarca um conjunto de temas que tem insistido em acompanhar nos seus mais recentes filmes. Volta a abordar a corrupção na Roménia, da qual tem sido um crítico feroz, e não deixa de tocar nos temas da guerra e da fome, que são também problemas mundiais. Em Kontinental '25, juntam-se ainda as tensões étnicas locais, entre romenos e húngaros, que dirão mais aos cidadãos da Transilvânia (região onde a acção decorre e onde a protagonista vive), mas que roçam a xenofobia e resultam de conflitos históricos mal resolvidos.

A gentrificação das cidades é outro tema espelhado na longa-metragem. O realizador filma a cidade de Cluj e a zona de Florești, a primeira com a sua arquitectura confusa, em que os estilos se misturam e lhes conferem alguma entropia visual, com a bonita identidade histórica a perder-se entre as construções modernas que a descaracterizam. Já em Florești, a urbanização em massa não pára de crescer e começa a tomar conta do sossego habitual. Locais que reflectem aos problemas da sociedade.


Kontinental '25 é dos filmes mais certeiros do sempre insubmisso Radu Jude. Com poucos meios, o cineasta romeno capta a realidade mais crua, ao mesmo tempo que o humor se apodera da tragédia, com os planos e as situações mais inesperados a "intrometerem-se" na acção.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Sugestão da Semana #700

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Kontinental '25, de Radu Jude.

KONTINENTAL '25


Ficha Técnica:
Título Original: Kontinental '25
Realizador: Radu Jude
Elenco: Eszter Tompa, Gabriel Spahiu, Adonis Tanța, Oana Mardare, Șerban Pavlu, Annamária Biluska, Ilinca Manolache
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/14
Duração: 109 minutos

terça-feira, 23 de setembro de 2025

LEFFEST - Lisboa Film Festival 2025 apresenta programa numa edição que se estende à Amadora

O programa do LEFFEST — Lisboa Film Festival 2025 foi hoje anunciado numa Conferência de Imprensa, na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho, que contou com a presença do director do festival, Paulo Branco, do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e do administrador executivo da NOS, Luís Nascimento.

A 19.ª edição do LEFFEST vai decorrer de 7 a 16 de Novembro, em Lisboa (Cinema São Jorge, Cinema Medeia Nimas, Culturgest, Teatro do Bairro, Galeria Zé dos Bois e NOS Amoreiras), estendendo-se, pela primeira vez, a duas salas da Amadora:  Auditório dos Recreios da Amadora e Cineteatro D. João V.

Sobre a extensão do festival à cidade da Amadora, Paulo Branco referiu que o contacto partiu da Câmara Municipal da Amadora e que a programação das duas salas terá "muito em conta a especificidade da zona" e será "feita em conjunto com" o município. O tema dos exílios estará muito ligado à cidade, onde, com grande probabilidade marcará presença Wagner Moura, tendo em conta a grande comunidade brasileira ali residente.

Fora de Competição e Competição Oficial

O filme de abertura será Father Mother Sister Brother, de Jim Jarmusch. Fora de Competição estarão vários títulos sonantes, que já passaram em festivais internacionais como Die My Love, de Lynne Ramsay, Dead Man's Wire, de Gus Van Sant, Kontinental '25, de Radu Jude, Hamnet, de Chloé Zhao, Sex|Love|Dreams, de Dag Johan HaugerudThe Mastermind, de Kelly ReichardtThe Chronology of Water, de Kristen StewartThe Testament of Ann Lee, de Mona Fastvold, e The Wizard of the Kremlin, de Olivier Assayas, entre outros. Entre os filmes portugueses desta selecção, destaque para As Meninas Exemplares, de João Botelho, e Maria Vitória, de Mário Patrocínio.

Na Competição Oficial, estão 12 longas-metragens a disputar o Grande Prémio NOS, que será atribuído por um júri composto por Stacy Martin, Kim Gordon, Rodrigo Moreno, Manuel Martín Cuenca, Francisco Aires Mateus e Mohammad Rasoulof. Em Competição estarão: Blue Moon, de Richard Linklater, Silent Friend, de Ildikó Enyedi, Where to Land, de Hal Hartley, Miroirs No. 3, de Christian Petzold, The Sun Rises on Us All, de Cai ShangjunOlmo, de Fernando Eimbcke, Las corrientes, de Milagros Mumenthaler, Songs of Forgotten Trees, de Anuparna Roy, The President’s Cake, de Hasan Hadi, In the Land of Brothers, de Alireza Ghasemi e Raha Amirfazli, e o português Entroncamento, de Pedro Cabeleira. Ainda por confirmar, está o segundo volume de Mektoub, My Love: Canto Due, de Abdellatif Kechiche.


Homenagens: Hal Hartley, Isabel Ruth e Wagner Moura e tributo a Marisa Paredes

O LEFFEST apresentará a primeira grande retrospectiva europeia de Hal Hartley, que será acompanhada da estreia europeia do seu mais recente filme Where to Land. Também homenageada será a actriz Isabel Ruth, rosto incontornável do Cinema Novo português; o realizador e actor brasileiro Wagner Moura, recentemente distinguido no Festival de Cannes, pelo seu papel em O Agente Secreto; e a actriz britânica Miranda Richardson. Todos marcarão presença em Lisboa para apresentar os seus filmes e participar em encontros com o público.

Em memória, o festival presta tributo a Marisa Paredes (1946-2024), a actriz que, para Pedro Almodóvar, "tudo dignificava". Serão exibidos alguns dos seus filmes mais marcantes, contando com a participação de alguns dos seus próximos.


Focos: Um Novo Élan do Cinema Espanhol e O Cinema da Ásia Central

O festival vai apresentar dois Focos geográficos: Um Novo Élan do Cinema Espanhol, que reúne sete filmes inéditos em Portugal e revela a vitalidade do novo cinema espanhol, com realizadores de diferentes gerações a reinventar o legado dos grandes mestres. Estarão presentes, entre outros, Manuel Martín Cuenca, Pilar Palomero, Alberto Morais e Javier Rebollo. E o foco O Cinema da Ásia Central que apresenta 12 filmes do Cazaquistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Quirguistão, das Novas Vagas dos anos 80 até à criação contemporânea, alguns apresentados pelos próprios autores.


Ciclos Temáticos: Revoluções e Exílios

Dois ciclos temáticos serão apresentados no festival. Revoluções, com curadoria de Denis Ruzaev e Ines Branco López, pretende olhar para a história do cinema sob a lente revolucionária. Já Exílios propõe uma reflexão íntima e política sobre a condição de desenraizamento, com filmes, debates, leituras, a exposição At the Edge of Visibility, do colectivo Dahaleez, na Galeria Zé dos Bois, e ainda um cine-concerto com The Immigrant (1917) e The Pilgrim (1923), de Charlie Chaplin, acompanhados ao vivo pelo Rodrigo Amado Trio

Secções Descobertas e Grandes Mestres

A secção Descobertas atribuirá o Prémio Revelação, que será decidido por um júri composto por Avi Mograbi, Margarida Cardoso, Stephen Kovacevich e Stéphanie Argerich, a um dos sete filmes de autores que se têm afirmado nos últimos anos. Em competição estarão DJ Ahmet, de Georgi M. Unkovski; Homebound, de Neeraj Ghaywan; Living the Land, de Huo Meng; Lucky Lu, de Lloyd Lee Choi; My Father’s Shadow, de Akinola Davies Jr.; Shadowbox, de Tanushree Das e Saumyananda Sahi; e Urchin, de Harris Dickinson.

A secção Grandes Mestres convida o público a reencontrar grandes nomes do cinema contemporâneo com novas obras: Aleksandr Sokurov (Director’s Diary), Edgar Reitz (Leibniz – Chronicle of a Lost Painting), Franco Maresco (Un film fatto per Bene), Sharunas Bartas (Laguna) e José Luis Guerín (Historias del buen valle). Sokurov, Bartas e Guerín estarão nas sessões para apresentar os filmes.


Memória do Cinema - Filmes Restaurados

Nesta edição, o LEFFEST vai apresentar três filmes recentemente restaurados: Senso (1954), de Luchino Visconti, restaurado pela Cineteca di Bologna; La Règle du Jeu (1939), de Jean Renoir, restaurado pela Cinémathèque Française; e O Processo do Rei (1990), de João Mário Grilo, que terá a sua primeira exibição pública na nova cópia restaurada pela Cinemateca Portuguesa.


Homenagem a Arvo Pärt no 90.º Aniversário

O compositor Arvo Pärt será homenageado por ocasião do seu 90.º aniversário com um concerto pelo GGG Trio (Gidon Kremer – violino, Georgijs Osokins – piano, Giedre Dirvanauskaite – violoncelo), conversas sobre a sua obra e a exibição de filmes, incluindo a sua colaboração com Robert Wilson.

Em breve, serão anunciados mais títulos e convidados à programação do LEFFEST 2025, e os bilhetes estarão à venda previsivelmente no final de Outubro. Mais informação sobre o festival em https://leffest.com/.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Sugestão da Semana #612

Das estreias da passada Quarta e Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca o filme de Radu JudeNão Esperes Demasiado do Fim do Mundo. Escrevemos sobre o filme no blog.



Ficha Técnica:
Título Original: Nu astepta prea mult de la sfârsitul lumii
Realizador: Radu Jude
Elenco: Ilinca Manolache, Ovidiu Pîrșan, Nina Hoss, Dorina Lazăr, László Miske, Șerban Pavlu, Katia Pascariu
Género: Comédia
Classificação: M/16
Duração: 163 minutos

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Crítica: Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo / Nu astepta prea mult de la sfârsitul lumii / Do Not Expect Too Much from the End of the World (2023)

*9/10*

Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo marca o regresso do mordaz e incisivo realizador romeno Radu Jude. Os problemas socio-económicos da Roménia são o centro da narrativa que, inevitavelmente, são igualmente identificáveis em tantos outros países. 

"Uma assistente de produção, sobrecarregada e mal paga, tem que conduzir pela cidade de Bucareste para filmar castings para um vídeo de segurança no local de trabalho, encomendado por uma empresa multinacional. Quando um dos entrevistados faz uma declaração que desencadeia um escândalo, ela é forçada a reinventar toda a história."

Sempre pertinente e actual, Radu Jude nunca descura o seu estilo provocador e atento, com a ironia a dar voz às desigualdades e injustiças. Desta vez, Angela Raducani (numa fabulosa interpretação de Ilinca Manolache) é a guia desta aventura pelas ruas de Bucareste, percorrendo muitos quilómetros, com poucas horas de sono, muito café e música. De casa em casa, a assistente de produção conhece e regista o testemunho de vários trabalhadores vítimas da insegurança laboral. 

Durante as horas vagas que não tem, Angela Raducani diverte-se - e tenta rentabilizar - nas suas redes sociais, criando uma personagem machista e ordinária, Bobita Ewing, que faz sucesso e lhe vale muitas visualizações e likes. Estas breves "pausas" da protagonista proporcionam os momentos mais caricatos e inesperados da longa-metragem, arrancando "risos culposos" à plateia - que no final do filme estará fã de Bobita.

E em todo este percurso, desde o casting, às reuniões com a empresa multinacional, até ao dia das filmagens (que culmina num delicioso tragicómico plano sequência), impera o cinismo das relações laborais e a necessidade que faz com que vítimas aceitem promover a segurança da sua empresa (que para eles não existiu) a troco de dinheiro, dando-se praticamente como culpados do mal que lhes aconteceu.


Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo faz, ao mesmo tempo, um paralelismo da realidade actual com  excertos do filme Angela merge mai departe (Angela Moves On), de 1982 (olhando para diferentes acontecimentos e para os mesmos locais, cerca de 40 anos depois), que acompanha a história de uma mulher taxista em Bucareste. As protagonistas dos dois filmes partilham o nome e o trabalho baseado na condução. Por sua vez, Radu Jude faz regressar para o seu filme os mesmos actores da obra de 1982, que voltam a vestir a pele das suas personagens, dando continuidade às suas histórias 40 anos depois.

Com sequências a preto e branco, filmadas em película de 16mm, e a cores (curiosamente, durante a maior parte do filme, a cores estão apenas os excertos de Angela merge mai departe, e as stories de Bobita Ewing), o filme de Radu Jude distingue-se ainda pela montagem assertiva e essencial para a unidade fílmica.

O atrevimento de Radu Jude tem-no consolidado como um dos grandes realizadores da actualidade. Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo é mais uma prova do génio do cineasta, um estrondo de sarcasmo que explora as fraquezas da realidade através da ficção.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Curtas Vila do Conde 2023: Walerian Borowczyk e Radu Jude em destaque

O 31.º Curtas Vila do Conde anunciou mais dois realizadores em destaque na selecção deste ano: Walerian Borowczyk estará em foco na secção Cinema Revisitado e Radu Jude na secção InFocus.

Street Art, Walerian Borowczyk, Jan Lenica

No ano em que se assinala o 100.º aniversário do seu nascimento, Walerian Borowczyk estará em destaque no Curtas 2023. Apesar da sua vasta obra, "que percorre o documentário, a animação, a publicidade, a curta e a longa metragem, Borowczyk continua a ser um mistério para a maioria dos espectadores de cinema", refere o festival em comunicado. "Ao longo da década de 60 criou mais de 60 animações, explorando os limites estéticos e técnicos da linguagem. Pintava comboios à noite para, de dia, embarcar e criar imagem em movimento; convidava amigos para eventos de live films, projetando película que havia pintado à mão. Estreia-se na realização profissional em 1957, ao lado de Jan Lenica, com Era Uma Vez, e dá o passo para a longa metragem com Teatro do Senhor e Senhora Kabal, em 1967. É, no entanto, com Contos Imorais, (1973, co-realizado com Fabrice Luchini e Paloma Picasso, e A Besta (1975), que o nome de Borowczyk chama a atenção de audiências maiores"

Através do poder da alegoria, o realizador inicia "aqui numa nova linguagem: que balanceia o erotismo e o kitsch e que entusiasma a audiência pela atmosfera que cada filme cria. Temas como intimidade, fantasias sexuais, a necessidade de arriscar e a negação do pudor passam a ser centrais na sua obra, num desafio a algumas das ideias mais conservadoras que ainda marcavam as sociedades da altura", explica o Curtas Vila do Conde que, este ano, apresenta um extenso programa da sua obra em curta-metragem, exibindo filmes como Jouet Joyeux (Walerian Borowczyk; 3', França, 1979) ou Street Art (Walerian Borowczyk, Jan Lenica; 1', Polónia, 1957).

It Can Pass Through The Wall, Radu Jude

Por outro lado, Radu Jude é um nome cada vez mais conhecido entre os cineastas da actualidade. nome que não deverá ser desconhecido para os atentos à cinematografia contemporânea. Os filmes de Radu Jude abordam "temas intemporais como a liberdade, a igualdade e a fraternidade".Muito focado, acima de tudo na realidade do seu país, a Roménia, a obra do cineasta encontra "uma forma de romper com tabus, levando-nos pelo absurdo dos mal-estares sociais e a forma como os estados têm vindo a criar narrativas que nos distraiam dos seus erros e contravenções". O 31.º Curtas dedica-lhe um programa especial focado nas curtas-metragem da sua filmografia, exibindo títulos como In the Morning (28', 2007), The Tube With a Hat (23', Roménia, 2007), Alexandra (24', Roménia, 2008), Shadow of a Cloud (30', Roménia, 2013), It Can Pass Through the Wall (17', Roménia, 2014), The Marshal's Two Executions (10', Roménia, 2014), Punish and Discipline (12', Roménia, 2019), Plastic Semiotic (22', Roménia, 2021), Caricaturana (9', Roménia, 2021), The Potemkinists (18', Roménia, 2022) ou Memories From the Eastern Front (com Adrian Cioflâncă, 30', Roménia, 2022).

Mais informações sobre o Curtas Vila do Conde em www.curtas.pt.

domingo, 12 de setembro de 2021

Sugestão da Semana #472

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Má Sorte no Sexo Ou Porno Acidental, de Radu Jude, que já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme. Não será um filme para todos, mas é uma abordagem mordaz e provocadora aos tempos actuais.

MÁ SORTE NO SEXO OU PORNO ACIDENTAL


Ficha Técnica:
Título Original: Babardeala cu bucluc sau porno balamuc
Realizador: Radu Jude
Elenco: Katia Pascariu, Claudia Ieremia, Olimpia MalaiNicodim Ungureanu
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/18
Duração: 106 minutos

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Crítica: Má Sorte no Sexo Ou Porno Acidental / Bad Luck Banging or Loony Porn / Babardeala cu bucluc sau porno balamuc (2021)

*8/10*

A criatividade de Radu Jude é inesgotável e a crítica social que espelha em cada filme é certeira e provocadora. Má Sorte no Sexo Ou Porno Acidental segue esta linha, extrapolando-a, numa abordagem em capítulos que reflecte sobre a Roménia actual e a sua História, mas também acerca das sociedades na era pandémica, com todos os seus vícios, usando para tal o sexo e uma sex tape caseira.

"Uma sátira da pandemia global que ainda vivemos. Este filme começa com uma sex tape que dá para o torto. Em causa está a vida e a carreira de Emi, uma professora que se vê forçada pelos pais dos alunos a apresentar a sua demissão. Contudo, Emi recusa. Recomendado para quem aprecia experiências cinematográficas transgressivas – no melhor dos sentidos."


Emi e a câmara de Radu Jude levam-nos pelas ruas de Bucareste em tempos de pandemia, enquanto a professora faz visitas e telefonemas com vista a resolver a situação em que se viu envolvida: a sua intimidade foi parar à Internet para seu mal e para gáudio de pais e alunos - tão escandalizados como voyeurs. O humor mordaz - quase cruel - de Radu Jude é o motor desta longa-metragem que, por vezes, quase roça o nonsense mas que, qual paradoxo, faz todo o sentido neste filme.

O preconceito contra ciganos e judeus, a negação das atrocidades da História do país, a misoginia pouco escondida, tudo reflecte o atraso civilizacional e social da Roménia de Radu Jude. Curiosamente, Emi é mulher e professora de História: dupla afronta para conservadores, machistas e negacionistas.

Num âmbito mais global, a pandemia, os seus novos hábitos, clichés e erros comuns (quem não conhece alguém que baixa a máscara para falar) são outro inevitável foco de Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental

O realizador romeno dá-nos uma lição de História e de humor, enquanto confronta sem receios a hipocrisia dos seus conterrâneos - e do mundo em geral.

sábado, 21 de agosto de 2021

IndieLisboa 2021: 14 Filmes a não perder

O IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema começa este Sábado, 21 de Agosto, e prolonga-se até 6 de Setembro, no Cinema São Jorge, Culturgest, Cinema Ideal, Cinemateca Portuguesa e Jardim da Biblioteca Palácio Galveias. O Hoje Vi(vi) um Filme deixa-te algumas sugestões de filmes a não perder no festival lisboeta.

Bad Luck Banging or Loony Porn, de Radu Jude
Silvestre
Roménia, Luxemburgo, República Checa, Croácia, Ficção, 2021, 106′
"Uma sátira da pandemia global que ainda vivemos. Este filme começa com uma sex tape que dá para o torto. Em causa está a vida e a carreira de Emi, uma professora que se vê forçada pelos pais dos alunos a apresentar a sua demissão. Contudo, Emi recusa. Recomendado para quem aprecia experiências cinematográficas transgressivas – no melhor dos sentidos."

An Ordinary Country, de Tomasz Wolski
Silvestre
Polónia, Documentário, 2020, 51′
"Um filme feito com materiais anteriormente classificados que expõe como os serviços secretos da Polónia comunista espiavam e registavam as actividades dos seus cidadãos, da década de 60 até à de 80, de telefonemas aos detalhes mais mundanos."

Radiograph of a Family, de Firouzeh Khosrovani
Competição Internacional
Irão, Noruega, Suíça, Documentário, 2020, 80′
"Um documentário extremamente pessoal onde Firouzeh Khosrovani dá a conhecer intimamente a vida e o casamento dos seus pais, pessoas que não poderiam estar em pólos mais opostos do secularismo e da ideologia islâmica religiosa. Uma história contada através de imagens de arquivo, cartas e conversas, numa radiografia que ultrapassa o particular para ilustrar também conflitos no âmago da sociedade iraniana."

The Shift, de Laura Carreira
Competição Internacional, Competição Nacional
Reino Unido, Portugal, Ficção, 2020, 9′
"A princípio nada parece carregar Anna com preocupações ou pesos enquanto faz uma viagem curta, na companhia do cão. Mas o ambiente começa a mudar ao entrar no supermercado. Enquanto vê as prateleiras, os expositores, faz cálculos mentais. Até ao telefonema."

No Táxi do Jack, de Susana Nobre
Competição Nacional
Portugal, Documentário, Ficção, 2021, 70′
"Jack é Joaquim Calçada, antigo mecânico de aviões. Antes do 25 de Abril, emigrou para Nova Iorque, onde foi motorista de táxis. Volta uma figura, como Carmen Miranda cantava, “americanizada”, depois de vinte anos. É em Alhandra, Vila Franca de Xira que, a um passo da reforma, conta histórias do seu tempo nos Estados Unidos e de um percurso guiado pelo seu instinto de sobrevivência."

Os Últimos Dias de Emanuel Raposo, de Diogo Lima
Competição Nacional
Portugal, Ficção, 2021, 47′
"Quer o classifiquemos como mockumentary ou curta-metragem pseudocumental, este filme é uma divertida viagem pelos últimos dias em cena do apresentador do programa de variedades da televisão açoriana 'Meia Hora com Emanuel Raposo'."

Sopro, de Pocas Pascoal
Competição Nacional
Portugal, Documentário, 2021, 43′
"Um documentário que passa tempo com Marion e Peter, um casal holandês que perdeu a sua quinta no fogo que arrasou Pedrógão Grande no verão de 2017. No rescaldo da catástrofe, tentam reconstruir o que podem, com o pouco que têm."

Sambizanga, de Sarah Maldoror
Retrospectiva
França, Angola, Ficção, 1973, 102′
"Estamos em 1961, no início da guerra pela independência angolana. Domingos Xavier é um revolucionário preso por militares portugueses e levado para uma prisão em Sambizanga. A esposa, Maria, procura-o, temendo a tortura ou a morte a que ele possa ter sido sujeito. Um filme que mostra a libertação de Angola pelos olhos de uma mulher."

The Sparks Brothers, de Edgar Wright
IndieMusic
Reino Unido, Estados Unidos, Documentário, 2021, 135′
"Edgar Wright é conhecido por filmes como Shaun of the Dead ou Hot Fuzz, Scott Pilgrim vs the World e Baby Driver. Agora, apresenta um documentário sobre os The Sparks, um duo musical eclético e excêntrico que é apresentado como 'a banda preferida da tua banda preferida'. Para falar do mito e dar a conhecer estes irmãos, Wright junta entrevistas de músicos e comediantes, onde há espaço para Beck, Neil Gaiman, Björk, Patton Oswalt, 'Weird Al' Yankovic, Jack Antonoff ou até Amy Sherman-Palladino (Gilmore Girls). "

Diálogo de Sombras, de Júlio Alves
Director's Cut
Portugal, Documentário, Experimental, 2021, 60′
"Filme que parte da exposição Pedro Costa: Companhia — exposição dedicada ao cineasta português que poderia ser vista como uma colectiva, dado que estava ladeado por artistas como Picasso, Bresson, António Reis, John Ford, Jeff Wall, Godard, Rui Chafes ou Charlie Chaplin — para continuar a criar um diálogo entre o realizador português e as figuras que povoam o seu imaginário."

Hopper/Welles, de Orson Welles
Director's Cut
Estados Unidos, Polónia, Documentário, 2020, 130′
"Filip Jan Rymsza, que já tinha produzido The Other Side of the Wind – um filme de Welles que esteve 40 anos na estante e foi estreado em 2018 –, regressa com esta conversa entre duas figuras magistrais do cinema americano, filmada em 1970. Nas duas horas deste documento visual até há pouco desconhecido, os dois realizadores digladiam verbalmente, questionando a natureza do seu trabalho ou a da violência nos Estados Unidos, entre outros temas. Um registo histórico."

A Távola de Rocha, de Samuel Barbosa
Director's Cut
Portugal, Japão, Documentário, 2021, 94′
"Samuel Barbosa, na sua primeira longa-metragem, explora o processo criativo de Paulo Rocha (Os Verdes Anos) e os seus filmes, através das suas personagens, dos artistas que trabalhou e outros testemunhos da sua arte."

Summer Of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised), de Ahmir “Questlove” Thompson
Sessões Especiais
Estados Unidos, Documentário, 2021, 117′
"O músico e DJ (e compositor e jornalista, entre outros) Questlove assina — em nome próprio, como Ahmir Khalib Thompson — este documentário sobre o Festival Cultural de Harlem de 1969. O festival durou seis semanas e teve performances de Stevie Wonder e Sly and the Family Stone. Mas perdeu-se na memória colectiva."

Flee, de Jonas Poher Rasmussen
Sessões Especiais
Dinamarca, França, Suécia, Noruega, Animação, Documentário, 2021, 89′
"Um documentário animado que conta a história de Amin, que antes de se casar com o namorado, decide revelar um segredo que esconde há vinte anos. Amin chegou à Dinamarca como refugiado vindo do Afeganistão. Neste filme, lida com o seu passado traumático."

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Doclisboa'21: The Exit of the Trains / Ieşirea trenurilor din gară (2020), de Radu Jude e Adrian Cioflâncă

*8/10*

No Doclisboa 2021, The Exit of the Trains (Ieşirea trenurilor din gară), de Radu Jude e Adrian Cioflâncă, são quase três horas que espelham a crueldade de que o ser humano é capaz. Um marco de História, um documentário brutal sobre o papel da Roménia no Holocausto. Um alerta fortíssimo para que nada se volte a repetir.

Já em I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians, de 2018, Radu Jude tinha abordado as atrocidades que marcam o passado recente romeno. Desta vez, o resultado é muito mais impactante, recorrendo aos arquivos, entre imagens e a leitura de testemunhos reais.

"Um ensaio totalmente constituído por fotografias de arquivo e documentos do primeiro grande massacre de judeus na Roménia: na cidade de Iași, a 29 de Junho de 1941, foram mortos mais de 10 000 – primeiro, à bala; depois, por asfixia em comboios de mercadorias. Na primeira parte do filme, fotografias das pessoas que acabaram por ser mortas pelo exército romeno e por civis são acompanhadas por vozes que recitam os documentos relacionados com o destino do massacre. A segunda parte é uma montagem das restantes fotografias do massacre em si (tiradas na sua maioria por soldados alemães que estavam na cidade)."

O poder da memória que as imagens guardam tem em si um impacto surpreendente. The Exit of the Trains comove e revolta, pela violência que descreve e ilustra. Não há palavras que descrevam a dimensão do documentário, bem como do massacre levado a cabo em 1941. 

Através de um exaustivo trabalho de pesquisa, Radu Jude e Adrian Cioflâncă criam o filme que todos deviam ver - sejam romenos ou não -, num confronto grotesco com um Passado que tantos fazem por esquecer. Urge lembrar e denunciar os horrores, honrar as vitimas e lutar para que nunca volte a acontecer.

sábado, 7 de março de 2020

FICLO 2020: Programa completo

A 2.ª edição do FICLO - Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão já tem o programa fechado. Haverá foco no grande cinema italiano e filmes em estreia nacional, para além do já anunciado foco na obra do realizador Albert Serra e o ciclo gótico tropical.

O evento promove 12 estreias nacionais e um conjunto de actividades paralelas dedicadas à escrita, debate e aprofundamento das conexões entre o cinema e a literatura, como os passeios performáticos pela cidade ou a leitura encenada por Rogério de Carvalho do argumento escrito em residência pelo realizador Tiago Hespanha.

I Do Not Care if We Go Down in History as Barbarians, de Radu Jude
Este ano, a Competição Internacional integra nove obras de produção recente: Adoration (filme de abertura do FICLO), Valley of Souls (filme de encerramento do festival), ambos com uma estrutura de conto e viagem dantesco, envolvidos por uma atmosfera poética; a viagem sem retorno no deserto de Fortress, de Ludovica Andò e Emiliano Aiello, inspirado no romance de Dino Buzzati; a viagem através da memória histórica em I Do Not Care if We Go Down in History as Barbarians, de Radu Jude, assim como em Endless Night, de Eloy Enciso; ainda There Was a little Ship, de Marion Hänsel, Out Stealing Horses, de Hans Petter Moland, e ainda o périplo pela consciência dividida e anulada em The Good Girls, de Alejandra Márques Abella. A estes títulos junta-se o português Campo, de Tiago Hespanha, que tem a natureza humana como ponto de partida.

Destaque para o foco nos filmes italianos que, desde o pós-guerra, levam a narrativa contemporânea ao cinema. O ciclo integra grandes clássicos de Rossellini, Visconti, Antonioni e Pasolini, propondo uma lista de filmes que se valem da estrutura narrativa e da temática da viagem para a exploração da identidade, outro dos grandes assunto da literatura contemporânea.

O FICLO - Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão acontece entre 28 de Março e 5 de Abril. Mais informações em https://ficlo.pt/.

Campo, de Tiago Hespanha
SELECÇÃO COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Adoration, Fabrice du Welz, Bélgica, fic., 2020, 98' (Estreia nacional)
Endless Night [Longa Noite], Eloy Enciso, Espanha, fic., 2019, 93'
Fortress [Fortezza], Ludovica Andò, Emiliano Aiello, Itália, fic., 2019, 72' (Estreia nacional)
Out Stealing Horses [Ut og stjæle hester], Hans Petter Moland, Noruega, fic., 2019, 123’ (Estreia nacional)
The Good Girls [Las Niñas Bien], Alejandra Marquez, México, fic., 2018, 93' (Estreia nacional)
There was a Little Ship [Il était un petit navire], Marion Hänsel, Bélgica, doc., 2019, 65' (Estreia nacional)
Valley of Souls [Tantas Almas], Nicolás Rincón Gille, Colombia, fic., 2019, 127’ (Estreia nacional)

sábado, 11 de maio de 2019

IndieLisboa'19: I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians / Îmi este indiferent daca în istorie vom intra ca barbari (2018)

*7.5/10*


Como realizador, o estilo de Radu Jude é irresistível. Nos últimos anos, pega na história do seu país, encontra os momentos que mais o envergonham e conta-os, à sua maneira, mas sem omitir as atrocidades, para que a Roménia e o mundo saibam a verdade. E reflictam sobre ela, para que o mal não se repita.

O realizador romeno tem sido presença frequente no IndieLisboa e, nesta edição, podemos ver I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians, na secção Silvestre. Desta vez, o tema é a quota-parte de responsabilidade que a Roménia teve no Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial.

"Eu não me importo se nós entrarmos na história como bárbaros" (a frase que dá título ao filme)  foi proferida no Conselho de Ministros antes do massacre cometido pelo exército romeno contra os judeus do país em 1941, numa tentativa de fazer uma limpeza étnica. No filme, a directora teatral Mariana (Ioana Iacob) pretende criar um espectáculo para relembrar os romenos destas tendências antissemitas que os seus antepassados demonstraram, durante a Segunda Guerra. A reconstituição histórica do massacre de Odessa, que muitos parecem ainda hoje negar que tenha acontecido é o foco das pesquisas de Mariana. Mas este espectáculo público tinha como objectivo ser uma homenagem à História da Roménia, e depressa surgem conflitos de interesse com as autoridades locais. Está lançado o desafio, tanto a Mariana como à plateia e os negacionistas vão surgindo, entre os actores e figurantes.


I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians é tão actual que assusta verificar que, passados 80 anos, há argumentos que ainda não mudaram. Radu Jude, através de Ioana Iacob, faz uma investigação exaustiva, entre textos sociológicos e históricos, filmes e fotografias, e, através do seu humor mordaz, quer acordar a civilização para a crueldade do Holocausto e mostrar que o passado não pode ser apagado.

Escutamos textos, vemos filmes, em longos planos que obrigam à atenção, mas são, ao mesmo tempo, sarcásticos. Somos obrigados a ver, ouvir e ponderar. Há imagens (reais) que nos tiram o sorriso que a cena anterior possa ter motivado. Imagens da morte. Querem melhor sinal de alerta?

Há longos planos sequência onde se debatem ideias e ideais e em que a câmara vagueia entre os ensaios junto ao Museu Militar. Apenas o quotidiano de Mariana, dominado por uma relação amorosa com pouco futuro, corta o ritmo à crítica político-social tão bem escrita e filmada.


Radu Jude não tem medo. Quer confrontar o seu país com a verdade da sua História. Afinal, todos temos os nossos monstros escondidos. É importante encará-los para nunca mais os repetirmos.

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O filme passou no dia 9 de Maio, no Cinema São Jorge, e volta a ser exibido no dia 12 de Maio, às 21h30, também no Cinema São Jorge.

sábado, 2 de maio de 2015

IndieLisboa'15: Aferim!

*8.5/10*

Aferim, de Radu Jude, é irónico, provocador e provavelmente um marco no cinema romeno mais recente. A Competição Internacional do IndieLisboa tem aqui um forte candidato à vitória. Um filme de época que brinca com estereótipos, que não tem medo de chocar ou arriscar, com um argumento provocador e um visual fabuloso.

Que Radu Jude é um nome a reter, já não há dúvida - ainda há poucos meses o seu trabalho foi alvo de retrospectiva por cá na Festa do Cinema Romeno. Em Aferim!, o realizador traz-nos uma aventura pelos territórios feudais da Roménia do século XIX, onde um polícia e o seu filho e assistente partem numa jornada para capturar um escravo cigano que fugiu do seu senhor.

Nesta história, aparentemente simples, está uma forte sátira social, onde o humor domina e há lugar para abordar o racismo, a escravatura ou o lugar das mulheres na sociedade e, claro, quais os valores que se levantam mais alto. O argumento está muito bem construído, com momentos marcados pelo carácter irónico ou cómico dos diálogos.

Em Aferim!, o trabalho de recriação histórica é fenomenal, com a direcção artística a assumir um papel fulcral. Outro ponto forte é a direcção de fotografia, potenciada pelo preto e branco, e pela rodagem em 35 mm, que lhe adensa o tom sujo e de época que a longa-metragem pede.

Divertido - mas com as suas intenções bem demarcadas -, ritmado, com planos que demorarão a sair-nos da cabeça, Radu Jude trouxe-nos neste seu trabalho o afirmar do seu talento como cineasta e do seu estilo muito próprio: mordaz, corajoso e original. Só podemos esperar cada vez melhor. "Aferim" (bravo), Radu Jude!