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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Estreias da Semana #261

Esta Quinta-feira, chegaram aos cinemas portugueses seis novos filmes. T2: Trainspotting e Vedações são as estreias que mais se destacam.

John Wick: Capítulo Dois (2017)
John Wick: Chapter Two
O lendário assassino John Wick (Keanu Reeves) é forçado a abandonar a sua reforma por um antigo associado que conspira para assumir o controlo de uma sinistra associação internacional de assassinos. Obrigado por um juramento de sangue a ajudá-lo, John viaja para Roma, onde se depara com alguns dos assassinos mais mortais do mundo.

O Patriarca (2016)
Mahana
Na década de 60 do século XX, duas famílias Maori, os Mahanas e os Poatas, ganham a vida a tosquiar ovelhas na costa leste da Nova Zelândia. Os dois clãs são inimigos e enfrentam-se nas competições anuais de tosquia. Simeon tem 14 anos e pertence ao clã Mahana. Estudante corajoso, rebela-se contra Tamihana, o seu avô autoritário com modos tradicionais de pensar e começa a descobrir as razões da longa disputa entre as duas famílias. Em pouco tempo, as hierarquias e estruturas estabelecidas da comunidade estão em desordem porque Tamihana, que é tão teimoso quanto orgulhoso, não está preparado para ceder e procurar novos caminhos.

Os Olhos da Minha Mãe (2016)
The Eyes of My Mother
Uma jovem solitária é consumida pelos seus desejos mais profundos e sombrios após uma tragédia que agitou a sua vida tranquila no campo.

Stefan Zweig: Adeus, Europa (2016)
Vor der Morgenröte
Os anos do exílio na vida de Stefan Zweig, um dos escritores de língua alemã mais lidos do seu tempo, entre Buenos Aires, Nova Iorque e Brasil. Enquanto intelectual judeu, Zweig tenta encontrar a atitude correcta face aos acontecimentos na Alemanha nazi, ao mesmo tempo que vai em busca de um lar no novo mundo.

T2: Trainspotting (2017)
Passaram 20 anos. Muito mudou, muito ficou na mesma. Mark Renton (Ewan McGregor) regressa ao único lugar ao qual alguma vez chamou de casa. À espera dele estão Spud (Ewen Bremner), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlyle). Outros velhos amigos também o aguardam: mágoa, perda, alegria, vingança, ódio, amizade, amor, desejo, medo, arrependimento, diamorfina, auto-destruição e perigo de morte – todos alinhados para lhe dar as boas vindas e prontos para entrar na dança.

Vedações (2016)
Fences
Vedações retrata a vida e as frustrações de uma família operária afro-americana nos anos 50. Troy Maxson (Denzel Washington) é um homem que sonhou ser uma estrela de basebol mas que, devido à sua raça, se resignou a trabalhar na recolha do lixo para sustentar a família. Os conflitos existenciais consomem-nos e ameaçam destruir tudo à sua volta.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Oscars 2017: Melhor Filme

A cerimónia dos Oscars 2017 está mesmo a chegar e nada como a breve análise do costume aos nomeados. Num ano em que os nomeados para Melhor Filme não foram, certamente, os melhores de 2016, ficaram de fora títulos como o meu tão querido Animais Noturnos. Dos nove filmes na corrida, há especialmente três que mereceriam vencer o grande prémio da noite e dois que nem deviam fazer parte da lista. Aí ficam os nomeados, por ordem de preferência.

É quase o outsider da lista de nomeados e, é quase certo, que não vence. Não deixa, ainda assim, de ser o meu favorito dos nove. O contacto cinematográfico com extra-terrestres tem-se repetido, ao longo dos anos, das mais variadas formas. Contudo, são poucos os que conseguem alcançar a subtileza de Denis Villeneuve. O Primeiro Encontro é um filme sobre a humanidade e a falta de compreensão entre humanos - e extra-terrestres. Vale bem a aventura.

Comovente, romântico e sonhador são qualidades do mais recente filme do empenhado Damien Chazelle. Só mesmo o argumento apressado quebra ligeiramente a magia do musical moderno que homenageia os veteranos. La La Land não deixa apesar disso de reunir um dos melhores casais protagonistas de sempre e um trabalho técnico soberbo.

Praticamente empatado com La La Land nas minhas preferências está MoonlightBarry Jenkins coloca no ecrã uma bela história de vida, com uma realização de génio forte. O filme apregoa a liberdade de ser, escolher e sonhar, para que todos possam brilhar como o luar, sem preconceitos.

Quando deixamos de pertencer à terra onde nascemos ou crescemos, nem os laços familiares podem, por vezes, curar a ferida. Manchester by the Sea faz-nos seguir a trágica família Chandler, e a sua realidade dura e triste. Kenneth Lonergan escreve e filma um drama familiar bem construído, focado essencialmente em dois elementos da mesma família: tio e sobrinho - os dois que restam. 


Hell or High Water - Custe o Que Custar! é uma obra consistente de David Mackenzie, que supera as expectativas. Um retrato cru dos tempos que correm, onde também o elenco em muito contribui para o sucesso do produto final. É mais um outsider na lista de nomeados.

Elementos Secretos realça bem a segregação racial (e mesmo de género) que se vivia ainda nos anos 60, tratando um tema sensível com humor, com os diálogos a assumirem um papel fulcral. Ao mesmo tempo, o filme de Theodore Melfi homenageia três importantes nomes femininos da História da NASA. Actualmente, num momento sociopolítico tão instável e incerto para o ocidente, esta longa-metragem é uma excelente forma de relembrar que a História foi feita por todos.

Vedações traz o teatro ao cinema, mas consegue fazê-lo cativando a plateia que, apesar de estranhar tantas palavras e menos estímulos visuais, vai embrenhar-se da história da família Maxson e segui-la com verdadeiro interesse e preocupação. É muito mais um filme de emoções e sentimentos do que de acontecimentos ou acções, e vive, em especial dos seus actores, com destaque para o casal protagonista Denzel Washington e Viola Davis.

Mel Gibson regressa à realização com O Herói de Hacksaw Ridge onde fé e patriotismo se alistam em conjunto. Entre o drama do religioso objector de consciência, traumatizado desde a infância, e a brutalidade da guerra, o filme parece dividir-se em dois, com ritmos bastante distintos. É claramente um dos mais fracos desta lista.

Sabe-se que o epíteto "baseado numa história verídica" nem sempre é sinónimo de qualidade e Lion - A Longa Estrada para Casa é mais um exemplo disso. Realmente, o argumento do filme tem por base o passado de um homem com muito para contar. Denuncia desigualdades e problemas muito preocupantes no que respeita às crianças indianas, contudo, isso não chega. É o outro elo mais fraco.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Crítica: Vedações / Fences (2016)

"Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in."
Bono

*7/10*

Vedações, de Denzel Washington, não engana: é um filme onde as palavras e interpretações ganham um espaço muito maior do que a própria imagem. É verdade, adapta uma peça de teatro ao cinema. 

É muito mais um filme de emoções e sentimentos do que de acontecimentos ou acções, que vive, em especial dos seus actores, com destaque para o casal protagonista Washington e Viola Davis.

Vedações retrata a vida e as frustrações de uma família operária afro-americana nos anos 50. Troy Maxson (Denzel Washington) é um homem que sonhou ser uma estrela de basebol mas que, devido à sua raça, se resignou a trabalhar na recolha do lixo para sustentar a família. Os conflitos existenciais consomem-nos e ameaçam destruir tudo à sua volta.


Adaptar uma peça de teatro ao cinema não é tarefa fácil. Washington fá-lo bem como realizador e protagonista, como bom conhecedor da peça de August Wilson das suas representações teatrais - mais de 100 vezes em palco como Troy. Não é de estranhar, portanto, a familiaridade com que o actor e parte do restante elenco (que também fez os mesmos papéis no palco) tratam o texto que representam.

Muito teatral, especialmente ao início, com longos diálogos, muito vocabulário e poucos silêncios. Vedações evidencia ainda mais a sua ascendência ao passar-se quase exclusivamente no mesmo espaço ao longo do filme - a casa da família Maxson.

Passado e futuro misturam-se nas tomadas de decisão das personagens e condicionam-nas. É curioso estabelecer certos paralelismos entre as personagens que ditam o seu rumo ao longo do filme. A relação familiar e os sonhos desfeitos de pais e filhos são o centro da narrativa e é a mãe Rose, quem procura conciliar diferenças e frustrações. A frase que Bono, o amigo fiel de Troy, diz a certo momento no filme, resume bem o papel da personagem feminina: "Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in." ("Alguns constroem vedações para manter as pessoas fora, outros constroem para as manter dentro").


A pairar sobre Vedações está uma componente religiosa e mística muito poderosa. O protagonista desafia muitas vezes a morte e o irmão Gabe tem um discurso desconexo sobre a mesma ideia. Troy trata a morte como um adversário com quem se propõe a lutar sempre que for preciso e Gabe, no meio da sua doença, fala de São Pedro e dos cães do Inferno com uma veemência que deixa os que o rodeiam assombrados.

O elenco é o motor desta longa-metragem que traz consigo tanto do teatro. O Troy de Denzel Washington e a Rose de Viola Davis são personagens dotadas de uma força avassaladora, toda ela conferida pelos actores com performances estrondosas. O protagonista encarna com a naturalidade da prática um homem de sonhos perdidos, que refugia no álcool os seus desgostos, em constante conflito com os filhos, ambicioso e egoísta. Quer fazer tudo pela família, mas são mais as oportunidades de triunfo que lhes rouba. Sendo quase omnipresente, não deixa de ser uma personagem incapaz de conquistar a plateia, tanta é a amargura que carrega em si. 


Viola Davis tem, por seu lado, o melhor desempenho do filme, com a sua Rose conciliadora mas muito magoada. A actriz é contida e defende a família com as armas que tem, mas explode com todas as emoções e ressentimentos quando assim tem de ser. De destaque é ainda a boa prestação de Mykelti Williamson como Gabe, o irmão de Troy terrivelmente marcado pela guerra. Apesar de ser uma personagem secundária, Gabe é de extrema importância para conhecermos Troy e traz consigo mágoa e uma espiritualidade muito característica.

Vedações traz o teatro ao cinema, mas consegue fazê-lo cativando a plateia que, apesar de estranhar tantas palavras e menos estímulos visuais, vai embrenhar-se da história da família Maxson e segui-la com verdadeiro interesse e preocupação.