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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Filme da Minha Vida, por Tiago Brito

Por Tiago Brito


Creio que terei uns problemas a resolver nesta crónica: não sei qual o filme da minha curta vida. Não sei qual levaria para a famosa ilha deserta e muito menos sei se daqui a uns anos continuarei a gostar dos filmes da minha vida.

Mas alguma coisa sei. Sei que são muitos os filmes que me marcaram e uns quantos que mudaram a minha vida, para o bem e para o mal. Categorizo-os por alturas especificas da minha vida nas quais tiveram uma importância crassa na minha forma de pensar o mundo ou até de vivê-lo.

Talvez terei encontrado um caminho por onde seguir no paragrafo anterior. Posso escolher um filme que num passado próximo me tenha deixado abismado. Sim, abismado. Esse filme é Amour do Michael Haneke. Desta forma direi o que penso neste exacto momento e serei fiel ao meu eu, nesta altura da vida.

Não gosto de ver trailers e muito menos os que mostram o filme quase todo. Tira-me a vontade de ver os filmes e por isso falha o seu propósito. O que me incentiva a ir ver um filme é o cartaz que me chama a atenção, a imagem que fica, o titulo que não me sai da cabeça ou o comentário depreciativo de alguém que não tem o mesmo gosto que eu. Com os grandes realizadores não precisamos de incentivo. É apenas esperar que estreie o próximo filme.

Em Amour caí de paraquedas. Não quis saber de nada, muito menos ler as críticas. Tentei, como uma toupeira, cavar um túnel até à sala de cinema (afinal não terei caído de paraquedas mas cavado um túnel). E ali cheguei eu, a meio de uma estória, não a meio do filme. Sim, esse poder de sonho que o cinema tem de nos intrometer a meio da acção sem darmos conta, até acordarmos no fim e começarmos a reflectir sobre o que acabámos de viver. Tal como um sonho.

Entrei devagar e delicadamente na vida daquele casal. Não sabia quem eram, nem de onde vinham mas no meio de tantas possibilidades de personagens, Haneke escolheu as mais indicadas para falar sobre o amor. Haneke resolve quaisquer dúvidas, no início do filme, sobre o que irá acontecer no final e mostra-nos que o importante não é reviravoltas inesperadas mas o que acontece passo a passo, tal como no amor. Não é o viveram felizes para sempre mas o que acontece a cada dia que passa e por isso o filme é continuo, focado num espaço de relativamente um ano e não uma vida inteira. 

O seu sentido de Tempo é inquebrável e justo. A distância a que estamos dos personagens, exacta, sem invadir privacidades de alguém que ainda há pouco conhecemos. Não se poupa a pormenores e a subtilezas de uma família contemporânea. Retira desde o início o factor social de - coitadinhos dos velhinhos que não têm dinheiro para poder viver um final de vida em condições. Este casal tem dinheiro e por isso centra o filme não num drama social mas num drama, única e exclusivamente. Dá espaço a que só se fale de amor. Poucos realizadores poderiam chamar Amor a um filme seu, seria demasiado arriscado falhar a premissa a que o titulo remete mas Haneke é um dos que pode.


Não pretendo fazer um apanhado do filme nem é esse o desígnio da crónica. Talvez o comentário, que ouvi ao sair da sala de cinema, o resuma bem: “Paguei eu dinheiro para ver uma velha morrer aos poucos e poucos...”.  Faltou só o pequeno grande reparo, que o seu marido a acompanha na degradação, alimenta-a, trata-a com as suas próprias mãos em vez de a lançar num lar aos cuidados de quem calhar, aceita as opções da sua mulher, enfrenta a vergonha alheia de uma pessoa que vai perdendo as capacidades e autonomia aos poucos, não vive preso a recordações, embora as estime. Enfrenta a sua filha mimada e que nem uma vez se oiça um queixume seu. Não é fictício e por isso humano, tem momentos negros e acções imponderadas. 

É um filme verdadeiro na falsidade e uma estória de amor com um final trágico. O final é um ponto crucial no filme e no qual a acção em que personagem principal incorre é algo que eu não concordo como opção de morte. Sendo uma obra de arte, dá espaço a interpretação e não impõe um ponto de vista que não dê para ser interpretado pelo espectador, a meu ver. Teria muito mais para dissertar sobre o filme, e principalmente o fim, mas não cabe nesta crónica que, por descuido, já a alonguei mais do que devia. 

Este filme foi visto numa altura em que esta estória, numa dimensão familiar e não conjugal, fazia e ainda faz parte da minha vida. A opção de cuidar dos nossos, até ao fim das suas vidas, é Amor com A grande. Ainda mais quando alguém é responsável pela nossa existência ou quando, no caso do filme, foi cúmplice na nossa felicidade e abrigo na infelicidade. Não nos é obrigado que façamos, não é sequer o mínimo que podemos fazer e também sabemos que não receberemos nada em troca. Não é com um interesse num fim. Esse A grande é posto à prova no final da vida e é onde é mais preciso mas também, mais fácil de quebrar.

Afinal falo de um filme que não sei se é o da minha vida mas que tem parte dela. Parece-me um problema resolvido.

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Tiago Brito, no mundo da música, é o Capitão Tiago, guitarrista da banda Os Capitães da Areia. Ao mesmo tempo, desistiu do curso de engenharia para estudar realização, cujo curso completou em 2013. Tem actualmente a sua curta-metragem, Rio Turvo, a concurso em festivais de cinema e está a criar uma produtora. A actividade musical, claro, continua.

Agradeço ao Tiago ter aceite o meu desafio.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Sugestão da Semana #41

Numa semana onde duas estreias se destacam das restantes, a minha sugestão vai para o mais recente filme de Michael Haneke, que já tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.

AMOR

Ficha Técnica:
Título Original: Amour
Realizadores: Michael Haneke
Actores: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert 
Género: Drama, Romance
Classificação: M/12
Duração: 127 minutos

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Crítica: Amor / Amour (2012)

*9/10*

Tocante, perturbador, mas repleto de Amor, é assim a mais recente longa-metragem de Michael Haneke, que lhe valeu mais uma Palma de Ouro em Cannes. Aqui a máxima do “até que a morte vos separe” é cumprida, e já o sabemos desde os primeiros minutos. Compreendemos, desde logo, que Amor não é para ser visto de ânimo leve e irá mexer com o que há de mais intrínseco em cada um de nós.


Depois das crianças de O Laço Branco, é agora um casal de idosos que protagoniza mais um duro filme do realizador austríaco. Quem conhece Haneke sabe que ele não descansa enquanto não deixa o seu público inquieto. Amor vem, uma vez mais, provar isso mesmo, ao contar a história de Georges e Anne, dois octogenários, cultos, professores de música reformados. A filha, igualmente música, vive no estrangeiro com a família, e passa pouco tempo junto dos pais. Certo dia, Anne é vítima de um acidente e o amor que une este casal será posto à prova.

Michael Haneke vai directo ao assunto desde o primeiro minuto. Sabe-se que o final não é feliz, e é no fim que Amor começa. Mas mais importante do que o fim, é conhecer a relação, e é para isso que recuamos no tempo, para um concerto de música clássica onde os professores reformados estão. O dia a dia de Anne e Georges é-nos apresentado, até ao momento em que a doença de Anne se manifesta. A partir daí, as mudanças na vida e relação de ambos são o centro de tudo. O Amor que é posto à prova e que dá nome a este filme. Por sua vez, o final é um regresso ao início, brilhante e inquietante.

Um argumento que parece tão simples, revela-se muito mais complexo e exigente a cada cena, a cada plano, a cada expressão dos actores. São tantos os sentimentos que estão em jogo em Amor, e não só os das personagens, os nossos também. Qualquer pessoa se irá rever, de uma forma ou de outra, na história que é contada no grande ecrã. É a realidade ficcionada que ali está, e essa consegue ser muito perturbadora.

Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, ali está Georges, “até que a morte os separe”. As mudanças para as quais nunca estaremos preparados acontecem, e o casal protagonista também tem de aprender a lidar com elas. O estado de Anne, que se agrava ao longo do filme, demonstra bem como há lutas dolorosas e infrutíferas. Georges, por seu lado, demonstra uma força excepcional. É ele o símbolo máximo deste Amor, um amor maior do que a própria morte.

Há um vazio crescente e profundo que se sente e estende da casa, espaço onde se passa praticamente toda a acção, a Georges e, claro, a Anne, e que é intensificado pelos planos longos e estáticos de Haneke, tão necessários, que acompanham, lentamente, os nossos pensamentos e recordações ao assistir a Amor. Num filme onde a música que os personagens transpiram constrói todo o ambiente, a música clássica, claro, está presente até nos silêncios.


No elenco dois grandes nomes: Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, com interpretações fabulosas. Riva merece todo o reconhecimento possível pela forma como encarnou Anne, de corpo e alma. Como, sem articular uma palavra, consegue transmitir tantas emoções e sentimentos. Sente-se, em cada cena onde surge, o desgaste físico e emocional que terá sido para a actriz vestir a pele desta personagem. Por seu lado, Trintignant é o motor que faz avançar a acção. O outro lado do sofrimento que ambos vivem, mas também a personificação do amor que sentem. Georges é outra personagem difícil e desgastante e Trintignant oferece-nos uma interpretação magistral.

Isabelle Huppert, com uma presença mais curta no filme é, antes de mais o fruto do amor dos protagonistas, Eva, a filha ausente mas que ama e se preocupa com os pais. A actriz francesa tem, como sempre, um bom desempenho. De destacar ainda, apesar dos poucos segundos em que surge no ecrã (apenas duas cenas), é uma presença portuguesa, Rita Blanco, que tem um pequeno papel como porteira.

Michael Haneke sabe como chegar ao nosso âmago. Amor é um retrato de uma vida a dois, de um amor capaz de salvar, que nos põe cara a cara com a dura realidade que fazemos por esquecer.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Estreias da Semana #41

Cinco são as estreias desta Quinta-feira, com dois filmes muito aguardados a chegar às salas: Amor e Anna Karenina.

Amanhecer Violento (2012)
Red Dawn
Uma pequena cidade do estado de Washington é o alvo principal de uma invasão aos EUA por militares estrangeiros. Inesperadamente, a cidade fica sob ocupação inimiga e os cidadãos são feitos prisioneiros. Determinados a resistir e a lutar, alguns jovens patriotas procuram refúgio nos bosques vizinhos, treinando e reorganizando-se num grupo de guerrilha. Inspirando-se na mascote do liceu, passam a chamar-se Wolverines, sendo a sua missão proteger e resgatar a cidade dos invasores e reconquistar a sua liberdade.

Amor (2012)
Amour
O vencedor deste ano da Palma de Ouro no Festival de Cannes chega, por fim, aos cinemas portugueses. Amor, de Michael Haneke, conta a história de Georges e Anne, dois octogenários, cultos, professores de música reformados. A filha, igualmente música, vive no estrangeiro com a família. Certo dia, Anne é vítima de um acidente e o amor que une este casal será posto à prova.

Anna Karenina (2012)
Anna Karenina é a história de amor adaptada do clássico de Leo Tolstoy por Tom Stoppard. Desenrola-se na Rússia, no final do século XIX, no seio da alta-sociedade e explora a capacidade para amar, que surge através do coração humano, desde a paixão entre adúlteros, à ligação entre uma mãe e o seu filho. Quando Anna (interpretada por Keira Knightley) questiona a sua felicidade, grandes mudanças ocorrem na sua família, amigos e comunidade.

O Chef (2012)
Comme un chef
De França, chega esta semana O ChefJacky Bonnot tem 32 anos e é um amador da alta cozinha, com um talento inato e o sonho de sucesso num restaurante de topo. A sua situação financeira leva-o a aceitar pequenos trabalhos que tem dificuldade em manter, até ao dia em que se cruza com Alexandre Lagarde, um reputado chefe com várias estrelas, cuja confortável situação é colocada em risco pelo grupo financeiro proprietário dos seus restaurante.

Sininho - O Segredo das Fadas (2012)
Secret of the Wings
Esta semana, é Sininho que traz a animação para toda a família às salas de cinema. Juntamente com as suas amigas fadas, parte-se à descoberta do mundo proibido do Bosque de Inverno, onde a curiosidade e a aventura conduzem Sininho à descoberta de um segredo mágico que poderá mudar a sua vida para sempre.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

The Master, Amour e Passion no Lisbon & Estoril Film Festival


O Lisbon & Estoril Film Festival apresentou hoje, em conferência de imprensa, as novidades desta edição do evento, que terá lugar de 9 a 18 de Novembro, em Lisboa e Cascais. As antestreias de The Master, de Paul Thomas Anderson, Passion, de Brian de Palma, e Amour, de Michael Haneke, são algumas das surpresas do festival.


O internacionalmente aclamado The Master (O Mestre, em português) e Beasts of the Southern Wild (realizado por Benh Zeitlin) são os filmes de abertura deste Lisbon & Estoril Film Festival. A encerrar, Cloud Atlas, de Tom Tykwer, Andy Wachowski Lana Wachowski, e As Voltas da Vida, de Robert Lorenz, fazem as honras.


O actor Willem Dafoe e a actriz Fanny Ardant compõem o júri da selecção oficial, a que se juntam António Damásio, Hanna Damásio, Alfred Brendel e Sonia Wieder-Atherton. Dentro dos filmes em competição, Laurence Always, de Xavier DolanRengaine, de Rachid DjaïdaniLow Tide, de Roberto Minervini, ou Sueño y Silencio, de Jaime Rosales, são alguns dos títulos da secção.

Fora de competição, são muitos os filmes para fazer as delícias dos cinéfilos. Amour, de Haneke, e Passion, de Brian de Palma, destacam-se dos restantes nomes. Mas as atenções também se viram para Bella Addormentata, de Marco BellocchioHoly Motors, de Leos CaraxIo e te, de Bernardo BertolucciVous n’avez encore rien vu, de Alain Resnais, ou mesmo para o português Operação Outono, de Bruno de Almeida, entre outros.


Há ainda espaço para duas retrospectivas do trabalho de Brian de Palma e de Hou Hsiao-Hsien, e homenagens a Monte HellmanLucrecia Martel, aos portugueses João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata e ao crítico de cinema Serge Daney. Dentro da secção Cineastas Raros, destaque para Artavazd PeleshyanAdolpho Arrietta. Já na secção CinemArt há lugar para o escritor Enrique Vila-Matas, para o pianista Alfred Brendel, para o argumentista Hanif Kureishi e para o pintor Noronha da Costa.

O Lisbon & Estoril Film Festival não se fica por aqui e oferece ainda algumas sessões especiais, encontros, exposições, entre outras actividades. Para mais informação, consulta o site oficial do evento AQUI.