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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Os Melhores do Ano: Top 20 [20º-11º] #2017

2018 já começou mas estamos sempre a tempo de fazer o balanço do ano que terminou. Sobre 2017, o Hoje Vi(vi) um Filme apresenta, como de costume, o seu top 20 (sempre tendo em conta a estreias no circuito comercial de cinema em Portugal ao longo do ano) do que de melhor se fez no cinema.

Aqui ficam os meus eleitos, do 20º ao 11º lugares.

Baseado no livro homónimo de Stephen King, It, realizado por Andy Muschietti, vem relembrar a todos que a maior fraqueza do Homem são os seus medos. Um filme de terror como já se tinha saudades, com um aterrador palhaço como vilão. Muschietti consegue criar um ambiente onde o perigo espreita nas sarjetas e faz-se acompanhar por um balão vermelho, tornando pesado e aterrorizante o dia-a-dia dos protagonistas. As cores fortes e alegres do palhaço contrastam fortemente com o que ele simboliza. Olhos bem abertos e cuidado! É preciso aprender a distinguir o real da alucinação.

Ele Vem à Noite constrói-se em redor da desconfiança permanente em que vive a família protagonista. Perante um inimigo invisível - será algo sobrenatural, a doença ou os humanos? - o estado de alerta é total e a tranquilidade não faz parte do dicionário. Uma única porta dá acesso ao exterior e quem por ali entra deve ser escrutinado até à exaustão. A mínima mudança na rotina pode arruinar a vida da família, que acredita que o perigo espreita entre as árvores da floresta. Ele Vem à Noite pode ser encarado como um retrato psicossocial hiperbolizado (mas não muito) da sociedade ocidentalizada. O medo é o demónio que aterroriza aquela casa e os monstros são cada um dos Homens.

A Força está com Rian Johnson e com Star Wars: Os Últimos Jedi, um filme emotivo desde o início, ou não fosse o último de Carrie Fisher enquanto a eterna Princesa Leia. Por outro lado, neste novo capítulo da saga, Rian Johnson segue um caminho ligeiramente diferente do seu antecessor. Cria excelentes momentos de humor, a par de uma história com bons plot twists e dá profundidade psicológica às personagens, desde as principais às secundárias. São duas horas e meia que passam a voar na sala de cinema mesmo que este seja o capítulo mais longo da saga que, por coincidência, completa 40 anos este ano. É uma excelente forma de comemorar a data.

17. A Cidade Perdida de Z (The Lost City of Z), de James Gray, 2016
James Gray regressou com uma fabulosa história de exploradores. Entre as florestas tropicais, o rio Amazonas, as tribos de índios e os perigos que por ali espreitam, A Cidade Perdida de Z acompanha a jornada de sonhos, lendas e muita força de vontade do inglês Percy Fawcett, no início do século XX. A par das imagens, as interpretações de Charlie HunnamRobert Pattinson adicionam valor a um filme que passou mais despercebido do que merecia.

É neste enredo simples de descoberta da amizade e do amor que surgem temas mais sensíveis como a morte, pedofilia, alcoolismo, toxicodependência, etc. A abordagem é directa e inocente, aos olhos de uma criança, onde o bem e o mal já começam a estar definidos. Cada um dos pequenos órfãos convive à sua maneira com a solidão que sente, bem como a falta de amor paternal, manifestando-o das mais distintas formas, desde a timidez à agressividade. E assim se forma aquela família de órfãos, professores e tutores, onde a felicidade das crianças vem acima de tudo. Ali cultivam-se valores e constroem-se personalidades fortes.

Podia ser uma simples história de amores proibidos mas não é. Está muito longe disso. Há personagens e atitudes sinistras por toda a parte, rituais desconhecidos, todos agem de forma estranha, fazendo-nos temer por Chris, mas, ao mesmo tempo, tratando-o o melhor possível. O telemóvel e a curiosidade do protagonista são duas armas poderosas à medida que o filme avança e que os segredos começam a ser revelados. Foge é um alerta, irónico e sarcástico, mas, igualmente adulto e singular na sua forma e propósito. Uma excelente surpresa na estreia de Jordan Peele na realização. 

Ao longo de mais de duas horas, aceitamos o convite para conhecer este mundo alienado, onde as drogas conduzem a diversão e a adrenalina, e os jovens, quais zombies modernos, passam as noites, sem dormir, sem fraquejar - fraquejos só são admitidos nas coisas do coração. Em transe, seguimos o rumo da história, que, tal como os jovens, não o tem. Acompanhamos conversas ilógicas, tentativas de conquista, sempre ao som da insistente banda sonora, inseparável companheira de festa.

Moonlight é um filme de auto-descoberta, com um argumento que explora a toxicodependência, o bullying e a homossexualidade. O filme de Barry Jenkins apregoa a liberdade de ser escolher e sonhar, para que todos possam brilhar como o luar, sem preconceitos.


Comovente, romântico e sonhador são qualidades do mais recente filme do empenhado Damien Chazelle. Só mesmo o argumento apressado quebra ligeiramente a magia do musical moderno que homenageia os veteranos. No entanto, é fácil deixarmo-nos levar pelas danças, música, nostalgia e, principalmente, pelo casal protagonista: Ryan Gosling e Emma Stone. O La La Land inesquecível chegaria daqui a uns anos, na sua plenitude. 

11. A Criada (Ah-ga-ssi; The Handmaiden), de Park Chan-wook, 2016
Park Chan-wook é surpreendente, assim como a dupla de actrizes que protagonizam A Criada. Um filme subversivo, violento, erótico e provocador, dividido em três partes que nos dão a conhecer a história a partir de diferentes pontos de vista. Surpreendente, viciante e tecnicamente exemplar, como o realizador já nos tem habituado.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Sugestão da Semana #305

Chegamos à última Sugestão da Semana de 2017. Das estreias da passada Quinta-feira, a escolha do Hoje Vi(vi) um Filme vai para Ele Vem à Noite, o filme de mistério de Trey Edward Shults. A crítica pode ser lida aqui.

Feliz 2018! Que seja mais um ano de muito e bom Cinema.

ELE VEM À NOITE


Ficha Técnica:
Título Original: It Comes at Night
Realizador: Trey Edward Shults
Actores: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr., Riley Keough
Género: Mistério, Terror
Classificação: M/16
Duração: 91 minutos

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Estreias da Semana #305

Na última Quinta-feira de 2017, as salas de cinema recebem sete novos filmes. Ele Vem à Noite e O Grande Showman são duas das estreias.

A Promessa (2016)
The Promise
1914. Com a 1.ª Grande Guerra no horizonte, o poderoso Império Otomano está a ruir. Constantinopla, outrora uma capital vibrante e multicultural, encontra-se prestes a ser consumida pelo caos. Michael Boghosian (Oscar Isaac) chega à cidade como estudante de medicina decidido a levar práticas médicas modernas de volta a Siroun, a sua terra ancestral no Sul da Turquia, onde turcos muçulmanos e cristãos arménios têm vivido em comunhão há séculos. O fotojornalista americano Chris Myers (Christian Bale) veio cobrir os acontecimentos políticos. Em Constantinopla, Michael e Chris apaixonam-se por Ana (Charlotte le Bon), uma artista arménia, mas à medida que o Império se vira contra as suas minorias étnicas, a rivalidade romântica entre os dois homens é posta de parte quando se torna imperativo juntar forças para sobreviver.

Barbara (2017)
Brigitte irá interpretar num filme a icónica cantora Barbara. A actriz trabalha a personagem: a voz, as músicas e as canções, a imitação dos gestos, as falas. As coisas prosseguem. A personagem vai crescendo dentro dela. Começa mesmo a invadi-la. Yves, o realizador, também vai trabalhando – através de encontros, imagens de arquivo, da música. Parece inspirado por ela… Mas por quem? Pela actriz ou por Barbara?

Um casal vive com o filho adolescente num local remoto, numa casa segura e onde estão fortemente armados. Uma ameaça desconhecida aterroriza o mundo e a ténue ordem doméstica que o pai da família estabeleceu com a esposa e o filho é posta em causa com a chegada de uma família desesperada a pedir abrigo. Apesar das boas intenções de ambas as famílias, o pânico e a desconfiança intensificam-se, ao mesmo tempo que os horrores do mundo exterior parecem aproximar-se.

Há Quem as Prefira de Véu (2017)
Cherchez la Femme
Armand e Leila, alunos de uma prestigiada faculdade de ciências políticas parisiense, planeiam irem juntos para Nova Iorque fazer um estágio de final de curso nas Nações Unidas. Porém, Mahmoud, o irmão mais velho de Leila, regressado de uma temporada no Iémen onde se tornou fundamentalista, opõe-se à relação e decide afastar Armand. Para conseguir ver Leila, impedida de sair do apartamento da família, a Armand só resta  disfarçar-se de mulher cobrindo-se com uma burca. No dia seguinte, tocam à campainha em casa de Leila – à porta está uma Xerazade de rosto coberto, e Mahmoud não fica insensível aos seus encantos...

O Grande Showman (2017)
The Greatest Showman on Earth
Inspirado na vida do ambicioso e visionário P.T. Barnum, fundador dos que mais tarde se tornariam os famosos circos Ringling Bros. e Barnum & Baily Circus. A história de um homem que surgiu do nada para criar o maior espectáculo à face da terra num filme que se apresenta sob a forma de um musical ousado e original, uma celebração do nascimento do show business moderno.

Os Meninos Que Enganavam os Nazis (2017)
Un sac de billes
Na França ocupada, Maurice e Joseph, dois jovens irmãos judeus, demonstram uma incrível inteligência, coragem e engenho para escaparem à invasão inimiga e tentarem reunir-se com a família.

Suburbicon (2017)
Um crime inesperado ocorre na tranquila cidade familiar de Suburbicon, durante a década de 1950, onde o melhor e o pior da humanidade se reflecte de forma hilariante através das acções de pessoas aparentemente comuns. Tudo começa quando o assalto a uma casa provoca uma morte e uma família modelo se vira para a chantagem, a vingança e o assassinato...

domingo, 19 de novembro de 2017

Crítica: Ele Vem à Noite / It Comes at Night (2017)

"You can't trust anyone but family." 
Paul
*7.5/10*

Ele Vem à Noite joga com o medo do desconhecido que assombra, mais ou menos evidentemente, cada ser humano. Trey Edward Shults constrói um thriller cheio de tensão e suspense, onde o verdadeiro inimigo vem de fora de casa.

Um casal vive com o filho adolescente num local remoto, numa casa segura e onde estão fortemente armados. Uma ameaça desconhecida aterroriza o mundo e a ténue ordem doméstica que o pai da família estabeleceu com a esposa e o filho é posta em causa com a chegada de uma família desesperada a pedir abrigo. Apesar das boas intenções de ambas as famílias, o pânico e a desconfiança intensificam-se, ao mesmo tempo que os horrores do mundo exterior parecem aproximar-se.


Ele Vem à Noite constrói-se em redor da desconfiança permanente em que vive a família protagonista. Perante um inimigo invisível - será algo sobrenatural, a doença ou os humanos? - o estado de alerta é total e a tranquilidade não faz parte do dicionário. Uma única porta dá acesso ao exterior e quem por ali entra deve ser escrutinado até à exaustão. A mínima mudança na rotina pode arruinar a vida da família, que acredita que o perigo espreita entre as árvores da floresta.

Um dos pontos mais fortes do filme de Trey Edward Shults é a abordagem à psicologia das personagens, que faz o filme aproximar-se do género terror, produzindo, ao mesmo tempo, uma curiosa crítica social ao mundo actual. O homem transforma-se num monstro perante o desconhecido, com o medo a tomar conta de si. A fronteira é ténue entre pesadelos e realidade. Afinal, a desconfiança é uma doença e faz vir ao de cima o que de mais primitivo existe em cada um. Por outro lado, o cão da família é quem demonstra maior coragem, quebrando todos os protocolos criados pelo pai da família.


A par do silêncio incómodo que rodeia esta casa no meio da floresta, o trabalho da direcção de fotografia de Drew Daniels é excelente ao tirar partido da noite e da escuridão, e em muito contribui para aumentar o ambiente de isolamento e receios que enchem os espaços vazios.

No elenco, o grande destaque vai para Joel Edgerton, que tem consolidado o seu talento para as personagens mais diversificadas. Neste caso, é o cauteloso e desconfiado pai de família que tudo faz para manter os seus em segurança.


Ele Vem à Noite pode ser encarado como um retrato psicossocial hiperbolizado (mas não muito) da sociedade ocidentalizada. O medo é o demónio que aterroriza aquela casa e os monstros são cada um dos Homens.