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sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Entrevista: Stefano Savio, Director da Festa do Cinema Italiano

A Festa do Cinema Italiano começou no dia 4 de Novembro, em Lisboa, e continuará a percorrer o país nas próximas semanas. Num contexto tão especial como o que vivemos, quisemos saber como tem sido organizar um festival de cinema em plena pandemia e falar sobre alguns destaques desta 13.ª edição do evento. O director da Festa, Stefano Savio, respondeu às questões do Hoje Vi(vi) um Filme.

Stefano Savio
Foto: Vera Marmelo


Num ano tão incomum, que mais parece um filme de terror, como foi organizar a Festa do Cinema Italiano? Para além do adiamento forçado, quais os principais desafios que encontrou?

Stefano Savio: Realizar um festival de cinema nesta situação é claramente um desafio difícil. Há as dificuldades logísticas, como a impossibilidade de trabalharmos todos em conjunto no mesmo escritório, assim como a redução da programação, a potencialidade da própria programação, não termos a possibilidade de ter convidados estrangeiros, nem organizar eventos sociais, principalmente. Mais que a nível de organização, é uma perda a nível do conteúdo que o festival consegue dar. Mas, ao mesmo tempo, conseguimos proporcionar uma programação forte, por isso, quem gosta de cinema, quem gosta de cinema italiano, acho que, apesar da situação, tem uma programação interessante e forte.

Itália foi o primeiro país europeu a sofrer com a chegada da Covid-19. Todos acompanhámos com consternação o evoluir da situação italiana - e europeia no geral -, mas para si e para a equipa da Festa tudo terá sido vivido de uma forma muito mais próxima e emotiva. Como foi conciliar tantos sentimentos, ao mesmo tempo que se decidia o futuro da 13.ª edição do festival?

Stefano Savio: Sim, Itália foi um dos países na Europa a ser mais afectado pela pandemia. Num período inicial, havia muita insegurança. Parte da nossa equipa é composta por italianos, e também por muitos portugueses. A proximidade com o nosso país era forte, e a ideia de realizar um festival de cinema italiano naquela altura era também uma maneira de demonstrar que "ainda estamos vivos", no sentido de que era importante lembrar a Itália, ficarmos próximos da situação italiana, mostrando também cinema italiano em Portugal. Depois, infelizmente, a pandemia evoluiu e estendeu-se a toda a Europa e a todo o mundo. É um desafio que todo o mundo teve de enfrentar.

O facto de parte da programação da Festa estar também disponível online, na plataforma Filmin, é já de si uma forma de reinventar o festival face às restrições impostas pela pandemia?

Stefano Savio: Consideramos que a pandemia acelerou um processo que já estava a crescer, uma passagem, sempre mais forte, de uma fruição cinematográfica em sala a uma online. Nós estamos bastante abertos nesse sentido, e consideramos que o importante é alcançar quanto mais público possível, chegar a novos públicos, e por isso uma plataforma online é uma ferramenta muito interessante para nós. Continuamos a considerar que um festival ou a projecção de um filme ao vivo seja a melhor experiência possível, mas também as potencialidades destas novas plataformas são muito interessantes. Por exemplo, este ano organizamos um festival de cinema online no Brasil e alcançámos 200 mil espectadores. São números muito importantes, a que provavelmente fisicamente era difícil chegar. Por isso, sim, acho que apesar da pandemia, esse será o futuro também em próximas edições; criar festivais híbridos onde haja uma parte física e uma parte online será uma realidade, não só para nós.

A estreia de Pinocchio, de Matteo Garrone, na abertura da Festa será um dos momentos altos desta edição. O que pode o público esperar desta versão mais sombria do clássico?

Stefano Savio: Pinocchio, de Matteo Garrone, é um dos grandes filmes desta temporada italiana. Um filme que demonstra, mais uma vez, o talento visionário de Garrone, que consegue transformar as fantasias de Collodi de maneira visual, mantendo o imaginário do realizador, bastante sombrio, bastante gótico, mas, ao mesmo tempo, muito pictórico e fantasioso. Acho que é um Pinocchio com uma alma diferente daquilo que conhecemos através da versão da Disney, que foi a mais divulgada do mundo. É um Pinocchio original, mas pode ser uma descoberta para muito público.

A retrospectiva de Federico Fellini, por ocasião do centenário do cineasta, representa uma oportunidade de redescobrirmos a sua filmografia. Na sua opinião, de que modo a obra de Fellini ainda comunica com o espectador contemporâneo, assim como com o cinema actual?

Stefano Savio: A retrospectiva integral de Federico Fellini, organizada pela Cinemateca Portuguesa, é uma grande ocasião para todos os espectadores portugueses descobrirem ou voltarem a ver a obra de um dos realizadores mais seminais e influentes do cinema mundial. A capacidade de Federico Fellini tornar os seus sonhos, os seus desejos, as suas fantasias em película foi uma fonte de inspiração para muitos realizadores contemporâneos. Facilmente podemos ver inspirações dele nos filmes de Wes Anderson, David Lynch e muitos outros. Acho que é muito importante também o trabalho que estamos a fazer ao pôr em discussão, em conversa quase, um cinema clássico italiano, com novos cineastas contemporâneos. Era também essa a ideia do Amarcord, a secção retrospectiva da Festa do Cinema Italiano, que puxa sempre por este diálogo entre passado e presente.

O que mais gostava que esta retrospectiva alcançasse, ou revelasse de novo, sobre um cineasta aclamado de forma tão unânime?

Stefano Savio: A retrospectiva integral, onde se mostra os filmes mais conhecidos do Fellini, mas também as obras, como por exemplo os episódios que ele realizou em conjunto com outros realizadores italianos menos vistos, são uma grande possibilidade para ver qual foi a trajectória de Fellini dentro do cinema italiano. Fellini nasceu fundamentalmente logo a seguir àquilo que era o neorrealismo, mas rapidamente se demarcou, criou uma linguagem completamente autónoma. É interessante ver como, ao longo dos anos, a sua linguagem, o seu estilo, as suas temáticas evoluíram, tornaram-se ainda mais complexas, mas mantendo sempre um traço de fundo, uma capacidade única de Federico Fellini concretizar em imagem - imagens que depois se tornam universais -, o que era um subconsciente, uma fantasia, um desejo que o próprio realizador tinha.

A Festa do Cinema Italiano vai percorrer diversas cidades nacionais, sendo uma oportunidade para o público poder, por alguns momentos, esquecer a pandemia e desfrutar de bom cinema, em segurança. Quais os motivos que daria aos espectadores mais receosos para que venham à Festa do Cinema Italiano?

Stefano Savio: Neste momento, uma sala de cinema é um sítio bastante seguro, apesar das indicações de que eventos públicos não são aconselhados. A verdade é que, e dou o exemplo da Itália - onde infelizmente as salas já fecharam - , em quase 200 mil sessões de cinema feitas desde Maio até agora houve só um caso de infecção por Covid-19. O que se pode dizer é que todas as salas onde a Festa do Cinema Italiano decorre respeitam integralmente as condições de segurança e de distanciamento obrigatório, por isso, ir à Festa do Cinema Italiano é ir ao Cinema em segurança. 
Realizamos este evento, não numa altura perfeita, não numa altura em que gostaríamos de realizar eventos como o nosso, mas porque é importante que o público possa voltar a encontrar uma normalidade dentro de uma situação tão específica e peculiar como esta. Ir ao cinema, distrair-se por algumas horas, frequentar um evento cultural é uma maneira de tentar voltar a uma normalidade diferente, mas que deve ser a normalidade. Além disso, é muito importante para nós, como elementos do sector audiovisual, fazer o nosso esforço pelas salas de cinema, pelos distribuidores, por tudo isto, para puxar o maior número de pessoas possível de volta às salas neste momento. Consideramos a Festa como uma tentativa de ajudar todo o sistema a voltar lentamente a uma normalidade. 
Quem não pode ou ainda não se sente seguro para ir ao cinema, pode ver mais de metade da nossa programação no Filmin, onde este ano está também disponível. Por isso, cada um faz a sua escolha.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Festa do Cinema Italiano'20 anuncia programação completa

A Festa do Cinema Italiano anunciou a programação completa da sua 13.ª edição, que começa em Lisboa de 4 a 12 de Novembro, seguindo depois para outras cidades portuguesas. 

Em Lisboa, o festival realiza-se no Cinema São Jorge (sessões de abertura e de encerramento), no UCI El Corte Inglés, e na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, onde são exibidos os filmes da retrospetiva dedicada a Federico Fellini ao longo de todo o mês de Novembro.

A abrir a Festa estará o já anunciado Pinocchio (Pinóquio), de Matteo Garrone, com Roberto Benigni, no dia 4 de Novembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa. A encerrar estará Gli anni più belli (Às Coisas que nos Fazem Felizes), de Gabriele Muccino, com Pierfrancesco Favino, Kim Rossi Stuart, Micaela Ramazzotti e Claudio Santamaria, no dia 12 de Novembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa, e no Cinema Trindade, no Porto.

Em destaque na Festa do Cinema Italiano 2020 estão títulos como L'uomo del labirinto  (No Centro do Labirinto), de Donato Carrisi, com Toni Servillo e Dustin Hoffman; Figli (Manual de Sobrevivência para Pais), de Giuseppe Bonito; Favolacce, de Fábio e Damiano D’Innocenzo; e Un Figlio di Nome Erasmus, de Alberto Ferrari, uma comédia filmada inteiramente em Portugal, protagonizada pela jovem actriz Filipa Pinto, que estará presente na sessão.

Em parceria com a Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, será assinalado o centenário do nascimento de Federico Fellini com a retrospectiva integral Tutto Fellini, exibindo desde os clássicos às obras inéditas, como programas de televisão, e ainda o filme de Wes Anderson dedicado ao realizador italiano, Fantastic Mr. Fellini. Convidado de honra desta retrospetiva será o jornalista, realizador e assistente de Fellini, Gianfranco Angelucci.

Ainda de referir são as Sessões Especiais da Festa: A Grande Arte no Cinema, o ciclo de filmes sobre a arte italiana e mundial vem integrar o festival através de um conjunto de títulos sobre a vida de artistas como PalladioBernini e Leonardo Da Vinci; no Cinemas Nimas será exibido o filme Il peccato – Il furore di Michelangelo, de Andrei Konchalovsky, um retrato do artista e a sua relação com o trabalho; e o documentário Paolo Conte, via con me, de Giorgio Verdelli, sobre o compositor italiano.

Festa do Cinema Italiano conta também com uma parte da programação disponível online, em colaboração com a plataforma Filmin.pt, onde será possível ver alguns dos filmes presentes no evento físico e  alguns títulos inéditos que irão completar e dialogar com a programação do festival.

Confirmada está já a passagem da festa por Cascais (5-8 Novembro, O Cinema da Villa), Porto (5-12 Novembro, Cinema Trindade), Setúbal (5-8 Novembro, Cinema Charlot), Alverca do Ribatejo (6-7 Novembro, Teatro-Estúdio Ildefonso Valério), Penafiel (7-8 Novembro, Cinemax), Aveiro (10 e 12 Novembro, Teatro Aveirense), Coimbra (10-12 Novembro, TAGV), Beja (10-12 Novembro, Pax Julia Auditório Municipal), Caldas da Rainha (11-13 Novembro, CCC),  Loulé (13-15 Novembro, Auditório do Solar da Música Nova), Viseu (17-20 Novembro, Auditório IPDJ), Tomar (17-21 Novembro, Auditório Biblioteca Municipal Dr. António Cartaxo da Fonseca),  Almada (25-29 Novembro, Auditório Fernando Lopes-Graça), Ponta Delgada (27-29 Novembro, Teatro Micaelense) e ainda outras a anunciar em breve.

Mais informações sobre o festival podem ser consultadas no site www.festadocinemaitaliano.com e na página de Facebook (facebook.com/festadocinemaitaliano).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

13.ª Festa do Cinema Italiano abre com Pinocchio

Pinocchio, de Matteo Garrone, é o Filme de Abertura da 13.ª Festa do Cinema Italiano.


A sessão de abertura acontece no dia 1 de Abril, às 21h30, no Cinema São Jorge, em Lisboa, e conta com a presença do jovem actor Federico Ielapi, de 10 anos, que interpreta Pinocchio.

O filme conta a história do mais famoso boneco de madeira que deseja ser um menino de verdade e é realizado por Matteo Garrone (Gomorra, Dogman, O Conto dos Contos), a partir do clássico da literatura infantil, mantendo o tom sombrio do livro As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi. No elenco, além de Federico Ielapi, encontramos Roberto Benigni, Davide Marotta, Gigi Proietti, Massimo Ceccherini e Rocco Papaleo.

A Festa do Cinema Italiano realiza-se de 1 a 9 de Abril, em Lisboa (Cinema São Jorge, UCI El Corte Inglés, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema), de 1 a 9 de Abril, em Porto (Cinema Trindade) de 1 a 5 de Abril, em Almada (Auditório Fernando Lopes Graça), de 1 a 5 de Abril em Cascais (Cinema da Villa), de 2 a 5 de Abril, em Setúbal (Auditório Charlot), 4 e 5 de Abril, em Penafiel (Cinemax) de 14 a 16 de Abril, em Coimbra (TAGV – Teatro Académico Gil Vicente), de 14 a 17 de Abril, em Viseu (Cineclube de Viseu), de 12 a 16 de Maio, em Tomar (Cine- Teatro Paraíso), de 20 a 22 de Maio, nas Caldas da Rainha (CCC – Centro Cultural de Congressos), de 21 a 24 de Maio, em Loulé (Cine-Teatro Louletano), e em outras cidades portuguesas anunciadas brevemente.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Sugestão da Semana #357

Das estreias da passada Quinta-feira, a última Sugestão da Semana de 2018 destaca Dogman, de Matteo Garrone. A crítica do Hoje Vi(vi) um Filme pode ser lida aqui.

DOGMAN


Ficha Técnica:
Título Original: Dogman
Realizador: Matteo Garrone
Actores: Marcello Fonte, Edoardo Pesce, Nunzia Schiano, Adamo Dionisi, Francesco Acquaroli, Alida Baldari Calabria, Gianluca Gobbi, Laura Pizzirani
Género: Crima, Drama, Thriller
Classificação: M/14
Duração: 103 minutos

domingo, 30 de dezembro de 2018

Crítica: Dogman (2018)

*8/10*


Matteo Garrone regressa ao âmago da sua Itália, com uma história violenta, que não deixa de ser um reflexo de um país decadente. Dogman é uma espécie de western dos tempos modernos.

Numa zona degradada nos subúrbios de uma grande metrópole, Marcello (Marcello Fonte) é um homem pequeno e gentil de quem todos gostam, que divide os seus dias entre o trabalho no seu salão de beleza para cães, o amor pela sua filha, futebol com os amigos, e uma estranha relação de submissão com Simone (Edoardo Pesce), um ex-boxeur que aterroriza o bairro. Depois de alguns momentos difíceis e humilhantes, Marcello parece determinado em recuperar a sua dignidade.


Matteo Garrone insere-nos em Villagio Coppola (zona degradada perto de Nápoles onde já filmou anteriormente), um local sem tempo e quase sem lei, num cenário de western, que quase não parece real. Entre o abandonado e o decadente, o local proporciona planos tão fortes e belos que não nos cansamos de olhar.

O homem franzino e inocente, que trata de cães na sua petshop, e trafica droga nas horas vagas, é o protagonista ideal para Dogman, que se cria num misto de bondade e marginalidade. O seu coração ama a filha e os animais, com uma pureza quase pueril. Todos os que o rodeiam adoram-no. Por outro lado, o seu lado mais obscuro esconde um masoquismo quase inexplicável e é aí que surge Simone, o delinquente lá do bairro, um bully incorrigível que explora Marcello de todas as formas. Mas Marcello continua a admirá-lo e a defendê-lo, contra todas as expectativas.


Há uma certa comicidade na personagem de Marcello, a sua estatura, o seu ganha-pão, o seu jeito atarracado e sempre alegre, a sua submissão. Será que estamos a ser, também nós, bullies ao sorrirmos da desgraçada vida do protagonista? Mas da leveza de alguns momentos, depressa Garrone nos conduz para uma zona alucinatória, onde sonho e pesadelo se fundem numa realidade inesperada e quase fantasiosa. Marcello chega ao limite após uma sucessiva degradação, física e psicológica.

Há no protagonista uma dedicação a Simone semelhante à que tem aos cães (que trata carinhosamente por "amor"), só que o Homem não é fácil de domesticar. A violência parece ser o último recurso para Marcello, quase tão fiel como os cães de que cuida.

A história de Dogman é inspirada num caso real no final dos anos 80, mas Marcello não é Pietro De Negri. O protagonista de Dogman é construído como personagem de histórias fantásticas, entre a bondade, o desejo de justiça e a vontade de ser reconhecido pelo que é. Marcello Fonte é admirável neste papel, frágil e dócil, tranquilo e sensível. Há momentos de pura ternura que protagoniza quer com a filha, quer com os cães.


No fim de contas, Garrone traz até nós uma história dura e fantástica, que se alimenta de diversas referências da História do Cinema, numa construção que denuncia a decadência do país, de pessoas e lugares. Um alerta, violento e cheio de paixão pela arte.