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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Opinião - Séries: The Young Pope (2016)

"There's only one thing I can do for you: Forgive you. Forgive you always." 
Lenny Belardo


*8/10*

Agora, que se fala com alguma regularidade sobre a segunda temporada de The Young Pope, é a melhor altura para recordar a série, iniciada em 2016, com Jude Law como protagonista.

Não pensei gostar tanto de uma série sobre o Vaticano e a Igreja, mas Paolo Sorrentino e Jude Law formaram a dupla certeira para me conquistar. O sarcasmo presente do primeiro ao último episódio, o cinismo, a crítica obrigatória, mas igualmente a abordagem séria dos milagres da compreensão e da iluminação, do autoconhecimento. Eis que surge The Young Pope. Assumo-o muito mais como uma tentativa de compreensão dos meandros do Vaticano, mais do que uma afronta à religião.


O mote é o início do pontificado de Lenny Belardo, agora Papa Pio XIII, o primeiro papa americano da História. Jovem, bonito, controverso, retrógrado. Toda a esperança que poderia advir de um novo Papa, desvanece-se rapidamente. Ele é vaidoso, descrente, arrogante e, ao mesmo tempo, guarda uma mágoa difícil de superar. Ao seu lado, uma freira - quase uma mãe -, a Irmã Mary, que o conhece melhor que ninguém, sabe os seus segredos e fraquezas, aconselha-o mas ainda consegue surpreender-se.

A série cativa-nos aos poucos, mas ao chegar-se a meio será impossível resistir a ver até ao último episódio. Quanto mais perto do fim, mais intenso, mais extasiante.


Paolo Sorrentino deixa a sua marca em cada plano, levando-nos por vezes para as festas loucas de A Grande Beleza (2013), para os excessos e ostentação. Jude Law dá tudo o que a personagem quer, e tanto o vamos adorar como odiar. Tanto o vamos admirar como desprezar. Ele não se coíbe de nada, muito menos de usar todos os poderes que cabem ao Chefe da Igreja. Ao seu lado, Diane Keaton é a figura maternal, uma freira cheia de poder entre os cardeais, uma mulher destemida e com um enorme carinho pelo Papa. Também de destacar são as interpretações de Silvio Orlando (que participa em situações hilariantes), Javier Cámara (com os momentos mais emotivos) e James Cromwell (na pele do ambicioso mentor de Lenny)

Convido-vos, sem mais revelar, a entrar nesta inesperada visita ao Vaticano e ao pontificado mais surreal e desafiante para clérigos e cristãos... Seja o que Pio XIII quiser...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Crítica: Os Amantes Passageiros / Los Amantes Pasajeros (2013)

*7/10*

Pedro Almodóvar regressa aos tempos animados de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos com o seu mais recente trabalho, Os Amantes Passageiros. Cor, dança e estereótipos não faltam no novo filme do realizador espanhol, onde nem a crítica social deixa de marcar presença.

O cenário dos acontecimentos é um avião, que se depara com um problema em um dos trens de aterragem e, enquanto não há solução à vista, o céu é a única possibilidade para os caricatos passageiros e tripulação. Todos ficam alterados pois começam a acreditar que estão a viver as últimas horas de vida. O desespero geral força-os a fazer confissões inesperadas sobre os seus pecados e sobre as suas últimas vontades.

Desde os primeiros momentos - onde Penélope Cruz e Antonio Banderas fazem as nossas delícias por uns minutos -, sabemos que vamos divertir-nos com este voo repleto de figuras hilariantes. Para além de uma espécie de nonsense que paira ao longo da acção, há muito sarcasmo por detrás das personagens e acontecimentos. Desde a virgem com poderes premonitórios, aos comissários de bordo homossexuais, ao actor quebra-corações, etc., certo é que muitos nos remetem para as suas próprias histórias paralelas, onde o sentimentalismo aparente não passa de ironia e crítica social. 


Desde a referência ao rei de Espanha e suas supostas amantes, aos passageiros da classe económica que foram "adormecidos" para não se darem conta dos problemas que acontecem durante o voo, muitas são as temáticas sérias subtilmente encaixadas num argumento que aparenta ser somente leve e divertido. E nem as redes sociais escapam à ironia de Pedro Almodóvar, com o twitter a entrar em cena bem cedo.

O álcool e as drogas contribuem para a animação que sobrevoa Espanha, onde não falta sequer música e dança, proporcionadas pelos três comissários de bordo. Todas as personagens cativam o espectador, pelas suas particularidades e pelas boas prestações por parte do elenco, onde se destaca Joserra, o comissário  de bordo que não consegue mentir, interpretado por Javier Cámara, Norma Boss (Cecilia Roth), dona de uma empresa de prostituição de luxo, e Bruna, a virgem vidente, com um desempenho muito divertido de Lola Dueñas.

Leve, mas muito menos do que aparenta, Os Amantes Passageiros marca o regresso de Almodóvar às comédias - depois do registo pesado de A Pele Onde Eu Vivo -, mas provando que o cinema precisa de muito mais do que gargalhadas. Um filme que vai, certamente, dizer mais aos espanhóis, já que se debruça sobre a sua realidade, mas que será impossível passar despercebido ao resto do mundo. Para ver de mente aberta, com sentido de humor, mas também com atenção aos pormenores, desde o primeiro minuto.