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domingo, 12 de dezembro de 2021

Crítica: Spencer (2021)

"Three days. That's it."

Diana

*6.5/10*

Spencer chega com travo agridoce: se, por um lado, há uma reimaginação da Princesa Diana, num universo visual extraordinário, por outro, as liberdades criativas são tantas que a protagonista pouco lembra a Princesa do Povo.

Pablo Larraín deixou para trás o estilo que o catapultou com Tony ManeroPost mortem e No, e parece agora obstinado em criar retratos de mulheres do século 20 marcadas pela tragédia. Assim foi com Jackie - e os dias que se seguiram ao assassinato de J. F. Kennedy -, e é agora com Spencer - e os poucos dias de reunião natalícia da Coroa britânica, na qual cada vez menos se integrava.

"O casamento da Princesa Diana e do Príncipe Carlos há muito se transformou numa relação gélida. Entre abundantes rumores de casos extraconjugais e divórcio, a paz é encomendada para celebrar as festividades de Natal na propriedade real de Sandringham House. Há comida e bebida, tiro ao alvo e caça. Diana conhece o jogo. Mas desta vez, as coisas vão ser muito diferentes."


Spencer não é um filme biográfico. É uma reconstrução da figura da princesa. É mera especulação do que aconteceu ao longo daqueles dias, no Natal de 1991, vividos por uma Diana imaginada por realizador e argumentista. E o maior problema da longa-metragem é mesmo a ficção ultrapassar a realidade em demasia, como se a protagonista fosse apenas alguém com meras semelhanças a Diana. Os momentos de interacção com os filhos são os únicos em que realmente reconhecemos a Princesa do Povo, não obstante o desempenho de Kristen Stewart, que captou todos os maneirismos de Diana, para além das óbvia parecenças físicas.

A introspecção inicial, que demarca apenas o egoísmo da personagem e a antipatia que a Coroa teria por ela, sufoca filme e personagens até à libertação, numa explosão de emoções reprimidas, já para lá da metade da longa-metragem. A partir daí há uma nova garra, na personagem e narrativa, que derruba parte dos muros criados até então.


Visualmente, Spencer é deslumbrante. Filmado em 16mm, o grão na imagem, as cores esbatidas, e a direcção de fotografia de Claire Mathon, capaz de planos tão tranquilizadores como atordoantes, levam-nos para essa ideia de "fábula de uma tragédia real" anunciada logo no início do filme.

Pablo Larraín quis filmar o retrato de uma mulher em enorme sofrimento e agonia e cria um lado fantasmagórico - potenciado ainda mais por uma banda sonora genial de Jonny Greenwood -, como que a assombrar a protagonista. Diana perde-se em recordações, sonhos, pesadelos e alucinações, desafios à morte e à família real, provocações e provações. Há desamparo, revolta e claustrofobia, entre cortinas fechadas, arame farpado e muita vontade de fugir.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Crítica: O Poder do Cão / The Power of the Dog (2021)

"I just want to say... how nice it is not to be alone."
George Burbank


*8.5/10*

Jane Campion regressa às longas-metragens, mais de 10 anos depois, com O Poder do Cão (The Power of the Dog), uma obra que, na aparente simplicidade de um western, cria um turbilhão de tensões e desejos reprimidos.

Desde Bright Star - Estrela Cintilante (2009), que a cineasta estava afastada do grande ecrã - escreveu e realizou a série televisiva Margens Do Paraíso, entretanto - e o regresso não poderia ser mais celebrado. 

O Poder do Cão adapta o romance homónimo de Thomas Savage. O carismático rancheiro Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) inspira medo e admiração naqueles que o rodeiam. Quando o irmão George (Jesse Plemons) traz a nova esposa, Rose (Kirsten Dunst), e Peter (Kodi Smit-McPhee), o filho desta, para viver na casa da família, Phil fará tudo para atormentá-los, até se aperceber de que também ele pode estar exposto à possibilidade do amor.


O Poder do Cão está repleto de personagens perturbadas, de passado misterioso e sentimentos reprimidos. O isolamento a que estão sujeitos, ao viver num rancho solitário junto às montanhas, nos anos 20 do século XX, só adensa os maus modos de Phil e o desespero e solidão de Rose - que encontra no álcool, a par do filho, um dos melhores aliados.

Para além das vacas e de homens a cavalo (ou dos índios que aqui surgem em paz, longe de ser uma ameaça), há pouco de western no filme de Jane Campion. Em jogo estão relações interpessoais, que vão do amor à humilhação, da provocação à cumplicidade. Em redor da narrativa, está ainda aquilo que a sociedade espera de cada um, segundo as convenções da época; já quem vive fora da norma, o outsider naquele local, pode ser facilmente a vítima - ou o predador.

Sempre exímio no que faz, Benedict Cumberbatch é Phil, um homem cruel e intransigente como forma de esconder os sentimentos recalcados que guarda. Vê Rose como uma ameaça - uma mulher entre homens -, que tanto o receia como o desafia. E a chegada de Peter cria um desafio ainda maior, o jovem que ele quer domar à sua medida, a quem rebaixa, mas com quem também se identifica.


Kirsten Dunst sofre e desespera como Rose, a jovem viúva que vê em George a esperança de uma vida feliz, arruinada por Phil. Protectora do filho, que sabe não se enquadrar com as expectativas da sociedade, compreende-o e apoia-o. Já Peter, surge inicialmente como um rapaz frágil e constantemente humilhado, mas revela, aos poucos, uma insensibilidade chocante e muito mais forte do que aparenta. Uma prestação perturbadora de Kodi Smit-McPhee, cuja compleição física e o olhar inquiridor muito contribuem para o lado dúbio da personagem.

Os grandes planos das planícies desertas e as montanhas áridas são potenciados pelo trabalho de Ari Wegner na direcção de fotografia. Ao mesmo tempo, capta exemplarmente a intimidade do toque sensual em objectos, como se fossem humanos; o descarregar do ódio de Phil nos animais ou humanos mais fracos, ou a delicadeza das mãos de Peter, capaz de trabalhar os detalhes mais inesperados. Esta fusão entre violência e subtileza das imagens e da narrativa é acompanhados pela poderosa banda sonora de Jonny Greenwood.


O Poder do Cão está repleto de subtexto, desconstruções subliminares e uma sexualidade latente, com muito para absorver para além da visualização do filme. Excelente regresso de Jane Campion.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Crítica: Linha Fantasma / Phantom Thread (2017)

"Whatever you do, do it carefully." 
Alma


*9/10*

Paul Thomas Anderson regressa esplendoroso e inspirado, tal como Daniel Day-Lewis, naquele que diz ser o seu último papel. Linha Fantasma absorve o perfeccionismo de um artista que vive apenas para a sua criação. Quando o amor chega, os dois lutam por espaço na sua vida.

O perfeccionismo do criador revê-se também no trabalho de toda a equipa de Linha Fantasma, num assombro de talento. A par disso, é criada uma aura sobrenatural que surge de forma subtil e muito realista, onde a forma de encarar a morte ganha um papel de destaque.


Na  Londres  do  pós-guerra,  o famoso costureiro  Reynolds  Woodcock  (Daniel  Day-Lewis)  e  a  irmã  Cyril  (Lesley Manville) estão no centro da moda Britânica, vestindo realeza, estrelas de cinema, herdeiras, socialites e damas com o distinto estilo d’A Casa de Woodcock. As mulheres entram e saem da vida de Reynolds, providenciando-lhe inspiração e companhia, até que ele se cruza com uma  jovem  e  perseverante  mulher,  Alma  (Vicky  Krieps),  que  rapidamente  se  torna  uma fixação na sua vida, como musa e amante. Antes controlada e planeada, ele vê agora a sua vida despedaçada pelo amor.

O génio admirado, por vezes intratável, arrogante e obcecado com o seu trabalho, também se apaixona, mas não é qualquer mulher que o irá suportar. Só mesmo Alma, a sua musa. Essa mulher especial, forte, provocadora, sem receios, nem rodeios. Escrúpulos ainda lhe restam alguns e parecem ser os suficientes para que a poção de amor resulte.


Linha Fantasma deve ser visto e sentido, quer pela história de paixão desenhada e cosida à mão, pela beleza dos vestidos, pela delicadeza dos planos de câmara, dos actores, da fotografia, do som e, principalmente, por ter sido filmado em película.

Daniel Day-Lewis é metódico, elegante, encarna o estilista como se estivesse a fazer de si mesmo. Cada papel, cada novo Day-Lewis, ele que é um dos melhor actores da sua geração. Rígido mas frágil, apaixonado mas igualmente enlouquecido quando as emoções fogem ao seu controlo, é um homem aparentemente decidido mas que depende em demasia da irmã e de outras mulheres que compõem a sua vida. Ele esconde segredos nas bainhas, segredos que prefere partilhar com as roupas que desenha, mais do que com as pessoas que o rodeiam. Lesley Manville e Vicky Krieps acompanham-no e dão-lhe regras e vida, respectivamente. Ambas com interpretações à altura do protagonista, Manville é magnética na pele de Cyril, a irmã omnipresente e controladora. Vicky Krieps oferece um misto de fragilidade e rebeldia a Alma, que a torna especialmente misteriosa.


Paul Thomas Anderson pinta um quadro em movimento através da sua câmara, sendo realizador e director de fotografia do seu filme. Ele joga com a iluminação, com o rodopiar das modelos nos vestidos de Reynolds, potencia as suas cores suaves, os tons pastel, as peles pálidas, em contraste com a decoração em redor. O trabalho de som tem um papel especialmente relevante em Linha Fantasma, nos momentos em que até barrar manteiga numa tosta causa um ruído impossível de aguentar para o protagonista. Vemo-nos a sentir os ruídos da mesma forma: tudo é demasiado barulhento e perturbador quando se precisa de foco. A banda sonora de Jonny Greenwood acompanha a narrativa na perfeição.


Paul Thomas Anderson presenteia-nos com um dos melhores filmes da sua carreira. Day-Lewis hipnotiza-nos e ensina-nos que só quando está de caras com a morte é que o Homem vive.