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domingo, 22 de janeiro de 2023

Sugestão da Semana #544

Das estreias da passada Quinta-feira, a Sugestão da Semana destaca Guerra, de José Oliveira e Marta Ramos. A longa-metragem tem crítica no Hoje Vi(vi) um Filme.

GUERRA


Ficha Técnica:
Título Original: Guerra
Realizadores: José Oliveira e Marta Ramos
Elenco: Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, José Lopes, Susana Sá
Género: Drama
Classificação: M/14
Duração: 105 minutos

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Doclisboa'20: Guerra (2020), de José Oliveira e Marta Ramos

*7/10*

José Oliveira e Marta Ramos apresentaram Guerra no Doclisboa'20, um filme que toca num dos temas ainda tabu na sociedade portuguesa. No cinema, nos últimos anos, começam a ver-se algumas abordagens relacionadas com os traumas que a Guerra Colonial deixou, tanto do lado dos ex-combatentes, como dos povos das ex-colónias. Este filme mostra-nos um protagonista em constante desassossego, atormentado pelos fantasmas do passado.

"A partir da rememoração de um professor de língua portuguesa na actualidade, vamos seguir Manuel, o seu pai, ex-combatente da guerra colonial, constantemente atormentado por essas lembranças. Iremos com ele até ao fundo dos lugares físicos que o obcecam – dos quartéis da formação até aos lagos e jardins da sua juventude e enamoramento – bem como ao abismo da sua memória – a guerra e a paixão juntas, indestrinçáveis, numa batalha que pergunta ou grita as imemoriais dúvidas existenciais."

Guerra é a história de Manuel, mas poderia ser a de qualquer um dos seus camaradas com quem se reúne, ou de tantos ex-combatentes "reais" que sofrem com o que viram e fizeram ao longo dos anos que passaram na guerra colonial. O filme começa por mostrar-nos um álbum de fotografias dos tempos da guerra colonial, com a descrição das mesmas narrada por uma criança, a partir de um diário de 1965/1966.

José Oliveira e Marta Ramos tiveram a coragem de fazer um filme realista (com o seu quê de documental), que mostra o dia-a-dia de um homem traumatizado, em constante sofrimento interior. Junto dos amigos mostra-se mais descontraído, provavelmente porque todos experienciaram os mesmos horrores em África. Junto da mulher e do filho, Manuel oscila entre as recordações de uma juventude feliz - mas parcialmente roubada pelas marcas que a guerra deixou - , e alguma perda de lucidez nas conversas ou nas noites de pesadelos insuportáveis.

Corpo e mente vagueiam por Lisboa e pela Margem Sul, entre idas à psicóloga, encontros imediatos com fantasmas por enterrar ou delírios de regresso ao campo de batalha. José Lopes confere ao protagonista a dignidade e credibilidade que merece, com uma interpretação brilhante - e que marca ainda mais pelas saudades que deixa.

Guerra é sobre a herança deixada pela guerra colonial nos homens que a combateram e nas suas famílias, sobre traumas impossíveis de ultrapassar. Os realizadores trazem para o debate um confronto que tem de acontecer entre Portugal e o seu passado colonial.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Crítica: Os Conselhos da Noite (2019)

"Vou para Braga. Vou para casa."
Roberto


*5.5/10*

Em Os Conselhos da Noite, o realizador José Oliveira leva-nos numa viagem introspectiva pela cidade de Braga, num postal turístico ligeiramente sombrio, com a noite como melhor companheira.

Roberto (Tiago Aldeia), jornalista retirado e desiludido com o seu passado, acaba de largar o trabalho no campo numa quinta alentejana, onde se recolheu nos últimos anos, longe dos grandes centros urbanos com que sonhou na juventude. Braga, a sua cidade natal e onde não vai há mais de uma década, vai servir de esconderijo que ele pensa derradeiro, também devido à sua convulsa saúde. Mas, repentinamente, uma potente energia vai rasgar essa terra que julgava parada no tempo.

Apesar do desânimo ser quase uma constante, há momentos espirituosos, sejam eles proporcionados pelas conversas entre Roberto e Vicente, a personagem de Adolfo Luxúria Canibal, - que são, sem dúvida, os melhores momentos da longa-metragem, cativando a atenção da plateia - ou pela música do dono do café que se torna amigo do protagonista. Os sotaques carregados, tão castiços e pouco comuns no cinema português, são mais um ponto que distingue Os Conselhos da Noite dos seus pares.


Tiago Aldeia encarna um protagonista tomado pela depressão e pela desilusão, que procura, constantemente, um novo rumo e pensa encontrá-lo na sua cidade natal, Braga. O jornalista desencantado, que receia as palavras que agora lhe saem da caneta, redescobre os recantos da sua terra, na procura incessante pelo futuro ou pela esperança, e no medo da doença de que padece - que nos é sugerida no início da longa-metragem. As recordações, os reencontros e as redescobertas parecem transformá-lo, aos poucos. Aldeia tem aqui um papel desafiante, que encarna com entrega e maturidade.

Os Conselhos da Noite não é memorável, mas apresenta-nos Braga e os seus encantos, a ilustrar o desencanto da vida de Roberto. José Oliveira faz um elogio à cidade, que convida a descobrir.